Extremos insanos

Pensando sobre todos os acontecimentos recentes, em que somos estapeados a cada segundo por situações que beiram a barbárie, me dei conta que, a simples expressão de uma opinião, pode deflagrar confrontos de consequências imprevisíveis. Diante disso, é inevitável tentar buscar respostas que justifiquem o porquê de tamanho descontrole. Esse questionamento dispara um gatilho de dúvidas que nos fazem desconfiar da nossa própria percepção da realidade. Vivemos em extremos insanos onde é preciso escolher lados e bandeiras, caso contrário, é melhor não atrapalhar a massacrante opinião alheia.

Será que todos sempre foram assim, intolerantes? Será que os limites se romperam, criando polos, distantes o suficiente, para nublar os filtros que formam o nosso bom senso? O que é perceptível neste momento é a divisão que se instaurou nas relações. Se você ama vermelho, jamais poderá usar azul. Se prefere o frio, nunca poderá aproveitar dias de sol na praia. Essa distorção na forma de ver a vida, cria um ringue onde amigos viram adversários e opositores transformam-se em inimigos de morte. Esse absurdo promove rachaduras desnecessárias no que antes era íntegro, equilibrado e precioso.

Que vivemos uma dicotomia desproporcional, não resta dúvidas, mas, o que fazer para revertê-la? Percebo que a cada dia, as distâncias entre pontos de vista aumentam e jogam para escanteio toda e qualquer possibilidade de diálogo. Isso não é razoável. Desde quando nos tornamos impermeáveis a opiniões que não têm a menor pretensão de guerrear e, sim, propor diálogos? Desde quando fomos tomados pelo cinismo que nos faz achar que está tudo bem, enquanto desfazemos, em poucos instantes, laços que demoraram anos para serem atados?

Talvez sejamos parte importante desse movimento indiscriminadamente excludente. No instante em que nos sentimos contrariados por essa polarização e nos calamos, nos tornamos responsáveis por sua manutenção. De nada adianta apontar dedos para todos os lados, distribuindo culpas e rugindo reclamações, se escolhemos nos manter alheios. A omissão dos insatisfeitos é o combustível perfeito para os extremistas cheios de razões.

Mas acreditem, há algo de bom nessa onda de ódio gratuito e intolerância desmedida. Se por um lado perdemos o filtro social que sustenta a maioria das relações, ganhamos em transparência. Agora é possível enxergar perfis para além dos filtros virtuais e dissimulações reais. Como lidar com isso ainda é um desafio, o que não justifica a nossa permanência em um dos extremos rígidos que limitam a nossa percepção de mundo. Nadar contra essa corrente que nos foi imposta é a melhor resposta que pode ser dada a triste falta de compaixão que se espalha por todos os cantos.

Estabelecemos os nossos extremos à medida que avançamos e acumulamos experiências. O que significa dizer que esses limites mudam de acordo com a nossa disponibilidade em conhecer as margens opostas. Ficar estacionado em uma das extremidades nos impede de enxergar e, principalmente, compreender como seria o mundo visto por outra perspectiva. É chegada a hora de procurar o caminho do meio, onde os extremos se reconhecem e andam lado a lado.

Voltas que a vida dá

Subir e descer. Cair e levantar. Dar a volta por cima… Frases diferentes, mas que trazem algum significado para aqueles momentos onde tudo o que enxergamos é o chão sob os nossos pés. Horizonte nada agradável que, certamente, nenhum de nós gostaria de admirar por mais tempo que o absolutamente necessário. Mas, apesar de incômodo, estar por baixo, seja lá por qual razão, ajuda a criar uma perspectiva inesperada sobre a realidade que ficou para trás, no instante em que tropeçamos em uma das voltas que a vida dá.

Mas este texto não tem a menor intenção de mostrar saídas ou de apresentar um manual de como levantar-se dos pós queda. Ao contrário. O objetivo aqui é enaltecer a importância dessa roda gigante que se movimenta quando e como quer, obrigando que tudo ao seu redor se mova, seja para acompanha-la, seja para dar passagem a sua trajetória irrefreável. Seremos chacoalhados dos nossos altares de segurança, sobre isso não resta dúvidas, a questão é saber como lidar com os altos e baixos que a vida nos apresenta. Cabe uma sugestão? Aceitar.

Travamos lutas internas frequentes, por não aceitarmos os momentos em que o copo está meio vazio ou a gangorra está presa ao chão. E há uma razão para isso. Aprendemos desde a mais tenra infância que não podemos abrir a guarda para a derrota. Não lidamos bem com a ideia de insucesso pois não fomos treinados para suporta-lo. Acho que isso explica muitas coisas que vemos por aí, não é?

