Queda livre

Quanto mais tempo vivemos e experimentamos diferentes situações, maior é a sensação de que vivemos em um campo minado pronto para explodir sob os nossos pés. Não importa se calculamos quando, como ou onde será o nosso próximo passo, seremos sempre surpreendidos por explosões que irão colocar nossas vidas de pernas para o ar. O que significa dizer que, viver é como estar em uma queda livre, onde não se sabe o destino, nem a sua velocidade, logo, a única coisa a fazer é aproveitar o vento no rosto e tentar se divertir ao longo da jornada.

Não, este não é um texto sobre como jogar tudo para o alto, bater a porta e sair sem olhar para trás. Mas, não deixa de ser uma pequena provocação ao nosso tão organizado modo de ver o mundo. O convívio social estabelece tantas regras, onde não podemos fazer isso ou aquilo, não devemos usar tal roupa, não falar com estranhos, não ser tão expansivos e, principalmente, não precisamos falar tudo que se passa em nossas cabeças. É claro que estes são filtros importantes e devem ser usados em muitos momentos. Até porque, podem nos manter a salvo de uma série de ciladas.

Mas, como tudo nessa vida, esses filtros devem ser usados com sabedoria e moderação. Restrições demais apresentam efeitos colaterais que podem, com frequência, nos paralisar diante de oportunidades e desafios. Somos criados em uma lógica onde dizer não é a melhor escolha. Se por um lado, isso irá nos privar de novas experiências, por outro, não sofreremos por apostar em algo tão fora dos nossos padrões. Pelo menos, foi isso que nos disseram desde sempre. E nós, acreditamos…

O tempo vai passando e vamos, cada vez mais, nos distanciando da nossa espontaneidade e abrindo espaço para desconfianças e ressalvas. Até que alcançamos o ponto onde dizer não para tudo, será o padrão e, dizer sim, uma inesperada exceção. Isso, talvez, seja fruto da nossa necessidade de sobrevivência que diz que devemos colocar as coisas em seu devido lugar e que, devemos manter nossas a salvo pois não sabemos se será possível conquistá-la novamente. Resquícios da nossa evolução ou, para ser mais realista, é o famoso “quem guarda, têm”.

Mas é preciso acreditar que, apesar das nossas conquistas seguras, há um universo de opções inexploradas e, o melhor de tudo, bem ao alcance das nossas mãos. Basta que ampliemos o nosso campo de visão para incluir em nosso radar, todas as coisas para as quais dissemos não, sem sequer ponderar se seriam ou não boas escolhas, bons caminhos ou boas surpresas. Nadar contra a maré não foi e nunca será uma tarefa fácil, mas é preciso tentar. Qualquer braçada no sentido contrário ao que esperam de nós, pode ser a porta de entrada para uma realidade cheia de novas possibilidades.

Muitos acreditam que essa seria a saída de suas zonas de conforto. Acho que vai muito além. Quedas livres, voos cegos ou seja lá como gostariam de chamar, podem ser a salvação para a vida de pessoas que foram levadas a acreditar que a ousadia não está disponível para todos. O que é um grande engano. Jogar-se no desconhecido e sentir aquele misto de medo, ansiedade e desafio, ajuda a romper amarras, trazendo uma sensação de que não pertencemos a lugar algum e que, ao mesmo tempo, esse pode ser o melhor lugar onde poderíamos estar.

Me engana que eu gosto

Quantas vezes encontramos com algum conhecido por acaso e, quase imediatamente, tratamos de marcar um outro encontro tipo, “passa lá em casa”, mesmo tendo a certeza de que isso jamais vai acontecer? Confirmamos presença e não comparecemos. Concordamos com argumentos indigestos, apenas para acabar com conversas chatíssimas. Declaramos amor a quem mal conhecemos, só para agradar aos ouvidos alheios. Estamos apressados demais para verdades verdadeiras e cada vez mais abertos a mentiras sinceras. Se não for tomar muito tempo e nem dar  muito trabalho, tudo bem, siga em frente e… me engana que eu gosto.

Desde quando ser enganado ou enganar alguém faz parte do nosso cotidiano? Diria que essa é uma premissa que se estabelece a partir do momento em que nos aventuramos nas formas mais básicas de relacionamento. Podemos até negar isso com todas as forças mas, até que ponto, essa convicção não seria, também, um autoengano? Difícil precisar, mas não pense que isso é, de forma ampla, um desvio de caráter ou coisa parecida. São regras de um jogo que já estava rolando muito antes de chegarmos aqui e que irá se perpetuar durante muito, muito tempo.

Por mais incômodo que seja enxergar as coisas sem filtro, não há muito o que fazer, além de aceitar, aprender as regras e começar a brincadeira. Ainda não se convenceu disso? Sem problemas mas, se você, à medida em que avançou no texto, foi buscando momentos onde levou alguém ou se deixou levar por conversas fiadas, promessas convenientes ou compromissos vazios, sinto informar, você faz parte do grupo que ganha a aposta, mas não leva o prêmio pra casa.

Políticos inventam fábulas para conseguir o que querem. Guerras são deflagradas a partir de fantasias. Amores se acabam, amizades se desfazem, votos de confiança se quebram… Sabemos que muitas dessas situações se sustentam sobre pilares de areia que, a qualquer momento, podem ruir. Mas, mesmo assim, concordamos em entrar nesse ciclo sem fim, mesmo sabendo que cobraremos preços altos por nossa permissividade, assim como nos veremos obrigados a arcar com os custos da nossa dissimulação pré-programada.

