Começo, meio e…fim.

Começo. Meio. Fim. Esse é o roteiro que seguimos para quase tudo na vida. Três etapas que não possuem data de validade ou formatos definidos, mas que pautam nossa trajetória, influenciando desde as pequenas coisas do dia a dia, até as decisões que irão impactar nossa existência por anos e anos. Porém, por mais que façamos planos racionais sobre o que e de que forma viveremos, na prática, não temos a menor ideia do que encontraremos à frente.

O começo. Algumas coisas estão marcadas para acontecer desde o dia em que nascemos e é a partir desse momento, que damos a largada para a série de inúmeras relações que teremos ao longo da vida. Como em todo bom início, acreditamos piamente que os novos laços serão eternos. E serão, até que cheguem ao fim.

É difícil saber como será o meio do caminho e muito menos onde será o fim da estrada, mas o início é diferente. Ele sempre nos dá algumas pistas do que iremos encontrar. Os começos são arrebatadores, cheios de vigor, euforia e incertezas. Sensações quem anunciam novidades como: no primeiro dia de aula, o primeiro amor, a estreia no mundo das decepções, o primeiro emprego, as primeiras perdas…

Todos esses acontecimentos marcam nossas vidas e ficam gravados para sempre na memória, determinando quem seremos e como vamos agir a partir daquele instante. Começos podem ser bons ou nem tanto, mas eles sempre serão responsáveis pelo tempo de duração das nossas experiências, assim como pelo caminho que iremos percorrer até conhecermos o fim.

Meio. É neste ponto que, aquilo que iniciamos, transforma-se em histórias de verdade, ganham cores e contornos mais fortes, mudam de rumo e ficam cheias altos e baixos. O caminho do meio sempre guarda muitas surpresas. Talvez seja por isso que as pessoas costumam desejar trilhar essa estrada, mesmo sabendo que não faltarão pedras nessa caminhada.

Por mais que o meio termo seja o caminho de escolha da maioria, curvas e abismos costumam ser deliciosos e, além de nos fascinar, são responsáveis por experiências que se transformarão em ótimas estórias para contar. Ninguém quer seguir sempre o mesmo caminho o tempo todo.

Imprevistos são bem vindos, uma vez que é a partir deles que ocorrem as mudanças de rota que nos permitem, não apenas conhecer mais e melhor aquilo que já temos, mas também possibilitam novos começos e novas vivências. Porém, o caminho do meio vai muito além das novidades. É nesta etapa que aprendemos o que nos faz bem ou mal. É nesta etapa onde aprendemos a importância dos pontos finais.

Fim. Este é, talvez, o mais injustiçado dos personagens retratados nesse texto. Se o início é representado pela euforia, o fim sempre carrega a fama de ser triste e melancólico. Talvez seja, mas não completamente. À medida que vivemos nossas histórias, não imaginamos como será quando o fim chegar. Tocamos a vida e seguimos garimpando, catalogados e analisando experiências, pessoas e sentimentos e não nos preocupamos em finalizar algo que ainda tem muito a oferecer.

Dessa forma, acumulamos impressões que sinalizam quando e como, algumas situações devem chegar ao fim da linha. E isto não é, de maneira alguma, motivo de tristeza. Perceber a chegada de um final é, sobretudo, uma habilidade quase rara. Encarar o fim pode ser algo comum mas, saber o que fazer a partir disso é que são elas…

Finais provocam rupturas em zonas de conforto e isso não é fácil. Finais transmitem mensagens claras que dizem, sem cerimônias que, o que se tinha até então, não nos serve mais e que novos rumos precisam surgir. É neste ponto que os vértices se tocam e mostram que pontos finais nada mais são que pausas sem pressa mas que, quando terminam, nos conduzem, invariavelmente, a novos começos, meios e fins…

 

 

Chega de saudade?

Chega de saudade, já dizia a canção. Mas como seria a vida se não sentíssemos que algo nos falta? Difícil até imaginar uma situação como essa. Sentir falta é um hábito que nos acompanha desde sempre. Quando crianças, choramos se não desfrutamos o colo dos nossos pais demonstrando, de forma instintiva, que precisamos ter por perto aquilo que nos é caro.

À medida que crescemos, ampliamos a dimensão que temos do mundo e das pessoas que nos cercam. Quando percebemos os diferentes níveis de importância daquilo que temos a nossa volta, começamos a dar significado ao que era, até então, apenas uma ausência . O que antes era sentir falta, passa a ser considerado um dos sentimentos mais intensos, frequentes e interessantes que conhecemos: a saudade.

