Universo de falsas importâncias

Qual foi a última vez que você escolheu não ser o centro das atenções? Ou, há quanto tempo não se permite olhar a sua volta e perceber os detalhes da vida, especialmente se não for a sua própria? Já se perguntou se tudo aquilo que lhe aflige é, de fato, um problema tão grande assim? Essas perguntas agem como o prenúncio de uma autoanálise que costuma ser feita de tempos em tempos, e que tem a presunção de explicar esse universo de falsas importâncias…

De cara, esse assunto parece conter traços de religiosidade ou da busca pelo bem romantizado e intocável, que diz que devemos nos doar, não importa a situação. Mas não é nada disso. Pensar na importância que supostamente temos em nossos mundos é, completamente diferente, de vestir uma capa de importância que, arrogantemente, escolhemos como peça importante do nosso figurino social. Saber-se importante não tem qualquer relação com acreditar-se como tal.

Em tempos onde fakes parecem não conhecer limites, tornou-se simples atribuir importância ao que não tem. As mídias sociais deram retoques aos supérfluos do cotidiano, transformando o que era ordinário em essencial. Com isso, uma avalanche de bobagens passou a ser vista como algo prioritário. O que nos desorienta quando é necessário diferenciar um drama midiático de uma dificuldade verdadeira. Tudo passa a ser problema quando nos achamos, demasiadamente, importantes.

Então, sé é uma realidade o fato de estarmos, cada vez mais, banalizando relevâncias e enaltecendo desimportâncias, como é possível perceber o que é realmente essencial para nós? É claro que todos terão uma opinião baseada em suas experiências, mas a minha questão é: o que é genuinamente importante nesta vida? Família, amigos, trabalho e amores, certamente fazem parte do hall de coisas mais importantes em nossos universos particulares. Mas, será que estamos expressando, verdadeiramente, o quanto tudo isso é valioso?

Viver na superficialidade é algo muito fácil. A glamourização do comum atrai muito mais olhares do que demonstração real de afeto. Vemos pessoas protestando ativamente em prol de causas humanitárias e sociais em um universo que só existe dentro de uma tela, enquanto desejam toda a sorte de maus agouros. de forma indiscriminada e perversa. a todos que cruzam seus caminhos. Pessoas que super dimensionam as próprias questões, deixando claro que seus problemas sempre serão mais importantes e mais urgentes que os do resto da humanidade.

Acreditar nisso é uma grande perda de tempo. Todos passamos por situações boas e ruins o tempo todo. Superestima-las só ajuda a criar problemas imaginários, próprios de quem se julga excessivamente importante. Mas, é muito simples desconstruir essa irrealidade. Basta mirar as pessoas de forma mais direta e mais humana, sem defesas, julgamentos prévios ou arrogância. O que facilita a retiradas dos véus que nublam a nossa percepção do mundo, nos obrigando a ver as coisas como são. E como sempre foram.

Possivelmente avançaremos nesse autodeslumbramento que nos faz ignorar o que é de verdade, para valorizar coisas nem tão importantes assim. Mas, sem dúvida, esse movimento vai desacelerar e passaremos a sentir falta do toque, do olhar, da troca e, principalmente, da sensibilidade que nos salva da arrogância burra e nos permite perceber que problemas são criados a partir de experiências reais e, jamais, de tolices que resolvemos supervalorizar, na busca por um lugar ao sol neste vasto universo das falsas importâncias.

5 comentários em “Universo de falsas importâncias”

  1. Notório as pessoas não se permitem a olhar o outro. Ver mais seus próprios interesses.
    Tudo para esses “vai bem”!
    continuaremos…

  2. Hoje mesmo ouvi minha mãe assistindo um vídeo no qual o dono do canal dizia que as pessoas não olham mais pra cima nas ruas… E certa vez ele perguntou pra um grupo, de sei lá quantas pessoas, quem havia olhado pro céu naquele dia e ninguém levantou a mão. Isso me fez lembrar de várias vezes em que me peguei com cara de boba vendo algo diferente na paisagem, ou a própria singularidade da paisagem em si, com a sensação de que só eu estava desfrutando daquele momento. Algumas vezes cheguei a olhar em volta e encontrei pessoas conversando, absortas em livros e celulares, sisudas ou distraídas demais pra perceber qualquer magia contemplativa. Paralelo a isso, me lembrei também de algumas chantagens que presenciei. Todas em troca de bens materiais e sem a menor necessidade. Puro capricho. E a pessoa chantageada, por exercer o mesmo mecanismo com outras pessoas, acaba sedendo todas as vezes. Eu poderia fazer várias formas geométricas adicionando situações que tem, de certa forma, a ver com o tema aqui. Mas tentarei ser sucinta. kkkkkkkkkkkk .
    Bem, fiz essas associações pq, gente! Temos inversões de valores de toda ordem e em diversos níveis aqui, não é mesmo? Pode parecer bobagem não olhar pro céu… Mas, dependendo de onde se mora, como se transita pela cidade e por onde se transita… De fato não dá pra olhar pro céu. Isso, pra mim, já promove um afastamento do ser humano orgânico. E uma tsunami de informações e demandas desnecessárias vai levando importâncias reais sem ninguém se dar conta. A mídia das massas ainda chega fechando a tampa com seus desserviços à população. Tá armado o circo de horrores que acaba sendo terreno fértil pra desvios de conduta muito sérios.
    Acredito que altas doses de autoanálise e maturidade emocional ajudem a reverter esse quadro. A maturidade emocional entraria como ferramenta para o respeito e percepção do coletivo e dar noção de conectividade entre as pessoas, entre as pessoas e o ambiente ao seu redor e entre as pessoas e o planeta como um todo. Mas na maioria das vezes, isso só vem depois de muitos tapas na cara. Ou não vem nunca… E o resultado é uma legião de gente estúpida.

  3. Esse texto me lembrou um trecho do livro “Comer Rezar Amar”, onde a autora se compromete a prestar mais atenção em quando outras pessoas conversarem com ela, em se doar naquele momento mesmo. Ser o ouvido que só ouve, e não ouve só pra falar de volta (e quase sempre de si). É muito natural a gente fazer isso, uns mais que outros. Até mesmo quando queremos demonstrar empatia, e mostrar que já estivemos naquela situação, a gente reverte o foco da conversa. Mesmo com boa intenção. Eu percebi o quanto faço isso tb. Então desde que eu li aquele trecho, passei a prestar mais atenção tb.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *