Texto que trata sobre o nada

            Retomar um hábito que me acompanha há quase quatro anos é um prazer e, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas que faço aos textos e as palavras. Não foi minha intenção abandona-los por tanto tempo. Mentira. Foi, sim. Lidar com pandemia, medo, insegurança, aulas virtualizadas, desafios em novas mídias e mais um monte de outras coisas, foram as principais causas desse afastamento que, confesso, foi bastante produtivo. Desculpas devidamente registradas, vamos seguir em frente nesse texto que trata sobre o nada.

           Como assim, um texto que trata sobre o nada? Num primeiro momento pode parecer que cá estamos para não dizer coisa alguma, mas não se enganem, falar sobre o nada é muito mais complexo do que parece. Duvida? Pare aí por cinco minutos e olhe ao seu redor. Tirando as tarefas domésticas óbvias, será possível perceber que estamos rodeados de nada. Nada para ver na TV, nada gostoso para comer, nada para fazer, nada para pensar… Em algum momento dos nossos longos dias pandêmicos, o nada será o nosso parceiro mais frequente.

            Não que isto seja algo ruim. Longe disso. Não ter nada para fazer, em muitos momentos, é tudo o que se quer. O nada nos ajuda a organizar pensamentos, a ver o mundo sob novas perspectivas, a respirar melhor ou a dar uma checada nos cabelos brancos que insistem em brotar pelo seu corpo. Passamos muito tempo desejando tudo e todos. E nessa obsessão pelo tudo, deixamos de enxergar uma porção de nuances do nosso cotidiano que só podem ser captadas quando nos conectamos com o nada.

            Pode parecer uma viagem meio louca ler sobre o nada, mas, reparem, esses tempos pandêmicos trouxeram muitos conflitos inesperados para as nossas vidas, mas, o maior deles foi, sem dúvida, a obrigatoriedade de convivermos com nós mesmos por tanto tempo. Ficamos presos, compulsoriamente, a rotinas insanas que demandaram de nós uma atenção exclusiva. O que, trocando em miúdos, significa que cada um de nós tornou-se o único responsável por tarefas que, na pré pandemia, seriam facilmente compartilhadas.

            Esse isolamento não restringiu apenas a nossa livre circulação. Ele também nos forçou a retomarmos comportamentos há muito esquecidos. O tempo entrou em modo desacelerado e isso permitiu que olhássemos com mais cuidado para tudo, inclusive para nós mesmos. E isso só foi possível, porque a urgência em ter tudo foi substituída pela complexidade autoexplicativa do nada. Explico. Quando ganhar as ruas era um direito nosso, a correria nos impedia de contemplar os detalhes do cotidiano, como reparar no crescimento de uma criança ou a beleza de um pôr do sol.

              Porém, quando nos vimos diante do imponderável e que, de uma hora para outra, isso poderia afetar a nossa existência, freamos a velocidade das nossas rotinas e passamos a enxergar que nada, absolutamente nada, é tão importante quanto parecia ser. E, para além disso, nos reconectarmos conosco e com os nossos. Os momentos em contato com o nada, permitiram que enxergássemos tudo o que realmente vale a pena e que,  sem aviso prévio, tudo que temos ou julgamos precioso, pode se transformar no mais absoluto nada.

2 comentários em “Texto que trata sobre o nada”

  1. Impressionante como a desaceleração da rotina faz a gente pensar melhor, ver as coisas com clareza e até se conectar com pessoas que nunca vimos antes. Não é mesmo?
    Cristina Zuccarelli

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