O que vão dizer de mim?

Outro dia ouvi de um amigo algo do tipo – eu queria muito fazer algo nada a ver com o que faço hoje, mas acho que está tarde para mudar, além do mais, o que vão dizer de mim? – Causa estranheza perceber que em pleno século XXI, a opinião alheia ainda provoque tanto desconforto. Não que meu amigo seja uma exceção, ao contrário, todos nós, em algum momento da vida, atravessamos dilemas vazios como esse. Atire a primeira pedra aquele que nunca deixou de lado algo potencialmente importante, por receio a maledicência alheia.

“O que os outros vão falar de mim?” É curioso que, ao encarar essa pergunta, a maioria de nós costuma dizer, ao outro, que isso é uma grande bobagem, afinal, as pessoas irão falar de nós de uma forma ou de outra. Mas, basta que troquemos de lugar para que essa indagação fique carregada de sentido. Quando nós somos o alvo do olhar inquisidor de alguém, a suposta bobagem, passa a ter um peso que ninguém gosta de suportar. Por isso, é importante estarmos atentos a importância que atribuímos aos olhares externos tão presente em nossas relações cotidianas.

Somos julgados desde que nascemos, logo, isto não deveria ser exatamente uma questão. Mas é. Se, por alguma razão, paramos para pensar sobre o que vão dizer de nós, não precisamos ir muito longe para entender que isso causa algum incômodo. Até mesmo para a mais bem resolvida das criaturas. É claro que imaginar que falam e como falam de nós, pode causar efeitos devastadores, capazes de impedir que algumas pessoas sigam as suas vidas. Mas, apesar dessa dificuldade, é preciso enxergar isso sob outra ótica.

Se pudermos trocar a paralisia provocada por um olhar torto, um boato infundado ou uma fofoca maldosa, por um peito estufado de alguém orgulhoso por ser quem é, já seremos capazes de estabelecer o início de uma reação contrária aos desocupados juízes da vida alheia. Sei que não é fácil arrancar essa autoconfiança sabe-se lá de onde, mas, essa é, possivelmente, o maior dos nossos desafios. Confiar no nosso próprio taco é o que suporta nossos voos, o que sustenta a nossa coragem e o que mantém nosso medo sob um certo controle.

Faz parte da nossa essência notar o outro e tudo que o envolve. Perceber quem está a nossa volta pode, e deve, ser importante para que possamos ampliar a visão que temos do mundo e de nós mesmos. Mas, manter-se preso a observação do cotidiano alheio apenas por curiosidade ou vaidade é, além de mesquinho, um sinal de que as coisas não andam lá muito interessantes na vida de uns e outros. Por esta razão, dentre tantas outras, nada pode ser mais importante em nossa existência, do que a busca pela real percepção de quem somos e até onde podemos chegar.

Tocar as nossas próprias vidas já é uma responsabilidade sem tamanho, especialmente quando ocupamos o nosso viver com o que de fato importa. Quanto mais cedo aprendemos que o nosso pertencimento deriva dos momentos vividos, menor será o desejo de julgar ou invejar uma trajetória que não nos pertence. Sim, somos todos humanos e não escapamos à tentação de uma fofoquinha ou de um olhar curioso, mas, se deixar seduzir descontroladamente pela maledicência, nos leva a julgamentos rasos e irresponsáveis que, na maioria das vezes, falam muito mais sobre nós, do que sobre os outros.