Não somos heróis

            E estes novos tempos, hein? Tempos que mais parecem um caldeirão de incertezas, repleto de perguntas que aguardam por respostas nada fáceis. Parece que tudo o que sabíamos, perdeu parte da importância, e isso colocou a todos em rota de colisão com as nossas frágeis convicções. Como sairemos dessa? A quem recorrer quando o mundo a nossa volta parece ter perdido o sentido? Aos heróis, claro! Será?!

            De vez em quando, todos nós, adoramos escolher um herói para chamar de nosso. Esse comportamento tão peculiar, nos faz alçar um ser humano, igualzinho a nós, à condição de superioridade, por vezes, bastante questionável. Mas, se pensarmos nas carências crônicas que nos acompanham desde sempre, talvez seja possível explicar o porquê isso acontece. Somos um povo que se acostumou, da pior forma, a viver um dia de cada vez, com toda sorte de dificuldades batendo à nossa porta.

            Porém, apesar das nossas mazelas, somos um povo forte e diverso, que consegue encontrar pontos de encontro entre tantas diferenças. Então, no meio dessa confusão generalizada que nos forma, fica muito difícil se enxergar em um lugar destaque, especialmente aqueles que nunca tiveram contato com nenhum tipo de privilégio. Por essa razão, quando alguém consegue, enfim, romper essa barreira, torna-se um fortíssimo candidato ao posto de herói. Mas, o que isso significa?

            Várias são as definições possíveis, mas, de modo geral, heróis são aqueles capazes de realizar trabalhos épicos, são plenos de virtudes e de uma coragem à toda prova. Mas, isso não passa de um arquétipo, uma descrição de um personagem modelo e perfeito, incapaz de incorrer nos erros de meros mortais. Esse é o desenho de um perfil bastante conveniente em tempos onde a desesperança parece dar o tom aos nossos dias.

            Mas, sinto dizer que não, não somos heróis. Precisamos enxergar as coisas por uma outra perspectiva. Toda figura que é promovida à condição de ser superior, dela se torna prisioneira. Seja por vontade própria ou por uma desconfortável imposição social. Professores, médicos, enfermeiros, técnicos da área de saúde, profissionais de limpeza, policiais e cientistas… São exemplos de essencialidade, não de heróis. Não é justo rotular, de uma hora para outra, os trabalhadores que sempre foram maltratados e desconsiderados pela sociedade, à condição de super-heróis. Afinal, eles continuam desempenhando as suas funções, como sempre fizeram. Funções que a maioria não gostaria ou não poderia desempenhar.

            Todos esses profissionais, de forma geral sofrem, e muito, por terem escolhido tais ofícios. E todos nós sempre soubemos disso. Mas, ao invés de brigarmos coletivamente para que as suas profissões sejam respeitadas e valorizadas, o que fazemos? Escolhemos o caminho mais fácil e passamos a chama-los de… heróis! E, sabem o porquê? Heróis precisam seguir sempre em frente, realizando seus feitos épicos, sem direito a sofrimento, dor, felicidade ou remuneração. Reparem como um super clichê pode, quase sempre, transformar trabalhadores sofridos e mal pagos, em figuras acima do bem e do mal.

            Que tal se, substituíssemos os arquétipos por realidade? Chega desse papo de super humanos. Temos, sim, profissionais que merecem todo o nosso respeito, reconhecimento, orgulho e aplauso, mas, ainda assim, isso não os transforma em heróis e por uma única razão: muito acima dos profissionais, existem as pessoas. Pessoas que choram, adoecem, sangram e podem até morrer no exercício de suas funções. E isso, para mim, tem outro nome e não é heroísmo, é a maior e melhor expressão daquilo que conhecemos como humanidade.

Frases de efeito

Outro dia desses me peguei em uma discussão acalorada sobre o poder das frases de efeito que já fazem parte do nosso cotidiano. E o papo fluía bem até que alguém disse que vivia cada dia como se fosse o último… Essa máxima até pode fazer algum sentido, afinal, ninguém sabe o próprio tempo de validade nesta terra, mas, parece um tanto enlouquecedor viver numa contagem regressiva imaginária. Quem, afinal, gostaria de viver sabendo que, ao fim do dia, deixaria de existir?