E, como toda sensação poderosa, podemos senti-la em diferentes intensidades. Ao contrário de outros sentimentos que começam brandos e ficam mais encorpados com o tempo, a saudade não se preocupa com ordens crescentes e pode ser sentida em sua plenitude, de forma quase imediata, basta que algo ou alguém preciosos sejam retirados de nós , sem aviso ou consentimento prévios.

A ausência pode assumir diversas dimensões, que podem durar o tempo de um pensamento ou se tornar uma companheira incômoda por anos a fio. Nesse caso, a ausência adquire uma personalidade muito particular, que varia de acordo com aquilo que nos falta.

Sentimos falta do que vimos poucas vezes, das brincadeiras de rua durante a infância, de amigos de adolescência que perdemos de vista e somos capazes, até, de sentir saudades de lugares e situações que nunca vivemos de fato. Somos preenchidos por saudades.

Muitos momentos são responsáveis por reacender memórias que aquecem o nosso peito, trazendo saudades que se assemelham à visitas queridas, mas que raramente recebemos. De todo modo, só sentimos falta daquilo que não temos mais ou do que nunca vivemos.

Saudade. A simples menção dessa palavra nos tranporta para muitas épocas e lugares, proporcionando encontros impossíveis ou improváveis. Reler uma carta ou sentir o perfume de alguém que não podemos ver mais, abre canais tão íntimos que, muitas vezes, preferimos mantê-los fechados e bem protegidos e, assim, preservar memórias inestimáveis.

Perdas podem provocar dor. Perdas podem promover saudade. Isso é inegável, porém, a saudade nem sempre significa dor e sofrimento, ao contrário. Sentir falta de casa, de alguém ou de algum lugar especial, causa sensações agradáveis que nos fazem pensar em como será único o momento em que, finalmente, iremos rever ou reencontrar a razão da nossa saudade.

Infelizmente, nem sempre é possível revisitar o que nos faz falta. À medida que o tempo passa e envelhecemos, somos apresentados à perdas permanentes e isso nos força  a conviver com a dor em qualquer circunstância. E o que nos resta? Nada além de administrar essa saudade com paciência para que ela, um dia, se transforme em força.

Viver não é, de forma alguma, ter tudo o que se quer. Viver é um grande aprendizado que nos mostra o tempo todo que, só levamos da vida, aquilo que sentimos a partir de experiências diárias, boas ou ruins e, sentir falta, faz parte desse processo.

A saudade é a personificação da ausência. Talvez seja por isso que saudade tem forma, nome, endereço e é sentida em ondas com diferentes intensidades. Ela pode aparecer eventualmente ou ser presença frequente, tanto faz… Não importa quando a saudade nos visita e sim, de que maneira ela nos toca.

E se…

A todo momento, alguém, em algum lugar do mundo, começa um pensamento com a pergunta: “e se…?” Iniciando, dessa forma, uma projeção que, apesar de ser compartilhada por todos é, também, muito particular. Sonhamos os mesmos sonhos, mas cada uma à sua maneira.

Ah, se eu… você pode completar essa frase de mil maneiras diferentes mas, independente do objeto desejado, uma coisa é certa: sua história será alterada, mesmo que por alguns instantes e apenas em pensamento. É neste momento que criamos um mundo paralelo, onde podemos ser quem ou o que quisermos, sem dificuldades, culpas ou receios.

Mas, por que será que fazemos uso deste artifício com tanta frequência? Milhares de respostas podem ser dadas, mas acredito que, assim como viver o cotidiano é inevitável, projetar-se para uma realidade distante da qual estamos acostumados, também é. O que nos dá um alento necessário para aliviar a tensão que é viver no implacável mundo real.

Na maioria das vezes, desejamos ser bem diferentes da nossa versão original, o que faz todo sentido. E se eu ficasse rico? Ah, se fosse comigo… E se fosse com você? Se eu ainda estivesse casado… Cada uma dessas possibilidades abre espaço para inúmeras respostas abstratas que serão guiadas por sua imaginação à lugares surpreendentes e inesperados.

Quando desejamos, por exemplo, ganhar na loteria, disparamos um gatilho que nos arremessa em direção a um mundo de felicidade absoluta e idealizada, onde teremos o que quisermos, viajaremos para os melhores destinos e faremos parte de um olimpo onde tudo reluz, onde tudo é perfeito.

Sabemos que tudo não passou de um sonho mas, quando um pensamento encantado acaba e a realidade volta a se iluminar, ainda restam suspiros efêmeros e sorrisos abobalhados como provas da nossa tremenda capacidade de buscar a felicidade, usando apenas a imaginação.

Esses pensamentos encantados também são responsáveis por transformar nossos sonhos profissionais. Quem nunca olhou para trás e pensou que talvez fosse melhor ter escolhido artes ao invés de engenharia ou que a comunicação hoje, faz muito mais sentido que a biologia? Ninguém precisa chutar seus baldes ou mudar de rota bruscamente se não quiser, mas não se pode negar que imaginar como teria sido viver em ambientes diferentes do seu, com pessoas e histórias inusitadas é, no mínimo, intrigante.

