Vamos falar a verdade?

A verdade é aquilo que todos desejam saber. Brigam por ela e se desesperam quando percebem que muitas de suas conquistas foram construídas sobre pilares repletos de inverdades. Seja nas relações de trabalho, amor ou amizade, a verdade sempre é posta como um prêmio a ser disputado, conquistado e cobrado… do outro.

Vivemos tempos sombrios onde ser verdadeiro virou artigo de luxo. O que abre espaço para a criação de artigos mais acessíveis que funcionam como genéricos de baixa qualidade e eficácia: as verdades instantâneas. Elas costumam ser usadas sempre que uma atitude transparente é cobrada… pelo outro.

Você é invejoso? Já quis xingar alguém que nunca te valorizou? Traiu a confiança de quantas pessoas? Já mentiu para quem ama? Estas perguntas foram respondidas, certamente, mas fica uma dúvida. Você foi profundamente verdadeiro em suas respostas ou apenas respondeu rapidamente para satisfazer a vontade do outro, se livrar da pressão e seguir em frente?

Se seu desejo foi sair pela tangente, com respostas curtas que dão conta de corresponder as expectativas alheias, parabéns, você é mais um usuário daqueles atalhos que são ditos e que até podem ser verdadeiros, mas que não comprometem mais que o necessário.

Ser verdadeiro assumiu patamares desafiadores. Desde criança fomos ensinados a sempre dizer a verdade, doa a quem doer. Porém, em paralelo, também fomos apresentados ao estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O melhor exemplo disso é quando pegamos um deslize de nossos pais e ouvimos um “não conte isso ao seu pai” ou “a sua mãe não pode saber, ok?” Neste momento entendemos que, o que antes era absoluto, se transformou em relativo e que verdades podem ser facultativas de acordo com a ocasião.

Ao mesmo tempo que somos doutrinados a dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, também aprendemos que ela não precisa ser dita o tempo todo. Isso explica muitas coisas sobre o comportamento das pessoas…

Saber a verdade sobre o outro satisfaz a nossa curiosidade e, de certa forma, nos deixa em vantagem. Contar a nossa verdade sem filtros pode, com frequência, expor fragilidades. Assim, baseados nesse eterno jogo de xadrez, tocamos a vida fazendo escolhas. Ora queremos verdades dolorosas, ora desejamos mentiras sinceras.

Sem juízo de valor, é fato que circulamos entre dois pólos e a escolha entre ser verdadeiro ou mentiroso, dependerá de como cada um de nós conduz a própria vida. Encaramos o desafio diário que nos mostra que ser um mentiroso contumaz e viver em uma realidade distorcida, pode provocar danos severos. Assim como, expressar verdades absolutas sobre tudo e todos também provoca alguns estragos.

O que fazer então? Escolher o caminho do meio e assumir que somos dúbios na essência e, por isso, levamos os extremos dentro de nós? É uma boa saída e talvez seja a única possível. Mas é preciso cuidado. Desvios de caráter normalmente alteram a percepção do real e podem transformar pequenas verdades escondidas em desgraças monumentais.

A noção sobre ser verdadeiro foi alterada de alguma maneira. O que antes era uma forma de encarar a vida, tornou-se uma atitude quase leviana que se ocupa em dar respostas furtivas a perguntas aleatórias. O que na prática, significa dizer que só seremos verdadeiros se houver uma demanda.

A verdade não pode ser uma moeda de troca. E não é. É preciso ser verdadeiro com as posições que assumimos diante da vida. É preciso ser verdadeiro com a pessoa que decidimos ser e, acima de tudo, é necessário ser coerente nas escolhas e estar sempre atento aos caprichos da verdade.

Solidão não é castigo

Solidão. Aquela parceira sempre presente, seja nos detalhes ou em grandes momentos do cotidiano de muita gente. Há muitas coisas a dizer sobre ela, porém, chama a atenção perceber que, para muitos, a solidão é repleta de drama e melancolia. Será que é apenas isso?

Inúmeras vezes ouvimos as queixas de pessoas próximas sobre o quanto se sentem solitárias, como é difícil se envolver com alguém ou ainda, o que uma pessoa tão legal está fazendo sozinha? A solução para isso é pessoal e intransferível mas, acima de tudo, é preciso sinceridade para encontrar as respostas…

A grande questão é que, geralmente, relacionamos nossas carências de afeto à solidão, o que é um grande equívoco. O ritmo alucinante em que vivemos nos impõe situações em que, via de regra, estamos completamente sozinhos, mesmo cercados por um mar de gente. Até aí, tudo dentro da normalidade.

Algumas horas perdidas em engarrafamentos, outras tantas dedicadas aos estudos, trabalho, atividades físicas, sono… Se contabilizarmos os dias, semanas e meses em que nos dedicamos, simplesmente, a viver nossas vidas, iremos perceber que o tempo que passamos exclusivamente na companhia de nós mesmos é consideravelmente maior do que os períodos em que nos entregamos ao convívio social. E isso é estar só.

A solidão, ao contrário do que alguns podem imaginar, traz consigo momentos de paz e reflexão, típicos daqueles dias preguiçosos em que ficamos observando a chuva bater na janela, desfrutando da companhia de muitos pensamentos e de e uma boa xícara de café. Pode parecer um cenário poético e idealizado, mas independente do panorama, sempre arrumaremos um escape terapêutico que nos ajudará a seguir em frente.

Se estar só faz parte do nosso jeito de ser e de viver, não faz sentido falar mal dos momentos solitários, certo? Meu palpite é que a solidão é como um parente distante, daqueles que conhecemos, mas nunca falamos ou lembramos de sua existência até que ele  resolva aparecer sem avisar. Neste momento, nos damos conta que a vida segue seu fluxo normal mas que, em alguns momentos, somos obrigados a tomar consciência de que caminhamos sozinhos por tempo demais.

