Gentileza ainda gera gentileza

Tentando observar o mundo até onde a minha vista alcança, percebi que, em vários momentos, me faltou foco para enxergar os detalhes, mesmo aqueles que estavam a poucos palmos do meu nariz. É como se todas as situações estivessem disfarçadas por filtros capazes de alterar totalmente a vida real, transformando coisas que julgava conhecer tão bem, em registros com cores e sombras fora do lugar. Criando, assim, um cenário onde a pressa virou hábito e cuidado virou desdém. Será possível acreditar que gentileza ainda gera gentileza?

As pessoas cruzam a nossa frente o tempo todo, ocupadas com seus celulares, organizando suas vidas, preocupadas com seus horários e com as cobranças diárias que parecem não ter fim. Situações corriqueiras que nos impedem, cada vez mais, de contemplar os encantos do simples. Distanciando, propositalmente, o nosso olhar daquilo que realmente importa, daquilo que de fato, faz diferença.

Caminhamos a passos largos em busca de uma atmosfera autocentrada, onde nada mais importa, a não ser aquilo que queremos. Crianças estabelecem desde muito cedo, suas listas de exigências e são atendidas por seus pais. Adolescentes ditam seus códigos de conduta tiranos e são atendidos. Jovens adultos pegam carona nestas facilidades e tentam criar um ambiente onde todas as suas vontades podem ser realizadas. Ou pelo menos tentam. Mas, chega a hora em que a vida toma as rédeas da situação e se encarrega de mostrar a todos quem manda e quem obedece…

É aí que os conflitos internos se expandem, ganham corpo e rompem barreiras. E, sem saber como controlar essas frustrações, passamos a compartilhar toda a sorte de intolerâncias e preconceitos irrelevantes em sua origem, mas que assumem status de indispensáveis de acordo com a ótica mesquinha da qual fazemos uso com frequência. E assim, criamos uma soma de desvios que deságuam nesse caos em que vivemos, onde ganhar sempre é o que interessa e perder está absolutamente fora de questão.

O que causa espanto nesse panorama, é perceber que estamos, sistematicamente, deixando de lado o interesse, o cuidado e o afeto pelo outro. Esse comportamento quase padronizado, é capaz de promover encontros ou causar afastamentos na mesma medida. Estabelecendo, assim, relações difusas onde nos habituamos a cobrar presença e disponibilidade do outro, mas, em contrapartida, nos limitamos a oferecer, apenas, a melhor das nossas ausências. Essa escassez de cuidados abre espaço para o desaparecimento de um dos nossos hábitos mais adoráveis: a gentileza.

Ser gentil vai muito além das óbvias boas maneiras. Ser gentil é estar disponível para si, para os outros e para todas as situações que a vida oferecer. Mas, parece que a nossa necessidade de atenção sem limites, não deixa muito espaço para que outros, também possam ser agradados. Esse erro de avaliação tem, seguramente, nos tomado experiências preciosas.

Então, o que é preciso ser feito para recuperar as formas daquilo que sempre reconhecemos como nosso? Como fazer para eliminar os filtros que alteram a nossa percepção para que acreditemos que ser egocentrado é melhor que ser coletivo? O que fazer para recuperar pequenos hábitos que mostram que ser gentil nos torna mais fortes e não o contrário? As perguntas são muitas, mas, neste caso, não há uma cartilha a seguir. Basta um sorriso, um olho no olho e um pouco de calma para observar os detalhes que só podem ser vistos a partir do olhar disponível da gentileza.

A pluralidade do silêncio

Tantas coisas a dizer. Tantas coisas para ouvir. Mesmo sabendo disso, por que escolhemos o silêncio nos momentos em que apenas um grito poderia falar por nós? Difícil dizer… A pluralidade do silêncio serve para uma infinidade de situações. Em algumas, silenciar-se pode ter o efeito de uma cortina de fumaça que nos coloca em um anonimato confortável, porém, há momentos em nossas vidas em que discursos, términos e revoluções arrebatadoras se fazem sem que nenhuma palavra seja dita.

É curioso pensar sobre algo que nos acompanha do início ao fim possa causar tanto desconforto. Todos nós já protagonizamos cenas onde palavras deram lugar a longas pausas sem voz, olhares perdidos e pensamentos acelerados em busca de algo a dizer. Típico daqueles momentos em que encontramos alguém que há muito não víamos, de quem sabemos muito pouco e para quem não temos quase nada a falar, além das perguntas básicas que aprendemos na cartilha do  comportamento social superficial.

Mas, quem dera não ter o que dizer, fosse algo circunstancial e desimportante. As palavras travadas na garganta podem estar aprisionadas por diversas razões, que só conseguiremos compreender se olharmos para dentro, em busca da origem do nosso silêncio. Calar-se é, em última análise, uma forma de expressar sentimentos difíceis de explicar, o que leva, quase sempre, a interpretações tortas, mal-entendidos e respostas repletas de frases vazias.