Projeções sonhadoras também nos permitem segundas chances. Quando pensamos “se fosse hoje, teria sido diferente” ou “ah, se fosse comigo…”, é porque gostaríamos de mudar o final de alguma estória. Mas, será que realmente mudaríamos de atitude? Talvez sim, talvez não. Não há como saber, mas esse exercício mental provoca reflexões que podem, no futuro, mudar a forma como percebemos a realidade em que vivemos.

E os amores? Estes certamente ocupam um precioso tempo em nossos pensamentos. Gastamos bastante energia imaginando como teria sido se tivéssemos escolhido o amor B ao invés do A. Se seria mais feliz solteiro ou se tivesse casado, como seria? Essas projeções, diferente das demais, podem trazer saudades, boas lembranças, alguns arrependimentos ou até certezas de que escolhas certas foram feitas. Mas, estamos falando de amor, certo? E amor que não vem acompanhado de um turbilhão de emoções, não é de verdade, nem na imaginação.

Sempre que pensamos em situações como se fossem sonhos, nos enxergamos por ângulos diferentes, como se observássemos outras pessoas. É desta forma que a nossa imaginação manda recados para a nossa versão real. Todas as vezes que sonhamos acordados, recebemos mensagens deliciosas que dizem que podemos ir para onde quisermos e voltar, se preciso for. Que podemos ser todos aqueles que desejamos ser, desde que jamais se perca a capacidade de sonhar e seguir em frente.

Reclamar requer atitude

Reclamações. Elas estão por toda parte e em todas as latitudes. O mundo inteiro parece se queixar de alguma coisa, em algum momento. Tirando aquelas questões óbvias que impedem que tenhamos uma vida digna, quais serão as causas de tamanha insatisfação? Individualidades à parte, há em torno de todos, uma densa névoa formada por incômodos de naturezas diversas e que a cada dia se torna mais fortes, nublando a nossa visão, nos impedindo de ver saídas, mesmo que estejam bem ao nosso lado.

Se reclamar significa não estar satisfeito ou confortável com algo que se vê ou vive, é bem possível que estejamos todos, de alguma forma, querendo aquilo que não temos ou vivendo uma vida muito aquém dos nossos planos. Não há problema em reclamar, ao contrário, o incômodo normalmente nos obriga a mudar de lugar e, com isso, vislumbrar novos horizontes. A grande questão é para onde as nossas queixas nos levam.

À medida que as reclamações vão surgindo, pulamos de casa e, assim, seguimos na busca pelo que acreditamos ser o melhor para nós. Parece simples vendo desta forma. Basta reclamar para que as coisas à nossa volta melhorem. Quem dera… Em muitas das vezes, ficar parado, falando mal da situação vivida, traz mais dores de cabeça do que soluções.

Mas, voltemos ao porquê da insatisfação generalizada. É possível que uma das razões que nos faz reclamar com frequência, seja a padronização irrestrita de quase tudo o que conhecemos. O número de caixas onde devemos caber e de rótulos que devemos usar, cresce a uma velocidade espantosa. Logo, se alguns formatos ganham força, é porque existem muitos interessados em fazer parte deles. Com isso, os versos da música se tornam realidade: quem está fora quer entrar, mas quem está dentro, não sai. Resultado? Reclamações…

Padrão. Ainda estamos nos acostumando a entender seu significado. As revoluções da humanidade mostraram nos últimos séculos o que significa a padronização. Seja no regime de trabalho, no vestir, na liberdade de expressão ou na forma de comer e falar. Estamos sempre tentando fazer parte de algum clubinho.

Os pequenos reclamam de sua estatura, os altos demais, também. Gordos querem emagrecer e ricos nunca acham quem têm o suficiente. Ondulados querem ser lisos e lisos querem volume. Querer o que naturalmente não é seu pode fazer com que traços, gestos e talentos únicos se percam, anulando assim, personalidades tão ou mais incríveis do que aquelas a quem pretendemos copiar.

Esta gangorra entre o querer o que não se tem e o reclamar do que consideramos abaixo da média para nós, cria um hábito cada vez mais obvio e perigoso: a intolerância. As relações passam a se basear em comportamentos infantis do tipo: Se não conheço, não me interessa e, se conheço e não gosto, falarei mal… Dessa forma, excluímos uma quantidade enorme de possibilidades, deixamos de considerar a pluralidade e nos tornamos restritos, menores e intolerantes.