Conquistar aquilo que desejamos é incrível, claro. Mas, sabemos muito bem que ganhar sempre, em todos os campos, é improvável, para dizer o mínimo. Logo, precisamos parar de temer a derrota. O que não significa tomar gosto pela queda e sofrimento. Nada disso. O que precisamos fazer é encarar a derrota, assim como fazemos, tão naturalmente, com a vitória.

Querer ganhar sempre não é um problema. É apenas ingenuidade disfarçada de proatividade e, o quanto antes percebermos isso, menor será a carga de frustração quando o êxito não chegar. Percebam que, quando ganhamos, esquecemos alguns dos passos que nos conduziram até a vitória. Já na derrota, os degraus ficam gravados em nossa memória por muito tempo, obrigando a refazer, muitas e muitas vezes, a trajetória que nos levou até a queda. Se isso não é uma forma de aprendizado, não sei mais o que pode ser.

Pode ser clichê, mas é inegável que aprendemos com nossos passos em falso. Tentar ignora-los é o nosso erro mais recorrente. Continuar reforçando a imagem do perdedor é antigo, é tolo, é cínico. A roda de todos nós irá girar, em velocidades diferentes e ritmos variados, mas vai girar. E isso nos fará perceber que ganhar é bom, mas é ponto final. E que perder é ruim, mas é, também, a possibilidade de uma nova chance, nos momentos em que nada mais parece dar certo. Estes altos e baixos, ajudam a compreender que ganhar e perder são lados igualmente importantes, da mesma moeda.

Cair de maduro

Cair de maduro. Todos já ouviram essa expressão que, dentre várias possibilidades, significa que alcançamos o nível máximo de alguma coisa. O que não quer dizer quase nada, mas, estar maduro é, em alguma medida, estar pronto. O grande desafio é saber para que, quando e como deveremos estar prontos. Convivemos com essa espada sobre as nossas cabeças desde sempre. Encaramos situações diversas diariamente, mas isso não parece nos preparar para muitas coisas, uma vez que continuamos aguardando o instante em que estaremos, de fato, prontos.

Quando começamos a encarar os desafios que a vida nos impõe e, percebemos que o nível de dificuldade aumenta de forma proporcional ao avanço do tempo, é que passamos a desenvolver uma busca pelo momento em que nos tornaremos aptos. Enquanto esse momento não chega – se é que ele um dia chegará – seguimos substituindo certezas invisíveis por ansiedades concretas.

Envelhecemos de formas distintas, pois cada um de nós encara o passar dos anos de formas diferentes. Essa passagem através do tempo nos oferece um grande privilégio: a maturidade. Que não tem hora certa e muito menos data programada para acontecer. Pode ser aos quinze, aos vinte e cinto, aos quarenta e três ou aos oitenta e um. E pode ser que ela nunca pouse sobre as nossas vidas plenamente. Mas, e daí? O ato de amadurecer não é compulsório, é escolha.

A passagem do tempo é incontestável e não estabelece um estado de maturidade proporcional as rugas que acumulamos. Atravessar o tempo nos ajuda a agregar experiências que, no futuro, irão nos alertar sobre alguns padrões de comportamento já vividos e que, por motivos óbvios, não gostaríamos de recuperar. Muitos diriam que este é um dos sintomas mais comuns de maturidade. Não discordo, mas também percebo que, não é a dificuldade em acumular experiências e, sim, o que apreender a partir delas, o entrave que nos impede de reconhecer o momento em que nos tornamos maduros.

A percepção de que estamos amadurecendo, vem quando conseguimos, pouco a pouco, domar a ansiedade provocada pela inexperiência e, colocar em seu lugar, a serenidade própria de quem já experimentou e foi experimentado pela vida, de quem já caiu e levantou muitas vezes, de quem, enfim, compreendeu que viver é guardar e refazer estórias que, em algum momento, transformarão formas rígidas e sem gosto, em criaturas maleáveis e cheias de sabores.

Amadurecer é difícil. Sobretudo quando não se tem a dimensão de até onde podemos chegar. E, quanto mais restrito é este horizonte, mais apegados a experiências rasas e desinteressantes podemos ser. Essa visão de mundo, cheia de urgência e pouca paciência, tão comum aos jovens, nos leva a associar uma certa inconsequência à juventude, assim como relacionamos a serenidade com a velhice. É um lugar comum repleto de exceções.

