O desamor é tóxico

A vida tem se tornado, em linhas gerais, um desafio que vai muito além da simplicidade dos sonhos, dos desejos materiais ou da conquista de um espaço para chamar de seu. Parece que viver não é mais um ato natural que nos leva a acordar todas as manhãs, tocar a vida e fechar os olhos a noite para que tudo recomece. Parece que nos esquecemos como é viver de forma leve. É como se estivéssemos infectados por uma indiferença que nos impede, inclusive, de perceber como o desamor é tóxico.

Muitas são as mazelas que somos obrigados a enfrentar, o que nos leva a pôr em xeque, valores que sempre foram inquestionáveis, como a nossa capacidade de amar, por exemplo. Poucas coisas são tão devastadoras quanto duvidar do amor e sua força transformadora. É claro que isso gera efeitos colaterais que se desdobram como ondas gigantes, com tamanhos e intensidades diferentes, mas que, inevitavelmente, alcançam a todos.

Entender qual é a gênese desse movimento que prega o descaso e não o cuidado, a descrença no lugar da empatia e o ódio ao invés do amor, é o maior desafio em tempos tão difíceis. O mundo inteiro assiste, sem reações, ao levante de um mal que busca usurpar um protagonismo a qualquer custo. Achar que vivemos uma fase, é a chancela que a maldade precisa para espalhar-se como metástases de um câncer intratável. É hora de extirpar esse mal.

Não é mais possível permitir que o mal e todos os seus disfarces, continuem nos soterrando, humilhando, afogando, desabrigando e adoecendo. Não é possível que continuemos a ser alvejados por balas que saem de armas de inimigos infiltrados em nosso cotidiano, sem levantar suspeitas. O ritmo de perdas e danos provocados pelo desamor que se estabelece como nova ordem, é tão avassalador, que impõe a todos um choro constante, onde o nosso maior castigo é, justamente, não poder decidir o momento em que devemos parar de chorar.

Apesar de sentir e perceber que nos tornamos reféns do ódio escolhido por muitos, há inúmeras formas de minar sua força. Desamor é amargura. Ninguém se sustenta por muito tempo provando, exclusivamente, o amargo sabor do ódio, da inveja, do racismo e, muito menos, consegue manter-se respirando numa atmosfera contaminada pela indiferença.

É necessário e urgente que todos percebam a fonte do mal que os torna, inconscientemente, algozes uns dos outros. Precisamos de doçura, luz, ar puro e paz para tocar a vida. É a luz, não a escuridão, a responsável pelo retorno do equilíbrio, tão ignorado nos últimos tempos. É na luz que os olhos brilham. É na luz que a sinceridade se expressa. É na luz onde o amor se encontra.

O berro das minorias

É praticamente impossível nos dias de hoje, não perceber o quanto nos tornamos mais diversos e, com isso, menos tolerantes a vozes de comando que gritam alto demais, mas que não tem nada a dizer. Pouco a pouco, os cabrestos que sempre se encarregaram de apertar quando menos esperamos, começam a perceber que há algo diferente, como se os nós habituais não fossem mais capazes de conter uma voz crescente, que se cansou do silêncio. É o berro das minorias que descobriu-se potente e sem medo de transformar.

Os noticiários se encarregam, diariamente, de jogar em nossas caras toda sorte de horrores onde, para variar, as vidas afetadas são aquelas a quem nos acostumamos chamar de minorias. O que é muito estranho, para dizer o mínimo. Somos um país onde as mulheres representam mais da metade da população. Somos um país de maioria negra. Somos uma nação que bate recordes de público em paradas LGBT. Como é possível continuar chamando tudo isso de minoria?

Sabemos que há muitas respostas possíveis, mas nenhuma delas explica o fato dessa parcela mais que expressiva continuar sendo vista desta forma. Arrisco a dizer que, por traz dessa percepção de mundo compartilhada por todos nós, existe um grupo em desvantagem numérica que está desesperado. Desesperado com a ideia de perder os privilégios que estruturou ao longo dos séculos, para aqueles que, segundo a sua visão perversa e excludente, não merecem sonhar com dias melhores.