Talvez uma reavaliação das nossas prioridades possa ser um grande passo para diminuir as reclamações que carregamos conosco, nos tornando mais leves e satisfeitos. Todos nós temos interesses possíveis e desejos realizáveis. Basta olhar para dentro e querer transformá-los em realidade.

Quantas pessoas chegam ao trabalho e reclamam de suas vidas e, ao retornarem para casa, perdem horas preciosas com mais e mais reclamações sobre o dia que tiveram? Muitas, certamente. O que é muito triste, mas para tudo há uma razão possível. Nos vendem sonhos irrealizáveis desde que nascemos e alguns simplesmente não conseguem ver a realidade por trás das propagandas enganosas, o que gera muita frustração. Se nossos filhos não se parecerem com os bebês de comercial de fraldas, tudo bem. Se aquela calça dos sonhos não está mais entrando, ok, acontece. Mas, sentir-se inadequado o tempo todo, não pode e não deve ser uma regra.

O detalhe mora em nós. Todas as vezes em que reclamamos demais e tentamos imprimir características alheias em quem somos, apagamos traços genuínos que poderiam expressar o que temos de melhor. Por isso, reclame sempre que quiser e precisar, mas cuidado para não virar um hábito vazio, afinal, reclamar do que se tem não é difícil. Complicado é criar novos caminhos para mudar a própria situação.  Reclamar requer atitude.

A difícil arte da escolha

Todos os dias somos obrigados a tomar decisões. Levantar ou dormir por mais cinco minutinhos? Pegar o trem ou o metrô? Terminar um relacionamento? Trocar ou não de emprego? Experimentamos múltiplas sensações a cada vez que precisamos dizer sim, não ou talvez. Às vezes pode ser fácil decidir entre casar ou comprar um bicicleta, porém, em vários outros momentos, as decisões podem virar sua vida de ponta-cabeça.

Independentemente do desejo de cada um, as decisões pairam sobre as nossas cabeças, implorando por definições de nossa parte. O que provoca uma certa ansiedade, pois sabemos que as decisões mudam de acordo com o tempo que levam para serem tomadas. Nesse caso, é importante saber o quanto estamos disponíveis e interessados em lidar com as inevitáveis mudanças que acompanham as escolhas.

Ao jogarmos pedras em um lago, observamos a formação de pequenas ondas circulares e, dependendo da força do arremesso, essas ondas serão maiores e chegarão mais longe. O mesmo acontece quando fazemos escolhas. Algumas decisões podem criar movimentos bastante abrangentes, enquanto outras sequer são sentidas, mas é importante ter em mente que decisões tomadas são capazes de mudar rumos, opiniões e pessoas… sempre.

Quem dera fosse apenas a nossa pedra a ondular o espelho d’água. Um sem número de pessoas executa a mesma ação, o tempo todo. O que significa dizer que nós também somos afetados pelas ondas provocadas por decisões alheias. E isso nos faz viver dilemas diários onde precisamos conciliar aquilo que decidimos com os reflexos das decisões de outros.

Esta é uma equação dificílima e seu resultado pode pautar não apenas as escolhas que fazemos, mas também, a vida que levamos. Decidir-se nem sempre é algo que se aprende voluntariamente. Os pais fazem escolhas por seus filhos, professores por seus alunos e parceiros de vida também o fazem com frequência. O que me parece normal, mas a grande questão é: qual é o limite entre controlar suas decisões ou deixar que outros façam isso por você?

Definitivamente, este não é um horizonte claro e definido. Por vezes decidimos. Por vezes decidem por nós. Simples assim? Talvez seja, mas é difícil afirmar, uma vez que mudamos muito à medida que o tempo passa. Normalmente erramos muito nas escolhas e, quando jovens, isso até pode ser um problema mas, lá na frente, seremos gratos por muitas das decisões tortas que tomamos ou que permitimos que outros tomassem por nós.

Essa também é uma época onde nos arriscamos com frequência. Assumimos riscos, não apenas nas escolhas que fazemos, mas também na forma como autorizamos a influência de outras personalidades sobre as decisões que deveriam ser apenas nossas.

O tempo passa e as escolhas ruins deixam marcas. Passamos a perceber, com mais cuidado, aqueles que interferem no ir e vir de nossas decisões e assim nos tornamos mais autônomos e conscientes do que pode ser melhor ou pior para nós. O que de forma alguma, significa dizer que a maturidade só trará boas decisões. A maturidade traz, inclusive, a segurança para escolher aquilo que aparentemente pode ser uma grande roubada, mas que agora podemos, conscientemente, pagar para ver.

Não importa se é uma pessoa proativa e cheia de certezas ou aquela que usa a previsão do signo para definir a cor da roupa que usará, uma verdade única une estes dois perfis: ambos precisam escolher de que forma irão encarar a vida e isso, independente da trajetória de cada um, sempre será uma decisão pessoal e intransferível.

