O sentimento mais cobiçado do mercado

            Amores vêm e vão. Todos sabemos que o ato de amar pode significar tudo, menos a privação da liberdade. Mas, se isso não é nenhum segredo, por que razão cometemos o mesmo erro repetidas vezes? Por que tentamos, a qualquer custo, sustentar relacionamentos em ruínas? Vai saber, mas tenho cá minhas dúvidas se, o que nos mantem presos a essas relações, é o amor ao outro ou o simples desejo de manter guardado no peito, o sentimento mais cobiçado do mercado.

            O amor é inebriante, fato. E isso faz com que o simples contato com ele, provoque tantas reações inesperadas e incomuns, que levam a nocaute praticamente todas as criaturas que cruzam o seu caminho. O que, olhando de forma isenta, parece um tanto assustador imaginar que um único sentimento é capaz de alterações tão profundas. Mas, como ficar isento diante de algo que mais parece um tsunami? Quando acreditamos estar longe de seu alcance, ele chega, sem qualquer aviso prévio, e nos arrebata sem dar chance de defesa.

            O amor, em si, é único. Amamos e ponto. Mas, é claro que há muitas nuances na maneira como expressamos esse sentimento. Intensos, suaves, insanos, divertidos, descontrolados… Ou tudo isso ao mesmo tempo, variando de acordo com o gosto e temperamento do freguês. Os objetos do amor mudam ao longo da vida. Mais para alguns, menos para outros, mas, em geral, o amor sempre se apresenta. E adoramos quando isso acontece, mesmo sem saber para onde isso irá nos levar.

           Esse sentimento que os poetas pintaram com as tintas de romantismo, não passa de reações químicas fortíssimas que dominam o nosso sistema nervoso, segundo a ciência. O que, trocando em miúdos, uma vez apaixonado, nosso cérebro altera tudo ao seu alcance. O que nos deixa emocionalmente alterados, também provoca mudanças fisiológicas. Esse sentimento é químico, é biológico e pode provocar dependência. O amor é profundamente cerebral, mas não revelem isso ao coração, ele pode não aguentar.

         É desafiador tentar racionalizar algo que é, essencialmente, sentimento. Mas, não há como não se perguntar, diante desse cenário, se o que nos faz falta é amar alguém ou se, o que queremos, de fato, é ter a oportunidade de sermos atropelados por essa força da natureza que resolvemos chamar de amor? Pode parecer um tanto confuso, e é. Amar não é simples, o que não significa que precise ser complexo. Muitas vezes não sabemos lidar com ele, o que causa um certo pânico. E, possivelmente, essa seja a razão de cometermos sempre o mesmo equívoco – tentar ter controle sobre um sentimento que suporta amarras.

              O que faz com que nos percamos no meio desse caminho cheio de atalhos e curvas, é a dificuldade em enxergar que o amor é uma imagem espelhada, uma estrada que corre junto a um rio, dois corpos de mãos dadas. O amor precisa estar latente, precisa ser sentido, mesmo quando não há alguém para fazer o papel da pessoa amada. O amor é uma ponte permanente, sempre pronta a realizar novas conexões e, mesmo que isso não ocorra, essa ponte estará ali para nos mostrar que, independente de sua mágica, o amor é sentimento que se constrói livremente de dentro para fora. Nunca ao contrário.

Um universo de possibilidades

            Como será que criamos as nossas preferências, nossos gostos e prazeres? E, por que, achamos melhor o verde e não o amarelo? É claro que, muito do que somos deve-se a quantidade de informações sensoriais que tivemos vida afora. Quanto mais experimentamos, maiores as nossas chances de escolha, o que nos torna mais abertos às oportunidades que o mundo pode nos oferecer, certo? Nem sempre… Nem sempre. Muitas pessoas preferem fazer escolhas precoces que, infelizmente, deixam de fora um universo de possibilidades que a vida tem para nos mostrar.

            Quem de nós nunca afirmou, categoricamente, não gostar de tal estilo musical, uma determinada festa ou local onde, supostamente, não se sentiria à vontade? É claro que todas essas reações podem ser genuínas e, de fato, o contato com determinadas situações possa causar desconforto. Mas, sem medo de exagerar, percebo que na maioria das vezes, nos negamos a oportunidade de experimentar o novo, por uma única e simples razão – a novidade nem sempre é confortável.