Talvez seja no instante em que notamos nossa solitude, que passamos a buscar pares, companhias e parcerias que ajudem a preencher espaços considerados vazios. Muitas das vezes sequer pensamos em como ou com quem essas lacunas devem ser preenchidas. Dessa forma, trazemos para o nosso convívio, elementos que podem parecer adequados, mas que na verdade, são apenas rascunhos de desejos um tanto confusos.

Isso acaba por abrir brechas para aquelas relações fragmentadas, porém muito comuns, onde a intimidade dá lugar a solidão a dois. Muitas coisas foram feitas para serem compartilhadas e a solidão certamente não é uma delas. Por isso é preciso ficar atento aos sinais que a vida nos dá e aos conselhos que ouvimos desde sempre. Estar só e em paz é muito melhor do que fazer parte de um mau encontro, sem sombra de dúvidas.

É possível que agora fique mais fácil pensar que estar só é, também, uma escolha. O que não implica em uma vida sofrida e marcada por privações sentimentais. Quem disse que ir ao cinema sozinho ou sentar à mesa de um restaurante sem um par é sinal de abandono? Essas são distorções muito comuns com as quais nos habituamos, mas que de forma alguma, devem ser consideradas como um padrão a ser seguido.

Estar só pode ser apenas um querer. Estar só não é sinal de tristeza, derrota ou abandono. O olhar do outro pode colocá-lo no lugar do pobre coitado, isolado e sofrido. Mas isso, definitivamente, não deve ser levado em conta. Não se pode depositar o nosso próprio bem-estar sobre os ombros de quem quer que seja. É preciso ter em mente que a solidão não é castigo.

Amar é bom. Ter família e amigos é melhor ainda. Mas é primordial entender que na maioria das vezes, estar só, também é estar em excelente companhia.

Mudar é preciso

Mudanças… poucas coisas na vida são tão desejadas e, ao mesmo tempo, tão difíceis de realizar. Quando criança, pensamos em como será nossa vida quando nos tornarmos grandes. Adolescentes pensam em como será quando alcançarem a maioridade. Jovens adultos querem se formar, ganhar dinheiro e consumir tudo o que puderem. Quando mais velhos, cuidaremos dos filhos e de um ou dois cachorros. E, quando finalmente começarmos a esquecer as nossas memórias, mais vontade teremos de lembrar de todas as transformações que a vida nos proporcionou.

Parece um tanto contraditório, mas é um fato. Nascemos e crescemos desejando mudanças e, à medida que envelhecemos, não temos mais tanta clareza se as nossas transformações foram reais ou apenas desejos não realizados. De toda forma, a ânsia por mudanças nos movimenta. Não fomos talhados para fazer parte de uma cena onde o cenário e os personagens à nossa volta não mudam. Precisamos sempre de novas cores e sabores.

Então, por que passamos por situações onde sabemos que a mudança é um caminho óbvio, mas, ainda assim, é dificílimo romper certos laços? Muitas vezes, as barreiras que temos à nossa frente são, na verdade, caprichos egoístas da nossa mente que, por não conseguir escolher uma rota de fuga, decide se manter inserida em uma incômoda zona de conforto.

Mudar requer alguns complementos importantes como: coragem, vontade, decepção, necessidade… Independente do estímulo, mudar é preciso. Alguns conseguem com mais facilidade, outros enlouquecem só de imaginar uma mudança, por menor que seja, em seu rígido planejamento de vida. É compreensível. Mudanças não trazem apenas uma alteração de rota. Algumas exigem que coisas ou pessoas que já foram muito importantes no passado sejam retiradas de cena, permanentemente. E isso pode doer… mas passa.

De uma maneira geral, mudar promove transformações que enchem o peito de emoções que se misturam em doses e intensidades não programadas. Daquelas que vão desde o frio na barriga por algo novo e desafiador, até a tristeza por não saber como será o futuro após uma perda inesperada. Escolhas provocam mudanças. A falta delas também.

Pensar em mudar nos possibilita trocar de lugar e identidade, nem que seja por alguns instantes. Criamos cenas, escolhemos trilhas sonoras e companhias especiais para dar vida a alguém que poderíamos ter sido se, por acaso, tivéssemos seguido por caminhos diferentes daqueles que escolhemos tempos atrás. Nada além de projeções abstratas, mas que cumprem o importante papel de nos mostrar que, apesar da realidade em que vivemos, o mundo está cheio de possibilidades e novos caminhos, basta transformá-los em mudanças.

Porém, mudar não está restrito apenas a anseios individuais. Muitas mudanças são mais desejadas e mais festejadas quando são partilhadas por muitos. Nossas escolhas individuais não afetam apenas o nosso pequeno grande mundo. Coisas que pensamos podem impactar o cotidiano de um número imprevisível de pessoas, como votar, doar roupas, ir ao cinema com as crianças, atrasar uma reunião. De um jeito ou de outro, as nossas ações provocam mudanças em outras histórias, assim como o desejo de outras pessoas também mexe com nossos planos pré-estabelecidos.

Quando mudamos, todos à nossa volta sentem. Pequenos gestos podem parecer insignificantes para alguns, mas podem criar um fluxo capaz de conduzir nossas vidas por caminhos impensados. O que cria um movimento aleatório que promove mudanças em todas as direções, possibilitando encontros, desencontros, surpresas e decepções.

De todo modo, mudanças, mesmo que sejam necessárias, só acontecem quando, finalmente, sentimos o desconforto em ocupar um lugar que, definitivamente, não é mais nosso.