E, assim, criaram uma grande ilusão que nos fez acreditar que pequenos grupos são maioria e que grandes massas não passam de grupos insignificantes. Passamos anos acreditando que somos, de fato, muito poucos. Não se enxergar exercendo algumas profissões, não ter seus traços representados em brinquedos, não se ver refletido na arte. Não ocupar todos os espaços. Não. Não. Não… Se não pode ser visto, logo, não existe. Essa foi, e ainda é, a grande estratégia quem mantém a real minoria do controle de tudo.

Dividir para conquistar. Manobra de guerra eficaz quando se pretende minar a força de gigantes, para que eles jamais percebam o tamanho de seu poder de transformação. Mantendo-os eternamente adormecidos e afastados de tal forma que, como o passar do tempo, não são mais capazes de reconhecer suas próprias faces refletidas. Resultado de uma exclusão muito bem pensada.

Assumimos a convenção que estabelece que grupos desorganizados, mesmo que tenham claras características que os colocam em vantagem, serão chamados de minorias. Mulheres, negros, gays, crianças, pobres, imigrantes… Minorias. Brancos, abastados, religiosos, educados, políticos, banqueiros… O falso ideal da maioria inatingível. Desproporções que sustentam os pilares da desigualdade desde sempre e para sempre. Os anos não foram gentis com essa maioria fragmentada e incapaz de enxergar a sua própria potência. Até agora.

As barreiras que impediam que semelhantes se enxergassem como tal, caem a cada dia. O que leva essa massa a perceber que seu lugar no mundo não é aquele onde privações são a única realidade possível. À medida que pequenos grupos se reconhecem como único, espaços são reivindicados, direitos são conquistados e, a partir disso, passos para trás não serão mais tolerados. A mudança chegou. É hora de acolher, aprender a ser melhor e compreender que as diferenças, que sempre foram impostas, jamais foram reais.

Dia após dia as “minorias” encontram seus pares e voltam, após um interminável exílio, ao reconhecimento de sua própria face. Que é diversa, divertida, inteligente e muito potente. E isso, gostem ou não, é um caminho sem volta. Ainda bem.

Amarras por todos os lados

Acho que você deveria emagrecer. Por que não corta esse cabelo? Não vai casar? Nossa, como você é incrível! Não quer filhos?… O bombardeio de perguntas sobre todo e qualquer assunto, não chega a ser uma novidade, mas, o que fica cada vez mais nítido, não é apenas a curiosidade alheia ou o desejo por uma fofoca casual. O interesse em palpitar sobre a vida dos outros está cada vez mais intenso, como se estivéssemos cercados com amarras por todos os lados.

Se pararmos para pensar em todas as experiências que acumulamos até chegarmos aqui, certamente encontraremos uma série de eventos transformadores, provocados pela interferência alheia. Eventos esses, responsáveis por mudanças, para o bem ou para o mal, em diferentes níveis na vida de cada um nós. E o mais curioso é que essas cordas invisíveis envolvem desde os mais inseguros até os, supostamente, decididos e bem resolvidos.

É tanta gente nos dizendo o que, quando e como fazer, que fica difícil estabelecer o que é, de fato, a nossa própria opinião ou se estamos apenas refletindo a vontade do outro. Essa simbiose social em que estamos atolados até o pescoço é, possivelmente, a grande rede que nos mantém realmente conectados uns aos outros. Não é exagero dizer que não é o amor, a paixão ou a amizade que nos une. O que nos aproxima do outro é vontade incontrolável em saber, qualquer coisa, da vida alheia. Gesto pouco nobre, mas, genuinamente humano.

Por mais que alguns imaginem que são absolutamente imunes ao julgo alheio, sempre existirão aqueles gatilhos discretos, capazes de desorientar até mesmo os mais libertários. Muitas vezes, passamos anos sob o controle de tantos interesses externos e sequer percebemos que, grande parte das decisões que tomamos, estão muito pouco relacionadas a quem somos na essência. Reagimos muito mais diante daquilo que acham ou esperam de nós, que deixamos de lado atitudes que nos fariam verdadeiramente felizes.