Tirar o pé do acelerador, ampliar o campo de visão e, sobretudo, ser paciente… À medida em que nossos sentimentos se tornam mais brandos e o raciocínio toma o controle dos nossos atos, amadurecemos. Até mesmo aqueles que pontuam suas vidas por episódios regados a paixões desmedidas, acalmam seus exageros quando resgatam suas experiências anteriores. É quando entendemos que passamos muito tempo fazendo perguntas para as quais já tínhamos respostas que passavam despercebidas. Caímos de maduro quando nossas questões ingênuas não provocam mais tanta ansiedade. Caímos de maduro quando as perguntas diminuem seu ritmo e passam a andar de mãos dadas com as nossas próprias respostas.

Simples escolhas?

Outro dia, me peguei pensando em como seria se eu tivesse feito escolhas diferentes das que fiz. E comecei a imaginar onde estaria agora, quem estaria ao meu lado, onde estaria trabalhando ou se teria os mesmos amigos… Olhar para nossa própria existência com outros olhares pode ser um excelente exercício de autoavaliação. Resta saber o que faremos com o resultado final dessa prova. Daí me dei conta que, tantas questões sobre as vidas que poderia ter tido, estavam condicionadas a simples escolhas. E que escolhas podem ser tudo, menos coisas simples.

Olhar para dentro e imaginar nossos universos paralelos é uma tarefa que dominamos há tempos. Mas, quando estamos imersos em nossas rotinas, sequer percebemos as escolhas que fazemos. Mudar de itinerário para o trabalho, almoçar em lugares diferentes ou apresentar propostas usando novos recursos, são atitudes que dependem de escolhas simples em princípio, mas que, na verdade, podem nos conduzir a lugares quem nem a nossa fértil imaginação seria capaz de conceber.

Parar e pensar em como seria a vida, se tivéssemos escolhido caminhos diferentes, é simples, apesar do efeito colateral indesejado que pode acompanhar essa ação – a ressaca de frustrações. Parar e perceber nossas esolhas em tempo real é como tentar enxergar coisas muito pequenas, que fogem do nosso raio de percepção. Elas estão lá, mas não conseguimos reconhece-las. É como se tateássemos no escuro a procura de agulhas em palheiros gigantescos. Parece complicado, certo? E é, mas está longe de ser impossível.

Esse intervalo entre o que teria sido e, o que está por vir, movimenta uma engrenagem poderosa que nos desafia a cada instante. Ser quem somos é uma soma de escolhas. Ser quem gostaríamos de ser, mas não somos, é uma projeção das escolhas que não tivemos. Parece confuso, mas esse caldeirão de possibilidades é o que nos ajuda, diariamente, com as escolhas que fazemos, sejam elas conscientes ou não. Mas, independente das portas que se abrem ou fecham por conta das nossas opções, é preciso ter muita clareza que, a tomada de decisão é pessoal, intransferível e gera desdobramentos. Ou seja, fazer escolhas nem é tão complicado assim, agora, sustenta-las…

Esse texto não trata da dificuldade que cada um tem com as suas escolhas e, sim, em como elas sacodem as nossas vidas, como se estivéssemos à deriva em um mar revolto, aguardando por um resgate que nem sempre aparece. Escolhas provocam turbulências, sacolejos e surpresas, como em um jogo onde não sabemos qual será a próxima fase. Não escolher, nos coloca como observadores de uma tela que retrata uma bela paisagem com a qual jamais seremos capazes de interagir. Diante desse panorama, qual seria a sua escolha?

No fundo, o que todos queremos é que nossos caminhos sejam sempre incríveis e repletos de boas escolhas. Sonho? Sim, e daí? Acreditar que a trilha será tranquila e feliz, é o que nos faz seguir em frente, mesmo sabendo que aquilo que escolhemos, impacta a todos que estão ao nosso redor e o contrário também é verdadeiro. Acomodar-se nas escolhas do outro e permitir que outros sejam acolhidos pelas nossas decisões, é o grande desafio dessa brincadeira.

Boas e más escolhas vão e vem. Ora elas trazem luz, ora escurecem tudo a nossa volta. O que devemos fazer diante disso? Imaginar como teria sido se tivéssemos feito diferente, pode ser um bom começo para que novas possibilidades, transformem-se em realidade. Só que, para isso, não há receita de sucesso. O que nos deixa diante de uma situação nada fácil – viver intensamente, cada uma das nossas simples escolhas.

