Vida de criança

            A vida adulta requer muitas responsabilidades, correria, dificuldades e um bom número de frustrações. Até aí nenhuma novidade. Somos testados em níveis inimagináveis praticamente todos os dias, o que nos leva a criar cascas protetoras que, à medida que o tempo passa, enrijecem e aumentam proporcionalmente ao número de pauladas que a vida nos reserva. Mas isso não é privilégio dos adultos. Os pequenos também estão a mercê dos humores do mundo, apesar das nossas tentativas de suavizar a estrada. Mas, o que a realidade nos mostra é que vida de criança não é nada fácil.

            O tempo vai passando e a ideia de infância muda junto com o nosso corpo. Seios crescem, pelo aparecem, hormônios enlouquecem. Sinais que são usados para gritar ao mundo que não há mais lugar para a criança que fomos. Há uma pressa quase inexplicável em mudar de pele, em deixar para trás o sorriso estridente e o carinho explícito e sem moderações que só as crianças sabem expressar. Abrimos mão, tão precocemente, da nossa primeira fase exploratória, que mal temos tempo de perceber todas as estrelas que deixamos de alcançar.

            Para além da velocidade imutável do tempo, não se sabe por qual razão, resolvemos pular etapas nesse processo e desejar, cada vez mais cedo, que a tenra infância seja cada vez mais breve. Uma estranheza que só faz sentido na fase mais tensa e transitória de nossas vidas – a adolescência. Mas, como essa fase da vida é pródiga em equívocos, levaremos muito tempo nos lamentando por ter desejado, um dia, deixar de ser criança.

            Porém, a infância não é conceito uniforme e compartilhado por todos. Ser criança nem sempre é uma dádiva. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, crianças não tinham direito a sua infância. Famílias eram numerosas não porque isso significava um símbolo de amor e união. Pais precisavam de mão de obra e, seus filhos, eram esse braço forte. Nesses casos, a infância jamais foi páreo para a necessidade de sobrevivência. O amor que costura as relações familiares é um acontecimento recente, o que, talvez explique, a diferença no olhar que cada um de nós tem sobre o que é ser criança.

        Fome. Miséria. Guerra. Dinheiro. Violência. Sentinelas das desigualdades humanas, responsáveis por confiscar o direito mais fundamental de todos nós – a infância. Nossas crianças caem como fantoches diante de muitas injustiças para as quais não têm a menor chance de resistência. Como garantir às crianças, o direito a própria infância? É preciso se apropriar do amor. Entendendo que, apesar das dificuldades óbvias que irão nos acompanhar vida afora, garantir as delícias da infância, vai permitir que os adultos de hoje, de ontem e de sempre, tenham consigo o direito de sonhar e que jamais possam se envergonhar de demonstrar verdade, carinho e amor livres de preconceitos, como só as crianças sabem fazer.

3 comentários em “Vida de criança”

  1. Temos que cuidar tb pra quem não imponhamos nossas crenças limitantes nas crianças, cortando assim potencial futuro que talvez nunca se descubra.

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