Afrouxar essas amarras é uma ação complexa, que demanda tempo e energia. Além de uma vontade imensa de traçar novos rumos, mesmo sabendo que a vida, até então tranquila, se tornará um campo minado prestes a explodir a cada vez em que a escolha for o não ao invés do sim. Para construir-se forte, é necessário cortar as cordas que atam, paralisam e ferem. Mas, é preciso estar atento. Esse mundo louco não terá a menor cerimônia com aqueles que ousarem ser como são.

Vivemos, felizmente, em uma época onde muitos e muitas buscam, incessantemente, o seu direito a voz e a expressão de seus desejos e vontades. O que incomoda aqueles que sempre estiveram confortáveis em seus lugares privilegiados, apontando dedos para tudo que soasse diferente. Mas, mais importante do que perceber as amarras que nos prendem, é mostrar para aqueles que sempre seguraram as cordas, que seus nós, nunca mais serão capazes de conter o nosso desenfreado desejo de liberdade.

A dor em ver o outro partir

A vida passa rápido demais. Sempre ouvimos isso, especialmente daqueles com mais tempo de estrada. Porém, o que temos percebido é que, a velocidade deixou de ser, há tempos, a responsável por encurtar vidas e impedir a realização de sonhos. Parece que o mundo adotou um giro tão alucinado, que pôs tudo de ponta a cabeça. Tirando do lugar, coisas que jamais poderiam ser movidas, como a dor em ver o outro partir.

Esse estado confuso, nos impõe uma realidade tão absurda quanto desumana, que nos empurra para a beira de um abismo de onde só é possível enxergar indiferença e dor. Não sei se é possível dizer o ponto exato onde adotamos a insensibilidade como bandeira. Só sei que nada, nada, se compara ao poder destruidor da falta de comprometimento com as necessidades do outro, sejam elas quais forem. A partir do momento em que nos tornamos imunes as dores alheias, nos transformamos, também, em vítimas da nossa própria indiferença. O que significa dizer que estamos todos à deriva, buscando por alguém que nos resgate desse mar de intolerância.

É difícil perceber os efeitos desse mal que aflige a todos, uma vez que ele não tem uma rotina definida. Pode ter muitos nomes, muitas formas e diferentes intensidades. O que se sabe, concretamente, é que, a falta de cuidado com o outro só precisa de uma única chance para tornar-se um hábito. Que começa discreto e faz com que deixemos de lado uma coisa aqui, outra ali, até que em um dado momento, passamos a ignorar praticamente tudo aquilo que, aparentemente, não é importante. É nesse ponto, em que nos tornamos peças de um jogo onde, sem exceção, todos os participantes saem perdendo.

Tornar-se indiferente a tudo que, aparentemente, não lhe afeta, abre portas para uma série de efeitos colaterais deletérios, como a intolerância, o medo, o ódio e o desprezo por seu semelhante. E, para aumentar ainda mais esse caldeirão, o cotidiano nos brinda, a cada instante, com cenas injustas e desumanas, que beiram a primitividade a barbárie. Cenas que nos agridem com tanta frequência que, impressionantemente, acabam relegadas a banalidade. Compartilhar a dor e ser afetado por ela, só é possível quando ainda somos capazes de senti-la.

Crianças se perdem. Jovens são dizimados. Enterram-se desejos. Famílias são destroçadas. Sociedades entram em colapso. Perdemos nossa humanidade. Renegamos a empatia. Negamos direitos. Usurpamos poderes. Matamos sonhos que ainda não nasceram. Morremos um pouco a cada dia.

Até quando ficaremos indiferentes a isso?… Até quando?

