Ideias, pensamentos e memórias

Todas as vezes em que iniciamos um novo projeto, somos arrebatados por uma enxurrada de ideias que, aos poucos, vão se acalmando e se organizando. Às vezes de forma cordial, às vezes travando batalhas violentas, na tentativa de fazerem parte da história que vai nascer. Porém, neste processo, uma questão se faz presente: Qual é a origem da diversidade de pensamentos e ideias que povoam as nossas cabeças e que ajudam a formar as nossas memórias? Uma pergunta nada fácil de responder, uma vez que exige respostas autênticas e muito particulares.

Estar onde estamos é, obviamente, fruto de uma caminhada nada fácil. Nos perdemos, mudamos de ideia com frequência, sofremos mais do que gostaríamos mas, sobretudo, somos agraciados por experiências transformadoras que são responsáveis por nos trazer até aqui. Muitas delas caem no esquecimento, muitas são lembradas eventualmente e, algumas, são companheiras fiéis por anos e anos. Esse acumulado de horas vividas reflete, não apenas a nossa biografia, mas aquilo que queremos ser no futuro e por quais estradas queremos seguir.

Vendo as coisas por esse ângulo, é possível acreditar, então, que cada momento vivido conta… e muito. Apesar disso, passamos anos acreditando piamente que, pensamos e agimos de acordo com a nossa natureza, personalidade ou que é o destino, o responsável por nossas ações. Dependendo do que acreditamos, isso pode até ser verdade, mas não completamente.

Cada um de nós, pode ter um temperamento que sinaliza para onde seguir, mas é o resultado de experiências prévias que servem de suporte para novas decisões. O que pode ser a salvação para novas ciladas e possíveis constrangimentos desnecessários. Pena que isso, nem sempre, é uma realidade.

Quantas e quantas vezes, repetimos um padrão de comportamento, apesar de sabermos de antemão, qual será o fim da estória? Muda o elenco, mas o roteiro é sempre o mesmo, assim como o seu desfecho. Todos nós já protagonizamos esse mesmo filme, mas é possível mudar esse final, uma vez que, muito do que vivemos não depende apenas do outro. A nossa conivência sempre dará a palavra final, independente da situação.

A grande questão está em saber como usar a memória a nosso favor. Sei que é, praticamente impossível, manter a nossa reserva de experiências atualizada o tempo todo mas, ficar uma pouco mais atento ao que se vive pode, alem de poupar sofrimento, aumentar o crédito de felicidade de todas as formas, cores e tamanhos.

À medida que vencemos as décadas de vida, vamos ressignificando tudo aquilo que nos rodeia e que é, de fato, importante. Brigas em família perdem o sentido, dizer sim para tudo não é mais uma necessidade e, dizer não, torna-se um hábito libertador. Talvez este seja um dos grandes sentidos do envelhecer.

A falta de experiências, próprias da juventude, nos apresenta ao exagero e descontrole. A maturidade, chega de mansinho, provando que, com calma, é possível desfrutar mais e por muito mais tempo, as situações que vivemos todos os dias.

Dessa forma, concluímos que não há formula única que explique a diversidade de ideias que vive em nós. Ainda bem… Somos parte rocha e parte nuvens, que mudam de forma e cor, que desaparecem para em seguida surgirem pesadas e barulhentas. Mas sempre deixando registros que nos marcam e forjam os pilares daquilo que somos verdadeiramente. Por esta razão, quanto maior for o número de experiências vividas, mais fortes seremos e, se cada momento conta, por mais insignificante que possa parecer, é melhor fazer cada um deles valer a pena. É melhor fazer cada um deles se tornar… memorável.

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Saio de casa apressado, vejo uma vaga reservada para deficientes e estaciono. Tudo bem, é rapidinho. Um lugar preferencial fica vago no transporte público, me sento. Na estação seguinte, entra uma senhora com necessidades especiais e subitamente sou acometido por um sono profundo. Tudo bem, trabalhei o dia inteiro, estou exausto e mereço o lugar. Furo o engarrafamento pelo acostamento, dou troco errado, não pago a conta quando saio com amigos, fumo em lugares proibidos… Para todas essas atitudes sempre há uma explicação possível, logo, qual é o problema em quebrar as regras de vez em quando, sem maiores consequências? Para muitos, nenhum problema e vida que segue.