          E, talvez, a sua maior importância seja a sua imprevisibilidade, pois não nos permite adivinhar os próximos passos, criar raízes ou acomodar-se diante daquilo que acreditamos ser nosso por direito. Sabemos que é difícil estar, o tempo todo, em busca do novo, mas, não podemos esquecer que é para lá de saudável, sentir aquele frio na barriga, quando nos deparamos com algo que, ainda, não conhecemos. É f ato que cada um de nós lida com a novidade de forma muito particular, o que justifica, em parte, a nossa resistência.

          Mas, o que provoca um certo espanto, é perceber que, cada vez mais, renunciamos a novas experiências, não por serem difíceis, mas, sim, por medo ou preguiça. A tão falada zona de conforto pode ser, neste caso específico, a grande responsável pela paralisia que nos impede de viver e aproveitar novas pessoas, lugares, trilhas sonoras, livros, comidas e profissões. Estar seguro sobre os próprios interesses, não nos impede de vivenciar o que é desconhecido. Agora, acreditar que nada pode superar o prazer de uma experiência repetida incontáveis vezes, é, sem dúvida, fechar portas e janelas para um admirável mundo novo.

         Portanto, quando estiver diante do desconhecido, tenha medo, mas não se deixe paralisar. Escolher o caminho imediato do “não gosto” ou “não quero, é a parte fácil. Aceitar o desafio de seguir em frente, mesmo sobre pernas trêmulas, pode nos conduzir a momentos memoráveis e insubstituíveis. Pense nisso.

Vida de criança

            A vida adulta requer muitas responsabilidades, correria, dificuldades e um bom número de frustrações. Até aí nenhuma novidade. Somos testados em níveis inimagináveis praticamente todos os dias, o que nos leva a criar cascas protetoras que, à medida que o tempo passa, enrijecem e aumentam proporcionalmente ao número de pauladas que a vida nos reserva. Mas isso não é privilégio dos adultos. Os pequenos também estão a mercê dos humores do mundo, apesar das nossas tentativas de suavizar a estrada. Mas, o que a realidade nos mostra é que vida de criança não é nada fácil.

            O tempo vai passando e a ideia de infância muda junto com o nosso corpo. Seios crescem, pelo aparecem, hormônios enlouquecem. Sinais que são usados para gritar ao mundo que não há mais lugar para a criança que fomos. Há uma pressa quase inexplicável em mudar de pele, em deixar para trás o sorriso estridente e o carinho explícito e sem moderações que só as crianças sabem expressar. Abrimos mão, tão precocemente, da nossa primeira fase exploratória, que mal temos tempo de perceber todas as estrelas que deixamos de alcançar.

            Para além da velocidade imutável do tempo, não se sabe por qual razão, resolvemos pular etapas nesse processo e desejar, cada vez mais cedo, que a tenra infância seja cada vez mais breve. Uma estranheza que só faz sentido na fase mais tensa e transitória de nossas vidas – a adolescência. Mas, como essa fase da vida é pródiga em equívocos, levaremos muito tempo nos lamentando por ter desejado, um dia, deixar de ser criança.

            Porém, a infância não é conceito uniforme e compartilhado por todos. Ser criança nem sempre é uma dádiva. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, crianças não tinham direito a sua infância. Famílias eram numerosas não porque isso significava um símbolo de amor e união. Pais precisavam de mão de obra e, seus filhos, eram esse braço forte. Nesses casos, a infância jamais foi páreo para a necessidade de sobrevivência. O amor que costura as relações familiares é um acontecimento recente, o que, talvez explique, a diferença no olhar que cada um de nós tem sobre o que é ser criança.

