Tá olhando o quê?

Provocação. Essa parece ser a tônica do momento. Não importa quais são as opiniões, não interessa quais são os motivos e tanto faz quais são as motivações. Em tempos de cólera, o que de fato importa, não é o dom do raciocínio e, sim, a capacidade de provocar e ser provocado. É como se estivéssemos dizendo e ouvindo “tá olhando o quê?”  para qualquer um que ousar nos encarar por mais de cinco segundos.

Um ambiente provocativo está longe de ser algo ruim e ajuda a nos manter atentos ao que se passa, mas não é isso que se percebe. Trata-se de uma forma rasteira e perigosa de chamar a atenção do outro, expondo diferenças e levantando argumentos rasos, com um único e claro objetivo – incitar o ódio coletivo, irracional e gratuito. Apenas.

Essa forma de expressão não é nova, sempre esteve entre nós, mas nunca como agora. O que chama a atenção nesta postura coletiva, é o seu tom perverso e apelativo, que busca, sem cerimônias, ativar a irracionalidade alheia, trazendo à tona preconceitos que potencializam maldades que tanto lutamos para conter. Provocações que resgatam a mãe de todas as nossas mazelas – a intolerância.

Sempre fomos intolerantes em algum grau. Isto é um triste fato. Mas o que se vive agora, possui um caráter muito particular. Estamos acostumados a passividade daqueles que leem livros de história e que veem filmes de época que relatam fatos hediondos e desumanos. Fatos que doem, mas não o suficiente para nos transformar porque, segundo alguns, o passado não é capaz de nos tocar. Tudo isso mudou. Agora, somos contemporâneos do ódio sem filtros. E não temos ideia do que fazer com isso.

É intrigante constatar que, sequer, fomos capazes de perceber o peso e a sombra da intolerância se aproximando. Talvez o que incomode, não seja a dificuldade de enxergar o ódio nos contaminando e, sim, a culpa por tê-lo visto chegar e não termos feito nada para impedir. A maldade sorrateira ganha forma e força em terras comandadas pela omissão.

Passada a surpresa de, enfim, perceber que o mundo é mal, o que fazer? Há apenas três caminhos possíveis. Um deles é lutar vigorosamente contra toda e qualquer possibilidade de exclusão provocada pela intolerância. O outro é continuar fingindo que nada está acontecendo e por último, mostrar, sem pudores, o fascínio leviano por essa nova ordem onde, a indiferença pelo outro, é o principal caminho para a concretização da intolerância. O mais chocante nisso, é atestar que a última opção parece ter muito mais adeptos do que ousaríamos imaginar.

Todo esse cenário só é possível por uma única razão: a representatividade. Aquela que é capaz de dar voz a quem busca dias melhores, também é usada para engrossar o caldo ácido do ódio. Intolerantes produziram representantes que verbalizam a plenos pulmões toda a sorte de absurdos contra tudo e todos. Grupos com uma capacidade enorme de fazer barulho e criar realidades virtuais onde parecem ser maiores do que realmente são. Infelizmente, eles têm sido bem-sucedidos.

O que nos resta? Pular mais alto. Dar o troco. Mostrar quem manda. Não com ódio, mas com razão e amor. O ódio e a intolerância, crescem em terra arrasada, plena de irracionalidade e, combatê-los com essas armas, é certeza de vitória. Tentar resgatar o amor no outro é o grande desafio em tempos tão difíceis. Muitos podem rejeitar a ideia, afinal, o amor é facultativo e sua aceitação pode assumir diferentes formatos. Já o ódio, não. Esse é intolerável. Deixar que se fortaleça é, antes de tudo, falta de humanidade. Amor e razão trazem mudança, paz e esperança. Já a intolerância fomenta o ódio. E é ele que queremos sentir e propagar? Não. Ele não…

A velocidade da vida

A  maioria de nós costuma dizer que a vida é muito curta, que tudo passa muito rápido e que, quase sempre, não conseguimos dar conta de todas as coisas que precisamos fazer enquanto estivermos por aqui. Difícil encontrar alguém que discorde dessa opinião tão sedimentada e, talvez por isso, não consigamos compreender qual é a real velocidade da vida que levamos.