Correspondências do amor – Parte II

Outro dia desses, falávamos sobre a nossa dificuldade em compreender que o amor é um sentimento caprichoso que, para existir, precisa apenas do nosso consentimento. Amar é uma capacidade que nasce conosco e cresce à medida em que o mundo se agiganta diante de nós. Ou não. De todo modo, o que estabelece a nossa capacidade de amar, é a forma como apresentamos esse sentimento aos que se aproximam de nós pela vida afora. E, vou além. Saber amar é, também, compreender que as correspondências do amor, não tem destinatários. Estão aí para serem lidas por quem desejar.

Para amar, basta querer. Sobre isso não há discordância, o problema nasce quando acreditamos que isso só é possível, no momento em que recebemos um sinal verde, de alguém que está na outra margem de um rio desconhecido. Ou seja, o amor que vive escondido em nós, a espera de um sinal luminoso que nos autoriza a compartilha-lo, sempre que o outro demonstrar alguma iniciativa… Reparem que essa é a regra que aprendemos, repetimos e ensinamos uns aos outros desde sempre, o que não significa que esteja correta. Enganos repetidos não transformam-se em certezas.

A vida segue e nós seguimos, aguardando pelo sinal verde do outro lado da linha. E, como crianças chegando em um parque de diversões, nos perdemos em meio a sinais com diferentes intensidades. O que acontece em seguida? Nos confundimos e escolhemos os sinais errados, claro. O que não é ruim, pois ajuda a criar uma palheta de cores de alerta, que pode fazer a diferença para quando a urgência nos dominar e nos fizer correr rápido demais e não perceber que, o sinal era, na verdade, para parar e não para seguir em frente…

E, nessa dúvida entre parar ou seguir, é que nos apegamos aos sinais errados e ignoramos que o saber amar vem de nós e não dos outros. Que amar é uma condição particular que decidimos dividir com alguém por escolha e não por desespero. Acreditar que a salvação está no amor do outro, nos obriga a entrar em formas fabricadas para outras medidas. Sei que é difícil perceber tudo isso, quando estamos engajados na busca pelo fantástico amor perfeito que não existe. Mas, não esquecer que o amar é algo que parte de nós para os outros, já evitaria um bocado de equívocos por aí.

O grande desafio de saber amar é que não há um caminho pavimentado previamente, que nos dê segurança para caminhar sem sobressaltos. E, todas as vezes em que vislumbramos o sinal que indica o amor da nossa vida, não importa quantas tenham sido as tentativas, seguiremos o mesmo padrão repleto de atitudes aleatórias, que irão nos conduzir por caminhos completamente diferentes daqueles que passamos muito tempo planejando. Falta de juízo, como dizem…  O amor é sobre isso também, não é?

Independente dos tropeços que essa corrida em busca do amor nos impõe, não se pode perder de vista que, como diz a música, o nosso amor a gente inventa. Deixar na mão de quem quer que seja, a escolha de como, quando e por quanto tempo iremos compartilhar a nossa capacidade de amar é, além de um erro, uma injustiça. Duvidar dos sinais talvez seja uma boa saída. Duvide das cores e aproveite cada uma delas. Algumas serão facilmente esquecidas, outras brilharão tão forte que irão provocar cegueira instantânea. Mas, no fim dessa montanha russa de cores e formas, seremos sim, capazes de perceber quando será o momento certo de dividir, para aumentar, a intensidade dos nossos luminosos sinais de amor.

Pequenas conquistas

Muitas coisas nesta vida são capazes de trazer alegria, êxtase e um brilho persistente nos olhos de quem consegue, por mais simples que seja, celebrar seus bons momentos. A celebração vai muito além do óbvio calendário comemorativo que o tempo nos permite montar. Comemorar as pequenas conquistas, ainda que não pareçam especiais, nos dá a chance de compreender a importância de cada uma das nossas vitórias em momentos diferentes da vida.

É difícil, muitas vezes, considerar a celebração do simples em uma perspectiva real e cotidiana, uma vez que vivemos em tempos onde sobram motivos para desesperanças e faltam razões para valorizar as pequenas vitórias. Em um cenário onde as dificuldades são regra, é preciso buscar exceções que transformem a indiferença que nos cerca, em sensibilidade.