        Fome. Miséria. Guerra. Dinheiro. Violência. Sentinelas das desigualdades humanas, responsáveis por confiscar o direito mais fundamental de todos nós – a infância. Nossas crianças caem como fantoches diante de muitas injustiças para as quais não têm a menor chance de resistência. Como garantir às crianças, o direito a própria infância? É preciso se apropriar do amor. Entendendo que, apesar das dificuldades óbvias que irão nos acompanhar vida afora, garantir as delícias da infância, vai permitir que os adultos de hoje, de ontem e de sempre, tenham consigo o direito de sonhar e que jamais possam se envergonhar de demonstrar verdade, carinho e amor livres de preconceitos, como só as crianças sabem fazer.

Dedos apontados

            Já perceberam a quantidade de dedos apontados para todos nós o tempo todo? É como se vivêssemos em um mundo onde todos são juízes e, nós, os únicos culpados. Porém, o mais curioso disso é que, como quase tudo na vida, migramos de um lado para o outro dessa moeda com uma tranquilidade que vem sempre acompanhada de uma certa cara de pau. Apesar dessa ambiguidade, temos a nossa posição preferida nesse jogo e, certamente, não é aquela de onde enxergamos os dedos apontados para nós.

            Adoramos meter o dedo onde não somos chamados, adoramos. Por mais que muitos digam o contrário, somos enxeridos por natureza. E isso nem sempre é legal. O papel do acusador é o nosso preferido e isso não é à toa, afinal, dizer o que o outro deve fazer, sentir, pensar ou agir é muito confortável e nos dá uma deliciosa sensação de poder. Mesmo que isso não passe de uma tola ilusão. Ser curioso não é algo que nos torna malignos, ao contrário. O que seria de nós sem a curiosidade que nos presenteou com tantas maravilhas ao longo dos tempos?

            Não se trata de ser ou não curioso e, sim, o que fazemos da nossa curiosidade. Muitos preferem deixar de lado a delícia de uma descoberta boa, pela imaginação contaminada de suposições rasas. Chega um momento em que escolhemos, mesmo sem perceber, se queremos o caminho mais fácil ou o mais complexo, se queremos descobertas árduas ou se preferimos invenções convenientes. É bom ficar atento, pois, essa escolha, tem mais a ver conosco do que com o outro.

            Mas há um bom termômetro para perceber quando começamos a apurar demais o nosso julgamento raso – ter opinião formada sobre tudo e todos. É nesse instante que assumimos, permanentemente, o papel de julgadores sem culpa. Quem se leva a sério demais, não aceita a ideia do erro, logo, jamais poderá ser julgado. Muitas pessoas, seja por ingenuidade, circunstância ou desvio de caráter, aprendem que a melhor forma de não expor seus erros, é escancarar o erro do outro. Simples assim. Será?

            Não sei se há uma receita mágica que nos faça perceber que não é possível ser só pedra ou só vidraça. Seremos apontados, acusados e julgados muitas e muitas vezes. Algumas poucas com uma certa justiça, mas, na maioria das vezes, estaremos expostos a altíssimos níveis de maledicência e perversidade. Tudo certo, isso não é o fim do mundo, apesar de ser lamentável. Leva tempo para criar uma casca grossa que nos proteja destes dedos em riste voltados para nós.

           Mas, suportar tudo isso pode ser mais simples do que se imagina. Basta praticar um exercício relativamente simples: trocar os papéis. Se a posição do acusado injustiçado lhe incomodar, pense duas vezes se vale a pena se manter na pele do acusador leviano, afinal, nesta vida não podemos duvidar que a empatia pode nos salvar e que, assim como, jamais devemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. Sempre.

O amor é f*oda

            O que pode ser maior que a política, mais empolgante que o futebol e mais urgente que o aquecimento global? O que nos conecta de forma tão forte quanto inesperada e que faz parte, em alguma medida, da vida de todos nós? O que mais poderia ser, senão o amor? Esse entorpecente disfarçado de sentimento, capaz de nocautear até o mais resistente dos incrédulos e provocar palpitações naqueles que juram que esse sentimento não passa de uma grande bobagem. O amor é foda. Não há como negar.