É tão bom ter alguém

Não é bom estar sozinho. A vida é tão melhor quando temos alguém para dividir felicidades e tristezas. Busque alguém para passar os seus dias. Ficar só é sintoma de que algo vai mal. Tenha filhos para não se sentir solitário na velhice… Essas são algumas das máximas que são disparadas de forma indiscriminada, por uma patrulha de criaturas sempre prontas para apontar caminhos a seguir. Sem pensar nos efeitos colaterais de suas, ditas, boas intenções ou, ainda, se o outro está interessado em ouvi-las. O que achamos sobre isso? Pouco importa, afinal, é tão bom ter alguém.

Essas afirmativas que soam, ora como conselhos, ora como maldições, fazem com quem aprendamos a acreditar que estar só é uma espécie de castigo e, por isso, iniciamos uma busca incessante por parcerias que nos salvem deste triste destino. Como se o ideal de felicidade estivesse, visceralmente, ligado ao fato de estar conectado a alguém. E não é apenas isso. É necessário que essa ligação faça parte do ideal das parcerias românticas, onde só o amor é capaz de nos transformar em seres plenamente felizes.

Não se pode negar que partilhar nossos momentos é sempre algo prazeroso, reconfortante e necessário. Porém, estabelecer que isso só é possível, a partir do instante em que formos atingidos por flechas de cupidos desorientados, é de um romantismo que não corresponde a realidade. Dessa forma, cria-se, desde muito cedo, uma responsabilidade injusta, que estabelece que, se não for a dois e por amor, suas chances de alcançar a felicidade se aproximarão do zero. Deixando de lado, uma das coisas mais importantes para a vida de todos nós, que é, sem dúvidas, a capacidade de auto amar-se.

Essa dificuldade em perceber que não somos apenas uma casca e, sim, uma excelente companhia para nós mesmos, pode acarretar dificuldades em perceber quem somos e o que, de fato, nos agrada. Tudo isso por conta desta pressão irracional que nos diz que a nossa felicidade repousa sobre mãos desconhecidas e que, como num passe de mágica, surgirão a nossa frente, trazendo a solução para todos os problemas, uma vez que nada é capaz de superar a dádiva que é ter alguém para chamar de seu.

Com isso, deixamos de aprender como é fascinante sentir-se confortável quando vestimos a nossa própria pele e nos tornamos capazes de enxergar quem somos por inteiro. Algo tão simples de acontecer, não fosse a tirania social que impõe, seja de forma velada ou ostensiva, que é impossível ser feliz sozinho. É obvio que é maravilhoso compartilhar experiências onde há amor, mas esqueceram de nos contar que o amor assume várias formas, tem várias cores e muitas possibilidades. E por essas e outras, não seria justo eleger apenas o amor romântico como o passaporte para a felicidade.

Dizem que somos capazes de oferecer ao outro, apenas aquilo que trazemos conosco. Pode parecer clichê, mas é uma verdade. É difícil estabelecer afeto, quando depositamos no outro, a responsabilidade pela nossa felicidade. Precisamos parar diante do espelho e compreender que aquela pessoa que vemos refletida, tem o direito de se reconhecer inteira e amar-se incondicionalmente. Só assim será possível resistir a dura cobrança que nos diz as mesmas bobagens, todos os dias e de muitas formas, insistindo que para ser feliz é preciso ter alguém. Concordo, desde que sejamos nós os principais responsáveis pelo nosso próprio jeito de ser feliz.

Fragmentos irreais

Os últimos tempos tem sido pródigos em novidades. Até aí nada de novo. A grande diferença de tudo o que foi vivido antes para o que temos agora é, sem dúvida, a velocidade com que as experiências nos alcançam. A pressa é tamanha, que quase tudo nos escapa, e não queremos mais perder nenhum detalhe. Assim, abrimos mão de sermos únicos e criamos fragmentos irreais de nós mesmos, na tola tentativa de dominar a velocidade dos novos tempos.

