O amor não cabe em caixas pequenas

Já pararam para pensar em quantas coisas se alteram ao nosso redor, todas as vezes em que o amor resolve entrar em nossas vidas, com a sutileza de um elefante em uma loja de cristais? Amar é um exercício de organização. Uma vez que ele se estabelece, é praticamente impossível contê-lo. É aí que o problema começa: o amor não cabe em caixas pequenas.

Se fosse uma pessoa, o amor seria daquelas bem atrapalhadas que tentam passar despercebidas mas que, ao menor sinal de silêncio, derrubam algo barulhento e denunciam a sua presença. O amor também pode ser um adolescente que cresceu demais e ainda não sabe lidar com o seu novo eixo de gravidade. O amor é, também, um senhor de bengala que tem dificuldade ao subir escadas mas que, diante da tarefa árdua, ajusta seu passo e segue seu caminho, sem pressa, porque sabe que não é a velocidade e, sim, a resistência, que o fará chegar onde quer.

Resistência. Esta é, sem dúvida, a maior característica das pessoas que amam. E por que? Imaginem que o amor é, ou pelo menos espera-se que seja, uma via de mão dupla onde, aquilo que é sentido por um, encontra abrigo no peito do outro. Mas, como eu disse, isso é o que se espera. Não há garantia de sucesso. A reciprocidade que esperamos encontrar, nem sempre, estará pronta para caminhar junto com a lista de exigências imposta àqueles que buscam o mais cobiçado dos sentimentos. Sim, o amor também pode ser exigente como um astro pop…

É impressionante como esse sentimento tão batido, continua a render assuntos sem fim. A capacidade de mudar de forma, tão própria do amor, é responsável por gerar experiências muito particulares, apesar de ser o mesmo sentimento. Mães amam seus filhos de formas diferentes, apesar de negarem preferências. Sentimos amor por muitas pessoas mas, independente do número, vivemos experiências únicas com cada uma delas. Caímos de amores por muitas coisas, mas, para cada uma delas, um amor próprio, pessoal e intransferível.

Reparem na contradição: se o amor é único, como é possível senti-lo de tantas formas? Talvez este seja o grande segredo de seu sucesso: disfarçar-se com uma simplicidade que, de fato, só existe aos olhos distraídos daqueles que estão prestes a se apaixonar. O amor é uma estrada cheia de curvas que não deixam muito claro para onde vamos ou quando vamos chegar. O que nos resta é seguir o fluxo e aproveitar as experiências pelo caminho.

As muitas faces do amor encontram reflexo nas mudanças que sofremos vida afora. Seria difícil imaginar-se ao lado de seu amor da adolescência trinta anos depois? Possivelmente. Os anos seguem e nós mudamos de pele e as formas de amar acompanham essas mudanças. O que antes nos envolvia com facilidade, hoje não cabe mais. Nós e o amor… esse é um modelo de chave e fechadura que, raramente, consegue ser compatível a primeira vista, apesar de muitos jurarem que já conseguiram essa façanha. Mas, me parece, que o grande desafio por trás de tudo isso, não é apenas achar o par correto ou seu encaixe perfeito. Conhecer seus próprios limites também faz parte dos encantamentos do amor.

Amar pode parecer um jogo, uma disputa ou uma batalha. O amor muda, nós mudamos e, por esta razão, nem sempre é fácil agendar um momento onde nossas mudanças serão parcialmente complementares.  O amor nos desafia, não porque é um sentimento difícil de sentir, ao contrário. O amor tem formas simples que mudam de molde o tempo todo por uma única razão: para nos mostrar que, quando se trata de amar, não adianta esperar por encaixes perfeitos.