 

Vida de gente grande

Durante a infância, queremos que o tempo passe depressa mesmo sem saber ao certo o porquê. Quando adolescentes, continuamos impacientes, criamos fantasias sobre como será a vida adulta e mil ideias românticas acerca da tão desejada independência tomam conta dos nossos pensamentos.

Até que um dia a tal vida de gente grande chega com o pé na porta e, como um rolo compressor, anuncia que as regras irão mudar a partir daquele momento. Alguns sonhos terão de esperar, desafios surgirão diariamente, corações serão partidos com certa frequência e que o seu tempo será seu maior e mais precioso bem.

Visto dessa forma, crescer parece um pesadelo, mas não é. Ser gente grande pode até não ser um conto de fadas feliz, mas está longe de ser um sonho ruim. Transformações deixam marcas, mas quem disse que isso não é bom?

Sem perceber, nos tornamos adultos. Isso nos obriga a atuar em tantas frentes que a sensação de estar em muitos lugares ao mesmo tempo é constante. Somos um original capaz de se multiplicar em inúmeras cópias por uma única razão: não damos conta do recado o tempo todo. Por este motivo, voltamos a ficar impacientes com o tempo, agora pelo motivo oposto. Desejamos desesperadamente que ele diminua seu compasso e que não passe tão depressa.

Nesse ritmo intenso, os dias passam como se fossem minutos e os anos parecem fluir como se fossem semanas. Isso cria uma espécie de ciclone cronológico que nos confunde imensamente e de tal forma, que chega a alterar a nossa percepção sobre o tempo, estabelecendo confusões mentais que nos fazem questionar o que passamos, quando e com quem. Coisas do tipo: Aquele encontro com os amigos aconteceu há um mês, certo? Errado. Foi há três meses. A melhor viagem da sua vida foi há dois anos. Não, foi há 4 anos. Seu filho, que nasceu “outro dia desses”, se transforma em uma pessoa diferente a cada dia e bem diante dos seus olhos… Estas são provas incontestáveis do poderoso ritmo que a vida adulta nos impõe.

Para ser gente grande é preciso fazer parte de um esquema complexo. Entender que seu ritmo e seu tempo avançam com passadas bem largas, fazem algumas pausas que permitem um descanso rápido para, em seguida, retomarem sua jornada acelerada e sem rumo certo.

Às vezes tenho a impressão de que o tempo acelera sempre que tomamos decisões. Pense em todas as vezes que decidiu começar alguma coisa, um curso novo ou um novo trabalho. Basta iniciar algo para perceber que o tempo corre mais rápido e, quando nos damos conta, anos se passaram e sequer somos capazes de distinguir o que de fato aconteceu naquele período.

A espera e a dúvida que precedem decisões criam um estado de animação suspensa. A tomada de decisão libera as amarras do tempo. Dessa forma, seguimos apressados, tentando entender o que houve conosco desde que nos tornamos “donos do próprio nariz”. Raramente temos a sorte de compreender esse processo, mas de um jeito ou de outro, sabemos que, independente do que conseguimos apreender da vida, seguiremos em frente, ansiosos pela próxima surpresa.

Crescer e aprender a viver é, sem sombra de dúvida, uma daquelas aventuras que conhecemos apenas o ponto de onde partimos. Por isso fazemos planos sem saber se serão realizados. Nos apaixonamos sem garantias. Sonhamos inúmeras vezes. Abandonamos alguns sonhos pelo caminho, mas realizamos outros tantos. Ser adulto requer, acima de tudo, resistência.

Sabemos que o tempo muitas vezes levará consigo informações preciosas, mas não podemos perder de vista que a correria, em algum momento, se transformará em caminhada, que as imagens borradas por conta do excesso de velocidade, voltarão a ter forma, textura e definição. Neste momento finalmente percebemos que tudo aquilo que vivemos ficou registrado, que nada foi em vão e que, a partir desse ponto, as experiências acumuladas nos permitirão, enfim, entender como foi boa a vida de gente grande.

Nem tudo que reluz é ouro

O que de fato enxergamos quando olhamos ao nosso redor? Incontáveis detalhes de coisas e pessoas, certamente. Mas por que não conseguimos reter essas imagens por muito tempo? Difícil dizer, porém, sabemos que nem tudo nos passa despercebido. Alguns detalhes acabam preenchendo a nossa vista, provocam sensações agradáveis e, por conta disso, criamos uma seletividade no olhar e na forma de interagir com o mundo.