            O amor faz o que quer, independente do que achamos ou deixamos de achar. Mas, por que damos carta branca para um sentimento nos virar de ponta a cabeça sem nenhuma cerimônia? A resposta até que é simples. Categorizamos os sentimentos de acordo com o momento da vida. Esperança para superar problemas, felicidade para aplacar as dores, raiva para extravasar frustrações e por aí vai. Para a maioria dos sentimentos, doses únicas e eficazes. Mas, quando se trata do amor, deixamos esse protocolo de lado e caímos de boca na superdosagem. Queremos a embriaguez, o exagero, a taquicardia e a descompostura.

           Se o amor fosse uma pessoa, ele certamente diria: Não pediu tanto para que eu viesse? Agora aguenta! A causa mais provável para essa falta de filtro tão peculiar, é a certeza de que, apesar de sermos tão diferentes, compartilhamos a crença de que a vida só é boa quando se ama ou se é amado. Essa cilada que o amor romântico impregnou em todos nós, tem bagunçado um pouco a percepção do que é, de fato, esse sentimento. O amor virou um objeto de valor para ser ostentado de forma quase infantil, tipo “eu tenho, você não tem!”

          O problema é que, quando tratamos de valores, pensamos logo em capitalizar o produto. Não é preciso dizer que o mercado entendeu isso há tempos e fez do amor, um grande balcão de negócios e nós, embarcamos nessa. Assim, iniciamos uma corrida maluca, atrás de um produto que acreditamos ser o amor. Se não for igual ao que está na vitrine, corremos atrás de similares de qualidade duvidosa. Quando não conseguimos adquirir o tão almejado produto, os frustramos por acreditar que, definitivamente, o amor não cabe em nosso orçamento sentimental. Absurdos da vida moderna.

              E, em meio a euforia da busca pelo sentimento perfeito, confundimos tudo. Chamamos paixão de amor, amor de tesão, tesão de culpa, culpa de carência, carência de solidão e solidão de fracasso. Apenas por sermos levados a crer que o amor é algo que chega de fora para dentro, como um produto que se compra ou como uma gentileza feita por um outro qualquer. Nos colocamos em um leilão às cegas, a espera de um lance final.

            Nesse corre-corre atrás do que pensamos ser uma dádiva para poucos, deixamos de enxergar dos olhos para dentro, de ouvir nossos sons internos e de falar aquilo que só vale para nós. Esse é o caminho mais curto para encontrar o que passamos anos e anos perseguindo, sem muito sucesso. Resgatar isso, é um grande passo para confirmar que não é o amor alheio que nos escolhe. Só amamos para fora de nossas barreiras, verdadeiramente, quando transbordamos o amor que está muito bem cuidado dentro de nós. É neste instante que descobrimos que o amor é, absolutamente, foda.

Ar rarefeito

            Seria maravilhoso começar um texto falando sobre amenidades, amores e conquistas. Seria incrível poder compartilhar vitórias, felicidades e sucesso. Seria, se não fosse o peso de viver em tempos tão sombrios, onde dormimos e acordamos com a impressão de que não teremos energia para enfrentar os desafios mais simples. Vivemos em tempos de ar rarefeito, onde nos falta oxigênio para inflar nossos pulmões de vida e esperança para continuar seguindo em frente. Seguimos sem fôlego para correr, sem forças para lutar e sem voz para expressar as nossas dores.

            Nos privam do básico. Estamos doentes e ignorantes e, por isto, apáticos. Somos açoitados diariamente e levados a acreditar que devemos ser gratos pelas migalhas espalhadas ao vento. Essa dor é parte tão permanente de nosso cotidiano, que tornou-se indetectável. Incorporamos as desigualdades e transformamos o mal em algo banal. A maldade e os maldosos, cresceram pouco a pouco, sem chamar muita atenção, fizeram morada em áreas premeditadamente esquecidas, até que, enfim, tornaram-se parte da paisagem de forma indelével.

            O que é absolutamente conveniente, uma vez que poucas coisas são tão eficazes para controlar a massa, quanto o principal efeito colateral da maldade: o medo. Estamos todos amedrontados por motivos diversos. Tire das pessoas o seu ganha-pão, a sua saúde, a sua chance de ser instruída e substitua isso por uma incerteza esperançosa. Nada é tão eficaz quanto a dar a esperança por dias melhores, para aqueles que não possuem horizonte algum para vislumbrar. A fórmula é bem simples. Nos impedem de realizar nossos sonhos e, ao mesmo tempo, nos levam a crer que somos incompetentes demais para concretiza-los.