Quem nunca cedeu aos encantos da quebra de regras, que atire suas pedras imaginárias. Agir como se ninguém estivesse olhando, para pegar atalhos que nos favoreçam de alguma forma, é uma constante na vida humana. Assim, quando compreendemos que o mundo se divide entre o privado e o coletivo, achamos por bem, muitas vezes, encurtar distâncias no território ocupado por muitos, para garantir, de forma sonsa, que não estamos fazendo nada demais…

É neste ponto onde o “jeitinho” se estabelece. Quando sabe-se o caminho certo para chegar onde quer que seja, porém, é possível usar de subterfúgios para tornar esse trajeto mais rápido, fácil e adequado aos próprios planos. Assim, muitos seguem suas vidas, preocupados cada vez mais com o “seu” e completamente desinteressados pelo “nosso”. Mas é, de fato, um problema pensar dessa forma? Sim, é.

Todas as vezes em que assumimos que a nossa persona deve ocupar o lugar mais importante e que, o restante das pessoas não faz diferença, outros tantos irão replicar a mesma forma de pensar e, nesse caso, possivelmente, será você o excluído da melhor parte do bolo. O que significa dizer que, se todos usarem o dito popular “farinha pouco, o meu pirão primeiro”, como lema de vida, em algum momento irá faltar pirão para dividir entre todos.

Essa forma unilateral de ver o mundo, valoriza o individualismo, além de segregar as pessoas de suas relações. E, em maior grau, provoca distorções de comportamento, capazes de criar realidades paralelas onde nada, além de você, é importante o suficiente para merecer atenção.

E para onde essa estrada nos levará? Difícil dizer qual será o destino, mas não há dúvidas de que o caminho até lá será repleto de pequenas, médias e grandes corrupções, puxadas de tapete e, claro, algum sofrimento… Alheio. Seguir a cartilha do “primeiro, eu”, diz muito sobre quem somos em detalhes e, expõe de forma muito clara, o papel que desempenhamos em nossas relações. O excesso de querer, normalmente, cria montantes que serão usufruídos individualmente, deixando de lado, um grupo de excluídos que sonha em chegar àquele lugar, assim que tiverem chance. Estabelecendo, dessa forma, um ciclo egoísta onde, quem está dentro, não sai e, quem está fora, aguarda ansiosamente, uma chance para entrar.

Essa triste perpetuação do individual sobre o coletivo, gera abismos de todas as naturezas, diferenças irreconciliáveis e barreiras que impedem a conexão entre as pessoas. Todos querem e merecem realizar seus desejos. Isso não pode, jamais, ser um problema. A grande questão está relacionada a forma escolhida para chegar lá. Querer mais e realizar grandes feitos, sempre será um mérito coletivo. Acreditar no contrário é leviano e ilusório. Afinal, seguir em frente, usufruindo a vida, é muito melhor quando estamos, sinceramente, bem acompanhados.

Olhar estrangeiro

Experimentar a sensação de estar deslocado em algum lugar ou grupo, não é exatamente uma coisa incomum e não tem relação com espaço ou tempo. Sentir-se um peixe fora d’água é algo que acompanha a maioria das pessoas, em algum momento de suas vidas. Isso permite observar o que nos cerca sob diversas perspectivas, que por vezes são boas e, por outras, nem tanto.

Estar deslocado cria, em certa medida, uma capacidade única de adaptação, onde é preciso ter a velocidade para perceber ambientes, idiomas e comportamentos diferentes dos seus e, de alguma forma, estabelecer uma conexão com eles.

Porém, não se pode afirmar que a sensação de não pertencer a algum lugar, será sempre positiva. Para muitos, pode ser dificílimo superar as barreiras impostas por situações que vão além daquelas com as quais lidamos com segurança. De toda forma, sentir-se um estranho no ninho, abre inúmeros caminhos, desde manter-se em situações onde não é fácil interagir de forma confortável, até perceber um ambiente como algo diferente do seu habitat, adaptar-se a ele ou buscar outros ninhos que sejam mais receptivos e compatíveis com seus desejos.

Esse panorama expressa uma certeza: seja qual for o caminho a ser seguido, a presença do desconhecido nos força a encarar limites pessoais. E é isso que nos impulsiona a seguir a caminhada ou, pelo menos, escolher entre desistir de algumas coisas ou confrontar tantas outras.

Dessa maneira, o que antes causava desconforto, hoje pode ser trivial e o contrário também é verdadeiro. O que prova que quanto maior for a disponibilidade para o novo, maior será a quantidade de experiências apreendidas ao longo do caminho.

Jogar-se no escuro está longe de ser uma situação tranquila mas é, sem dúvidas, capaz de expor detalhes particulares até então desconhecidos. Isso dá a oportunidade de, não apenas nos reconhecermos, mas de irmos além. Um vôo cego possibilita que sejamos apresentados a novas versões de nós mesmos, quantas vezes a nossa coragem permitir.

