O poço e o fundo

Ficar sem chão… Possivelmente, já perdemos a conta de quantas vezes repetimos ou ouvimos essa expressão e por motivos absolutamente distintos. Sentir-se em meio a um turbilhão de sensações com as quais não conseguimos lidar ou, simplesmente, não podemos lidar, transforma a nossa percepção da realidade. Faz com que acreditemos que não há saída, não há escape, não há fim e que somos apenas nós, o poço e o fundo. Mas, se estamos aqui para falar sobre isso, é porque já faz tempo que descobrimos atalhos que nos levam de volta à superfície.

É engraçado pensar que passamos uma existência focados em pólos absolutamente opostos. Se, por um lado, queremos a felicidade extrema o tempo todo, rechaçamos fortemente a possibilidade de fracassar e entristecer e os motivos são óbvios: ninguém quer sofrer. Porém, esquecemos de regras básicas de sobrevivência que nos mostram o tempo todo que, viver, é um jogo imprevisível onde se ganha e se perde em proporções aleatórias e independentes do nosso querer.

Esse perde e ganha diário, pode assumir contornos maiores ou menores de acordo com a expectativa que criamos. Me arrisco a dizer que ganhar, muitas vezes, parece mais um bônus inesperado do que uma possibilidade real. Talvez seja por isso que perseguimos com tanto afinco, toda a qualquer possibilidade que, no fim, possa nos trazer algum tipo de vitória. Ganhar vai além da conquista. Ganhar nos coloca no hall de vencedores onde é possível ser visto e admirado. Ganhar é aquilo para o qual fomos criados, treinados e direcionados a fazer. A grande questão é: o que fazer quando a vitória não chega?

Essa pergunta pode causar arrepios em muitos de nós e isso tem uma razão simples. Não fomos educados para perder. Ao contrário. Perder é algo destinado aos outros e não deve fazer parte do nosso planejamento. Mas é aí que me surge uma dúvida: Por que renegamos tanto, algo que nos acontece o tempo todo? Se fizermos uma retrospectiva das nossas vidas ou se perguntarmos aos amigos mais chegados teremos, certamente, um vasto acervo de derrotas para todos os gostos.

Algumas divertidas, outras nem tanto. Algumas traumatizantes, outras quase insignificantes. Algumas que carregamos vida afora, outras que esquecemos em instantes. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que, em todas essas experiências onde não alcançamos aquilo que queríamos, ainda assim, é possível sair ganhando. Talvez o prêmio seja ainda melhor que aquele que idealizamos. E de que forma isso pode ser considerado como algo bom? Difícil saber no calor do momento, mas, à medida que o tempo passa, percebemos que poucas coisas são tão poderosas quanto a nossa capacidade de recomeçar.

É neste momento em que precisamos enxergar que não há fundo de poço que não possa ser vencido. Esse lugar é, na verdade, uma alegoria que nos ajuda a lidar com a dificuldade em compreender, aceitar e aprender com as nossas derrotas. É óbvio que não vamos, a partir de agora, endeusar os muitos tombos que ainda vamos levar, mas que devemos respeitá-los, devemos. Até porque, eles serão responsáveis, também, por outros tantos relatos de coisas boas que foram conquistadas a partir de um tomo, um pé na bunda, uma puxada de tapete ou seja lá o nome que quiser chamar. É a boa e velha frase “aquela derrota foi a melhor coisa que me aconteceu…”

Ninguém gosta de perder, não fomos orientados para isso. O mundo segrega os perdedores. Não importa quantos êxitos foram conquistados, basta perder uma única vez para ser incluído no clube daqueles que não chegaram lá. Não jogamos para competir, jogamos para ganhar. Mas, também conhecemos a máxima que diz que não se pode ganhar sempre. Então, o que nos resta? Entender que vitórias e derrotas não estão ligadas por uma linha reta e que, os poços, podem ser mais bem mais rasos do que imaginamos. Para isso, basta que estejamos dispostos a aceitar algo muito simples: perder nem sempre significa ser derrotado.