Recortes de felicidade

Vivemos um momento muito curioso, onde a realidade parece ter se partido em muitos fragmentos e, cada um deles, reflete uma imagem da mesma história. Algumas mais agradáveis, outras nem tanto. Mas o que chama atenção, é a quantidade de momentos incríveis que fazemos questão de divulgar à exaustão como se, de alguma forma, isso fosse capaz de neutralizar as partes ordinárias do nosso dia a dia.

Todo mundo já percebeu isso em algum momento e já abordei isso em outros textos, mas impressiona o volume de realidades alternativas que encontramos a todo instante. Parece que estamos caminhando a passos largos para uma espécie de “matrix” onde projetamos vidas perfeitas, que serão admiradas e invejadas. À medida que o tempo passa e vamos nos acostumando a esse comportamento, passamos a esconder o que é real e comum a todos nós: nossa humanidade.

É ela que nos dá a exata medida do que somos. Criaturas que reagem ao meio onde vivem das mais diferentes formas e intensidades. Criando um comportamento tão complexo que não pode ser, de maneira alguma, resumido a postagens solares, sorridentes e editadas. Somos muito mais que isso. Há beleza na lágrima, há importância no medo e aprendizado na dor. Não se pode ignorar ou reprimir facetas tão essenciais, que ajudam a entender que a vida é feita a partir de um todo e, jamais, de recortes de felicidade.

A cada dia, a socialização virtual cria um novo movimento que atua como uma força da natureza, completamente fora de controle. O que nos leva a perseguir modelos inatingíveis, felicidades escancaradas e fórmulas prontas que só existem no mundo virtual. Estamos, pouco a pouco, abrindo mão dos detalhes que nos tornam únicos, para abraçar formatos padronizados onde todos são tão estranhamente semelhantes, que é quase impossível identificar quem é quem.

São muitos os pontos que levam a esse erro de avaliação e que nos dizem o tempo todo, que devemos ser iguais, apesar das diferenças. Mas o que salta aos olhos de forma quase agressiva, é a obrigação de expressar uma felicidade desmedida. De uma hora para outra, todos resolveram publicar fotos que traduzem momentos únicos, repletos de uma alegria especial, reservada a todos aqueles que acreditam no ideal da vida perfeita. Mesmo que isso não passe de faz de conta.

Estar feliz demais em situações onde a grande maioria não vê felicidade alguma, além de forçar uma barra, pode causar impressões absolutamente impossíveis de reproduzir. Que fique claro que esta não é uma crítica ao bem viver, ao contrário. Mas, a superexposição de uma vida absolutamente feliz é preocupante sim, uma vez que pode sufocar sentimentos e anular desejos. Quem nunca exagerou no sorriso para uma selfie perfeita na praia para, no instante seguinte, desmanchar a alegria e constatar que gostaria de estar em qualquer lugar longe dali? Esta é a grande questão. Até que ponto devemos suprimir o que, de fato, sentimos, para expor uma perfeição irreal e perversa?

Entender de que formas essa nova forma de viver irá nos afetar, só o tempo dirá, mas é possível não sucumbir completamente as maravilhas da felicidade obrigatória. Como? Valorizando todas as outras experiências. A vida real está longe de ser feita apenas por momentos felizes. Altos e baixos farão parte da jornada o tempo todo. Por isso fique atento aos sinais e não se sinta menos feliz só porque outros demonstram explosões de felicidade. Essas expressões podem conter altas doses de infelicidade.