O tempo deixou de ser o moderador de nossas existências, para assumir o posto de observador desse grande jogo no qual vivemos onde, o ganhador, será aquele que fingir melhor ser quem jamais foi, ter estado onde sequer imaginou estar ou parecer ter aquilo que nunca teve. A ansiedade em estar em todos os lugares e com todas as pessoas, faz nascer criaturas fragmentadas que não sabem ao certo de onde partir ou aonde querem chegar. A falta de percepção sobre o que é real, nos fazem acreditar nas irrelevâncias de uma vida cada vez mais editada.

O que parece estar muito claro, mesmo que não seja percebido por todos, é a batalha interna que travamos onde, o indivíduo que somos de fato, tenta conter os cacos que insistem em se espalhar por todos os lados. E, pelo que podemos ver, os nossos pedaços tão pequenos parecem vencer essa briga com folga. Afinal, quem nunca viveu o terrível dilema que nos leva a escolher, dentre milhares de opções, as partes de nós que julgamos próximas da perfeição? Queremos oferecer o melhor de nós sempre. Mesmo que seja uma fantasia.

O volume de possibilidades de interação mudou tanto, e em tão pouco tempo, que não é mais possível saber se os novos meios de comunicação nos fragmentaram ou se nos pulverizamos para poder atingir um número maior de conexões. É uma busca quase filosófica por respostas que, de fato, pouco importam. Estamos vivendo o delírio de uma vida editada por aplicativos e filtros que prometem, além da felicidade plena, a conquista de uma perfeição, concretamente, irreal.

De fato, nos habituamos a enxergar a vida por ângulos específicos. Vemos frações de paisagens. Rostos divididos, pratos de comida, corpos moldados sob a luz correta e sorrisos constrangedoramente felizes… Todos vistos por lentes especiais cuja a finalidade é criar o imaginário da perfeição. O que, obviamente, não é possível, uma vez que o ser perfeito não passa de uma peça publicitária bem elaborada, que diz que somos capazes de alcançar esse objetivo, apesar de sabe-lo inatingível… Assim sempre que chegarmos perto do que acreditamos ser perfeito, uma nova meta é criada. O que nos obriga a construir uma nova face o tempo todo, pois, só assim, conseguiremos estar, ingenuamente, a um passo de um lugar que jamais existirá.

Essa receita foi feita para dar errado, claro. Escolher ser muitos para agradar as demandas de um mundo tão diluído, provoca um efeito dominó onde todos dizem tudo para agradar a todos e, assim, conquistam a admiração de uma plateia sempre crescente. É aí que me vem a seguinte dúvida: será que vale perder o direito as próprias escolhas, a capacidade de dizer não ou a vontade de fazer apenas o que lhe agrada, somente para viver a ilusão de que podemos ser múltiplos na arte de fingir ser quem jamais seremos? Desconfio que, encontrar essa resposta, será o nosso grande desafio, diante desse acelerado novo tempo.

Corpos cobertos de lama

Vivemos em um grande atoleiro onde, cada tentativa de andar para frente, nos afunda cada vez mais. O que seria, por si só, uma situação repleta de agonia e indignação, transformou-se em um padrão social onde a maioria, estranhamente, acostumou-se a sobreviver com seus corpos cobertos de lama. Vemos a esperança e a felicidade brilharem ao longe. Esticamos nossos braços na tentativa de poder toca-las, mas, os nossos pés presos sob a lama não permitem que sigamos adiante.

Ao mesmo tempo em que nascemos sob o signo da dificuldade, somos levados a crer que todos teremos as mesmas oportunidades, basta querer. Mentirosos muito habilidosos compram a fidelidade de quem tem muito pouco a oferecer, além de sua simplicidade. Usando artimanhas milenares que oferecem ilusões deslumbrantemente falsas, em troca de sonhos roubados de pessoas simples e repletas de esperança. Vivemos em um lugar onde a simplicidade tornou-se vítima da ignorância.

Somos subjugados por nossos pares e, principalmente, por aqueles que se julgam acima de nós. Aqueles que aprenderam a conjugar o verbo ter e esqueceram da importância do ser, distanciando-se cada vez mais do encantamento da simplicidade, banham-se na felicidade arrogante provocada pela sede de querer ter mais e mais. Essa gente ignorante, na ausência de argumentos, se vale da força para disseminar seus hábitos e sua visão de mundo. Custe o que custar. Doa a quem doer.