Talvez este flerte irresistível com o desconhecido, seja o responsável por esse desejo de conhecer ou experimentar novidades com as quais não nos encaixamos de imediato. Mudamos de escola, de bairro, fazemos novos amigos e traçamos um perfil das coisas que nos movem. Mas, apesar de sermos apresentados a pequenos desafios desde muito cedo, é difícil ter, em tempo real, a clareza sobre quando estamos as voltas com algo verdadeiramente novo.

Isso está, possivelmente, ligado ao nosso velho e conhecido instinto de sobrevivência. Aquele que é capaz, dentre tantas coisas, de alertar sobre as inúmeras roubadas que surgem a todo instante em nossas vidas. Mas nem sempre lhe damos os devidos créditos, tamanha a nossa vontade de enxergar além do que se vê.

Um mundo desfocado traz, à primeira vista, desconforto e insegurança, uma vez que não é possível saber a profundidade do que está diante de nós. Mas, à medida que o tempo segue seu fluxo, as cores e volumes tornam-se mais nítidos e ajudam a compreender melhor onde estamos e o que fazemos ali. Isso nos permite escolher entre ficar naquele universo, que toma forma diante dos nossos olhos, ou seguir em frente, na busca por novas paisagens.

Essa jamais será uma decisão única. Mudamos o tempo todo. Ora ficamos, ora seguimos em frente, querendo conhecer, compreender e ser desafiados por lugares de onde não fazemos parte, onde não pertencemos. Seguimos a vida buscando sempre por situações que nos façam ver o mundo por outro prisma e que nos torne diferentes. Dessa forma, mesmo quando nos sentirmos confortáveis, sejamos forçados a enxergar a vida com um olhar curioso, um olhar cauteloso, com um olhar estrangeiro.

 

A vida tem seus encantos

Encantamento. Este é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz perceber o quanto vale à pena seguir adiante, acreditando naquilo que aprendemos de mais fundamental: a vida tem seus encantos.

Encantar-se é baixar a guarda e enxergar o que está além do óbvio, da embalagem superficial que recobre tudo e todos. Como se refletores trouxessem uma torrente de luz extra, capaz de iluminar os detalhes ignorados por nossa displicência.

Porém, quando conseguimos captar esses detalhes, uma onda confusa de sensações nos assola, promovendo uma profusão de olhares brilhantes, sorrisos abobados, discursos empolgados e uma vontade enorme de realizar desejos e concretizar sonhos distantes do nosso cotidiano sufocante.

Todos conhecem os efeitos provocados pelo encantamento. Se pensarmos em tudo vivemos, os melhores momentos estarão, certamente, relacionados aos encantos que sentimos e que também fomos capazes de proporcionar ao longo da vida. E isso inclui todas as vezes em que sentimos nossos corações acelerados, agitando tudo a nossa volta, nos cobrindo de coragem para encarar lugares desconhecidos de peito aberto e famintos por felicidade.

Isso tudo me faz pensar: o que seria dos nossos sonhos e ideias se não houvesse encantamento por eles? Possivelmente, ficariam eternamente presos à categoria das coisas que gostaríamos de ter feito mas nos faltou coragem para ir adiante.

Talvez esse seja o diferencial do encantamento: coragem. O encanto é arrebatador e pode, de forma inexplicável, alterar o curso de histórias de vida absolutamente tranquilas e consolidadas. Causando terremotos implacáveis capazes de colocar o mundo de ponta a cabeça, mostrando que as nossas crenças e perspectivas não são imutáveis.

O encantamento assemelha-se a paixão. Daquelas que aproximam longas distâncias, tornando real o que antes era impensável. Isso pode explicar o que move as pessoas a seguir por trilhas não planejadas e desconhecidas, transformando, por exemplo, um biólogo e professor em um escritor que traduz em palavras as suas observações da vida comum. É possível…

O arrebatamento que sentimos quando nos encantamos por alguém ou por algum projeto, é algo difícil de controlar, mas é preciso saber o que fazer com ele. O que acelera o nosso coração e ilumina o nosso olhar, merece atenção e dedicação. E, se por alguma razão, qualquer um de nós duvidar disso, basta ter a certeza de que isto é apenas um efeito colateral dos sentinelas das zonas de conforto: os nossos medos. Entretanto, o medo não é páreo para a energia do encanto, que é capaz de romper amarras das relações mais sólidas, criando novas possibilidades e iluminando novos caminhos.

Isso possibilita traçar novas rotas vida afora. Quem disse que deve-se seguir, para sempre, as escolhas feitas ainda muito jovens, não foi capaz de ceder aos encantos do mundo ou aos seus próprios. Apesar de saber que as histórias individuais são muito particulares, cercadas de dificuldades inerentes a cada um, não há como não desejar se encantar o máximo que possível.