O senso comum sobre a brevidade da nossa existência, deixa de lado o fato de que, em muitos casos, a vida, nem sempre, corre em um circuito de alta velocidade, ao contrário. Para muitos, viver pode ser um caminho longo e arrastado onde o tempo parece não ter pressa alguma para seguir em frente. A vida assumirá ritmos variados com base em um simples, mas poderoso, fator – as nossas decisões. Os desdobramentos das nossas escolhas é que irão ditar a velocidade real das nossas vidas.

A percepção que temos da realidade, independente da idade, é absolutamente particular, o que nos leva a criar algumas distorções sobre o nosso próprio tempo. Mas, dificilmente, relacionamos nosso ritmo de vida às decisões que tomamos. Agimos como se a vida, aquela entidade indomável e descolada de nós, fosse a única responsável pela realidade. O que pode nos eximir de qualquer traço de culpa por todas as decisões tomadas, sejam elas equivocadas ou não.

Todas as vezes em que estamos diante de um novo desafio, sobra pouco ou nenhum tempo para elaborar uma forma de agir. Vamos lá, aceitamos, ou não, e pronto. O que é absolutamente normal, não fosse o fato de ocultarmos a nossa responsabilidade sobre os efeitos dessas decisões e, de que formas, isso irá afetar a percepção que temos sobre a ação do tempo em nossas vidas.

Aceitar uma proposta de emprego. iniciar um relacionamento ou mudar de cidade. Situações distintas, criadas a partir de nossas decisões e que serão capazes de dizer se devemos correr atrás, o mais rápido que pudermos, das nossas escolhas ou, se iremos sentar e esperar o lento caminhar da vida que decidimos viver. De todo modo, decidir nunca é simples, até porque não temos ideia de como o futuro será de fato. Nos resta apenas desejar que dê tudo certo com as nossas escolhas e que sejamos felizes.

É neste ponto em que percebo o quanto a vida é muito mais longa do que querem nos fazer crer. Todos sabemos que existe um número incontável de experiências, de pessoas e lugares para serem vividos, conhecidos e experimentados. Mas isso não pode ser o motor principal que nos movimenta. Pensar em viver o hoje como se não houvesse amanhã é, antes de tudo, aceitar um estado de eterna ansiedade que, certamente, nos fará acreditar que, diante de tantas possibilidades, a vida sempre será curta demais.

A vida é cheia de possibilidades. Podemos mudar sempre que quisermos e de acordo com o nosso próprio tempo. Quem disse que precisamos correr, insanamente, atrás daquilo que nem sabemos o que é? Quem disse que, sem pressa, não se pode viver uma boa vida? Quem disse que a vida é curta demais para mudar de ideia? Aquele que disse para viver o hoje, como se não houvesse amanhã, possivelmente, perdeu-se entre suas escolhas e jamais conseguiu saborear com calma e prazer, as delícias de uma longa vida bem vivida.

Aqui pensando

Todas as vezes em que as anotações começam a ganhar vida, tenho a certeza de que novas visões de mundo começarão a tomar forma. E, à medida que as ideias surgem, afoitas e indomadas, é preciso compreendê-las e sermos gentis, pois esse turbilhão de novas possibilidades se formará todas as vezes em que nos colocarmos disponíveis para observar o mundo e as pessoas que nos cercam. Pensar é uma dádiva cada vez mais subestimada, mas que nos permite entender que, existem muitas saídas, para os caminhos que pareciam não ter volta. Ficar aqui pensando, não nos torna alheios ao que nos rodeia, ao contrário, nos permite ir além das inexplicáveis limitações impostas por nós mesmos.

Pensar é uma arte inquieta que, quanto mais nos dedicamos a ela, mais curiosos nos tornamos. As ideias pretensamente ingênuas que temos o tempo todo, pretendem mesmo, é provocar pequenos incômodos, daqueles que vão acendendo luzes à medida em que observamos a vida real passar diante de nossos olhos. Estas ideias nos tiram do atmosfera do óbvio e, com isso, permitem que consigamos, nem que seja por alguns instantes, enxergar muito além do que nossos olhos podem alcançar.

