O dia perfeito

Sabe aqueles dias em que, por algum motivo que ultrapassa a nossa compreensão, o universo se alinha e conspira a nosso favor, transformando aquelas vontades esquecidas em realidade? Pois é. Investimos um bocado de tempo na busca por esses momentos, mas eles são caprichosos. Não basta apenas querer, até porque, o dia perfeito não respeita a nossa vontade, ele se constrói a partir de coisas simples e inesperadas. Mas, nem sempre estamos com o foco ajustado para reconhecer bons momentos disfarçados em meio a simplicidade.

Cada um de nós possui um ideal do que pode ser, ou não, perfeito. Há o senso comum que diz que a perfeição é formada por notas fora do alcance da grande maioria. Existe um quê de masoquismo por trás desse padrão, que é compartilhado por nove entre dez criaturas nesse planeta. Mas tudo bem, sabemos o quanto é difícil encarar e vencer costumes há muito estabelecidos. Buscamos o perfeito lá longe de nós, porque entendemos, desde muito cedo que, o vizinho sempre terá a grama mais verde que a nossa. Talvez seja a hora de regar os nossos próprios gramados…

Quando escolhemos seguir por essa trilha que liga o perfeito ao inatingível, miramos apenas nas perfeições em grande escala e, com isso, deixamos de perceber as surpresas sutis, os encontros rápidos, os olhares alegres e os sorrisos sem máscaras que recebemos com uma frequência muito maior do que somos capazes de lembrar. Certamente, grande parte da nossa queixa sobre a escassez de dias perfeitos, vêm da nossa miopia que nos leva a enxergar grandiosidades, mas que nos impede de ver pequenas felicidades.

Um dia ensolarado, de brisa amena e o mar cristalino como horizonte… Este é, sem dúvidas, o cenário de um dia perfeito. Claro que não. Há uma legião de pessoas que não nutre nenhuma simpatia por areia, calor e água gelada. Podemos, então, pensar ainda em um dia chuvoso, uma casa no campo, um vinho e uma lareira para dar o tom do dia perfeito. Já consigo lembrar dos nomes de pessoas que detestam frio, dias nublados e falta de agitação… É difícil enquadrar e agradar as nossas ideias de perfeição. Mas quem disse que os melhores dias assim precisam de uma moldura?

No exato instante em que entendemos que a perfeição vai muito além do senso comum, que diz que o perfeito é algo para poucos, passamos a aproveitar mais os detalhes felizes que compõem o nosso cotidiano. Definitivamente, não dá pra passar um vida acreditando que dias perfeitos precisam de um planejamento prévio, de um investimento de tempo para que tudo seja como esperamos. Quantas vezes não ouvimos estórias de momentos programados e pensados para serem perfeitos mas que, no fim, não passaram de um grande rascunho de felicidade?

Nossa busca por dias plenos que nos colocam em estado de graça, também é responsável por nossa falta de perspectiva em relação ao que pode ou não tornar-se memorável. E isso não traz nada de positivo, ao contrário, nos engessa e endurece. A perfeição está presente em dias leves e despretensiosos. Dias perfeitos cabem, com folga, dentro de abraços, da preguiça em dias nublados, do sorriso de uma criança, da mensagem de uma amiga contando que esta grávida de seu primeiro filho… Dias perfeitos são todos aqueles em que jogamos os padrões para o alto e nos permitimos saborear a felicidade que se esconde nos detalhes.