De todo modo, não lute contra, não tente sufocar sua capacidade de perceber o mundo que o cerca e, acima de tudo, não tente calar a voz entusiasmada que lhe diz: a vida é sua, é única e é rápida. Deixe-se encantar por ela.

 

A admiração que vive em nós

Diariamente, uma massa de pessoas acorda e se lança ao mundo em busca do seu pão de cada dia. Se pensarmos nas razões que nos levam a nadar, o tempo todo, contra uma maré imprevisível, teremos milhares de respostas possíveis e que irão variar de acordo com o exato momento que vivemos. Mas, apesar das muitas possibilidades, me arrisco a dizer que, o que nos move para o que é, de fato, importante, é o sentimento de admiração que vive em nós.

Desejar um emprego, seguir uma profissão ou encontrar alguém que julgamos interessante, são ações claramente impulsionadas pelo olhar que transferimos para tudo o que está a nossa volta. Admiramos atitudes e projetos e, consequentemente, passamos a gostar das pessoas por trás disso. Quem nunca admirou uma autora célebre, um grande pintor, um professor notável ou qualquer outra pessoa que, certamente, marcou um momento importante de sua vida, através de suas obras e textos criando, de alguma forma, uma conexão repleta de admiração?

O ato de admirar vai muito além do contemplativo, ele nos traz um alento reconfortante, como um ar oxigenado em momentos bastante tóxicos, onde é difícil enxergar muitas opções e de onde não é possível perceber novos caminhos. Um olhar admirado promove a criação de referências, de maior ou menor importância. O que nos faz mirar em pessoas que podem, em tese, nos transferir de um lugar comum para uma posição que ainda não ocupamos. Dessa forma, criamos ídolos para chamar de nossos, que nos emocionam gratuitamente e, por isso, os admiramos sem cobrar uma contrapartida, mas que, para além da influência óbvia, também atuam como alvos que almejamos alcançar ou pódios onde desejamos subir. Ou pelo menos tentar chegar lá.

Admirar o mundo faz parte da nossa essência, a grande diferença é o que fazemos dessa admiração. É possível seguir padrões e tendências, com base em modelos de comportamento que fazem nossos olhos brilharem. Isso pode, em princípio, parecer que a admiração ira nós conduzir, apenas, para os melhores exemplos, aqueles cheios de virtudes e que encheriam nossos pais de orgulho. Infelizmente, não há nenhuma garantia de que isso será uma realidade. Basta olhar para todos os maus exemplos, muito bem-sucedidos, que nos rodeiam.

As fontes de inspiração são infinitas e mudam de acordo com a passagem do tempo. Quando crianças, nosso olhar de admiração é capaz de captar apenas aqueles que estão distantes o suficiente para caber em um abraço. Mas, à medida que os anos passam, ficamos mais abertos e suscetíveis a toda sorte de influências e modismos. O que pode ser maravilhoso, uma vez que é na experimentação desses modelos, que escolhemos o que de fato nos toca mais profundamente. Ao mesmo tempo, essa mesma diversidade de influências pode, e vai, indicar modelos perigosos que irão, com muita frequência, criar ídolos bem produzidos, cheios de frases de efeito e discursos prontos, porém, repletos de vazio.

Mas há um momento em que percebemos que os lados opostos serão uma constante ao longo da vida, logo, não seria diferente com os nossos objetos de admiração. De todo modo, só é possível admirar aquilo que nos permitimos ver com mais calma. Detalhes pequenos tornam-se essenciais à medida em que se permite ver, sentir e entender o mundo e as pessoas à nossa volta. A admiração é algo tão poderoso que é capaz de nos fazer respeitar e amar desconhecidos, copiar modelos, sonhar com o melhor e, acima de tudo, perceber que só existirá um universo tão vasto de possibilidades, quando entendermos que, a maior e melhor fonte de admiração, não está em lugares inalcançáveis e sim, morando dentro de nós.

Mimados não podem sofrer

Levanta essa cabeça. Enxuga essas lágrimas. Sacode a poeira e segue em frente… Somos bombardeados por estímulos como esses, desde sempre. Estímulos que nos permitem, ou pelo menos tentam, retirar o sofrimento de nossas vidas, mesmo que momentaneamente. Coisa cada vez mais comum em tempos onde é inadequado sofrer. Ao menos publicamente.

Vivemos a era da felicidade quase obscena e obrigatória. Chegamos ao êxtase quando vemos nossos bons momentos esparramados por aí. Nos sentimos motivados a demonstrar a nossa felicidade, seja ela real ou meticulosamente fabricada, sempre que vemos alguém expondo registros mais felizes que os nossos. É evidente que, neste cenário, não há espaço para sofrer.

