Mimados não podem sofrer

Levanta essa cabeça. Enxuga essas lágrimas. Sacode a poeira e segue em frente… Somos bombardeados por estímulos como esses, desde sempre. Estímulos que nos permitem, ou pelo menos tentam, retirar o sofrimento de nossas vidas, mesmo que momentaneamente. Coisa cada vez mais comum em tempos onde é inadequado sofrer. Ao menos publicamente.

Vivemos a era da felicidade quase obscena e obrigatória. Chegamos ao êxtase quando vemos nossos bons momentos esparramados por aí. Nos sentimos motivados a demonstrar a nossa felicidade, seja ela real ou meticulosamente fabricada, sempre que vemos alguém expondo registros mais felizes que os nossos. É evidente que, neste cenário, não há espaço para sofrer.

Mas qual é o problema em não querer sofrer? Na verdade, a ausência de sofrimento deveria ser encarada como uma benção e não como uma questão delicada. Então, se a felicidade é o contraponto exato do sofrimento, logo, se não há motivos para sofrer, sobram razões para explodir de felicidade, certo? Não no mundo real…

Hoje, se as crianças choram e demonstram algum tipo de sofrer, criamos, imediatamente, formas de aplacar seu sofrimento. E a mais simples delas, é a pronta satisfação das suas vontades. Para cada choro, um desejo realizado. Assim, desde muito cedo, aprendemos que sofrer é algo que precisa ser evitado. O que faz sentido, uma vez que ninguém quer sentir algo que traga dor ou tristeza.

Porém, há algo de estranho nesse atual padrão de comportamento. Querer apenas o lado brilhante da moeda ou apenas os belos dias ensolarados, pode criar uma realidade onde, as pessoas que nela vivem, desfrutam da mais plena felicidade. O que seria perfeito, não fosse por um pequeno detalhe: a felicidade absoluta não é real, pelo menos não da forma como gostaríamos. Para que seja possível conhecer essa euforia, é necessário saber o que significa conviver com seu antagonista. É importante conhecer os extremos para ter a  justa medida do que queremos de bom e do que não queremos de jeito nenhum.

Vivemos o “aqui e agora” que escolhemos, via celular ou controle remoto e, dessa forma, nos permitimos optar por um sem número de possibilidades isentas de sofrimento. Séries, filmes, aplicativos de relacionamento… Montamos tudo para que o resultado final seja aquele que programamos previamente. Pode até dar certo mas, na imensa maioria das vezes, as estórias seguem rumos totalmente inesperados. O que tem provocado muitas frustrações por aí. Queremos ser felizes e ponto.

Estamos mimados. Só queremos saber do que pode dar certo. Do que acaba em finais felizes. Não sabemos como lidar com perdas, dores e fracassos. O sofrimento é para aqueles que merecem, o que não é o nosso caso, não é mesmo? Para que chorar, se posso eternizar sorrisos em fotos descartáveis? Para que sofrer, se elaborei caminhos que me conduzem apenas a felicidade? Por que viver na realidade nua e crua, se posso criar realidades repletas de ilusão?

Talvez este seja o grande paradoxo dos tempos atuais. Não sofrer virou projeto de vida, contudo, esta escolha pode, sim, transformar-se em uma fonte inesgotável de sofrimento. Virar as costas para o que consideramos feio e doloroso, jamais será a garantia de que não viveremos momentos ruins. Ao contrário. Quando encaramos as dificuldades, percebemos que a vida nos dá limites muito mais severos do que aqueles que preferiríamos viver em nossas bolhas de felicidade.

Momentos difíceis são a outra face da moeda. Podemos até não querer conhecê-los, mas eles sempre estarão lá. E, sem sombra de dúvida, teremos que lidar com eles, mesmo que não seja uma escolha. Por isso, quando decidir viver apenas as boas coisas da vida, criando mecanismos para continuar mimado, mesmo depois de grande, lembre-se que só é possível valorizar a felicidade, quando, enfim, aprendemos a conviver e respeitar o que é o sofrer.