É claro que o criador desta frase, provavelmente, não pensou em deixar de viver e, sim, em como aproveitar ao máximo as nossas vidas. Até aí tudo bem, mas, como somos bons seguidores de frases de impacto, resolvemos levar as sugestões ao pé da letra. Viver como se não houvesse amanhã tornou-se um ideal de bem-viver para muitas pessoas, que se jogam em dezenas de atividades simultâneas que as conectam com o mundo que acreditam ser sensacional, mesmo sem saber muito bem o porquê.

Não há mal algum querer aproveitar ao máximo, tudo o que a vida tem para nos oferecer, mas, somos todos diferentes, logo, nossas visões sobre os prazeres da vida também são. E é aí que os conflitos começam. Viver como se o mundo fosse acabar amanhã, estabelece uma pressão coletiva que diz que todos, independente de seu temperamento, devem adotar o estilo vida loca de ser. O que pode até funcionar por um tempo, mas não por muito tempo. Ainda bem.

E, para colocar mais lenha nessa fogueira, o “viva a vida como se fosse seu último dia”, sempre vem acompanhado de um “seja feliz acima de tudo” ou de “seja a melhor versão de você mesmo” ou de qualquer outra variação desse mesmo tema. Repetindo, não há mal nenhum em querer ser parceiro da felicidade, mas, acreditar que esse é a única saída para uma vida plena, é um engano sem tamanho. Esse movimento que nos vende a ideia de uma existência onde só a felicidade conta, pode ser um grande tiro no pé…

Talvez isso explique, em parte, a explosão de felicidade que lota as nossas redes sociais, terreno fértil para sermos, exatamente, o que esperam de nós. A realidade virtual é inflexível e só permite a entrada dos exageradamente felizes, lindos e confiantes. O mundo real que dê conta daqueles que não preencherem os requisitos para entrar no clubinho da felicidade desmedida. E, por conta disso, nossas relações estão contaminadas por uma tristeza camuflada de euforia e por inconsequências maquiadas de autoestima.

Nunca foi tão urgente entender que os momentos difíceis são a medida para a felicidade. É impossível ser alegre sem ter experimentado o seu oposto. É impossível ser autoconfiante sem ter bebido na fonte da insegurança. Portanto, viver esperando que exista um dia seguinte, nos dá a chance de aprender a viver de fato, porque, no fim das contas, por mais que neguem, todos esperam a chegada de um novo amanhã.

Tempo para ser melhor

Que a vida não está nada fácil, não é novidade para ninguém. Desigualdades de todo tipo fazem parte do nosso dia a dia de uma forma tão frequente que, infelizmente, passamos a não enxerga-las com a nitidez necessária. O que nos leva a um lugar perigoso, onde a indiferença rege todas as relações. E, quando nos tornamos indiferentes, tanto faz a dificuldade do outro, tanto faz a necessidade do outro. E isso nos faz segregar o diferente e a ignorar dores que não são nossas ao longo de um ano inteiro. Mas, ainda há tempo para ser melhor.

Talvez nenhuma outra data no ano seja capaz de transformar hábitos, como o Natal. Pelo menos para aqueles que partilham desta fé. De todo modo, a percepção do nascimento e da renovação da esperança em dias melhores, parece contagiar a todos. E, nem que seja por alguns momentos, celebramos a felicidade de forma coletiva, sem dar tanta importância ao que não tem importância. Famílias e amigos se reúnem, trocam mensagens de afeto e desejam que a prosperidade seja a luz de suas vidas. Isso é lindo, mas, será que alcança a todos? De jeito nenhum… infelizmente.

Esta seja a grande questão a ser considerada nesta data tão particular. Se todos são capazes de reunir os seus em volta de uma mesa, seja ela farta ou não, e desejar a todos que o amor e a felicidade sejam seus guias, por que não vemos isso acontecer, de fato? Por que não somos capazes de expandir nossos bons desejos para além das paredes confortáveis de nossos lares? Essa é uma boa hora para confrontar a nossa indiferença cotidiana e mostrar que somos, sim, capazes de compartilhar o que temos, com tantos que nada possuem.

Pode parecer um tanto assustadora a ideia de sair do protocolo de natal que diz que devemos ficar em casa, em família, vestindo roupas novas, distribuindo presentes e esperando a hora de desejar coisas boas aos nossos. Comércio, gastronomia e reuniões protocolares. Nos acostumamos a um padrão de comportamento que nos afasta completamente do sentido real desta data. Estar entre os nossos é bom, mas, compartilhar toda a positividade que emanamos no Natal, pode ser transformador.