            Vivemos em ciclos. A humanidade segue o compasso do tempo, que sempre caminha para frente, em direção ao futuro e ao desconhecido. Mas, parece que, de tempos em tempos, resolvemos revisitar um passado, onde cometemos erros que, apesar de imperdoáveis, teimamos em esquecer. Mas há um lado bom nisso tudo. Constatar os ciclos é, também, ter a certeza de que voltaremos aos trilhos que nos levarão adiante, deixando para trás tantas dores, medos e, principalmente, os canalhas que nos provocam tanto sofrer.

       Crianças são barbaramente interrompidas. Jovens são monstruosamente violados. Famílias são injustamente destruídas. Florestas são perversamente queimadas. Tudo em nome de uma ordem que serve apenas para nos enganar, que serve apenas para nos manter sob controle. Mas, a história nos mostra que não há mal que dure para sempre, isso é um fato. Logo, é preciso acreditar que dias melhores estão a caminho. É hora de encher nossos peitos de ar e gritar a plenos pulmões que os implacáveis ventos da mudança não tardarão a chegar. O que significa dizer que, a maldade e seus maldosos covardes, apesar de não acreditarem, estão com seus dias contados.

Amor em tempos de ignorância

          Muitas são as lições que recebemos ao longo do tempo. Mas, dentre as principais estão: só o amor é capaz de nos transformar, só o amor pode nos salvar, só o amor pode nos tornar, verdadeiramente, felizes. Independente de tudo o que aprendemos sobre este nobre sentimento, todos nós concordamos em, pelo menos, um ponto: Amor é entrega. É algo que sentimos, não para manter guardado, mas, para distribuir e contaminar tudo ao nosso redor. Porém, como fazer isso em tempos onde a intolerância nos envenena? Como compartilhar o amor em tempos de ignorância?

        O amor é, essencialmente, um sentimento que depende dos sentidos. Precisamos enxergar, tocar, cheirar, sentir o gosto e ouvir todas as coisas e pessoas que nos farão cair de amores ao longo da vida. Abraços apertados aproximam para além dos limites físicos. Cheiros nos fazem viajar no tempo. Sabores ficam gravados em nossa memória para sempre, assim como as canções que embalaram as estórias que permitiram ser quem somos. O amor se alimenta dessas experiências. Sempre foi assim. Até agora.

          Já faz algum tempo que o amor, por si só, não transforma tudo aquilo que toca. Passamos grande parte da vida idealizando esse sentimento. Tanto que ficamos reféns de algo que desejamos muito, mas que, também, temos muita dificuldade de entender. O amor se transformou numa caça ao tesouro, só esqueceram de contar qual é o seu verdadeiro brilho. E, diante da ausência de uma face óbvia, começamos a duvidar um pouco de sua existência e, sobretudo, da força transformadora desse sentimento tão necessário.

           Esse ceticismo que pôs o amor em cheque, fortaleceu traços que jamais deveriam ficar fora de controle, como a inveja, a intolerância e a desconfiança. Combustíveis prontos para acender a chama da ignorância que, nos dias de hoje, parece não conhecer limites. E, em paralelo, a vida moderna nos oferece, cada vez mais, uma forma de viver onde a troca de experiências é opcional. Comemos sozinhos, não saímos de casa para comprar pão, não ouvimos mais a voz do outro e não observamos o sol se pôr, sentindo a brisa nos tocar carinhosamente

       Fazemos isso pela tela de um equipamento eletrônico que pretende encurtar distâncias, mas que está, cada dia mais, criando barreiras praticamente intransponíveis. Barreiras que nos impedem de ver, sentir, tocar e ouvir o que o outro tem a nos dizer. Abrindo caminho para que a única fonte de interação com o mundo, seja a nossa própria voz e a nossa forma de pensar. Criando distâncias desnecessárias que, quando somadas, formam um grande e perigoso labirinto de ignorâncias.