Sim, desenvolvemos um olhar seletivo para tudo e para todos desde sempre, embora muitos sequer percebam que, cotidianamente, fazem uso de inúmeras lentes, prontas para um ajuste de foco, de acordo com a paisagem à sua frente. Trocando em miúdos, só enxergamos com cuidado, aquilo que instantaneamente julgamos como belo e interessante. O que cria um padrão de comportamento, no mínimo, peculiar.

Compramos livros e revistas pela capa e veneramos as imagens perfeitamente alteradas de celebridades. Perseguimos o ideal de beleza que, como todo e qualquer conceito idealizado, não existe. Julgamos as pessoas apenas por seu modo de vestir e queremos, quase sempre, fazer parte do elenco que frequenta as festa onde só encontraremos gente bonita…

Esse modo de agir estabelece uma polarização onde o que considero bonito, quero por perto e o que for feio, por favor, mantenha uma distância segura. E, entre um pólo e outro, há um milhão de coisas e pessoas buscando um grupo para chamar de seu. Adivinhem em qual lado a maioria desejará estar?

Se o nosso olhar parcial e seletivo cria focos e interesses bastante estreitos, é preciso ter em mente que deixaremos de perceber um universo de possibilidades à nossa volta e que, nós também seremos ignorados pelo radar de tantos outros. Nesse jogo, estaremos sempre incluindo e sendo incluídos, excluindo e sendo deixados de fora do campo de visão de outras pessoas.

Aparências. Vivemos em uma roda viva moderna onde a embalagem se estabelece como um modelo a ser seguido. Já o conteúdo… Bom, este torna-se, cada vez mais, um produto secundário. Em épocas onde belas imagens sem significado e relevância são a chave para o sucesso, qualquer coisa que tome mais de cinco minutos de atenção, não parece ter muita graça.

Então, como fazer para ser notado? De acordo com as forças que regem os dias de hoje, se o seu objetivo é ter audiência, torne-se quem você não é. Para isso não é preciso muito esforço. Basta ter fotos bem estudadas, filtros milagrosos e horários certos para postagens. Pronto! Está criado um avatar bem sucedido que viverá eternamente feliz entre curtidas e compartilhamentos.

Porém, o mundo virtual não é o único a viver de aparências. Puxem pela memória que, certamente, se lembrarão daqueles personagens que contam vantagens imaginárias ou são capazes de sacrifícios desnecessários, que tem como único objetivo, ser um rascunho mal feito de uma obra original. E isso é bem triste.

Para ser, é preciso ter verdade. Não há mal algum ter espelhos para mirar, o problema é desejar que eles reflitam uma imagem que não é a sua. Perde-se muito tempo e energia tentando ser quem não é.

É impossível estar atento a tudo que se passa diante dos nossos olhos e, tomar decisões baseadas apenas em um primeiro olhar, pode ser muito raso. É preciso se permitir segundos olhares. Estes sim são capazes de enxergar, sem pressa e sem padrões, a verdade sobre as coisas e pessoas que nos cercam.

Sobre influências e escolhas

Existem poucos momentos em nossa jornada onde conseguimos olhar ao redor e perceber onde estamos, o que estamos fazendo, como fazemos e quem são as pessoas que escolhemos para dividir experiências. Geralmente engatamos a primeira marcha e iniciamos uma subida sem saber muito bem onde chegaremos.

A nossa personalidade e as escolhas que fazemos sempre determinam a forma e o ritmo de vida que teremos. Algumas vezes seremos os responsáveis por isso, mas na grande maioria, o meio em que vivemos dá o tom da música que vamos dançar.

Eu sempre fiz tudo aquilo que quis, sem me deixar influenciar por ninguém… Você até pode pensar assim, mas fique certo de uma coisa: você está equivocado.

Influência. Talvez seja a ação mais difundida e sentida por todos nós. Às vezes de forma clara e impositiva, mas é em sua face velada e disfarçada que ela se expressa sem limites. Ainda não acredita? Então imagine aquele diálogo com seus pais onde, dentre outras coisas, ouve-se que não podemos comer de boca aberta e falar palavrão. Que meninas usam rosa e meninos, azul. Que o filho da vizinha ganhou um brinquedo novo porque é mais obediente e comportado que você…

Se identificou? Não? Tudo bem. Vamos relembrar a adolescência, a grande época das influências. É nesse período onde somos postos à prova de mil formas, o que significa que somos bombardeados por informações das mais variadas, que irão, sem dúvidas, ditar o nosso comportamento.

Quantas vezes ouvimos que fulano não é boa influência ou que aquela é a pessoa certa para você? As escolhas são, muitas vezes, produtos coletivos pensados por outros, mas executados por nós. O que provoca a falsa sensação de que a palavra final sobre as decisões coube exclusivamente a nós. Doce engano.