Essa questão vai muito além do ser ou não ser otimista, enxergar ou não o mundo com filtros que distorcem a realidade. Ser bem agradecido é algo que aprendemos desde muito cedo mas que, infelizmente, vamos deixando de lado. Talvez a nossa capacidade de comemorar as pequenas conquistas seja, pouco a pouco, substituída pela necessidade de se chegar aos patamares mais altos e mais disputados por quase todo mundo. O que cria uma miopia tão severa, que nos impede de perceber com nitidez, as cores de todas as outras coisas incríveis que conquistamos, apenas por não estarem formatadas com a grandiosidade que esperamos.

O curioso por trás da capacidade em perceber e valorizar nossos êxitos mais discretos, é que só paramos para pensar sobre eles, quando acreditamos ter perdido uma chance de conquistar grandes vitórias. Talvez este seja o nosso erro. Conceder o prêmio de consolação ao que transforma nossas vidas diariamente, sem muito alarde. Gastamos tanta energia na busca por sucessos superlativos e esporádicos, que esquecemos que é a batalha diária, a fonte da maioria das nossas conquistas.

Estar atento aos detalhes que nos levam onde queremos chegar, cria um efeito colateral muito bem-vindo: a gratidão. A partir do momento em que percebemos que nosso sucesso é fruto de planos discretos, de metas traçadas todo os dias ao sair de casa e das pessoas que escolhemos para compartilhar nossos desejos, ser grato torna-se uma adorável consequência. Mas, se tudo é assim tão simples, por que a grande maioria de nós não consegue enxergar a importância das pequenas realizações na construção de quem somos de verdade? A resposta pode não ser fácil, mas não é impossível.

Celebração. Gratidão. Conquistas. Passamos grande parte da vida na busca por esta trindade, na esperança que só conseguiremos atingir a felicidade plena quando nos tornarmos, enfim, capazes de domar estas três forças. O grande equívoco que cometemos é enxergar essas possibilidades apenas em escala macro. Como se todo o esforço feito para alcançar esse olimpo, fosse desimportante. Na corrida pelo sucesso inatingível, esquecemos de celebrar os pequenos êxitos e de agradecer por tê-los conquistado um pouco a cada dia.

Não há receita mágica que nos leve até as grandes conquistas. O que temos ao alcance das mãos todos os dias, é a possibilidade de vencer pequenos desafios que se acumulam ao longo do tempo, e que acabam transformando-se em conquistas memoráveis. Mas isso só é possível quando nos mantemos firmes, atentos, gratos e celebrando sempre as nossas pequenas conquistas.

Sob pressão

Como está a vida? Se fizermos essa pergunta a pessoas próximas, a resposta será a mesma: uma grande correria. Viver sob pressão é algo inerente ao que resolvemos chamar de vida moderna. Mas será que precisamos, de fato, correr tanto para alcançar e conquistar o que estiver em nosso caminho? Bom, cada um de nós desenha a própria estrada, mas, no geral, viver a vida como se estivéssemos em uma eterna corrida de velocidade, é a maneira mais fácil de alienar-se diante do mundo. Além de ser muito cansativo.

Que somos pressionados com uma frequência acima do aceitável, não é segredo. Vivemos em meio a um turbilhão de vozes que ordenam e cobram atitudes o tempo todo, em um esquema semelhante a uma linha de montagem, onde é necessário alcançar um produto final e acabado no menor tempo possível. Pouco importa como faremos para executar essa tarefa e qual será o custo pessoal ao final dessa empreitada. Simplesmente execute e não reclame. Afinal, o mundo não respeita aqueles que não suportam pressão…

Ouvimos essa bobagem repetidas vezes como se fosse uma verdade absoluta. Até que se torne, de fato, algo que acreditamos ser verdadeiro. É claro que existem cobranças óbvias, uma vez que todos compartilhamos a vontade de chegar ao lugar mais alto em nossa escala de sucesso. Mesmo sem saber direito que escala é essa. Para muitos de nós, querer o melhor significa, às vezes, apenas mudar a configuração do seu momento atual, sem manobras mirabolantes ou mudanças profundas. Desejos despretensiosos em sua gênese. Até serem confrontados com a pressão causada por opiniões alheias e vontades que superam a nossa capacidade de decisão.

Isso quer dizer, então, que a nossa trajetória deveria ser muito mais tranquila, se não fossem as pressões que sofremos a todo instante? Possivelmente, mas é difícil identificar se é a pressão que vem de fora, a causadora do nosso sofrimento ou, se nascemos com uma queda pela autocobrança. Ambos podem ser fontes isoladas, ou não, responsáveis por nos empurrar para essa eterna corrida rumo ao que quer que seja. E que, via de regra, tornam-se responsáveis por tropeços frequentes e, muitas vezes, desnecessários.