Vivemos em lugar onde esconder-se virou a única opção para se manter vivo. Dizer o que pensa ou ser quem se é, agora, um risco de vida. Na verdade, sempre foi. A ignorância rasa se incomoda quando a simplicidade consegue romper a força da lama que a mantém em cárcere e passa a irradiar a beleza de ser comum. Como se perpetuar em um lugar de poder, quando todos se derem conta de que, a força dos ignorantes, é forjada a partir da dor e do sofrimento dos mais simples? Já sabemos a resposta, infelizmente.

Estamos todos parados. Presos. Soterrados. A felicidade e esperança parecem distante demais para serem alcançadas pela ponta de nossos dedos. Em seus lugares, o ódio e a indiferença parecem não ter pressa de partir, colocando a todos sob seus domínios, intoxicando cada vez mais a lama que recobre as nossas peles e que nubla a nossa visão de mundo.

O mais impressionante nesta insanidade que nos arrebata, é a incapacidade de muitos em perceber o quanto estão impassíveis diante de todo mal a que são submetidos. Essa insensibilidade os faz acreditar que nada é tão ruim quanto parece. Criaturas cobertas por uma lama sufocante, disfarçada de brisa de otimismo. Mais um ponto para os calhordas que, habilmente, espalham migalhas de pão dormido e criam a esperança de conduzir essa massa faminta, a um banquete que jamais será uma realidade em suas vidas.

A lama que nos cobre não vem, apenas, de barragens negligentes. Vem da falta de oportunidades a qual fomos acostumados a conviver e atribuir aos céus a nossa falta de sorte. Não. Jamais foi por isso. Somos, sistematicamente, privados de nosso bem mais precioso: a simplicidade. Aquela que nos faz querer apenas o que é importante e que nos leva a compartilhar com quem tem menos que nós. A simplicidade é a força capaz de anular a resistência que mantém nossos pés presos essa lama tóxica e perversa. A simplicidade nos dá a liberdade de escolher apenas aquilo que vale a pena viver. E nada é tão assustador para os ignorantes abastados, quanto a possibilidade de ver o poder do ser simples.

Jogo de gato e rato

Todos os dias perdemos algo que nos é caro, importante ou essencial. Fazemos escolhas inconsistentes acreditando que elas nos levarão a certezas concretas, mas, o que percebemos é que existem muitas variáveis entre esse meio e fim. Mas, até aí está tudo certo. Nossas escolhas sempre implicarão em perdas que fazem parte de um jogo de gato e rato que será presença constante em nossas vidas. O problema é quando a nossa realidade nos impede de fazer as próprias escolhas, sejam elas quais forem.

A conectividade ilimitada acelerou viagens, encurtou distâncias e criou pontes para todos os lados. Aumentando, assim, a sensação de que a nossa capacidade de fazer escolhas é, também, sem limites. Até seria, não fosse o simples fato de não estarmos sozinhos nesse mundo. Mundo esse que pensa cada vez mais igual, massacrando cada vez mais a diferenças, em prol de uma padronização de comportamentos, potencializada pela suposta facilidade que temos em fazer escolhas. Que grande cilada.

Somos levados a crer nesta fala que diz que podemos conquistar tudo, quando quisermos e o quanto aguentarmos. Mas, na prática, o que percebemos é exatamente o contrário. Diante de um cenário de múltiplas possibilidades, fica cada vez menor, a nossa capacidade de decidir o que é melhor para nós. Nos atrapalhamos entre tantas saídas e atalhos, que fingem nos levar para onde quisermos, mas, que no fim, nos mantém exatamente no mesmo lugar. Esse mundo pretensamente grandioso nos ilude com ofertas de escolhas vitoriosas, que não passam de derrotas disfarçadas.