O que fazer quando chegamos ao ponto final de um livro, ao término de uma relação ou ao fim de uma conversa casual? Talvez pensar sobre o que acabou ser vivido, seja uma excelente opção. Mas, pensar sem agir não muda muita coisa, certo? Possivelmente não, mas ajuda muito nos momentos em que a ação precisa ser, antes de tudo, pensada. O que parece óbvio, não fosse a nossa dificuldade em lembrar disso quando, o agir nos permite fazer tudo, exceto, pensar…

Pensamentos não deveriam ser privilégios individuais. Dividir ideias transforma o nosso universo particular em diálogos cheios de cores que iluminam nossos olhares cansados de enxergar tudo sempre igual. É uma pena perceber que tantos resistem em compartilhar seus pensamentos, admitindo, de antemão, que não seriam capazes de mudar suas convicções ou seus pontos de vista. Castelos de areia disfarçados de pedra bruta.

Pensamento em divisão promove a soma de um sem número de pessoas que entregam seus anseios e desejos, medos e conquistas nas mãos de outros, que também tentam fazer o mesmo. Não há garantias de que isso dará certo, mas a simples tentativa, já é capaz de nos presentear com uma nova experiência que, mesmo sem perceber, nos fará pensar se acertamos ou erramos. Mas, independentemente do resultado, trocar ideias, mesmo que de forma sutil, já é, por si só, um caminho de transformação definitiva.

Essa troca de pensamentos é capaz de gerar algo ainda mais incrível: a gratidão. Receber aquilo que o outro guarda intimamente em suas caixas de passado e ofertar as suas em troca é, acima de tudo, uma linda forma de agradecimento. Desnudar seus pensamentos é, além de um ato de coragem, um convite a uma caminhada de mãos dadas onde os laços de confiança serão bens valiosíssimos sem, jamais, tornarem-se amarras.

Pensar juntos constrói cúmplices que não aceitam mais ser um só. Pensar em comunidade cria uma legião de parceiros leais que confiam e esperam que estejamos por perto, sempre que necessário. Dividir pensamentos semanalmente, transforma o cientista em escritor, o professor em um contador de estórias e o escritor em parceiro de milhares de pessoas que desejam, de alguma forma, continuar juntos com ele nessa caminhada de muitos e de cada vez mais. Sempre juntos, aqui pensando…

Muito obrigado.

Marco Rocha.

#texto100

Extremos insanos

Pensando sobre todos os acontecimentos recentes, em que somos estapeados a cada segundo por situações que beiram a barbárie, me dei conta que, a simples expressão de uma opinião, pode deflagrar confrontos de consequências imprevisíveis. Diante disso, é inevitável tentar buscar respostas que justifiquem o porquê de tamanho descontrole. Esse questionamento dispara um gatilho de dúvidas que nos fazem desconfiar da nossa própria percepção da realidade. Vivemos em extremos insanos onde é preciso escolher lados e bandeiras, caso contrário, é melhor não atrapalhar a massacrante opinião alheia.

Será que todos sempre foram assim, intolerantes? Será que os limites se romperam, criando polos, distantes o suficiente, para nublar os filtros que formam o nosso bom senso? O que é perceptível neste momento é a divisão que se instaurou nas relações. Se você ama vermelho, jamais poderá usar azul. Se prefere o frio, nunca poderá aproveitar dias de sol na praia. Essa distorção na forma de ver a vida, cria um ringue onde amigos viram adversários e opositores transformam-se em inimigos de morte. Esse absurdo promove rachaduras desnecessárias no que antes era íntegro, equilibrado e precioso.

Que vivemos uma dicotomia desproporcional, não resta dúvidas, mas, o que fazer para revertê-la? Percebo que a cada dia, as distâncias entre pontos de vista aumentam e jogam para escanteio toda e qualquer possibilidade de diálogo. Isso não é razoável. Desde quando nos tornamos impermeáveis a opiniões que não têm a menor pretensão de guerrear e, sim, propor diálogos? Desde quando fomos tomados pelo cinismo que nos faz achar que está tudo bem, enquanto desfazemos, em poucos instantes, laços que demoraram anos para serem atados?

Talvez sejamos parte importante desse movimento indiscriminadamente excludente. No instante em que nos sentimos contrariados por essa polarização e nos calamos, nos tornamos responsáveis por sua manutenção. De nada adianta apontar dedos para todos os lados, distribuindo culpas e rugindo reclamações, se escolhemos nos manter alheios. A omissão dos insatisfeitos é o combustível perfeito para os extremistas cheios de razões.

