O amor é f*oda

            O que pode ser maior que a política, mais empolgante que o futebol e mais urgente que o aquecimento global? O que nos conecta de forma tão forte quanto inesperada e que faz parte, em alguma medida, da vida de todos nós? O que mais poderia ser, senão o amor? Esse entorpecente disfarçado de sentimento, capaz de nocautear até o mais resistente dos incrédulos e provocar palpitações naqueles que juram que esse sentimento não passa de uma grande bobagem. O amor é foda. Não há como negar.

            O amor faz o que quer, independente do que achamos ou deixamos de achar. Mas, por que damos carta branca para um sentimento nos virar de ponta a cabeça sem nenhuma cerimônia? A resposta até que é simples. Categorizamos os sentimentos de acordo com o momento da vida. Esperança para superar problemas, felicidade para aplacar as dores, raiva para extravasar frustrações e por aí vai. Para a maioria dos sentimentos, doses únicas e eficazes. Mas, quando se trata do amor, deixamos esse protocolo de lado e caímos de boca na superdosagem. Queremos a embriaguez, o exagero, a taquicardia e a descompostura.

           Se o amor fosse uma pessoa, ele certamente diria: Não pediu tanto para que eu viesse? Agora aguenta! A causa mais provável para essa falta de filtro tão peculiar, é a certeza de que, apesar de sermos tão diferentes, compartilhamos a crença de que a vida só é boa quando se ama ou se é amado. Essa cilada que o amor romântico impregnou em todos nós, tem bagunçado um pouco a percepção do que é, de fato, esse sentimento. O amor virou um objeto de valor para ser ostentado de forma quase infantil, tipo “eu tenho, você não tem!”

          O problema é que, quando tratamos de valores, pensamos logo em capitalizar o produto. Não é preciso dizer que o mercado entendeu isso há tempos e fez do amor, um grande balcão de negócios e nós, embarcamos nessa. Assim, iniciamos uma corrida maluca, atrás de um produto que acreditamos ser o amor. Se não for igual ao que está na vitrine, corremos atrás de similares de qualidade duvidosa. Quando não conseguimos adquirir o tão almejado produto, os frustramos por acreditar que, definitivamente, o amor não cabe em nosso orçamento sentimental. Absurdos da vida moderna.

              E, em meio a euforia da busca pelo sentimento perfeito, confundimos tudo. Chamamos paixão de amor, amor de tesão, tesão de culpa, culpa de carência, carência de solidão e solidão de fracasso. Apenas por sermos levados a crer que o amor é algo que chega de fora para dentro, como um produto que se compra ou como uma gentileza feita por um outro qualquer. Nos colocamos em um leilão às cegas, a espera de um lance final.

            Nesse corre-corre atrás do que pensamos ser uma dádiva para poucos, deixamos de enxergar dos olhos para dentro, de ouvir nossos sons internos e de falar aquilo que só vale para nós. Esse é o caminho mais curto para encontrar o que passamos anos e anos perseguindo, sem muito sucesso. Resgatar isso, é um grande passo para confirmar que não é o amor alheio que nos escolhe. Só amamos para fora de nossas barreiras, verdadeiramente, quando transbordamos o amor que está muito bem cuidado dentro de nós. É neste instante que descobrimos que o amor é, absolutamente, foda.