A pressão cria um estado de atenção permanente que, independente do lugar que ocupamos, estabelece uma tensão tão recorrente que passamos a aceita-la como parte de nós. Nos acostumamos, estranhamente, as batidas aceleradas de um coração em frequente descompasso e a noites de sono vazias repletas de picos de ansiedade.

Esse estado de alerta começa em momentos diferentes de nossas vidas e, a influência que terá sobre nós, vai depender de quanto tempo, cada um consegue manter-se imune aos seus efeitos. Sempre teremos, pairando sobre nossas cabeças, uma mão pesada que mostrará sua força por muitas vezes. Ora sentiremos pânico, ora acharemos necessária a presença deste impulso que nos arremessa adiante. O problema é quando aceitamos a pressão como uma obrigação. Um calvário voluntário que não cansa de dizer que, momentos de calmaria são exceções descartáveis. E, dessa forma, seguimos pressionados, porque acreditamos que é assim que deve ser. Não devemos, jamais, acreditar nisso.

Criamos códigos que disfarçam bem os nossos momentos mais tensos. Não é por acaso que lançamos mão de sorrisos largos que tentam mostrar felicidades desmedidas. Sentir-se pressionado frequentemente, nos faz criar rotas de fuga que mascaram incômodos e mostram aos nossos espectadores, que estaremos sempre prontos para o que der e vier. É possível mudar esse caminho que parece inevitável? Sim. Gestos simples podem ajudar. Olhar para dentro e perceber se qualquer querer justifica uma existência sob pressão, é um bom começo. É importante ter em mente que sempre estaremos diante de muitas batalhas, mas que, nem todas, valem o preço do nosso valioso sossego.

Aos que vieram antes

Antes, havia um amor, um trabalho, uma casa. Antes, havia escola, amigos e muitos sonhos. Antes, havia uma imensa vontade de saber como seria o depois… Passamos grande parte da nossa existência imaginando o futuro, querendo saber como será a vida em tempos que ainda não existem. Perdemos incontáveis horas do nosso escasso tempo, tentando moldar possibilidades e acabamos esquecendo que, para caminhar em frente, é preciso saber quem somos e, sobretudo, quem fomos. Criar uma super versão futura de nós mesmos, só é possível quando damos valor aos que vieram antes.

O presente sempre será o elo entre o que nos precedeu e aquilo que gostaríamos de ser. Isso nos dá a chance de entender a forma como construímos nossas trajetórias a partir das experiências prévias, boas ou não, que acumulamos vida afora. Porém, damos muito pouco crédito as pessoas que já fomos e concentramos muita energia para formatar a pessoa que queremos ser. Talvez o nosso grande equívoco seja desconectar um evento do outro, uma vez que jamais seremos futuro se não respeitarmos nossas versões passadas.

A grande questão aqui não é criticar nossa queda por projeções futuras. Isso é para lá de saudável e nos ajuda, imensamente, no desenvolvimento das nossas metas, além de ser um ótimo exercício que ensina a enxergar versões mais legais, mais ricas e mais felizes do que a atual. Tornar-se melhor não passa apenas pelo desejo instantâneo de querer ser o que não se é. Esperamos que o futuro surja como um passe de mágica, trazendo um pacote de felicidades que transformará a todos em criaturas incríveis de uma hora para outra. Isto até pode funcionar em nossos mais puros devaneios, mas está longe de ser algo possível na realidade.

Todos temos o nosso antes. Deixamos marcas no mundo à medida que o tempo passa por nós. Marcas estas, que criam uma longa sequência de degraus aleatórios que nos conduzem ao exato ponto onde estamos. Construímos nosso presente, caminhando às cegas e abrindo portas que só revelam seu conteúdo depois de abertas. Dessa forma, seguimos montando um quebra-cabeças diverso que, além de definir quem somos, abre espaço para incluir novas peças que podem nos levar até cenários inesperados.

Porém, não podemos esquecer que, como em um quebra-cabeças, imagens só se formam a partir de encaixes perfeitos. Por esta razão, fica difícil continuar acreditando em futuros, onde, magicamente, rompemos com tudo que vivemos até então, e nos transformamos em personagens sem qualquer compromisso com o próprio passado. Talvez este seja um dos motivos pelos quais a maioria das nossas previsões não se concretize no mundo real. Não é possível renovar-se quando escolhemos ignorar aqueles que fomos um dia.