Mas acreditem, há algo de bom nessa onda de ódio gratuito e intolerância desmedida. Se por um lado perdemos o filtro social que sustenta a maioria das relações, ganhamos em transparência. Agora é possível enxergar perfis para além dos filtros virtuais e dissimulações reais. Como lidar com isso ainda é um desafio, o que não justifica a nossa permanência em um dos extremos rígidos que limitam a nossa percepção de mundo. Nadar contra essa corrente que nos foi imposta é a melhor resposta que pode ser dada a triste falta de compaixão que se espalha por todos os cantos.

Estabelecemos os nossos extremos à medida que avançamos e acumulamos experiências. O que significa dizer que esses limites mudam de acordo com a nossa disponibilidade em conhecer as margens opostas. Ficar estacionado em uma das extremidades nos impede de enxergar e, principalmente, compreender como seria o mundo visto por outra perspectiva. É chegada a hora de procurar o caminho do meio, onde os extremos se reconhecem e andam lado a lado.

Voltas que a vida dá

Subir e descer. Cair e levantar. Dar a volta por cima… Frases diferentes, mas que trazem algum significado para aqueles momentos onde tudo o que enxergamos é o chão sob os nossos pés. Horizonte nada agradável que, certamente, nenhum de nós gostaria de admirar por mais tempo que o absolutamente necessário. Mas, apesar de incômodo, estar por baixo, seja lá por qual razão, ajuda a criar uma perspectiva inesperada sobre a realidade que ficou para trás, no instante em que tropeçamos em uma das voltas que a vida dá.

Mas este texto não tem a menor intenção de mostrar saídas ou de apresentar um manual de como levantar-se dos pós queda. Ao contrário. O objetivo aqui é enaltecer a importância dessa roda gigante que se movimenta quando e como quer, obrigando que tudo ao seu redor se mova, seja para acompanha-la, seja para dar passagem a sua trajetória irrefreável. Seremos chacoalhados dos nossos altares de segurança, sobre isso não resta dúvidas, a questão é saber como lidar com os altos e baixos que a vida nos apresenta. Cabe uma sugestão? Aceitar.

Travamos lutas internas frequentes, por não aceitarmos os momentos em que o copo está meio vazio ou a gangorra está presa ao chão. E há uma razão para isso. Aprendemos desde a mais tenra infância que não podemos abrir a guarda para a derrota. Não lidamos bem com a ideia de insucesso pois não fomos treinados para suporta-lo. Acho que isso explica muitas coisas que vemos por aí, não é?

Conquistar aquilo que desejamos é incrível, claro. Mas, sabemos muito bem que ganhar sempre, em todos os campos, é improvável, para dizer o mínimo. Logo, precisamos parar de temer a derrota. O que não significa tomar gosto pela queda e sofrimento. Nada disso. O que precisamos fazer é encarar a derrota, assim como fazemos, tão naturalmente, com a vitória.

Querer ganhar sempre não é um problema. É apenas ingenuidade disfarçada de proatividade e, o quanto antes percebermos isso, menor será a carga de frustração quando o êxito não chegar. Percebam que, quando ganhamos, esquecemos alguns dos passos que nos conduziram até a vitória. Já na derrota, os degraus ficam gravados em nossa memória por muito tempo, obrigando a refazer, muitas e muitas vezes, a trajetória que nos levou até a queda. Se isso não é uma forma de aprendizado, não sei mais o que pode ser.

Pode ser clichê, mas é inegável que aprendemos com nossos passos em falso. Tentar ignora-los é o nosso erro mais recorrente. Continuar reforçando a imagem do perdedor é antigo, é tolo, é cínico. A roda de todos nós irá girar, em velocidades diferentes e ritmos variados, mas vai girar. E isso nos fará perceber que ganhar é bom, mas é ponto final. E que perder é ruim, mas é, também, a possibilidade de uma nova chance, nos momentos em que nada mais parece dar certo. Estes altos e baixos, ajudam a compreender que ganhar e perder são lados igualmente importantes, da mesma moeda.

Cair de maduro

Cair de maduro. Todos já ouviram essa expressão que, dentre várias possibilidades, significa que alcançamos o nível máximo de alguma coisa. O que não quer dizer quase nada, mas, estar maduro é, em alguma medida, estar pronto. O grande desafio é saber para que, quando e como deveremos estar prontos. Convivemos com essa espada sobre as nossas cabeças desde sempre. Encaramos situações diversas diariamente, mas isso não parece nos preparar para muitas coisas, uma vez que continuamos aguardando o instante em que estaremos, de fato, prontos.