Mas qual é o problema em não querer sofrer? Na verdade, a ausência de sofrimento deveria ser encarada como uma benção e não como uma questão delicada. Então, se a felicidade é o contraponto exato do sofrimento, logo, se não há motivos para sofrer, sobram razões para explodir de felicidade, certo? Não no mundo real…

Hoje, se as crianças choram e demonstram algum tipo de sofrer, criamos, imediatamente, formas de aplacar seu sofrimento. E a mais simples delas, é a pronta satisfação das suas vontades. Para cada choro, um desejo realizado. Assim, desde muito cedo, aprendemos que sofrer é algo que precisa ser evitado. O que faz sentido, uma vez que ninguém quer sentir algo que traga dor ou tristeza.

Porém, há algo de estranho nesse atual padrão de comportamento. Querer apenas o lado brilhante da moeda ou apenas os belos dias ensolarados, pode criar uma realidade onde, as pessoas que nela vivem, desfrutam da mais plena felicidade. O que seria perfeito, não fosse por um pequeno detalhe: a felicidade absoluta não é real, pelo menos não da forma como gostaríamos. Para que seja possível conhecer essa euforia, é necessário saber o que significa conviver com seu antagonista. É importante conhecer os extremos para ter a  justa medida do que queremos de bom e do que não queremos de jeito nenhum.

Vivemos o “aqui e agora” que escolhemos, via celular ou controle remoto e, dessa forma, nos permitimos optar por um sem número de possibilidades isentas de sofrimento. Séries, filmes, aplicativos de relacionamento… Montamos tudo para que o resultado final seja aquele que programamos previamente. Pode até dar certo mas, na imensa maioria das vezes, as estórias seguem rumos totalmente inesperados. O que tem provocado muitas frustrações por aí. Queremos ser felizes e ponto.

Estamos mimados. Só queremos saber do que pode dar certo. Do que acaba em finais felizes. Não sabemos como lidar com perdas, dores e fracassos. O sofrimento é para aqueles que merecem, o que não é o nosso caso, não é mesmo? Para que chorar, se posso eternizar sorrisos em fotos descartáveis? Para que sofrer, se elaborei caminhos que me conduzem apenas a felicidade? Por que viver na realidade nua e crua, se posso criar realidades repletas de ilusão?

Talvez este seja o grande paradoxo dos tempos atuais. Não sofrer virou projeto de vida, contudo, esta escolha pode, sim, transformar-se em uma fonte inesgotável de sofrimento. Virar as costas para o que consideramos feio e doloroso, jamais será a garantia de que não viveremos momentos ruins. Ao contrário. Quando encaramos as dificuldades, percebemos que a vida nos dá limites muito mais severos do que aqueles que preferiríamos viver em nossas bolhas de felicidade.

Momentos difíceis são a outra face da moeda. Podemos até não querer conhecê-los, mas eles sempre estarão lá. E, sem sombra de dúvida, teremos que lidar com eles, mesmo que não seja uma escolha. Por isso, quando decidir viver apenas as boas coisas da vida, criando mecanismos para continuar mimado, mesmo depois de grande, lembre-se que só é possível valorizar a felicidade, quando, enfim, aprendemos a conviver e respeitar o que é o sofrer.

Amar é barra pesada

Há uma receita padrão espalhada por aí, que diz a todos que, amar, será a coisa mais incrível que poderá acontecer em suas vidas. Isto cria uma legião de perseguidores da fórmula mágica, que os fará amar e, ao mesmo tempo, receber o mesmo amor em troca. Como em um belo e clássico conto de fadas.

O amor é, de fato, o sentimento que tem a seu favor, a maior estratégia de marketing de todos os tempos. Desde o nascimento, ouvimos  que só o amor constrói a felicidade. Elegemos dias especiais para comemorá-lo. Admiramos casais apaixonados em propagandas, livros, novelas e filmes. O que significa dizer que somos, praticamente, obcecados pelo amor. Não como um sentimento natural que é construído a partir da união de vários outros sentimentos, mas como uma espécie de estilo de vida. Tenha amor, seja amor, ame e seja feliz.

Ah o amor romântico… Tão idealizado e, ao mesmo tempo, tão inacessível. Até mesmo para nós, os seus criadores. O que é, no mínimo, curioso. Valorizamos o amor a tal ponto, que o transformamos em algo quase divino. Resultado: passamos anos e anos em busca de algo que se afastará de nós, todas as vezes que tentarmos alcançá-lo.

O grande problema é que leva-se muito tempo para perceber que o amor, sublime amor, não passa de um pote de ouro enterrado sob um arco-íris imaginário. E, mesmo quando nos damos conta disso, pouca coisa muda. Afinal, é preferível se envolver pelo ideal de amor, a constatar que, sem ele, aquele romantismo que adoramos tanto, nunca passou de um mito.

