Viver é inevitável…

            Os dias vêm e vão. Transformam-se em semanas, meses, anos e décadas. Esse avanço irrefreável do tempo, impõe a todos, incontáveis barreiras que imprimem novos caminhos, escolhas e consequências, a uma velocidade difícil de alcançar. Por vezes, diante da impossibilidade de vencer o tempo, criamos moldes imprecisos que nos permitem algum encaixe, mesmo que isso provoque algum desconforto. Mas, apesar desses subterfúgios, é difícil burlar a vida por muito tempo e, em algum momento, ela irá nos mostrar que viver é inevitável.

                  Esse caminhar acelerado do tempo, estabelece diferentes formas de interação com o mundo. Alguns preferem viver sem colete de proteção, como se o amanhã não fosse chegar, enquanto outros pisam do freio e apertam seus cintos, na esperança de conseguir controlar o que não tem controle. E, há aqueles que tentam o caminho do meio entre o exagero ansioso e a austeridade segura. Mas, no fundo, pouco importa a forma escolhida, uma vez que a vida não faz consultas prévias. Se estamos acima deste solo e debaixo deste céu, é preciso aceitar que viver é mandatório.

                Tem gente que nasce, cresce, gera descendentes, envelhece e morre, sem, jamais, se dar conta se, isso era, ou não, viver. Completar o ciclo da vida com sucesso, não traz nenhuma garantia de uma vida, de fato, bem vivida. Em muitos momentos, ligamos o piloto automático que a tudo controla. Ele nos acorda, leva ao trabalho, paga as nossas contas, permite alguns momentos burocráticos de lazer, nos põe para dormir e traz a certeza de que, no dia seguinte, tudo será, exatamente, como no dia anterior. Isso é viver?

            A forma como decidimos levar a vida está, em grande medida, baseada nos hábitos que criamos. Hábitos que ora indicam os extremos, ora sinalizam o caminho do meio. Mas, independente disso, é preciso ir além dos meus ou dos seus hábitos. Eles são apenas reflexos da forma como enxergamos a vida e, cada um de nós a vê sob uma perspectiva. Afinal, a vida não é uma pintura onde todos conseguem enxergar a mesma paisagem. Nascemos com horizontes pré-programados diante de nós. Amplia-los é uma questão de escolha, de luta e de oportunidades.

           Perceber que viver é inevitável, já é um bom ponto de partida para uma mudança. É o que nos faz enxergar para além dos hábitos, das convenções e da opinião alheia. Ter noção da importância da vida, não pode ser algo que se tem, apenas quando nos deparamos com a maior de todas as nossas certezas. Tentar dar valorizar a vida diante de seu obrigatório fim, é, de longe, o nosso maior engano.

           Todos nós conheceremos o fim disso que chamamos de vida, e isso não se discute. Mas, até que esse derradeiro dia chegue, teremos milhares de novas chances de contar a nossa própria história. Cabe a nós decidirmos se nossas vidas serão lidas como um belo romance ou como um monótono manual de instruções. Dentre todas as coisas que a vida nos impõe, nada pode ser mais importante do que aceitar o inevitável desafio de viver.

4 comentários em “Viver é inevitável…”

  1. Uma boa leitura pra aplacar uma alminha ansiosa…rs
    Sobre ler a vida, seus métodos, programações, hábitos, receio do fim… Lembrei do Manoel de Barros:
    ” A maior riqueza do homem
    é a sua incompletude.
    Nesse ponto sou abastado.
    Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

    Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
    que puxa válvulas, que olha o relógio,
    que compra pão às 6 horas da tarde,
    que vai lá fora, que aponta lápis,
    que vê a uva etc. etc.

    Perdoai
    Mas eu preciso ser Outros.
    Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

    Amém! Rs
    Boa semana pra você também.

  2. De novo, mais uma linda forma de receber respostas do universo. Kkkkkkkk

    De cara voltei no tempo e me vi escolhendo a mochila mais colorida e sendo repreendida pq não combinava com meu uniforme…

    Como q faz pra deixar o nosso verdadeiro eu assumir o trono se a gente já nasce sendo podado? Tenso! Brotar um desconforto que cresce e vira um monstro. E vc se vê, anos mais tarde, numa época em q era pra vc estar feliz e muito bem ajustado num universo q não lhe pertence. Eis que vc se percebe diferente e até luta com unhas e dentes pra defender sua versão plastificada. Mas, num lindo dia, vc se entrega e resolve assumir q tem um furacão de fogo dentro do peito e está tudo bem. E a partir desse dia, tudo fica mais fácil pq a única pessoa na sua lista de agrados é vc. E se outras pessoas lhe trouxerem um feedback positivo, ótimo. Do contrário, ótimo. O lance é q vc não precisa de aprovação alheia pra nada.

    Ter essas percepções sem terapia pode ser muito difícil. Mas a sensação a cada progresso é deliciosa e a yoga está me ajudando absurdamente. E assumir TD a intensidade que existe dentro de mim e canalizar isso pra manifestar meus projetos de vida, tem sido um parto sofrido, mas acho q concluí essa missão ou estou muito perto disso.

    Esse texto caiu como mais uma confirmação de q estou no caminho certo dentro daquilo q me faz bem. Pq dá pra ser louca e meditar ao mesmo tempo. Dá pra ser ácida, doce e sensível ao mesmo tempo, pra não desmoronar…

    Nesse momento, libertar todo esse vendaval flamejante tem sido inevitável para conseguir redescobrir como viver. Resignificando muita coisa, quebrando uma série de muros de regras que me mantinham presa dentro de mim mesma. Claro q existe a necessidade de me policiar td hora pra não me conter de novo… Então, se novas parcerias surgirem “por aí” eu na verdade fico muito lisonjeada. Chega de paralisia criativa por medos ou regras idiotas. Inclusive, estou organizando meus escritos pq tenho ideias pra eles. Não tem como entrar nessa fase expansiva e deixá-los trancados numa gaveta… Talvez seja hora de minhas fagulhas atearem fogo em outros lugares…

  3. Muito legal o texto e o complemento sempre excelente da Tati Regina.
    Eu tenho a sensação que venho em ciclos nesse processo. Às vezes me forçando a ser algo que eu gostaria (ou acho que gostaria) de ser. Depois muda a lua, e eu penso em como existe beleza e aprendizado na diversidade, e que eu tenho que aceitar e assumir exatamente o que eu sou, com as falhas e pontos positivos. Com a idade, tenho passado muito mais tempo na parte do ciclo em que eu me sinto à vontade comigo. Mas a idade tb traz mudanças, e quando vc acostumou com alguma coisa, é hora de mudar (querendo ou não). E então recomeça esse ciclo.

    1. Tu não cansa disso, não Luiza? Socorro! Kkkkkkkkkkkkk

      Outro dia estava contando a uma amiga sobre minhas novas percepções e diretrizes… Ela me disse que estou num lindo momento de autodescoberta. Porra nenhuma! Tô exausta desses ciclos, dessas ondas. Kkkkkkkkk. Perguntei a ela quando que isso acaba, na ilusão de ler um “fica tranquila que mês que vem, mais tardar, daqui a 2 meses”. Mas td que consegui foi um sincero e sábio “nunca acaba”.
      Mas no fim das contas, me pergunto: quão chata deve ser a vida de quem vomita aos quatro ventos “sempre fui assim, não é agora que vou mudar”? Kkkkkkkkkk

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