Mas, é bom esclarecer que este texto não se trata de apego ao passado ou as amarras que ele nos traz. Ao contrário. Esta é, sim, uma exaltação as nossas versões anteriores, mas sem saudosismos vazios. É um carinho com as nossas cópias retrô, repletas de uma sabedoria própria, que só melhora com o passar do tempo.

O nosso antes, é como a fonte onde podemos mergulhar sempre que precisarmos encontrar chaves que irão que nos ajudar a abrir novas portas. Fonte que devemos contemplar, vez ou outra, para relembrar grandes acertos, sucessos acomodados e os erros responsáveis por mudar as nossas vidas. Sim, os erros. Aqueles que no tempo presente significam derrotas dolorosas, assumem ares de redentores quando são vistos com distância. Já os acertos, tornam-se guias para possíveis rotas onde surfaremos em boas ondas ou voaremos em céu de brigadeiro. Mas, não importa para onde a balança irá pesar mais. Só nos tornamos capazes de perceber as nuances que nos formam, quando entendemos que, só conseguiremos transformar nossas sonhadoras projeções de futuro em um presente possível, quando não abandonamos o que nos precedeu, quando não viramos as costas para aqueles que fomos antes.

Novas conquistas

Novidades acontecem o tempo todo para nos mostrar que, independente de nossas convicções, a vida se renova e segue seu fluxo contínuo e irrefreável. Do momento em que nascemos até os dias de hoje, concentramos forças para tentar compreender esse mecanismo complexo que nos diz que é preciso reinventar-se sempre e que, ao mesmo tempo, não devemos esquecer a essência que nos faz ser quem somos. Parece contraditório, e é. Mas, ao mesmo tempo, explica parte da inquietude que nos impulsiona em busca de novos saberes e novas conquistas.

Nascemos, crescemos, amizades são feitas e desfeitas. Criamos novas conexões que movimentam novos costumes e diferentes formas de pensar e interagir. Isso faz com que o mundo se movimente em direções diversas e, muitas vezes, contrárias as nossas visões tão engessadas e cheias de certezas. Visto dessa forma, parece fácil perceber a chegada das mudanças. Mas estamos longe disso. A novidade nem sempre é visível a olho nú e pode passar absolutamente despercebida, até para os mais atentos.

O que devemos fazer para não perder nenhum capítulo dessa história que muda em tempo real? É ingênuo imaginar que podemos dar conta de cada fato novo, mas não podemos abrir mão de algumas coisas. Disponibilidade para quem nos cerca, atenção com o que é essencial e flexibilidade para não enrijecer além do necessário. Receitas simples, mas que podem suavizar, em vários aspectos, a pesada rotina que aprisiona sonhos e encurta horizontes. Para acompanhar as mudanças é preciso tornar-se parte do processo e, não apenas, contentar-se em ser um mero observador, pronto para se queixar de tudo aquilo que fugir as suas expectativas vazias.

Mudar é difícil? Quanto a isso não há dúvidas, mas nada é mais desafiador que perceber-se inerte diante da mudança. Como se estivéssemos imóveis em meio a um vendaval que movimenta todas as peças ao nosso redor mas que, por alguma razão, nos mantém presos ao mesmo lugar, impossibilitados de usufruir dos novos ventos. Essa imobilidade é, por vezes, uma opção para qual não cabe julgamentos. O caminho que nos leva a liberdade de escolhas, também pode nos envolver com pesadas correntes que trazem a ilusão de que, quanto mais pesada for a caminhada, mais forte será a nossa postura diante das novidades do mundo. Nada além de um grande engano…

Ser parte de algo novo, não pode ser apenas um sonho para observar de longe. Tornar-se um agente transformador da própria realidade, traz uma infinidade de novas possibilidades aos que escolheram ou foram levados a acreditar que, mudanças, só ocorrem de fora para dentro. Isso é, além de perverso, a perpetuação de um comportamento que aprendemos desde muito cedo e que diz que devemos nos contentar com situações onde, a normalidade aparente, é responsável por felicidades burocráticas.

Ceder ao novo provoca, quase sempre, reações distintas, em intensidades diferentes e com tempo de duração indeterminado. Alguns aceitam boas novas tranquilamente, enquanto outros, passam anos avaliando se vale a pena mudar uma peça de lugar. Perdemos mais tempo que o necessário, avaliando se o agora é melhor que o depois ou se o antes é mais confiável do que aquilo que está por vir…

O tempo nos ajuda a entender que, contemplar o novo possibilita, não apenas o aprendizado, mas também, baixa nossa guarda diante das muitas barreiras que enfrentaremos diariamente. Mas isso não é suficiente. É necessário aceitar que a novidade, quando nos alcança, propõe desafios que vão além da superficialidade. Aceitar o novo só é possível quando mudanças internas ocorrem e nos permitem acreditar que, novos desafios só serão possíveis quando, finalmente, dermos voz aos anseios de novidade que mantivemos, por muito tempo, escondidos no silêncio.