Não é exagero dizer que a maioria de nós flerta com a hipocrisia mais vezes do que gostaria. Alguns fazem uso dessa prática sem moderação, provocando estragos por onde passam, infelizmente. Mas, me parece que, dia após dia, os níveis de exigência aumentam sua elasticidade aos enganos que sofrem e passam a relativizar mentiras e a acostumar-se a meias verdades. Como se esse fosse, o caminho mais fácil para se chegar onde quer ou para se manter confortável em situações que não resistiriam, ao menor contato que fosse, com uma verdade sem máscaras.

Estaríamos nos tornando cínicos ocasionais? Possivelmente, mas acredito que ainda temos o poder de escolher quando preferimos verdades e quando toleramos mentiras. É aí que reside a nossa capacidade de alterar os fatos de acordo com as conveniências. Para nós, a realidade. Para os outros, bom, para os outros será aquilo que for possível… E assim seguimos realizando, descontroladamente,  quebras de contrato, escapadas, puladas de cerca e um sem número de descompromissos vida afora. Tudo dentro do grande acordo social, que inclui a todos nós.

Este cenário nos obriga a tomar posições que irão impactar a forma como vemos o mundo e como ele nos enxerga de volta. Em uma época onde o nosso maior patrimônio é o tempo, a correria da vida acaba gerando relações efêmeras. Com isso, respostas imediatas que dizem o que queremos ouvir, cumprem o papel da verdade e criam uma sensação de que isso é o certo. Esse é o ponto crucial onde nos restam apenas duas opções: O certo ou o fácil. A escolha é sua.

O que está acontecendo comigo?

Ontem, eu ouvi uma crítica e mudei de atitude. Hoje, me disseram para eu não fazer o que faço. Amanhã, me dirão para mudar um pouco mais. E eu mudo… Depois de um tempo, todas essas interferências começam a afetar quem somos e uma pergunta torna-se inevitável: O que está acontecendo comigo?

Esta é uma resposta difícil, que nem sempre estamos dispostos a responder. Não é nada fácil reviver escolhas ruins, relembrar pessoas abusivas e, acima de tudo, assumir que poderíamos ter sido menos tolerantes com coisas e pessoas que, claramente, não mereciam.

Tolerância. É estranho ver um comportamento que, em teoria, deveria ser o fiel da balança em situações tensas e difíceis, transformar-se, erroneamente, em sinal de fraqueza. Ser tolerante nos permite ser agregadores e compreensivos, o que pode causar uma certa confusão. Tolerar não é sinônimo de permitir sem restrições.

Talvez esse erro conceitual, com o qual aprendemos a conviver desde muito cedo, seja a causa de uma cascata de acontecimentos que podem trazer felicidade ou não, fechar portas ou não, libertar ou aprisionar em relações e hábitos que fazem mal, mas que, em muitos momentos, nós simplesmente não somos capazes de encontrar uma saída.

É evidente que ninguém escolhe o pior para si mas, por causas diversas, criamos uma casca de tolerância ao comportamento do outro que obriga, muitas vezes, abrir mão de desejos próprios para sustentar o querer alheio. Até aí, tudo bem. Intercalar conquistas com quem escolhemos, é ganhar duas vezes. Mas, nem sempre é assim.

Pessoas flexíveis relacionam-se com pessoas menos maleáveis. Isso, obviamente, não é uma regra, apesar de bastante comum. O que me leva a arriscar que, nesses casos, a tolerância de um alimenta a intolerância do outro. Pode parecer radical, mas tentar responder a nossa pergunta inicial pode ser um bom exercício. Mas uma coisa é possível afirmar, a pessoa que somos hoje, é fruto de escolhas prévias que, certamente, irão nos dizer se fomos ou somos tolerantes demais ou de menos.

A maioria de nós flutua de um lado para o outro com muita frequência, mas há aqueles que escolhem a intolerância como bandeira. Esses precisam de uma revisão de seus conceitos o quanto antes. Se tolerar em demasia pode ser um problema, ser intolerante é, de fato, uma fonte inesgotável de desequilíbrio. Ser inflexível estabelece uma rigidez na forma de ser, pensar e agir que afasta qualquer possibilidade de usufruir e conhecer aquilo que é, naturalmente, diferente de nós. E isso pode ser o gatilho para atitudes, no mínimo, questionáveis.

A intolerância tem um potencial enorme para nos transformar em estúpidos e impacientes, uma vez que não há argumentos razoáveis para aqueles que só conseguem ver o mundo através do próprio umbigo. Pontos de vista estreitos provocam uma alteração da paisagem que se vê. Como se a vida fosse observada a partir de uma lente de aumento, por onde só é possível enxergar o que quer, quando quer e do jeito que for mais fácil. Intolerantes são limitados, isso é um fato.

Se de uma hora para outra, percebermos que nossos movimentos estão mais contidos, que a nossa gargalhada transformou-se em um sorriso pálido e que passamos a ver as coisas através de ângulos cada vez menores, é melhor ficar atento. Esses são sinais claros de que estamos cedendo aos limites e a falta de tolerância alheia.

Mas isso não é um problema. Basta parar e perceber que também é preciso ser tolerante consigo. Devemos dar segundas chances a nós mesmos. Isso nos permitirá enxergar, perceber, errar e aproveitar tudo aquilo que a vida nos oferece. Ser ou não ser intolerante proporcionou e continuará a proporcionar experiências que nos permitirão responder com segurança quem, de fato, nos tornamos.