Quando adultos, percebemos que a nossa subida torna-se mais íngreme e difícil. Somos levados a escolher precocemente os nossos caminhos profissionais sem saber ao certo o porquê. Possivelmente, aquele conselho nada ingênuo, o professor incrível, o escritório da família, o teste vocacional ou a simples vontade de confrontar os anseios alheios, serão os responsáveis por indicar trajetórias a seguir.

Porém, à medida que o tempo passa, nos damos conta do papel que desempenhamos e, enfim, percebemos o peso das influências que tivemos com o passar dos anos. Nesse jogo aleatório, às vezes tiramos a sorte grande e transformamos nossas escolhas em grandes realizações. O que está longe de ser uma regra.

Quase sempre, ser mal influenciado e, por conta disso, fazer escolhas ruins é um bom aprendizado e nos força a traçar novas rotas sempre que nos deparamos com um beco sem saída. Entender e aceitar que não somos senhores absolutos de nossas escolhas não é tarefa fácil.

Ser influenciado é um fato. Todos nós somos. O tempo todo. Mas é preciso avaliar e discutir seus impactos. Influência sem crítica e contestação é, acima de tudo, manipulação.

Quando, finalmente, alcançamos o topo de nossa montanha particular, o horizonte se torna mais claro. Tomamos consciência sobre quem fomos e, sobretudo, sobre quem queremos ser daquele ponto em diante. É neste momento que constatamos que outros também foram e serão influenciados por nossos passos e assim, damos sequência a um dos ciclos mais permanentes da vida.

Influências direcionam escolhas e escolhas têm seu preço. Sabemos disso, mesmo que de forma inconsciente. Por esta razão, é preciso ter atenção aos conselhos e ideias alheias, às críticas rasas, ao que se lê nos jornais e ao que se vê na tevê. Todos nos influenciam, mas não podemos, de forma alguma, deixar que escolham por nós.

Vamos falar a verdade?

A verdade é aquilo que todos desejam saber. Brigam por ela e se desesperam quando percebem que muitas de suas conquistas foram construídas sobre pilares repletos de inverdades. Seja nas relações de trabalho, amor ou amizade, a verdade sempre é posta como um prêmio a ser disputado, conquistado e cobrado… do outro.

Vivemos tempos sombrios onde ser verdadeiro virou artigo de luxo. O que abre espaço para a criação de artigos mais acessíveis que funcionam como genéricos de baixa qualidade e eficácia: as verdades instantâneas. Elas costumam ser usadas sempre que uma atitude transparente é cobrada… pelo outro.

Você é invejoso? Já quis xingar alguém que nunca te valorizou? Traiu a confiança de quantas pessoas? Já mentiu para quem ama? Estas perguntas foram respondidas, certamente, mas fica uma dúvida. Você foi profundamente verdadeiro em suas respostas ou apenas respondeu rapidamente para satisfazer a vontade do outro, se livrar da pressão e seguir em frente?

Se seu desejo foi sair pela tangente, com respostas curtas que dão conta de corresponder as expectativas alheias, parabéns, você é mais um usuário daqueles atalhos que são ditos e que até podem ser verdadeiros, mas que não comprometem mais que o necessário.

Ser verdadeiro assumiu patamares desafiadores. Desde criança fomos ensinados a sempre dizer a verdade, doa a quem doer. Porém, em paralelo, também fomos apresentados ao estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O melhor exemplo disso é quando pegamos um deslize de nossos pais e ouvimos um “não conte isso ao seu pai” ou “a sua mãe não pode saber, ok?” Neste momento entendemos que, o que antes era absoluto, se transformou em relativo e que verdades podem ser facultativas de acordo com a ocasião.

Ao mesmo tempo que somos doutrinados a dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, também aprendemos que ela não precisa ser dita o tempo todo. Isso explica muitas coisas sobre o comportamento das pessoas…

Saber a verdade sobre o outro satisfaz a nossa curiosidade e, de certa forma, nos deixa em vantagem. Contar a nossa verdade sem filtros pode, com frequência, expor fragilidades. Assim, baseados nesse eterno jogo de xadrez, tocamos a vida fazendo escolhas. Ora queremos verdades dolorosas, ora desejamos mentiras sinceras.

Sem juízo de valor, é fato que circulamos entre dois pólos e a escolha entre ser verdadeiro ou mentiroso, dependerá de como cada um de nós conduz a própria vida. Encaramos o desafio diário que nos mostra que ser um mentiroso contumaz e viver em uma realidade distorcida, pode provocar danos severos. Assim como, expressar verdades absolutas sobre tudo e todos também provoca alguns estragos.

O que fazer então? Escolher o caminho do meio e assumir que somos dúbios na essência e, por isso, levamos os extremos dentro de nós? É uma boa saída e talvez seja a única possível. Mas é preciso cuidado. Desvios de caráter normalmente alteram a percepção do real e podem transformar pequenas verdades escondidas em desgraças monumentais.