Quando começamos a encarar os desafios que a vida nos impõe e, percebemos que o nível de dificuldade aumenta de forma proporcional ao avanço do tempo, é que passamos a desenvolver uma busca pelo momento em que nos tornaremos aptos. Enquanto esse momento não chega – se é que ele um dia chegará – seguimos substituindo certezas invisíveis por ansiedades concretas.

Envelhecemos de formas distintas, pois cada um de nós encara o passar dos anos de formas diferentes. Essa passagem através do tempo nos oferece um grande privilégio: a maturidade. Que não tem hora certa e muito menos data programada para acontecer. Pode ser aos quinze, aos vinte e cinto, aos quarenta e três ou aos oitenta e um. E pode ser que ela nunca pouse sobre as nossas vidas plenamente. Mas, e daí? O ato de amadurecer não é compulsório, é escolha.

A passagem do tempo é incontestável e não estabelece um estado de maturidade proporcional as rugas que acumulamos. Atravessar o tempo nos ajuda a agregar experiências que, no futuro, irão nos alertar sobre alguns padrões de comportamento já vividos e que, por motivos óbvios, não gostaríamos de recuperar. Muitos diriam que este é um dos sintomas mais comuns de maturidade. Não discordo, mas também percebo que, não é a dificuldade em acumular experiências e, sim, o que apreender a partir delas, o entrave que nos impede de reconhecer o momento em que nos tornamos maduros.

A percepção de que estamos amadurecendo, vem quando conseguimos, pouco a pouco, domar a ansiedade provocada pela inexperiência e, colocar em seu lugar, a serenidade própria de quem já experimentou e foi experimentado pela vida, de quem já caiu e levantou muitas vezes, de quem, enfim, compreendeu que viver é guardar e refazer estórias que, em algum momento, transformarão formas rígidas e sem gosto, em criaturas maleáveis e cheias de sabores.

Amadurecer é difícil. Sobretudo quando não se tem a dimensão de até onde podemos chegar. E, quanto mais restrito é este horizonte, mais apegados a experiências rasas e desinteressantes podemos ser. Essa visão de mundo, cheia de urgência e pouca paciência, tão comum aos jovens, nos leva a associar uma certa inconsequência à juventude, assim como relacionamos a serenidade com a velhice. É um lugar comum repleto de exceções.

Tirar o pé do acelerador, ampliar o campo de visão e, sobretudo, ser paciente… À medida em que nossos sentimentos se tornam mais brandos e o raciocínio toma o controle dos nossos atos, amadurecemos. Até mesmo aqueles que pontuam suas vidas por episódios regados a paixões desmedidas, acalmam seus exageros quando resgatam suas experiências anteriores. É quando entendemos que passamos muito tempo fazendo perguntas para as quais já tínhamos respostas que passavam despercebidas. Caímos de maduro quando nossas questões ingênuas não provocam mais tanta ansiedade. Caímos de maduro quando as perguntas diminuem seu ritmo e passam a andar de mãos dadas com as nossas próprias respostas.

Simples escolhas?

Outro dia, me peguei pensando em como seria se eu tivesse feito escolhas diferentes das que fiz. E comecei a imaginar onde estaria agora, quem estaria ao meu lado, onde estaria trabalhando ou se teria os mesmos amigos… Olhar para nossa própria existência com outros olhares pode ser um excelente exercício de autoavaliação. Resta saber o que faremos com o resultado final dessa prova. Daí me dei conta que, tantas questões sobre as vidas que poderia ter tido, estavam condicionadas a simples escolhas. E que escolhas podem ser tudo, menos coisas simples.

Olhar para dentro e imaginar nossos universos paralelos é uma tarefa que dominamos há tempos. Mas, quando estamos imersos em nossas rotinas, sequer percebemos as escolhas que fazemos. Mudar de itinerário para o trabalho, almoçar em lugares diferentes ou apresentar propostas usando novos recursos, são atitudes que dependem de escolhas simples em princípio, mas que, na verdade, podem nos conduzir a lugares quem nem a nossa fértil imaginação seria capaz de conceber.

Parar e pensar em como seria a vida, se tivéssemos escolhido caminhos diferentes, é simples, apesar do efeito colateral indesejado que pode acompanhar essa ação – a ressaca de frustrações. Parar e perceber nossas esolhas em tempo real é como tentar enxergar coisas muito pequenas, que fogem do nosso raio de percepção. Elas estão lá, mas não conseguimos reconhece-las. É como se tateássemos no escuro a procura de agulhas em palheiros gigantescos. Parece complicado, certo? E é, mas está longe de ser impossível.