Por isso, hoje, nesta data tão especial para tantos, é preciso ir além das guloseimas, presentes e encontros familiares e compreender que essa celebração jamais teve relação com o consumo. Deveríamos celebrar a chegada do sopro de esperança em uma família miserável, refugiada e perseguida, que viveu há mais de dois milênios. O curioso é que, mesmo tanto tempo depois, famílias como esta, continuam espalhadas por aí, vítimas das mesmas injustiças, porém, curiosamente, não despertam a nossa compaixão.

O contato com tantas desigualdades, forjaram a indiferença que vive em nós e, talvez por isso, tenhamos esquecido a verdadeira razão do Natal. Mas, é sempre tempo de mudar. Basta perceber que o nascimento da esperança acontece todos os dias nas milhares de famílias, iguaizinhas àquela que, supostamente, celebramos todos os anos. Que hoje, todos nós sejamos capazes de entender que a entrega, gratidão e prosperidade formam um fio condutor que nos conecta ao verdadeiro espírito do Natal. Para isso, precisamos perceber e aceitar que só a simplicidade nas relações, permitirá a real comunhão entre as pessoas.

Padrões…

            Já faz um tempo que os padrões, há muito estabelecidos, estão ameaçados. A publicidade já entendeu isso. A dramaturgia segue entendendo e a internet, apesar de tudo, também contribui para essa mudança. Mas, em que momento percebemos que o que estava posto, começou a ceder lugar ao novo? Muitas respostas possíveis, mas, acho que todas elas têm um ponto em comum: a exaltação da diferença. O que, por muito tempo, foi mantido debaixo de camadas de contenção, abriu fendas estreitas que permitiram que todos enxergássemos, enfim, que a diversidade merece a luz.

            Mas, apesar de alguns esforços, ainda tímidos, por parte dos veículos de comunicação, o que se vê é um levante dos grupos marginalizados, que jamais tiveram espaço para um protagonismo positivo em nenhuma escala. Vivemos uma época que pulsa diferente. Uma época em que não dá mais para ouvir calado a todas as formas perversas de julgamento. E, para além disso, não se pode mais tolerar comportamentos que nos forcem a acreditar que o perfil de fulano é melhor do que o de quem quer que seja.

            Isso, definitivamente, é algo a ser comemorado, porém, não é possível esquecer o volume de sofrimento carregado por muitos. A dor da exclusão sempre foi denunciada, sem muito sucesso, por muitas gerações antes de nós, mas não era conveniente aos padrões, transformar o clamor em voz. E vozes são capazes de transformar sussurros em berros que não podem ser abafados. E, tanto barulho, não pode passar despercebido. Fazer o chão tremer é uma boa forma de se fazer notar.

            As pessoas sempre foram incluídas em caixas padronizadas, prontas para guardar e selecionar perfis, independente seu tamanho original ou da sua vontade de ser classificada. Mulheres e seus adjetivos em uma caixa. Negros na outra. Baixinhos, nas caixinhas pequenas. Gordos, nas caixas mais espaçosas e reforçadas. Gays, nas caixas apertadas no fundo do armário. Velhos e crianças meio misturados porque ninguém sabe ao certo o que fazer com eles. Homens dominantes vivendo com a falsa sensação de liberdade, afinal, são os próprios que constroem suas caixas, mais amplas que as outras, sim, mas sempre serão caixas.

      Tudo perfeitamente encaixotado. Exceto a língua alheia, que sempre arruma uma brecha para circular livremente, fazendo vítimas por onde passa. Mas, parece que isso mudou, não é mesmo? Preconceitos disfarçados, ódios declarados e dissimulações convenientes, agora encontram barreiras onde antes nadavam de braçada. Mas, em algum momento, até mesmo os desmandos encontram limites. A razão para essa mudança necessária se baseia em questionamentos muito simples: Quem criou esses padrões? Quem foi que disse que o seu padrão é o certo? Quem disse que todos precisam ser padronizados?

         Ainda há muito o que fazer. Não é simples destruir os pilares que sufocaram, e ainda sufocam, a liberdade por gerações. Mas já é possível ver as suas lascas pelo chão. Novos caminhos estão sendo abertos e novas vozes engrossam o coro dos excluídos. Essas vozes berram, para quem quiser ouvir que, o único padrão possível é aquele que permite que todos sejam quem quiserem ser.