O mundo é árido demais para não acreditarmos no amor. Concordo. Mas é preciso aprender que o amor cotidiano é como uma tela impressionista. Quanto mais distante estamos dele, mais belo e sublime ele fica. Porém, para que a mágica aconteça, é necessário estar próximo, só que, de perto, esta mesma tela, apresenta cores mais fortes e formas mais confusas, nada fáceis de entender. Assim como são todas as coisas no mundo real.

Então, amar não é ouvir sinos e receber flechadas de cupidos marotos? Claro que não. Mas essa é uma imagem mental muito mais agradável do que dizer: o amor é taquicardia, noites sem dormir e um certo descontrole emocional, certo? É aí é que entra a grande jogada de mestre.

Se o amor é barra pesada e nos coloca de ponta cabeça, mas, ainda assim, não vemos sentido em não sentí-lo, por que não mexer um pouco nessa imagem? Criando a ideia de que amar requer sacrifícios, mas que, apesar disso, nada pode superar o êxtase que sentimos por termos sido agraciados pela dádiva do amor romântico. Resumindo: me engana, que eu gosto…

Perseguir o amor ideal, reforça a ideia de que amar é algo raro e precioso. Logo, quando acreditamos que finalmente nos tornamos parte do seleto grupo daqueles que amam, desenvolvemos uma nova característica: o apego.

Só em imaginar o trabalho que tivemos para alcançar o amor, é completamente compreensível que queiramos aquele amor dentro e perto de nós sempre e, se for possível, para sempre. Só que, como diz a canção: o para sempre, sempre acaba. E é neste ponto que a nossa capacidade de perceber a realidade se confunde.

Uma vez que conseguimos sentir o mais nobre dos sentimentos e gostamos da ideia, não vamos querer abrir mão dessa sensação. Porém, em muitos momentos, é preciso perceber que o amor transformou-se, deixou de existir ou, simplesmente, não nos serve mais.

É nesta hora que encaramos a mais complexa das facetas do amor: o seu fim. É nessa hora que o amor, seja ele idealizado ou cotidiano, dá lugar ao apego e nos impede de enxergar, com clareza, a melhor saída. O que nos deixa paralisado em um dilema dificílimo. Se, de um lado está tudo aquilo que vivemos, do outro, tudo aquilo que não viveremos mais…

Por isso, todas as vezes que se sentir apegado à alguém, pense no que valerá mais a pena: guardar as lembranças de uma bela história de amor ou destruir as boas memórias românticas, se apegando a um presente triste e decadente? Independente da resposta, a escolha sempre será sua.

Vou te contar um segredo

Vou te contar um segredo. Mas só se você jurar que não vai contar a ninguém… Quantas vezes iniciamos conversas oferecendo este contrato de confiança,  mesmo tendo a certeza que o pedido de sigilo não será mantido? Tudo bem, acreditar que segredos ficarão guardados, mesmo quando deixam de ser secretos, faz parte deste acordo fictício.

Mas se a intenção é divulgar uma informação, por que apelar para o silêncio do outro? Simples. Saber de alguma coisa que ninguém mais sabe, nos coloca em situação de vantagem de alguma forma ou, pelo menos, acreditamos que sim. Dessa maneira, quando divulgamos algo que fazemos questão de demonstrar sua exclusividade, também nos tornamos únicos, afinal, ser o portador de informações preciosas, transforma pessoas comuns, em privilegiados ocasionais.

A grande questão está em saber o que, de fato, é uma informação única e importante ou apenas uma situação irrelevante, que é maquiada, até tornar-se interessante o suficiente para ser guardada à sete chaves, mas sem nenhum cadeado.

Na grande maioria das vezes valorizamos a manutenção dos segredos até que se tornem moedas de troca. Compartilhamos intimidades, particulares ou alheias, em troca de confiança e fidelidade o que, com frequência, não costuma ser uma transação bem sucedida. Deste modo, aquilo que tentamos reter, escorre em alta velocidade entre bocas e ouvidos, ganhando mais cores e contornos. A fluidez de segredos mal guardados, transforma o íntimo em exposto, a confiança em inconfidência e o sigilo em fofoca.

Ter o que contar pode abrir caminhos, normalmente reservados aos que tem como objetivo, descobrir e armazenar informações para, então, valorizá-las até que transformem-se, enfim, em segredos fadados a revelação. Mas, se de um lado, alguém se favorece com o vazamento deliberado de segredos frágeis, do outro, estarão aqueles que depositaram informações valiosas em caixas de fundo falso. Segredos podem ser degraus ou baús. Depende de quem escolhemos para guardá-los.

