Faça o que eu digo, mas…

Sabe aquelas pessoas que tem como ditado particular o bom e velho “faça o que eu digo, mas, não faça o que eu faço”? E que estão sempre a postos para vender uma imagem recheada de malandragem? Elas estão por toda a parte, não é mesmo? E o pior é que, possivelmente, todos temos os nossos espertinhos de estimação. Mas, será que, no fim das contas, não seriam esses enganadores, as maiores vítimas de sua fala mansa e cheia de segundas intenções?

Na maioria das vezes, associamos o ato de ser enganado com as turbulências em relacionamentos amorosos, mas, essa é uma percepção equivocada. Passamos por isso o tempo todo, com um número muito maior de pessoas, que sequer fazem parte do nosso núcleo de relações. Todas as vezes em que somos vítimas de alguém que quer nos fazer de bobos, terceiros serão incluídos em nossas histórias. Quando febres imaginárias são criadas para aliviar a presença na escola ou no trabalho, há consequências que nunca são individuais.

A questão aqui é tentar compreender o alcance da mentira, da omissão e, também, da manipulação. Relações extraconjugais, “matar” um parente para não trabalhar, fraudar atestado médico… Coisas que, de tão banalizadas, já fazem parte daquilo que é considerado normal por milhares de pessoas. Mas, repito, todas as vezes em que estratégias para enganar o outro são utilizadas, novas pessoas são enredadas em uma farsa, transformando-se, involuntariamente, em cumplices de uma mentira.

É claro que mentiras foram feitas para substituir uma verdade por um engodo e, nessa transação, sempre haverá aquele que ficará com um saldo devedor. Porém, nem sempre é possível ser bem-sucedido na tentativa de esconder a realidade. E, são os pequenos vacilos que fazem cair por terra a ilusória sensação de que se pode ludibriar todo mundo, o tempo todo. O engano tem efeito temporário e, mesmo que demore, será substituído pela validade vitalícia da verdade. Sempre.

Por isso, independente do lado em que estiver, não deixe de considerar que, ora faremos parte do time daqueles que se consideram espertos demais, ora estaremos no grupo dos disponíveis que preferem acreditar sem desconfiar. Mas, não é a sequência desses eventos o que torna essa discussão importante. Ser enganado ou enganar alguém coloca em risco uma matéria-prima formada por laços muito raros e frágeis – a confiança. E, à medida que esses laços são rompidos, cicatrizes se formam e deformam algo que não foi feito para ser alterado. Perceber isso é entender que não há pequenos enganos e que, uma mentirinha simples, pode comprometer aquilo que temos de mais precioso em nossas vidas.