O insano ritmo que inventaram para nós

    É engraçado como nos acostumamos a observar, falar e viver a vida em modo avançado. Corremos de um lado para o outro, sem saber muito bem aonde estamos indo. Sabemos, apenas, que precisamos chegar lá, seja lá onde for. E, essa correria, não abre muito espaço para momentos de calmaria espontânea, desaceleração programada ou aquela simples vontade de não fazer absolutamente nada. Até que, por descuido da tal vida moderna, algo inesperado nos obriga a reduzir o insano ritmo que inventaram para nós.

          Essa parada não programada é um desejo que, apesar de compartilhado por muitos, quase não ousamos expressa-lo em alto e bom som. Como se fosse algo feio, desejar que, por alguns momentos, a vida sentisse preguiça e nos concedesse um tempo para respirar, rever amigos, consertar a torneira ou ver os filhos crescerem de verdade. Parece que, no momento em que nos rendemos a esse modelo de vida que sussurra o tempo todo em nossos ouvidos “Não pare! Siga em frente! Não olhe para trás!”, passamos a ver tudo em imagens borradas e sem definição.

          E, nos raros momentos em que conseguimos uma pausa para respirar, percebemos que não vimos as crianças crescerem, os cabelos brancos chegarem e as amizades se transformarem em lembranças. Raros momentos em que chegamos à conclusão que passamos a vida no mesmo lugar, sem perceber que lugar era esse. E, a partir desse ponto, passamos a acreditar que é preciso fazer escolhas, a começar pelo ritmo que imprimimos à vida. Ninguém deseja sair do maravilhoso transe que é viver usufruindo do maior bem que podemos desejar nos dias de hoje: o tempo.

         Talvez, o ato de escolher, tenha se transformado no maior dos nossos privilégios. Se decidirmos correr, o mundo, talvez, nos presenteie com algumas possibilidades. Se a escolha for por uma vida onde o tempo não é um tirando e sim um parceiro, é melhor ficar preparado para os muitos olhares inquisidores que lembrarão, a todo instante, que não é possível ser bem-sucedido sem se deixar sacrificar pela pressa da vida. Como eu disse, uma escolha nada simples.

         Apesar de todos compartilharmos o desejo por uma vida mais calma, o real significado disso é absolutamente particular. Se somos todos diferentes, também são diversos os nossos desejos. Mas, de todo modo, precisamos estar atentos ao que fazemos do nosso próprio tempo e, o quanto de culpa atribuímos a ele pelas escolhas que fazemos. Não se trata de fazer a escolha de Sofia, mas, sim, de entender que não é preciso esperar que o destino coloque paradas obrigatórias em nosso caminho.

       Em tempos de correria obrigatória, as paradas nem sempre nos trazem saúde para usufruí-las. O tempo sempre seguirá o seu inabalável e contínuo fluxo. Sejamos seus cúmplices e caminhemos lado a lado do único que pode nos mostrar como viver bom, se aprendermos a degustar tudo no seu devido tempo.