Porém, se há quem revele segredos a todo instante e sem qualquer critério, também há aqueles que compreendem que nem tudo deve ser divulgado de forma irrestrita.

Todos nós guardamos informações, experiências ou sentimentos em pequenas, porém, bem protegidas, caixinhas de segredos. Que são abertas, somente, em situações de absoluto conforto e entrega. Isso pode, eventualmente, resultar em corações partidos e decepções em diferentes níveis, o que, à primeira vista, dos como um castigo, revela-se um grande aprendizado à medida que o tempo passa.

Segredos são ótimas armas para aguçar a curiosidade alheia mas, também são essenciais para nossa autopreservação. Eles são responsáveis por nos mostrar quem somos de fato, de onde viemos e como chegamos até aqui. É claro que essa trajetória é compartilhada por muitos, mas, todas as experiências, mesmo as mais simples, possuem singularidades que fazemos questão de guardar em locais onde apenas a nossa mente consegue acessar.

As características únicas que mantemos a salvo do mundo, deveriam ser presentes raros que ofertamos, de tempos em tempos, para poucos e bons. Segredos jamais devem ser fardos pesados que sufocam e impedem de ser quem realmente somos. Essas são linhas tênues que sempre nos acompanham.

Segredos são fundamentais. Às vezes nos transformam em pedras e por vezes em vidraça mas, quase sempre, são eles que formam um banco com informações únicas e preciosas, que só serão reveladas àqueles que, de antemão, prometerem jamais contá-los a ninguém…

A vida e seus ciclos

A vida é simples. De verdade. O que não quer dizer, de forma alguma, que viver é fácil. Pode parecer a constatação do óbvio mas, nem por isso, deixa de ser fascinante tentar entender essa relação que coloca o simples e o fácil em lados opostos do mesmo ringue e, de que maneira, ambos interferem nos ciclos que nos regem.

Somos compostos por ciclos que começam e terminam sob a implacável ação do tempo. No momento em que nascemos, o relógio começa uma jornada sem escalas, rumo aos ciclos de 365 dias. Períodos que irão imprimir marcas, acumular vivências, mudar nossos pontos de vista e comandar nossa existência até o fim.

Quando somos jovens, não percebemos a suavidade de seu avanço e nos interessamos especialmente por seu início. Um novo ciclo que começa, traz em sua bagagem, sentimentos de esperança e sonhos de renovação, como se, a cada novo período, um fôlego extra nos permitisse seguir além.

Dias, semanas, meses e anos… Estes são aqueles ciclos compulsórios sobre os quais não temos nenhum controle ou poder. Nos restando, apenas, obedecer às regras de um jogo conhecido. Porém, como somos insubordinados por natureza, achamos por bem tentar mudar essas regras. É aí que começam os nossos problemas…

Queremos dias mais longos e agitados, semanas menos corridas, bons momentos mais demorados e freios que diminuam a velocidade dos anos. Reparem que, à medida que não controlamos esses ciclos, mergulhamos em uma eterna contradição onde, ora precisamos ter pressa, ora desejamos sossego. Uma batalha completamente perdida, mas que adoramos acreditar que a venceremos um dia.

Nosso eterno cabo de guerra com o tempo influencia, intimamente, os ciclos que podem ser criados e controlados por nós, com alguma segurança. Quando ingressamos na vida social, um longo caminho, repleto de ciclos sobrepostos, se abre à nossa frente. Nele, amizades serão feitas e desfeitas, turmas serão formadas ano após ano, trazendo ganhos, expondo perdas e sedimentando experiências. Isso nos ensinará que, apesar de imutáveis no formato, os ciclos serão absolutamente transitórios e imprevisíveis.

Os anos passam e tornam a chegar. Renascemos a cada aniversário, abrindo e fechando ciclos vão muito além da idade cronológica. Os novos anos dizem adeus aos felizes anos velhos, que os saúdam e transferem bastões carregados de sorrisos, amores, lágrimas, problemas e toda sorte de situações vividas. Isto significa que as experiências acumuladas ao longo da vida, nos transformam. Por vezes com gentileza, por vezes com a delicadeza de um coice.

As relações que estabelecemos nessa caminhada, formam nossos ciclos particulares, onde podemos decidir sobre seu início, meio e fim. Analisando desta forma, parece simples e talvez seja mas, certamente, está longe de ser fácil.

Nessa estrada, as direções nem sempre estão muito claras, o que nos leva a repetir alguns trajetos conhecidos, que revivem ciclos que teimam em aceitar os seu fim. Amizades unilaterais e amores egoístas são ótimos exemplos. Quem nunca percebeu a sua aproximação, sentiu o sinal de alerta ser acionado mas, ainda assim, permitiu-se, uma vez mais, dar uma nova chance a um ciclo dissimulado que parece eternamente inacabado?