Esse intervalo entre o que teria sido e, o que está por vir, movimenta uma engrenagem poderosa que nos desafia a cada instante. Ser quem somos é uma soma de escolhas. Ser quem gostaríamos de ser, mas não somos, é uma projeção das escolhas que não tivemos. Parece confuso, mas esse caldeirão de possibilidades é o que nos ajuda, diariamente, com as escolhas que fazemos, sejam elas conscientes ou não. Mas, independente das portas que se abrem ou fecham por conta das nossas opções, é preciso ter muita clareza que, a tomada de decisão é pessoal, intransferível e gera desdobramentos. Ou seja, fazer escolhas nem é tão complicado assim, agora, sustenta-las…

Esse texto não trata da dificuldade que cada um tem com as suas escolhas e, sim, em como elas sacodem as nossas vidas, como se estivéssemos à deriva em um mar revolto, aguardando por um resgate que nem sempre aparece. Escolhas provocam turbulências, sacolejos e surpresas, como em um jogo onde não sabemos qual será a próxima fase. Não escolher, nos coloca como observadores de uma tela que retrata uma bela paisagem com a qual jamais seremos capazes de interagir. Diante desse panorama, qual seria a sua escolha?

No fundo, o que todos queremos é que nossos caminhos sejam sempre incríveis e repletos de boas escolhas. Sonho? Sim, e daí? Acreditar que a trilha será tranquila e feliz, é o que nos faz seguir em frente, mesmo sabendo que aquilo que escolhemos, impacta a todos que estão ao nosso redor e o contrário também é verdadeiro. Acomodar-se nas escolhas do outro e permitir que outros sejam acolhidos pelas nossas decisões, é o grande desafio dessa brincadeira.

Boas e más escolhas vão e vem. Ora elas trazem luz, ora escurecem tudo a nossa volta. O que devemos fazer diante disso? Imaginar como teria sido se tivéssemos feito diferente, pode ser um bom começo para que novas possibilidades, transformem-se em realidade. Só que, para isso, não há receita de sucesso. O que nos deixa diante de uma situação nada fácil – viver intensamente, cada uma das nossas simples escolhas.

Correspondências do amor – Parte II

Outro dia desses, falávamos sobre a nossa dificuldade em compreender que o amor é um sentimento caprichoso que, para existir, precisa apenas do nosso consentimento. Amar é uma capacidade que nasce conosco e cresce à medida em que o mundo se agiganta diante de nós. Ou não. De todo modo, o que estabelece a nossa capacidade de amar, é a forma como apresentamos esse sentimento aos que se aproximam de nós pela vida afora. E, vou além. Saber amar é, também, compreender que as correspondências do amor, não tem destinatários. Estão aí para serem lidas por quem desejar.

Para amar, basta querer. Sobre isso não há discordância, o problema nasce quando acreditamos que isso só é possível, no momento em que recebemos um sinal verde, de alguém que está na outra margem de um rio desconhecido. Ou seja, o amor que vive escondido em nós, a espera de um sinal luminoso que nos autoriza a compartilha-lo, sempre que o outro demonstrar alguma iniciativa… Reparem que essa é a regra que aprendemos, repetimos e ensinamos uns aos outros desde sempre, o que não significa que esteja correta. Enganos repetidos não transformam-se em certezas.

A vida segue e nós seguimos, aguardando pelo sinal verde do outro lado da linha. E, como crianças chegando em um parque de diversões, nos perdemos em meio a sinais com diferentes intensidades. O que acontece em seguida? Nos confundimos e escolhemos os sinais errados, claro. O que não é ruim, pois ajuda a criar uma palheta de cores de alerta, que pode fazer a diferença para quando a urgência nos dominar e nos fizer correr rápido demais e não perceber que, o sinal era, na verdade, para parar e não para seguir em frente…

E, nessa dúvida entre parar ou seguir, é que nos apegamos aos sinais errados e ignoramos que o saber amar vem de nós e não dos outros. Que amar é uma condição particular que decidimos dividir com alguém por escolha e não por desespero. Acreditar que a salvação está no amor do outro, nos obriga a entrar em formas fabricadas para outras medidas. Sei que é difícil perceber tudo isso, quando estamos engajados na busca pelo fantástico amor perfeito que não existe. Mas, não esquecer que o amar é algo que parte de nós para os outros, já evitaria um bocado de equívocos por aí.