A noção sobre ser verdadeiro foi alterada de alguma maneira. O que antes era uma forma de encarar a vida, tornou-se uma atitude quase leviana que se ocupa em dar respostas furtivas a perguntas aleatórias. O que na prática, significa dizer que só seremos verdadeiros se houver uma demanda.

A verdade não pode ser uma moeda de troca. E não é. É preciso ser verdadeiro com as posições que assumimos diante da vida. É preciso ser verdadeiro com a pessoa que decidimos ser e, acima de tudo, é necessário ser coerente nas escolhas e estar sempre atento aos caprichos da verdade.

Solidão não é castigo

Solidão. Aquela parceira sempre presente, seja nos detalhes ou em grandes momentos do cotidiano de muita gente. Há muitas coisas a dizer sobre ela, porém, chama a atenção perceber que, para muitos, a solidão é repleta de drama e melancolia. Será que é apenas isso?

Inúmeras vezes ouvimos as queixas de pessoas próximas sobre o quanto se sentem solitárias, como é difícil se envolver com alguém ou ainda, o que uma pessoa tão legal está fazendo sozinha? A solução para isso é pessoal e intransferível mas, acima de tudo, é preciso sinceridade para encontrar as respostas…

A grande questão é que, geralmente, relacionamos nossas carências de afeto à solidão, o que é um grande equívoco. O ritmo alucinante em que vivemos nos impõe situações em que, via de regra, estamos completamente sozinhos, mesmo cercados por um mar de gente. Até aí, tudo dentro da normalidade.

Algumas horas perdidas em engarrafamentos, outras tantas dedicadas aos estudos, trabalho, atividades físicas, sono… Se contabilizarmos os dias, semanas e meses em que nos dedicamos, simplesmente, a viver nossas vidas, iremos perceber que o tempo que passamos exclusivamente na companhia de nós mesmos é consideravelmente maior do que os períodos em que nos entregamos ao convívio social. E isso é estar só.

A solidão, ao contrário do que alguns podem imaginar, traz consigo momentos de paz e reflexão, típicos daqueles dias preguiçosos em que ficamos observando a chuva bater na janela, desfrutando da companhia de muitos pensamentos e de e uma boa xícara de café. Pode parecer um cenário poético e idealizado, mas independente do panorama, sempre arrumaremos um escape terapêutico que nos ajudará a seguir em frente.

Se estar só faz parte do nosso jeito de ser e de viver, não faz sentido falar mal dos momentos solitários, certo? Meu palpite é que a solidão é como um parente distante, daqueles que conhecemos, mas nunca falamos ou lembramos de sua existência até que ele  resolva aparecer sem avisar. Neste momento, nos damos conta que a vida segue seu fluxo normal mas que, em alguns momentos, somos obrigados a tomar consciência de que caminhamos sozinhos por tempo demais.

Talvez seja no instante em que notamos nossa solitude, que passamos a buscar pares, companhias e parcerias que ajudem a preencher espaços considerados vazios. Muitas das vezes sequer pensamos em como ou com quem essas lacunas devem ser preenchidas. Dessa forma, trazemos para o nosso convívio, elementos que podem parecer adequados, mas que na verdade, são apenas rascunhos de desejos um tanto confusos.

Isso acaba por abrir brechas para aquelas relações fragmentadas, porém muito comuns, onde a intimidade dá lugar a solidão a dois. Muitas coisas foram feitas para serem compartilhadas e a solidão certamente não é uma delas. Por isso é preciso ficar atento aos sinais que a vida nos dá e aos conselhos que ouvimos desde sempre. Estar só e em paz é muito melhor do que fazer parte de um mau encontro, sem sombra de dúvidas.

É possível que agora fique mais fácil pensar que estar só é, também, uma escolha. O que não implica em uma vida sofrida e marcada por privações sentimentais. Quem disse que ir ao cinema sozinho ou sentar à mesa de um restaurante sem um par é sinal de abandono? Essas são distorções muito comuns com as quais nos habituamos, mas que de forma alguma, devem ser consideradas como um padrão a ser seguido.

Estar só pode ser apenas um querer. Estar só não é sinal de tristeza, derrota ou abandono. O olhar do outro pode colocá-lo no lugar do pobre coitado, isolado e sofrido. Mas isso, definitivamente, não deve ser levado em conta. Não se pode depositar o nosso próprio bem-estar sobre os ombros de quem quer que seja. É preciso ter em mente que a solidão não é castigo.

Amar é bom. Ter família e amigos é melhor ainda. Mas é primordial entender que na maioria das vezes, estar só, também é estar em excelente companhia.