Os novos tempos e suas transformações (Parte I)

Alguém saberia dizer o que o futuro nos reserva? Mas, sem cair no lugar comum das previsões pasteurizadas disponíveis por aí. Se alguém perguntar, hoje, às vésperas da segunda década do século XXI, como será a vida em 10 anos, não há resposta possível. Vivemos a história em tempo real como nunca tivemos a chance de viver antes. Os novos tempos e suas transformações, vão muito além de nascer, crescer, reproduzir e deixar algum legado para futuras gerações. E não sabemos muito bem o que fazer com isso.

Estamos em meio a um fenômeno curioso onde diferentes gerações, com experiências absolutamente diversas, compartilham a mesma época. Sim, sempre foi assim, mas, o abismo social e tecnológico nunca foi tão evidente. A nossa expectativa de vida aumenta à medida que a ciência avança, o que nos permite experenciar um pouco mais desse admirável mundo novo, o que não significa que todos teremos chances de fazê-lo da mesma forma e ao mesmo tempo. Conviver com essa pluralidade geracional deveria ser o maior privilégio destes tempos, mas, não é isso que se percebe mundo afora.

O analógico tenta sobreviver em meio a pressa da tecnologia que, diariamente, nos apresenta novidades que, em breve, serão relíquias, ou lixo. Duvida? Pense que a internet foi lançada em 1994 e os telefones celulares, um pouco antes disso. Isso foi ontem… Mas, o mais marcante nisso tudo, foi perceber que, a partir deste momento, o mundo, e as pessoas, dividiram-se em dois grupos. Os analógicos e os digitais. Para muitos isso não foi um problema, mas, muita gente ficou pelo caminho e, até hoje, não conseguiu entender a razão pela qual as fotos de família saíram dos álbuns e foram para nas nuvens. E isso não é culpa delas.

Depois disso, vieram os celulares que nos apresentaram uma forma de comunicação revolucionária. Mas, o caldo entornou, de fato, quando a internet mudou, aumentou a qualidade e seu acesso foi democratizado. E, em paralelo, os smartphones chegaram com o pé na porta, prontos para nos arrebatar. Deste ponto em diante, passamos a viver como nunca vivemos antes. Novos tempos. Novos comportamentos. Fazemos parte do olho de um furacão que mistura o velho e novo, o analógico com o tecnológico, que altera padrões seculares sem a menor cerimônia ou aviso prévio.

Quais são os impactos dessa revolução? Não faço a menos ideia. E acho que os futuros historiadores terão dificuldades de explicar esse ponto da História. Passamos séculos ligados uns aos outros, a partir de relações próximas e sinestésicas, onde as conexões eram feitas a partir de mãos dadas e troca de olhares. Hoje, vemos o mundo a partir de uma tela, regida por uma rede cada vez mais autônoma e autoritária, que dita exatamente o que devemos ver, quando ver e por quanto tempo. Pela primeira vez, vivemos um processo de desenvolvimento, completamente desconectado da evolução social que nos trouxe até aqui.

Esses novos tempos são sedutores. Nos fazer crer que teremos acesso livre ao conhecimento de uma forma nunca vista. Concordo. Nos fazem crer que somos senhores de nossas escolhas como jamais fomos. Desconfio. Tentam nos convencer que nunca foi tão fácil viver como vivemos hoje, afinal, a tecnologia nunca foi tão democrática. Desculpe, mas essa não dá para engolir. Ao mesmo tempo em que nada disso é verdade absoluta, tampouco é uma mentira completa. É irreal aceitar que todos serão igualmente beneficiados. Vivemos um período onde as desigualdades, de todos os tipos, crescem de forma exponencial, também, graças a esses novos tempos. É preciso pensar mais sobre isso.