O grande desafio de saber amar é que não há um caminho pavimentado previamente, que nos dê segurança para caminhar sem sobressaltos. E, todas as vezes em que vislumbramos o sinal que indica o amor da nossa vida, não importa quantas tenham sido as tentativas, seguiremos o mesmo padrão repleto de atitudes aleatórias, que irão nos conduzir por caminhos completamente diferentes daqueles que passamos muito tempo planejando. Falta de juízo, como dizem…  O amor é sobre isso também, não é?

Independente dos tropeços que essa corrida em busca do amor nos impõe, não se pode perder de vista que, como diz a música, o nosso amor a gente inventa. Deixar na mão de quem quer que seja, a escolha de como, quando e por quanto tempo iremos compartilhar a nossa capacidade de amar é, além de um erro, uma injustiça. Duvidar dos sinais talvez seja uma boa saída. Duvide das cores e aproveite cada uma delas. Algumas serão facilmente esquecidas, outras brilharão tão forte que irão provocar cegueira instantânea. Mas, no fim dessa montanha russa de cores e formas, seremos sim, capazes de perceber quando será o momento certo de dividir, para aumentar, a intensidade dos nossos luminosos sinais de amor.

Pequenas conquistas

Muitas coisas nesta vida são capazes de trazer alegria, êxtase e um brilho persistente nos olhos de quem consegue, por mais simples que seja, celebrar seus bons momentos. A celebração vai muito além do óbvio calendário comemorativo que o tempo nos permite montar. Comemorar as pequenas conquistas, ainda que não pareçam especiais, nos dá a chance de compreender a importância de cada uma das nossas vitórias em momentos diferentes da vida.

É difícil, muitas vezes, considerar a celebração do simples em uma perspectiva real e cotidiana, uma vez que vivemos em tempos onde sobram motivos para desesperanças e faltam razões para valorizar as pequenas vitórias. Em um cenário onde as dificuldades são regra, é preciso buscar exceções que transformem a indiferença que nos cerca, em sensibilidade.

Essa questão vai muito além do ser ou não ser otimista, enxergar ou não o mundo com filtros que distorcem a realidade. Ser bem agradecido é algo que aprendemos desde muito cedo mas que, infelizmente, vamos deixando de lado. Talvez a nossa capacidade de comemorar as pequenas conquistas seja, pouco a pouco, substituída pela necessidade de se chegar aos patamares mais altos e mais disputados por quase todo mundo. O que cria uma miopia tão severa, que nos impede de perceber com nitidez, as cores de todas as outras coisas incríveis que conquistamos, apenas por não estarem formatadas com a grandiosidade que esperamos.

O curioso por trás da capacidade em perceber e valorizar nossos êxitos mais discretos, é que só paramos para pensar sobre eles, quando acreditamos ter perdido uma chance de conquistar grandes vitórias. Talvez este seja o nosso erro. Conceder o prêmio de consolação ao que transforma nossas vidas diariamente, sem muito alarde. Gastamos tanta energia na busca por sucessos superlativos e esporádicos, que esquecemos que é a batalha diária, a fonte da maioria das nossas conquistas.

Estar atento aos detalhes que nos levam onde queremos chegar, cria um efeito colateral muito bem-vindo: a gratidão. A partir do momento em que percebemos que nosso sucesso é fruto de planos discretos, de metas traçadas todo os dias ao sair de casa e das pessoas que escolhemos para compartilhar nossos desejos, ser grato torna-se uma adorável consequência. Mas, se tudo é assim tão simples, por que a grande maioria de nós não consegue enxergar a importância das pequenas realizações na construção de quem somos de verdade? A resposta pode não ser fácil, mas não é impossível.

Celebração. Gratidão. Conquistas. Passamos grande parte da vida na busca por esta trindade, na esperança que só conseguiremos atingir a felicidade plena quando nos tornarmos, enfim, capazes de domar estas três forças. O grande equívoco que cometemos é enxergar essas possibilidades apenas em escala macro. Como se todo o esforço feito para alcançar esse olimpo, fosse desimportante. Na corrida pelo sucesso inatingível, esquecemos de celebrar os pequenos êxitos e de agradecer por tê-los conquistado um pouco a cada dia.