Não importa quando. Em algum momento, todos nós fazemos um balanço das experiências que vivemos em diferentes ciclos da vida. Olhamos para trás, buscando no que foi vivido, respostas para novos desafios que teremos à frente. Nem sempre conseguimos as soluções que esperamos, mas podemos observar, a uma certa distância, as nossas boas e ruins contidas em ciclos de importância e tamanho distintos. Isso nos confere uma enorme oportunidade de escolha sobre os erros e acertos que queremos repetir ou evitar. Queremos seguir por ciclos tortuosos e estreitos, difíceis de encontrar a saída ou entrar em caminhos amplos e suaves? Escolhas importantes que podem até não ser fáceis, mas que, com certeza, são mais simples do que imaginamos.

 

O dia em que me tornei medroso

Não faça isso! Não fale com estranhos! O bicho vai te pegar! Se comer assim, vai passar mal! Quem nunca ouviu estas e outras tantas exclamações que, acima de tudo, têm a clara função de nos amedrontar diante daquilo que não conhecemos bem? O que é bastante eficiente, uma vez que estamos aqui para constatar que a estratégia tem o seu valor.

Somos embalados por essas frases de alerta desde antes de entendermos o que é um alerta. Isso, obviamente, possibilitou que a vida se prolongasse para além da primeira infância, afinal, crianças e medo são figuras absolutamente antagônicas. Essa regra, talvez, esteja relacionada à percepção de mundo que tentamos construir à medida que crescemos e, durante esse processo, criamos e desconstruímos inúmeros medos, que serão os grandes responsáveis por muitas das escolhas que faremos ou deixaremos de fazer ao longo da vida.

Pode parecer estranho afirmar isso, mas, imagine-se criança em uma piscina. Essa memória vem em ecos que berram avisos como “não vá para o fundo, senão irá se afogar!” ou ainda, “desce daí senão você vai cair!” Ação; possibilidades; tragédia e… medo. Uma receita de bolo que nos mantém a salvo pois não permite que esqueçamos uma das regras mais importantes da nossa existência: limites existem e merecem respeito. Assim, a vida segue seu fluxo, enquanto nós tentamos acompanhar seu ritmo inconstante. Mas, para seguir esse compasso, é necessário escolher entre ultrapassar ou obedecer os próprios limites.

Sobre essa escolha pesam muitos fatores, mas poucos exercem tanto poder sobre quem somos e de que formas o mundo nos enxerga, quanto o medo. Não me refiro ao medo estereotipado, mas sim, daquele receio cotidiano que nos faz escolher entre levar um casaco na bolsa em uma manhã ensolarada, até dizer não a um comportamento abusivo sofrido em seu lugar de trabalho. Mudar situações estabelecidas, assusta. Mudar situações requer um confronto com limites internos. Mudar nos dá medo.

Mas é preciso estar atento aos sinais. Temer demais paralisa e nos impede de experimentar e, o que somos, senão o conjunto de nossas experiências? Por esta razão, não se pode perder de vista que, o medo, dentre outras coisas, nos ensina a ser cautelosos. Mas essa é uma linha muito tênue. É necessário ouvir os nossos medos, sem jamais nos tornarmos seus reféns. Esse é um desafio.

Conheço muitas pessoas que dizem-se imunes ao medo e exibem esta característica como um troféu. É provável que, para elas, admitir senti-lo, seja o seu maior medo. Perceber que nos amedrontamos diante de incontáveis situações, é tão normal quanto aceitar que iremos nos apaixonar, fazer amigos, perder e ganhar, sofrer e sorrir. Emoções e sensações que nos incomodam ou confortam, independente da nossa vontade, mas que serão nossas companheiras sempre e para sempre.

Medos. Limites. Cautela. Não estamos falando sobre equações com resultados esperados. Falar sobre e aceitar a sua presença constante, não transforma o medo em algo que devemos negar, ao contrário. Deveríamos imaginá-lo como balizas que mostram caminhos e não como muros que aprisionam. Caminhos estes que desafiam limites, criam novas metas e nos apresentam novas possibilidades.

O medo cria limites que são superados, logo, não é exagero dizer que, diariamente, vencemos desafios que nos amedrontam e, isso, nos permite a conquista de territórios onde jamais imaginaríamos chegar.

A coragem afronta o medo e nos mostra que, sim, é preciso ter cautela, porém, isso não basta. Precisamos fazer parcerias com nossos medos para que eles não sejam capazes de nos paralisar. Superar aquilo que tememos, é o nosso grande desafio.