Solidão não é castigo

Solidão. Aquela parceira sempre presente, seja nos detalhes ou em grandes momentos do cotidiano de muita gente. Há muitas coisas a dizer sobre ela, porém, chama a atenção perceber que, para muitos, a solidão é repleta de drama e melancolia. Será que é apenas isso?

Inúmeras vezes ouvimos as queixas de pessoas próximas sobre o quanto se sentem solitárias, como é difícil se envolver com alguém ou ainda, o que uma pessoa tão legal está fazendo sozinha? A solução para isso é pessoal e intransferível mas, acima de tudo, é preciso sinceridade para encontrar as respostas…

A grande questão é que, geralmente, relacionamos nossas carências de afeto à solidão, o que é um grande equívoco. O ritmo alucinante em que vivemos nos impõe situações em que, via de regra, estamos completamente sozinhos, mesmo cercados por um mar de gente. Até aí, tudo dentro da normalidade.

Algumas horas perdidas em engarrafamentos, outras tantas dedicadas aos estudos, trabalho, atividades físicas, sono… Se contabilizarmos os dias, semanas e meses em que nos dedicamos, simplesmente, a viver nossas vidas, iremos perceber que o tempo que passamos exclusivamente na companhia de nós mesmos é consideravelmente maior do que os períodos em que nos entregamos ao convívio social. E isso é estar só.

A solidão, ao contrário do que alguns podem imaginar, traz consigo momentos de paz e reflexão, típicos daqueles dias preguiçosos em que ficamos observando a chuva bater na janela, desfrutando da companhia de muitos pensamentos e de e uma boa xícara de café. Pode parecer um cenário poético e idealizado, mas independente do panorama, sempre arrumaremos um escape terapêutico que nos ajudará a seguir em frente.

Se estar só faz parte do nosso jeito de ser e de viver, não faz sentido falar mal dos momentos solitários, certo? Meu palpite é que a solidão é como um parente distante, daqueles que conhecemos, mas nunca falamos ou lembramos de sua existência até que ele  resolva aparecer sem avisar. Neste momento, nos damos conta que a vida segue seu fluxo normal mas que, em alguns momentos, somos obrigados a tomar consciência de que caminhamos sozinhos por tempo demais.

Talvez seja no instante em que notamos nossa solitude, que passamos a buscar pares, companhias e parcerias que ajudem a preencher espaços considerados vazios. Muitas das vezes sequer pensamos em como ou com quem essas lacunas devem ser preenchidas. Dessa forma, trazemos para o nosso convívio, elementos que podem parecer adequados, mas que na verdade, são apenas rascunhos de desejos um tanto confusos.

Isso acaba por abrir brechas para aquelas relações fragmentadas, porém muito comuns, onde a intimidade dá lugar a solidão a dois. Muitas coisas foram feitas para serem compartilhadas e a solidão certamente não é uma delas. Por isso é preciso ficar atento aos sinais que a vida nos dá e aos conselhos que ouvimos desde sempre. Estar só e em paz é muito melhor do que fazer parte de um mau encontro, sem sombra de dúvidas.

É possível que agora fique mais fácil pensar que estar só é, também, uma escolha. O que não implica em uma vida sofrida e marcada por privações sentimentais. Quem disse que ir ao cinema sozinho ou sentar à mesa de um restaurante sem um par é sinal de abandono? Essas são distorções muito comuns com as quais nos habituamos, mas que de forma alguma, devem ser consideradas como um padrão a ser seguido.

Estar só pode ser apenas um querer. Estar só não é sinal de tristeza, derrota ou abandono. O olhar do outro pode colocá-lo no lugar do pobre coitado, isolado e sofrido. Mas isso, definitivamente, não deve ser levado em conta. Não se pode depositar o nosso próprio bem-estar sobre os ombros de quem quer que seja. É preciso ter em mente que a solidão não é castigo.

Amar é bom. Ter família e amigos é melhor ainda. Mas é primordial entender que na maioria das vezes, estar só, também é estar em excelente companhia.