Por isso eu corro demais

Acorde cedo. Trabalhe muito. Divirta-se como se fosse a última vez. Seja bom amigo. Embriague-se com frequência. Persiga a felicidade. Pratique esportes. Seja saudável e lindo. Durma um pouco, se for possível… Reparem que esta é uma lista de como devemos nos comportar em tempos moderníssimos. Só em ler essa sequência, já é possível sentir uma ansiedade sufocante. Nesta proposta, não há espaço para nada que fuja a esse insano padrão qualidade. Ficar triste ou cansado não é legal. É comum, é sem graça. Por isso eu corro demais. Para tentar ser o melhor, nem que seja, apenas, aos olhos dos outros. Será que este é o caminho?

Nunca fomos tão pressionados como agora. Mas também, nunca precisamos cumprir tantos pré-requisitos para sermos aceitos, apesar de caminharmos para um mundo onde a inclusão é uma pauta definitiva. Para entender melhor, basta olhar a sua volta. Sempre haverá um expoente em alguma tribo. Aquele que desperta, não apenas a nossa admiração, mas também, a de uma legião disposta a segui-lo e a copiar gestos, roupas, falas e posturas. À medida em que isso ocorre, cria-se uma padronização de comportamento. E, para todo padrão criado, nasce, ao mesmo tempo, uma massa de excluídos.

Sempre que miramos em algo ou em alguém que nos interessa, imediatamente pensamos em como seria se estivéssemos naquela posição. Em alguns casos, essa vontade de ser como o outro, desperta ansiedades difíceis de conter. Quando isso ocorre, entramos em uma frequência que diz que, para ocupar aquele lugar, é preciso abrir mão de algumas particularidades para tornar-se um rascunho de alguém que jamais seremos. E, assim, caminhamos em direção ao arriscado caminho daqueles que escolhem um padrão para chamar de seu.

Padrões estão por toda parte, dizendo o que devemos fazer, quando fazer e com quem fazer. Alguns conseguem ignorar essas correntes com tranquilidade, mas, para a grande maioria, é impossível resistir ao desejo de se aproximar de uma fórmula de sucesso, perseguida por muitos e privilégio de poucos. Fórmulas que não passam de armadilhas muito bem pensadas para atrair o maior número de admiradores que, tentarão a todo custo, apagar traços próprios e adequar suas medidas para que possam caber em fôrmas alheias e desconfortáveis.

Mas, se sabemos previamente que padrões existem e que, invariavelmente, seremos tragados por eles, por que não relaxar e aproveitar? Afinal, o que há de tão ruim em acordar todos os dias e travar batalhas com poucas chances de vitórias? Por que não seguir acreditando que sem dor não há ganho? O que há de errado em querer ser melhor, mais inteligente e mais bonito? Qual é o problema em querer mostrar que, além de sexy, somos saudáveis e bons de cama? E por que não fazer isso tudo ao mesmo tempo? Não há nada de errado com absolutamente nada disso, a não ser que isso cause, por menor que seja, algum tipo de dor ou sofrimento aos que tentam, incessantemente, alcançar marcas inalcançáveis.

A vida é feita de muitos ritmos e nem sempre conseguimos seguir o seu compasso. Especialmente quando tudo parece acelerar demais e distorcer as imagens a nossa volta. Corremos o mais rápido que conseguimos, na busca por padrões que funcionem como atalhos que nos levem a lugares que nem sabemos direito se queremos ir. E. no caminho, encontramos verdades nada fáceis de engolir.

Não aceitamos o fato de vivermos tão pouco e, talvez por isso, tenhamos tanta dificuldade em aceitar quem realmente somos e quais são os nossos limites. Sucumbimos a padrões tolos porque, supostamente, facilitam a nossa convivência. Corremos demais. Mas, ao contrário do que pensa, isso não faz ninguém experimentar a vida ao máximo. A pressa, por si só, exclui a calma necessária para aproveitar detalhes, trazendo consigo uma única certeza: quanto maior for a nossa velocidade, mais próximos estaremos do fim.