Enquanto entramos nessa grande roda de hamster, perdemos de vista que nossos desejos não são suficientes para garantir que nossas escolhas sejam sempre acertadas. Estamos envoltos por muitas camadas que, propositalmente, nos distraem e distanciam daquilo que queremos. Perdemos horas de sono sem razão. Perdemos encontros importantes porque não temos tempo. Deixamos de vislumbrar a vida real por estarmos vidrados em telas brilhantes. Amores são perdidos por não sabermos reconhece-los. Quem disse que nossas escolhas só trazem ganhos?

A realidade em que vivemos traz pitadas de um surrealismo tão cínico quanto perverso. Pessoas saem de casa e por razões absolutamente descabidas, não conseguem retornar. A violência é a grande expressão disso. O desejo desenfreado por ter, faz com que deixemos de perceber que não é necessário querer tudo. Quando todos desejamos mais do que podemos ter, fatalmente esbarraremos na vontade do outro, gerando conflitos que criam uma grande deformação social que nos engole a todos e nos tira, sem pudores, tudo aquilo que nos é caro, importante ou essencial.

Se a vida é de fato um grande jogo, perder ou ganhar são efeitos mais que esperados. Esse equilíbrio de forças só é possível enquanto formos donos do nosso direito de escolha, seja para ganhar ou para perder, desde que seja uma decisão nossa. Querer abraçar todas as chances possíveis para, no fim, acumular êxitos, não é apenas uma ilusão, é a certeza de que o descontrole sobre as escolhas que o mundo nos oferece pode, e vai, nos fazer perder mais do que poderíamos imaginar.

Todo mundo tem algo a dizer

Dia desses, após passar algumas horas em um debate acalorado sobre assuntos descartáveis, percebi que estamos vivendo a era onde todo mundo tem algo a dizer, sobre todos os assuntos do mundo. Até aí tudo certo, uma vez que opinar é, de forma geral, uma maneira de ouvir colocações, sejam elas discordantes ou não. Mas, o que tem chamado atenção, de forma assustadora, é a capacidade ilimitada que alguns têm de falar muito, sobre assuntos com os quais jamais tiveram qualquer intimidade.

Somos parte de uma época onde, ao mesmo tempo que supervalorizamos a fala, esquecemos de sua cara metade: a escuta. E, em um cenário onde todos falam e ninguém se ouve, cria-se um campo fértil para toda a sorte de distorções e ruídos numa comunicação já precária. A ausência de uma escuta, nos obriga, não apenas, a aumentar o volume de nossas falas, mas, também, a falar sobre o que quer que seja. Assim, passamos a berrar opiniões inconsistentes aos quatro ventos, na tentativa de conquistar ouvintes disponíveis. O problema é quando decidem nos ouvir, justamente, quando não temos nada valioso a dizer.

O direito de se expressar não é democrático como parece, infelizmente. Há um número enorme de pessoas sem voz espalhadas por aí, esperando uma única chance para serem ouvidas. Chance que, muitas vezes, nunca chega. Em contrapartida, percebemos uma minoria formada pelos mesmos personagens, que parecem ter acesso irrestrito a expressão de sua voz e, por isso, são capazes de influenciar amplamente, todos aqueles que, cansados de gritar, decidem seguir o que lhes é dito. Opiniões padronizadas e pasteurizadas distribuídas sem moderação.

Talvez esta seja uma das razões que nos empurrem para tribunas imaginárias em busca de um lugar de fala. Lugar de fala. Expressão nova que traz significados que vão muito além da sua aparente simplicidade. Ter um lugar para expressar suas vivências, seus dramas e conquistas com propriedade, é fruto desse movimento que busca ouvidos interessados em ir além dos discursos encomendados e das frases feitas, utilizadas por quem tem a pretensão de acreditar que pode falar sobre tudo e para todos. Não. Isso não é possível.

