Selfie – Muito além do autorretrato

Tirou? Deixa eu ver! Ahhh, não ficou bom! Vamos fazer uma selfie?!

Quantas vezes vocês ouviram o texto acima em festas, praias, viagens, restaurantes, banheiros, academia, dentista, acidentes de trânsito, velórios, manifestações populares… ufa!! Independente da situação ou ocasião, a vontade de registrar nossa presença naquele exato momento é quase irresistível.

Não seria melhor dizer que tiramos um autorretrato? Até poderíamos, mas parece que o termo gringo confere muito mais poder e glamour à ação. A selfie hoje, possui status de substantivo mais que próprio, totalmente independente do seu criador e com um objetivo muito claro: Ser vista!

Observe suas fotos nas redes sociais. O que vê? Olhe com mais cuidado. A pose. O olhar. O cenário. Sua expressão… Agora tente se lembrar de uma coisa fundamental. Aquelas fotos foram espontâneas ou são o produto final depois de inúmeras tentativas fracassadas em busca do clique perfeito?

Se voltarmos no tempo, lembraremos que as fotos eram geradas por máquinas analógicas em filmes de 12 a 36 poses. Eram quase caixinhas de surpresa. Luz estourada, foto escura, desfocada… Quantas comemorações ficaram gravadas apenas na memória por conta de um filme que simplesmente queimava? Tempos onde a selfie não teria vida longa e custaria uma fortuna.

Pensando no passado e presente, a grande diferença que salta aos olhos é o significado dos cliques e flashes nos 2 períodos. Antes, serviam para eternizar um momento e serem exibidos em álbuns bem cuidados e porta-retratos distribuídos nos melhores pontos da casa. Agora, as fotos descansam nas galerias dos celulares, nuvens virtuais e, como nunca antes, podem ser vistas por milhares de pessoas em apenas 1 dia. O que deixaria morto de inveja até o mais belo dos álbuns da sua mãe.

Se continuarmos revirando nosso acervo digital, adivinhem quem será mais popular em meio aos nossos milhares de cliques?? As selfies nascem do desejo quase incontrolável por visibilidade fácil. O que antes era privilégio de astros e estrelas, hoje está ao alcance dos dedos de todos e de forma totalmente ilimitada.

Mas, mesmo com a tecnologia, o que seria das selfies sem as poses? Sensualidade, autoconfiança e ternura. Juntar esses três ingredientes em uma única foto ajuda a arrebanhar muitos seguidores e bombar de likes. Não podemos esquecer das legendas, que são responsáveis por convencer os observadores que aqueles registros foram únicos, incríveis e que, ninguém além de você, poderia usufruir tão bem daquele momento. Exclusividade faz toda a diferença.

É aí que retomo a idéia da selfie como uma entidade independente. Um produto quase comercial que, ao ser compartilhada, adquire vida própria, atraindo olhares curiosos e comentários que vão desde a admiração exagerada à total esculhambação pública. É o clássico, falem mal, mas falem…

Seriam as selfies tiranas, daquelas que permitem acesso livre à área VIP digital, desde que todos estejam devidamente produzidos e dispostos a manter seu imbatível padrão de qualidade? Onde, a beleza, alegria, superioridade, carisma e vaidade são requisitos obrigatórios e indispensáveis? Talvez…

Fico pensando no pobre Narciso. Talvez esse mito seja o primeiro registro de selfie da humanidade. Se existisse uma câmera e os filtros mágicos em sua época, o rapaz jamais morreria afogado ao buscar aquela imagem avassaladoramente bela. Nos tempos atuais, ele certamente seria um ícone pop, teria inúmeros seguidores e muitas curtidas. A busca pela autoimagem perfeita parece ser atemporal e pode, muitas vezes, aprisionar e levar à situações nada glamourosas.

Muito se fala que a maioria das pessoas hoje em dia, prefere TER ao invés de SER… Ter acesso a situações incríveis como shows, viagens extraordinárias, bares e restaurantes da moda… ter, ter e ter! Como se consegue tudo isso? Simples. Check-in, posts, likes, compartilhamentos, hashtags e, claro, selfies… A partir delas, o TER se confunde com o SER.

Ser e estar lindo, feliz, confiante e bem-sucedido o tempo todo, nem sempre é possível na dureza do cotidiano, mas a realidade virtual se encarregou de preencher com cores fortes o, muitas vezes monocromático, mundo de carne e osso.

Isso permitiu que nos transformássemos em nossas próprias fadas madrinhas, capazes de transformar os borralheiros que vivem em nós, em cinderelas e príncipes encantados. Sempre congelados numa imagem perfeita, formada por uma piscadela, uma cabecinha de lado, um bico sexy e dois dedinhos.

Estamos diante de um fenômeno coletivo, onde todos precisam ser vistos e amados, como uma espécie de confirmação da própria existência. A explosão da vontade coletiva de se expor e divulgar o que antes era particular, define momento atual, onde todos somos especiais e exclusivos. Onde todos somos… SELFIE.