Vozes de alerta

Pensamentos recorrentes costumam nos visitar quando menos esperamos. E, sempre que vão embora, deixam um rastro de sensações que, dependendo do nosso estado de espírito, podem bagunçar nossas certezas, reacender chamas há muito apagada ou valorizar alguns erros que jamais deveriam voltar à tona. Isso acontece com tanta frequência que sequer nos damos conta da existência desses pensamentos. Que são, na realidade, vozes de alerta, inaudíveis aos outros, mas que são capazes de gritar em nossas cabeças, projetando medos, ansiedades ou euforias para fora das caixas onde insistimos em guarda-las.

No início não damos muito crédito aos anseios que começam a tomar forma e causar incômodos, mas, pouco a pouco, os sons aumentam seu volume e torna-se impossível ignorá-los e, principalmente, não prestar atenção aos seus reflexos. No fim, pouco importa como vamos lidar com isso, uma vez que nossas vozes internas só se calam quando, finalmente, aceitamos ouvir tudo aquilo que elas tem a dizer. Tentar ignorar esses sinais, certamente, não é a melhor saída.

Situações onde ouvimos o que não queríamos ou não merecíamos ouvir, apresentam desdobramentos internos que, via de regra, trazem um sem número de questões que vão desde os clássicos “por que eu não respondi à altura?” ou “da próxima vez isso não vai ficar assim…”, até aquelas sensações desconfortáveis que não sabemos direito qual é a sua origem e o que, de fato, querem dizer. Não é nada fácil entender a expressão discreta dos nossos códigos, mas esta é, possivelmente, a melhor arma que temos para fortalecer fraquezas e estabelecer limites que nos ajudam a enxergar até onde vale a pena seguir.

Mas há o outro lado da moeda. Não é sempre que nos permitimos escutar as expressões que vem de dentro. Muitas e muitas vezes, abafamos todo e qualquer ruído que possa, minimamente, alterar a rota que traçamos, mesmo que isso nos leve para uma grande cilada. Querer demais, seja lá o que for, forma uma barreira a todo e qualquer alerta. Criar certezas, mesmo que estejam sobre pilares frágeis, nos impede de enxergar alguns enganos, mesmo que estejam bem diante de nós. Ignorar nossos avisos particulares, talvez seja o principal motivo que nos leve a enfrentar frustrações desnecessárias e relações arrastadas onde as perdas são sempre maiores que os ganhos.

Na prática, só aprendemos a valorizar nossas placas de perigo após um longa sequência de tombos, pés na bunda e decepções que servem, dentre outras coisas, para mostrar que vale a pena parar, olhar para dentro e consultar nossos verdadeiros anseios, antes de qualquer tomada de decisão. Mas é preciso ter a clareza que, pedras serão uma constante na vida de todo mundo e não é isso que nos fará desistir daquilo que queremos. Insucessos, apesar de seu gosto amargo, são absolutamente importantes, uma vez que forçam um retorno ao ponto de partida, de onde é possível traçar novas rotas e reavaliar o que não deu certo.

Toda essa conversa serve para dizer que, apesar de todas as influências que sofremos desde sempre, no fim, seremos nós os únicos responsáveis por cada passo, por cada escolha e por cada perda. De toda forma, nossos erros e acertos são o reflexo de como percebemos o mundo e as lições que ele nos dá. Nossas vozes de alerta dão a medida entre a diversidade do que está fora e a complexidade do que somos por dentro. Por vezes, enxergamos essas dicas mas não damos muito crédito, em outros momentos, supervalorizamos a sua importância. Isso faz parte do jogo.

O mais fascinante nisso tudo, é perceber que, mesmo que de forma inconsciente, temos um mecanismo de autoproteção que nos ajuda nas vitórias, nos avisa sobre os erros e nos dá a mão quando precisamos superar uma queda. Aprender a usar essa ferramenta poderosa leva tempo, às vezes uma vida inteira. Mas não importa o quanto demoramos para compreendê-la. O essencial aqui é perceber que para seguir em frente, realizado com suas escolhas, sejam elas boas ou não, é preciso dar ouvidos ao conselheiro que vive dentro de cada um de nós.