Vivendo fora da caixa

Quando eu crescer, quero morar sozinho. Adoro festas onde só tem gente bonita. Preciso de um carro só para mim. Quero ser amigo das pessoas mais populares e interessantes…

Nossa mente, vez ou outra, é visitada por estes pensamentos que projetam uma vontade quase irresistível de inclusão em algum tipo de padrão. Buscamos, com afinco, cenário e personagens que julgamos adequados e que trazem algum sentido a nossa existência. Isso significa que precisamos eleger um grupo para chamar de nosso. Será?

Ao mesmo tempo que queremos pertencer a alguma tribo, não nos agrada a ideia de sermos mais um na multidão, dessa forma, começamos a percorrer um caminho que nos mostra que também somos únicos, apesar da massa a nossa volta.

Quando crianças, vivemos sempre cercados pela família, amigos da escola, do bairro e isso ajuda a desenvolver, em algum grau, o ser social e coletivo que somos. À medida que crescemos, passamos a pensar e agir em bandos que quase sempre reúnem integrantes com características muito próximas e, assim, criamos um modelo de interação com o mundo que irá se repetir incontáveis vezes. Um formato que nos direciona na maioria das vezes, para os mesmos lugares, as mesmas pessoas e situações em fases diferentes da vida.

Que mal há nisso, uma vez que é agradável estar com nossos pares, que pensam e agem como nós? Independente da resposta, uma coisa é certa, estar sempre voltado para a mesma paisagem, exclui a possibilidade de interagir, sem restrições, com o ambiente que nos cerca.

À medida que desejamos um mundo mais exclusivo e que atenda aos nossos anseios, acabamos por criar alguns labirintos onde conhecemos a entrada, mas apenas imaginamos como será a saída. Passamos repetidas vezes por situações semelhantes que, no fim, não somos mais capazes de distinguir se vivenciamos algo novo ou apenas mais do mesmo. Isso provoca um efeito adverso muito comum quando vivemos sempre no mesmo quadrado. Passamos a desejar aquilo que está do lado de fora do nosso limite imaginário.

Uma vez que seguimos por essa estrada, criamos códigos muito pessoais que podem, com alguma frequência, nos isolar, já que não nos permitimos novas experiências em áreas distantes de nossa zona de conforto. Eliminamos grandes chances de aprendizado por não saber como lidar com situações que extrapolam as fronteiras que levamos anos para criar, sem saber muito bem o porquê.

Quando amadurecemos, passamos a perceber que organizamos pessoas e momentos em caixas iguais, mas com tamanhos distintos, criando barreiras sobrepostas que dificultam a chegada de qualquer coisa que não seja compatível com o nosso belo, exclusivo e monocromático mosaico de caixas empilhadas. E isso pode, com alguma intensidade, nos empobrecer, limitar, isolar e emburrecer. Criando um terreno fértil para a ignorância, toda sorte de preconceitos e solidão.

Em algum ponto da nossa jornada iremos, certamente, olhar com cuidado para a pessoa que fomos, para a pessoa que nos tornamos e para quem queremos ser. Para isso, é preciso transpor nossos próprios obstáculos e, assim, perceber que os sonhos de individualidade podem até nos satisfazer por um tempo, mas nunca o tempo todo.

Olhar para trás nos permite mirar a criança que fomos e lembrar que vivíamos rodeados por pessoas diferentes na forma e no conteúdo. Essas memórias ajudam a constatar que as barreiras que criamos nos limitam e que, quanto mais amplas forem as nossas fronteiras, corremos sérios riscos de nos tornarmos mais diversos, mais completos e mais felizes.

6 pensamentos em “Vivendo fora da caixa”

  1. Marco, comentar sobre esse texto, pra mim, é um pouco complicado. Porque eu sou completamente fora da caixa – apesar de particularmente me achar dentro de uma caixinha de fósforo – principalmente pra minha família. Completamente conservadora, dentro dos padrões ‘coxinha lifestyle’, com aquela vidinha sem maiores emoções.

    Eu sempre tive dentro de mim, uma pitada de medo, outra de coragem e umas cicatrizes de mágoa que depois de 12 anos estão cicatrizando. Então, o padrão que eu sempre busquei, foi aquilo que me faz feliz, como você escreveu no último parágrafo, e é o que torna a minha vida tão dinâmica ao mesmo tempo que segue um padrão. Isso não quer dizer que eu seja um nômade, “porra louca”, nem nada do tipo. Apenas eu não me fecho para as possibilidades e para os meus pensamentos e vontades – mesmo que eu quebre a cara em um determinado momento, mas me reerguer é uma arte que eu venho lapidando desde a primeira queda. 😉

    Eu até hoje não sei os limites da minha caixinha e te pergunto: você sabe quais são os limites da sua?

    1. Júlio, os limites são vários e mudam a medida que o tempo passa. E isso é ótimo. O que já foi uma barreira quase intransponível, hj é apenas um pequeno degrau. O mais importante é saber que somos os criadores das nossas próprias caixas e só nós conseguimos vence-las… Em algum momento. Forte abraço!

  2. Muito profunda a reflexão! Eu estou de acordo! Uma coisa que me orgulho é que tenho os amigos mais diversos! E cada nicho me enriquece um pouco!
    Eu li o comentário do amigo acima, e a pergunta final ficou na minha cabeça. Eu não conheço os limites da minha caixinha. Mas não quero pensar que existam limites nela. Zona de conforto é bom, mas envelhece a gente. Zona de esforço é onde a gente aprende, é onde a gente se supera e se conhece. E é onde a gente percebe que nem mesmo nós conhecíamos a nossa força.

    1. Luiza, lutamos sempre pra alcançar a zona de conforto, mas ao chegar lá, percebemos que podemos ir além. Toda vez que isso acontece, derrubamos um limite que nós mesmos criamos e acredito que esse movimento é o que nos ajuda a seguir sempre em frente. Bjão!

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