Todo mundo tem algo a dizer

Dia desses, após passar algumas horas em um debate acalorado sobre assuntos descartáveis, percebi que estamos vivendo a era onde todo mundo tem algo a dizer, sobre todos os assuntos do mundo. Até aí tudo certo, uma vez que opinar é, de forma geral, uma maneira de ouvir colocações, sejam elas discordantes ou não. Mas, o que tem chamado atenção, de forma assustadora, é a capacidade ilimitada que alguns têm de falar muito, sobre assuntos com os quais jamais tiveram qualquer intimidade.

Somos parte de uma época onde, ao mesmo tempo que supervalorizamos a fala, esquecemos de sua cara metade: a escuta. E, em um cenário onde todos falam e ninguém se ouve, cria-se um campo fértil para toda a sorte de distorções e ruídos numa comunicação já precária. A ausência de uma escuta, nos obriga, não apenas, a aumentar o volume de nossas falas, mas, também, a falar sobre o que quer que seja. Assim, passamos a berrar opiniões inconsistentes aos quatro ventos, na tentativa de conquistar ouvintes disponíveis. O problema é quando decidem nos ouvir, justamente, quando não temos nada valioso a dizer.

O direito de se expressar não é democrático como parece, infelizmente. Há um número enorme de pessoas sem voz espalhadas por aí, esperando uma única chance para serem ouvidas. Chance que, muitas vezes, nunca chega. Em contrapartida, percebemos uma minoria formada pelos mesmos personagens, que parecem ter acesso irrestrito a expressão de sua voz e, por isso, são capazes de influenciar amplamente, todos aqueles que, cansados de gritar, decidem seguir o que lhes é dito. Opiniões padronizadas e pasteurizadas distribuídas sem moderação.

Talvez esta seja uma das razões que nos empurrem para tribunas imaginárias em busca de um lugar de fala. Lugar de fala. Expressão nova que traz significados que vão muito além da sua aparente simplicidade. Ter um lugar para expressar suas vivências, seus dramas e conquistas com propriedade, é fruto desse movimento que busca ouvidos interessados em ir além dos discursos encomendados e das frases feitas, utilizadas por quem tem a pretensão de acreditar que pode falar sobre tudo e para todos. Não. Isso não é possível.

Hoje, um mundo de possibilidades permite o embate entre os que precisam ser ouvidos e os que sempre tiveram voz. O que é interessante por si só, uma vez que a transferência de pontos de vista busca, em teoria, um entendimento maior sobre as questões que nos cercam. Pena que isso é tudo o que não temos. Os lugares de fala são minimizados, sempre que seus representantes legítimos tentam se fazer ouvir. Agonias sufocadas quando vem à tona, desconcertam e desconstroem aqueles que fizeram de tudo para mantê-las longe dos holofotes.

Em tempos onde muitos falam e poucos escutam, a desesperança se instala de forma tão confortável, que nos impede de ver saídas que retomem o caminho do diálogo. Apesar de ser uma tarefa nada fácil, ela é, sim, possível. Para entender o que são os lugares de fala, é preciso resgatar velhos ensinamentos. Colocar-se no lugar do outro, não fazer com alguém o que não gostaria que fizessem com você, respeitar as opiniões diferentes da sua e ter, sobretudo, mais amor para compartilhar. Ingredientes simples que estruturam um dos maiores tesouros que podemos partilhar nessa vida: a empatia. A única capaz de mostrar que todos temos que respeitar, em doses iguais, o direito de falar sobre o que nos movimenta e o dever de ouvir sobre as dores e os amores do outro.

3 comentários em “Todo mundo tem algo a dizer”

  1. Apesar de saber ser necessário, acho tão estranho levantarmos hoje certos debates… Me parece ser tudo tão orgânico e lógico… Respeitar, ser empático, ter compaixão, ouvir, saber o meu momento de falar, não interferir negativamente onde e quando eu não tenho propriedade para tal. E sempre me bate uma sensação de inadequação. Logo depois, uma preguiça imensa em ter de expor esse ponto de vista, ao meu ver, natural e normal… Novo debate. Novo embate interno. Novo desconforto. Acredito de verdade no que disse há vários textos: não existe erro, existem fatos. E dentro dessa proposta, sei que a necessidade desse debate é importante para o elevar da consciência coletiva e faz parte do processo de evolução social, blah blah blah… Também percebo que faz parte do momento de queda de filtros e véus e máscaras… E nesse ponto creio que estamos avançando. Mesmo assim, me dá muita preguiça por me achar inadequada no meio disso… Uma bola de neve sem fim.

  2. Toda vez que leio ou ouço sobre isso, sempre faço uma reflexão e sempre acho que eu poderia ouvir mais e falar menos. Acho que é natural, até quando queremos ajudar, acabarmos por mudar o foco pra nossas experiências ou opiniões. Mas realmente é importante lembrar que todos precisamos ouvir mais. Ouvir com ouvidos de escutar, e não só pra ter algo a dizer.
    As redes sociais provocaram esse fenômeno, onde quase todas as vozes podem falar. Mas quem ouve? E quando todas as vozes se acham certas, nenhum ouvido… claro, receita certa pra “dar ruim”.

  3. Ótimo texto. Pertinente. Bom para refletirmos sobre se somos mais voz ou mais ouvido; e também sobre que momento de não comunicação é esse. Tenho me calado muitas vezes nos encontros sociais e mesmo nas redes, nem por preguiça, nem por covardia.
    Mas, porque quero falar com quem ainda consegue dialogar sem a pretensão do saber todo. Não dá pra conversar com quem sabe tudo. Enfim…

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