       E o amor, que precisa de pontes para se estabelecer, se perde nesse emaranhado de estradas desconexas, onde todo mundo fala, mas ninguém se escuta. É chegada a hora de quebrar esses muros e criar pontes onde o amor possa circular e celas, onde a ignorância possa repousar sem nos fazer mal. Será que isso é pedir muito?

Forças da natureza

       É impressionante como algumas palavras bem curtas, apresentam significados que difíceis de explicar. Já perceberam que algumas das pessoas mais importantes de nossas vidas são denominadas por, no máximo, três letras? Tia, tio, avó, avô, mãe e pai. Criaturas que têm seus nomes substituídos por toda uma vida, e se enchem de orgulho disso. Quando nascemos somos imediatamente apresentamos a indivíduos sem nomes próprios, mas que pouco se importam com isso. Pessoas que deixaram de ser indivíduos para tornarem-se forças da natureza. E uma dessas forças é celebrada hoje.

          Pai. Quantas definições cabem aí? Sei lá. Criar significados serve para muitas coisas, mas não para forças da natureza. Essas simplesmente se criam, se mantém e se sustentam por si só. Se fecharmos os olhos, encontraremos na memória alguma figura que antes parecia um gigante, de fala grossa e com mãos pesadamente protetoras e carinhosas. Figura essa que extrapola vínculos genéticos, basta que esteja repleta de uma capacidade inesgotável de amar.

            Pais são, injustamente, lembrados como rochas inabaláveis que estão ali para sustentar os seus de todas as formas possíveis. O que acaba por criar uma ideia de que devemos oscilar entre amor, respeito, medo e admiração por estes que têm, obrigatoriamente, a função de pilares de suas famílias. Porém, o tempo passa e leva consigo esse estereótipo repleto de força bruta e vazio de sensibilidade. Pais podem, e devem, ser muito mais que isso. Sensibilidade, cuidado e afeto são traços humanos que não podem ser aprisionados em gêneros. Afinal, amor sem demonstração, não passa de intenção vazia.

            Pai. Palavra cunhada sobre a figura masculina e que, por muito tempo, relegou os homens ao papel de provedor isento de sentimentos por sua prole. O curioso nisso tudo é que, apesar de muitos tentarem masculinizar, de forma tóxica, a figura paterna, o ser pai nos conduz a um substantivo feminino, acolhedor e forte, porém cheio de ternura: a paternidade. Tão desejada por uns, tolerada por outros e, infelizmente, rechaçada por muitos. Negar o acolhimento que a paternidade oferece ao homem, é, sim, provocar abortos cinicamente aceitáveis.

           Ser pai não é doar genes. Ser pai é estar lá por seus filhos não importa quem sejam, o que tenham feito ou de onde tenham vindo. Ser pai nasce do desejo de perpetuar-se incondicionalmente. Ser pai é assustar para, em seguida, derramar-se de amor. Ser pai é aprendizado, entrega e insegurança. É brigar e se emocionar, dizer bobagens e cair na gargalhada. Ser pai é pavimentar caminhos limpos, porém repletos de pegadas largas, firmes e profundas, capazes de nos guiar, fortalecer e amparar sempre… e para sempre.

Feliz dia para todos aqueles que decidiram ser pais.

Aniversários são datas curiosas

       Aniversários são datas curiosas. É uma celebração que começa muito antes de entendermos o porquê desse ritual comemorativo. O que significa que já somos festejados, mesmo antes de saber o que isso quer dizer. Mas, o mais curioso em fazer aniversário, é a possibilidade que temos, ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, de poder ser o centro de um fluxo de energia tão particular e especial.

        E, mesmo que tenhamos 8, 25, 44 ou 89, há uma energia especial que nos visita e faz companhia durante as vinte e quatro horas do dia que foi reservado especialmente para nós. Que energia é essa? Não sei dizer, mas, de todas as emoções que nos arrebatam no dia em que estreamos nessa vida, nada é tão significativo quanto a gratidão. Fazer aniversário é relembrar, todos os anos, que há uma vida para ser vivida lá fora. É ter a certeza de que, sim, somos o motivo da alegria e da gratidão daqueles que nos trouxeram até aqui.