Não há receita mágica que nos leve até as grandes conquistas. O que temos ao alcance das mãos todos os dias, é a possibilidade de vencer pequenos desafios que se acumulam ao longo do tempo, e que acabam transformando-se em conquistas memoráveis. Mas isso só é possível quando nos mantemos firmes, atentos, gratos e celebrando sempre as nossas pequenas conquistas.

Sob pressão

Como está a vida? Se fizermos essa pergunta a pessoas próximas, a resposta será a mesma: uma grande correria. Viver sob pressão é algo inerente ao que resolvemos chamar de vida moderna. Mas será que precisamos, de fato, correr tanto para alcançar e conquistar o que estiver em nosso caminho? Bom, cada um de nós desenha a própria estrada, mas, no geral, viver a vida como se estivéssemos em uma eterna corrida de velocidade, é a maneira mais fácil de alienar-se diante do mundo. Além de ser muito cansativo.

Que somos pressionados com uma frequência acima do aceitável, não é segredo. Vivemos em meio a um turbilhão de vozes que ordenam e cobram atitudes o tempo todo, em um esquema semelhante a uma linha de montagem, onde é necessário alcançar um produto final e acabado no menor tempo possível. Pouco importa como faremos para executar essa tarefa e qual será o custo pessoal ao final dessa empreitada. Simplesmente execute e não reclame. Afinal, o mundo não respeita aqueles que não suportam pressão…

Ouvimos essa bobagem repetidas vezes como se fosse uma verdade absoluta. Até que se torne, de fato, algo que acreditamos ser verdadeiro. É claro que existem cobranças óbvias, uma vez que todos compartilhamos a vontade de chegar ao lugar mais alto em nossa escala de sucesso. Mesmo sem saber direito que escala é essa. Para muitos de nós, querer o melhor significa, às vezes, apenas mudar a configuração do seu momento atual, sem manobras mirabolantes ou mudanças profundas. Desejos despretensiosos em sua gênese. Até serem confrontados com a pressão causada por opiniões alheias e vontades que superam a nossa capacidade de decisão.

Isso quer dizer, então, que a nossa trajetória deveria ser muito mais tranquila, se não fossem as pressões que sofremos a todo instante? Possivelmente, mas é difícil identificar se é a pressão que vem de fora, a causadora do nosso sofrimento ou, se nascemos com uma queda pela autocobrança. Ambos podem ser fontes isoladas, ou não, responsáveis por nos empurrar para essa eterna corrida rumo ao que quer que seja. E que, via de regra, tornam-se responsáveis por tropeços frequentes e, muitas vezes, desnecessários.

A pressão cria um estado de atenção permanente que, independente do lugar que ocupamos, estabelece uma tensão tão recorrente que passamos a aceita-la como parte de nós. Nos acostumamos, estranhamente, as batidas aceleradas de um coração em frequente descompasso e a noites de sono vazias repletas de picos de ansiedade.

Esse estado de alerta começa em momentos diferentes de nossas vidas e, a influência que terá sobre nós, vai depender de quanto tempo, cada um consegue manter-se imune aos seus efeitos. Sempre teremos, pairando sobre nossas cabeças, uma mão pesada que mostrará sua força por muitas vezes. Ora sentiremos pânico, ora acharemos necessária a presença deste impulso que nos arremessa adiante. O problema é quando aceitamos a pressão como uma obrigação. Um calvário voluntário que não cansa de dizer que, momentos de calmaria são exceções descartáveis. E, dessa forma, seguimos pressionados, porque acreditamos que é assim que deve ser. Não devemos, jamais, acreditar nisso.

Criamos códigos que disfarçam bem os nossos momentos mais tensos. Não é por acaso que lançamos mão de sorrisos largos que tentam mostrar felicidades desmedidas. Sentir-se pressionado frequentemente, nos faz criar rotas de fuga que mascaram incômodos e mostram aos nossos espectadores, que estaremos sempre prontos para o que der e vier. É possível mudar esse caminho que parece inevitável? Sim. Gestos simples podem ajudar. Olhar para dentro e perceber se qualquer querer justifica uma existência sob pressão, é um bom começo. É importante ter em mente que sempre estaremos diante de muitas batalhas, mas que, nem todas, valem o preço do nosso valioso sossego.