Quarentena

Quarentena. Distância. Isolamento. A forma como vamos nomear esse período da nossa história, de fato, pouco importa. Afinal, de que adiantará nomear um fato, se não tentarmos entender o seu significado? O que temos de concreto, até agora, é que uma realidade, totalmente inesperada, nos apartou do mundo com o qual estávamos acostumados. Alterando a ordem das coisas que faziam parte do nosso cotidiano, tão cheio de regras e programações. Lidamos com uma novidade intragável que chegou para mostrar a todos que não temos controle sobre absolutamente nada.

É bem verdade que já nascemos com planos traçados, fomos criados para buscar conquistas e assumir o controle de nossas vidas. E, por conta disso, passamos a nossa existência tratando uma ilusão, como uma verdade absoluta. Acreditamos que tudo passa pelo nosso desejo e, quando algo de errado acontece, assumimos a culpa pela nossa desatenção. Controle, controle e controle. Não fomos programados para duvidar desse suposto dom que nos permite domar os nossos destinos. Até que, quando menos esperamos, o destino encarrega-se de nos mostrar quem manda…

Estamos diante de algo que nos afeta coletivamente. Mas, como agir de forma coletiva, se passamos anos acreditando que só dependemos de nós mesmos para chegar onde queremos chegar? Diante deste cenário surreal, apenas uma opção parece ser razoável: abandonar nossos egoísmos injustificáveis. Não, não é fácil abrir mão, de uma hora para outra, de toda aquela farsa bem montada sobre como somos únicos e especiais.

Essa realidade, que engoliu a todos, nos obriga a aprender, da pior forma, que sempre estivemos errados. Vivemos um pesadelo para o qual não há saída individual possível e, negar esse fato, só nos trará angústia, desesperança e dor. Essa realidade bizarra impõe, de forma impiedosa, que mudemos o nosso olhar, as nossas crenças e hábitos e deixa claro que, dia após dia, não terá misericórdia daqueles que tripudiarem de sua força. Isso pode parecer exagero para alguns, afinal, vivemos um período onde a incerteza é a palavra de ordem, logo, se nada sabemos, não há motivo para pânico, certo? As respostas estão nos fatos.

O confinamento não está na lista de desejos de ninguém. Mas, viver bem está. O distanciamento jamais foi uma opção de felicidade, mas, a liberdade, sim. A privação de afetos nunca esteve em nossos planos, assim como qualquer coisa que nos mantivesse afastados de tudo aquilo nos é precioso. Não sabemos lidar com esse turbilhão de frustrações que se abateu nobre nós. Simplesmente, não sabemos. Nem nos sonhos mais nebulosos, seria possível conceber que, algum dia, seríamos privados dos olhares cúmplices, do toque acolhedor, do cheiro da intimidade e da gargalhada que alegra a alma.

As nossas ausências são importantes, mas, nesse momento, é fundamental perceber que fomos reconectados a partir da dor e que o nosso distanciamento é a única ponte que nos levará de volta aos nossos afetos. Levaremos tempo para entender os efeitos colaterais provocados por esse pandemônio, mas, o tempo, é justamente o que nos falta neste momento. O que fazer, então? Transformar, com coragem, as nossas fraquezas em fortalezas. Abdicando da nossa ilusória autossuficiência e abraçando a potência da coletividade. Talvez esta seja a nossa grande e única chance de chegar ao fim desse longo, doloroso processo, acreditando que, um dia, muito em breve, tudo isso há de passar.