       Fazer aniversário é ter o privilégio de ser a razão de um sorriso, de um abraço apertado, de um beijo molhado, de uma ligação de longe ou de uma mensagem na rede social. Fazer aniversário é receber amor gratuito, alegria genuína e um carinho restaurador que nos dá forças para seguir mais um ciclo que se inicia. A data que acreditamos ser nossa, é, na verdade, o nosso momento mais coletivo e que nos proporciona a melhor, a maior e a mais especial troca de afeto que podemos receber. E, em tempos tão duros, nada é tão potente quanto doar e receber amor.

       Aniversários são datas realmente curiosas não pela festa em si, mas, porque nos dão, nem que seja uma vez ao ano, a chance única de agradecer por tudo aquilo que realmente importa e, principalmente, por nos lembrar o que a felicidade plena pode caber em carinhos simples e abraços verdadeiros. Ser grato por isso é, sem dúvidas, o nosso maior presente.

 

Muito obrigado por tudo,

Marco Rocha.

Não existem inocentes no absurdo

            Em que momento o intolerável começou a ocupar o lugar comum em nossas vidas? Dormimos repudiando barbaridades e acordamos acreditando que roubar infâncias é algo normal. Será que o mundo se pôs de ponta a cabeça com tamanha velocidade que nos impediu de perceber que, o que era bom, perdeu valor no mercado e, o que era deplorável, passou a ser suportável com muita tranquilidade? Será que a maldade invisível deu uma rasteira na nossa boa-fé? Muitas perguntas e uma única certeza. Não existem inocentes no absurdo em que vivemos.

            Presenciamos nos últimos tempos, situações que beiram o insano, o imoral e o impensável. E podem acreditar, esta não é uma fala revestida de pudor. É uma constatação indignada, impotente e assustada diante de uma realidade que, nem nos nossos piores pesadelos, imaginaríamos viver. É como se estivéssemos em uma dimensão onde o nosso umbigo é o centro do universo. Uma dimensão cinzenta onde tudo é desimportante, superficial e perigosamente indiferente.

            Vivemos um mundo pelo avesso. Degradamos a casa onde fomos criados. Alteramos tudo que vemos pela frente, mesmo que isso signifique o desaparecimento de tantas outras vidas mundo afora. Praticamos uma violência que adjetivos não conseguem mais classificar. Transformamos a barbárie em algo corriqueiro e banal. Criamos uma prisão claustrofóbica, revestida com papéis de parede que refletem um belo céu azul com nuvens calmas. Uma bela forma de autoengano que dá suporte a um estilo de vida perfeitamente irreal.

            Criamos células fantasiosas que escondem aquilo que não queremos ver. Transformamos o feio em bonito, o que era errado virou certo e o mal passou a não ser tão mal assim. E por quê? Talvez para esconder a nossa enorme covardia. O absurdo não tomou conta de tudo repentinamente, como escolhemos acreditar. Permitimos que ele tomasse corpo, demos suporte para que ele se espalhasse e, quando ele assumiu o controle, lavamos nossas mãos e nos maquiamos com o bom e velho cinismo, próprio dos covardes e dos mal-intencionados.

         Estamos diante de um paradoxo. Evoluímos tanto sob diversos aspectos, mas, ao mesmo tempo, jamais deixamos de flertar com a irracionalidade. E não é difícil constatar isso, basta olhar para os absurdos escolhidos, deliberadamente, pelas maiorias orgulhosas espalhadas por aí. Podemos consumir mais venenos? Renunciar à educação ampla e justa e aniquilar patrimônios naturais? Subjugar mulheres, abusar de crianças, rechaçar afetos? Acumular mais do que precisamos e desprezar a pobreza e aqueles que nela são forçados a viver? Sim, podemos. Sim, queremos.

            E por quê? Isso eu não sei dizer, mas o que fica muito claro, diante do que temos vivido, é que estamos afundados até o pescoço neste absurdo convenientemente perverso. O que o mundo quer de nós agora? Que façamos escolhas. Precisamos decidir se continuamos presos à essa lama ou se lutamos para que o absurdo, enfim, dê lugar à razão.