O mundo nunca é o mesmo

Ninguém desce duas vezes o mesmo rio. Concordo com Heráclito, o filósofo. Pensando sobre isso, pude, de forma perturbadora, analisar momentos vividos, atitudes tomadas e desfechos para um sem número de situações que nunca ficaram muito claras. Até agora…

Entender essa afirmativa é perceber a transitoriedade das coisas ou, de forma mais simples, compreender que o mundo muda o tempo todo e que nós, em muitos momentos, não percebemos ou nos recusamos a aceitar as mudanças que a vida nos impõe.

Normalmente acreditamos que somos únicos, mesmo sendo formados por incontáveis experiências. Seguimos acreditando que somos como somos e que mudar é para os outros, não para nós. Doce ilusão!

Somos vários em um só na maior parte do nosso tempo, mesmo sem perceber. Mudamos ao entrar em casa, ao chegar para trabalhar, quando vamos à festas ou estamos absolutamente sozinhos. Oferecemos uma face de acordo com o tipo de espelho que encaramos.

Perseguimos situações que não vivenciamos, pessoas que não conhecemos e amores que não vivemos. Isso promove um fluxo de desejos bastante intenso, onde cenários e atores mudam com frequência, e isso, nos impede de prestar muita atenção ao que se vê ou se sente e, à medida que nos deparamos com  o crescente número de possibilidades, maior é a nossa dificuldade em descobrir qual porta devemos abrir.

Mas, onde nasce o nosso fascínio pelo novo e diferente? E quando, de fato, percebemos que precisamos e podemos mudar? Arrisco dizer que as mudanças só acontecem a partir da observação cuidadosa sobre o que nos cerca. Um bom observador é capaz de traçar caminhos a partir de experiências adquiridas ou apreendidas.

Quem nunca sentiu a sensação de estar parado no tempo enquanto o mundo e as pessoas continuam caminhando, menos você? Penso sobre isso com alguma regularidade e me pego fazendo planos para mudanças imediatas, o que nem sempre dá certo. Perceber que os dias são sempre iguais, além de um bom sinal de alerta, ajuda a planejar sua mudança particular com mais cuidado.

Mudar não se baseia apenas na vontade. Percebemos o que nos faz sonhar com mudanças, mas o que de fato nos instiga a enfrentar a novidade são nossas experiências e os exemplos que miramos, como bons empregos, salários mais altos, temporadas em outro país, ter filhos, conseguir meditar ou simplesmente ganhar o pão de cada dia… a vontade é apenas o primeiro passo.

É preciso ter em mente que neste exato momento, ocupamos um lugar no mundo que é fruto de mudanças feitas lá atrás, conscientes ou não. Para muitos de nós, o trajeto feito até este ponto foi praticamente automático e sem maiores planejamentos. Para outros, cada passo da estrada foi criteriosamente pensado e executado.

Independente da forma como pensamos, as mudanças chegam e transformam o que conhecemos como realidade, inclusive quando nossos planos não saem como esperado. Todo mundo conhece alguém ou já passou por situações semelhantes. Amigos que perderam um ente querido, que enfrentaram os desafios de uma paternidade precoce, que foram demitidos de seus empregos de forma inesperada e começaram uma nova atividade profissional. Ainda há aqueles que usaram as próprias histórias, por vezes esquecidas, para trilhar novos rumos.

Sempre seremos capazes de pavimentar novos caminhos que ajudarão a construir quem seremos no futuro. O tamanho da diferença entre quem se é e onde se quer chegar dependerá do apetite que cada um tem por mudanças.

Uma vontade. Um plano. Disponibilidade para o novo. Estes são passos muito importantes quando se pretende mudar algo, mas é preciso aceitar que são apenas partes da engrenagem de um mundo que nunca é o mesmo e isso nos afeta cotidianamente. Como disse Heráclito, nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros… Quanto mais disponíveis estivermos para as mudanças, mais experiências teremos e maior será a nossa troca com o transitório mundo em que vivemos.