Hoje, um mundo de possibilidades permite o embate entre os que precisam ser ouvidos e os que sempre tiveram voz. O que é interessante por si só, uma vez que a transferência de pontos de vista busca, em teoria, um entendimento maior sobre as questões que nos cercam. Pena que isso é tudo o que não temos. Os lugares de fala são minimizados, sempre que seus representantes legítimos tentam se fazer ouvir. Agonias sufocadas quando vem à tona, desconcertam e desconstroem aqueles que fizeram de tudo para mantê-las longe dos holofotes.

Em tempos onde muitos falam e poucos escutam, a desesperança se instala de forma tão confortável, que nos impede de ver saídas que retomem o caminho do diálogo. Apesar de ser uma tarefa nada fácil, ela é, sim, possível. Para entender o que são os lugares de fala, é preciso resgatar velhos ensinamentos. Colocar-se no lugar do outro, não fazer com alguém o que não gostaria que fizessem com você, respeitar as opiniões diferentes da sua e ter, sobretudo, mais amor para compartilhar. Ingredientes simples que estruturam um dos maiores tesouros que podemos partilhar nessa vida: a empatia. A única capaz de mostrar que todos temos que respeitar, em doses iguais, o direito de falar sobre o que nos movimenta e o dever de ouvir sobre as dores e os amores do outro.

Cortinas de fumaça

O que não querem que vejamos? O que está por trás daquilo que é dito apenas para confundir? Nos fazemos estas perguntas o tempo todo, o que é um claro sinal de que sofremos tentativas de engano tão frequentes, que já incorporamos ao nosso dia a dia a ideia de termos um algoz a nossa espreita. Criaturas prontas para criar cortinas de fumaça que desviam a nossa atenção para o que de fato importa. Um truque quase perfeito. Quase…

O que ouvimos hoje, de pessoas que jamais deveriam prestar desserviços sociais, não nasceu agora. Aprendemos desde muito cedo a ludibriar a verdade, transformando caminhos retos, em curvas confusas que irão, supostamente, suavizar a caminhada. Com essa primeira lição, fica claro que a verdade é algo direto, duro e, por vezes, doloroso demais para encarar. Talvez isso explique a nossa predileção por mentirinhas suaves, utilizadas sempre que for preciso amortecer o peso da verdade.

Entramos em contato com um mundo encoberto por uma névoa densa ainda na infância. Sob o pretexto de desviar dos olhares infantis, tudo aquilo que acreditamos ser mal e, dessa forma, assegurar a pureza das crianças. Exemplos clássicos podem ajudar a entender isso. Quando arrumamos nossos filhos, criando neles a esperança de um passeio agradável quando, na verdade, é uma dolorosa vacina que os espera. Ou, quando juramos a eles que compraremos aquele brinquedo na volta. Isso, sem falar dos medos que plantamos em seus corações, com o pretexto de protege-los das maldades do mundo. Desvios de atenção nascidos na boa fé, que podem se transformar em grandes armadilhas.

Por que a verdade é tão temida, a ponto de criarmos tantas artimanhas para alterar a sua verdadeira forma? Podemos fingir que não, mas, lá no fundo, todos sabemos a resposta. Fomos criados sob a ilusão de que caminhos tortuosos, apesar de longos e confusos, trazem algum conforto. Já, a verdade, só conhece retas duras, que não se dobram a nossa vontade. Talvez por isso seja atribuída a ela, adjetivos que rimam mais com dor do que com amor. Afinal, algo nu e cru, com pernas curtas e que provoca dor quando se apresenta, não deve ser uma coisa tão boa assim…

E, com base neste julgamento para lá de equivocado, nos habituamos a confundir verdades incontestáveis com mentiras sinceras. Criando, assim, um híbrido entre o certo e o errado que se fortalece continuamente, até tornar-se um só. É neste ponto onde névoas suaves transformam-se em densas cortinas de fumaça que tem como missão principal, fazer com que acreditemos nas distorções que mostram partes de um todo, mas, jamais, a imagem original. Atenção redobrada, pois, a negação da verdade, seja intencional ou não, nos leva a criar atalhos que, ao invés de facilitar trajetórias, nos empurram, de forma irreversível, para abismos repletos de mentiras.