Isso me faz lembrar daquelas pessoas quietas na escola que tentavam, sem muito sucesso, passar incólumes pela massa de crianças barulhentas. Como se suas capas de invisibilidade tivessem vindo com um defeito de fábrica e que, ao invés de escondê-las, as expunham ao olhar de todos, criando uma fonte inesgotável de angústias e sofrimento. À medida que o tempo passa, começamos a entender que há pessoas do barulho, mas também há pessoas do silêncio. A grande questão é a enorme quantidade de erros que cometemos com ambos, até que essa lição seja aprendida.

Que silêncios podem romper barreiras, não se discute, mas sabemos que, em muitos casos, não dizer o que se passa dentro de nós, cria abismos que aumentam com o passar do tempo. O que provoca um efeito dominó perverso onde uma peça que cai, leva a próxima e mais uma, até que a distância entre o que antes estava ao lado, transforma-se em milhares de quilômetros de uma estrada encoberta por uma neblina. Cada sentimento não dito corresponde a uma atitude descartada, a um sorriso desprezado ou a uma lágrima desnecessária.

Porém, não é sempre que podemos controlar quando, como e por quanto tempo ficaremos quietos. O silêncio pode ser imposto. Isto pode acontecer aos poucos, de forma quase imperceptível onde, a cada dia, somos levados a acreditar que nossa opinião não é tão importante. Mas, sem dúvidas, a pior forma de imposição do silêncio, é a força. Nesse caso, a privação da voz é mantida pelo medo, pela covardia e pela insegurança de quem quer calar aqueles que tem argumentos poderosos.

Nos habituamos tanto a ouvir aquilo que berra aos nossos ouvidos, que não percebemos mais a eloquência por trás do silêncio, seja ele solitário ou coletivo. Às vezes, observar o cotidiano a uma distância segura, é uma chance de apreender o que se passa a nossa volta com mais clareza. Escutar as vozes do silêncio nos permite organizar sentimentos que podem, sobretudo, expressar o que somos e o que queremos de fato. Falar o tempo todo é ruim e abrir mão da própria voz, é perigoso. A melhor forma de interagir com o mundo é estar disponível para ouvir mais, falar quando necessário e perceber que o silêncio sempre tem muito a dizer.

Onde foi que eu errei?

Se algo que planejamos, por mais simples que seja, não sair como o esperado, imediatamente uma pergunta nos vem à cabeça: Onde foi que eu errei? Mesmo sendo um pensamento tão recorrente e que, certamente, azucrinou a todos em algum momento da vida, nunca ficou muito claro para mim o porquê, dentre tantas opções, escolhemos a nós mesmos como os únicos responsáveis por expectativas não realizadas.

Por que devemos sempre ser os responsáveis por erros e insucessos vida afora? Isso, além de injusto, não faz muito sentido, uma vez que transformar anseios em realizações, depende de muitos fatores e, por esta razão, dificilmente será um trabalho solitário. A consolidação de sonhos é uma obra coletiva. Não podemos virar as costas para as parcerias que podem nos ajudar a seguir em frente ou a colocar pedras na nossa estrada.

Porém, apesar disso, já perceberam que na maioria das vezes em que vencemos, tratamos logo de dividir o sucesso entre nossos pares? Mas o contrário não é verdadeiro. Em momentos de fracasso, nos autodeclaramos culpados de forma quase instantânea, sempre que uma situação desfavorável se põe diante de nós. O que é bem estranho. Se as vitórias são coletivas, por que, então, nos habituamos a pagar as contas por supostos erros de forma tão solitária?

Perguntar-se onde está a fonte de um erro pode indicar três caminhos. Um deles leva a uma autoanálise que pode, com sorte, indicar não um, mas vários comportamentos que repetimos e que nos levam a cometer erros com uma frequência maior do que gostaríamos. O outro, nos mostra que fazemos, quase sempre, um julgamento equivocado sobre o que, de fato, significa errar. Quem disse que o erro não é, na verdade, um acerto fora de hora? Quem nunca, e por muitas vezes, se viu obrigado a amargar erros presentes mas que, no futuro, transformaram-se em acertos monumentais? O erro, em alguns casos, não passa de um acerto fora de foco.

O terceiro caminho é aquele em que o erro alheio, torna-se responsabilidade nossa. Relacionamentos que não dão certo e amizades que não correspondem as expectativas, são suficientes para disparar gatilhos de uma estranha culpa que, por um instante, coloca em dúvida a nossa capacidade de discernir entre o certo e o errado ou o entre o que é problema nosso e o que não é de jeito nenhum.

É fácil saber quando erramos. Difícil é perceber a sequência de eventos que nos conduzem ao erro. Podemos optar pela facilidade de responsabilizar os outros pelos nossos próprios fracassos. O que é bastante comum, apesar de leviano e nada ético. Podemos fingir que nada aconteceu e minimizar os erros como se fossem atitudes inofensivas. Outra atitude compartilhada por aqueles que primam pelo cinismo e a ausência de empatia. Há ainda a possibilidade de carregar todo o peso dos seus, dos nossos e dos vossos erros nas costas. O que é, por si só, um grande equívoco e uma grande perda de tempo.

Onde foi que eu errei? Talvez o nosso grande engano seja não perceber que os erros que cometemos nos permitem segundas chances, ou que são resultados de possibilidades que, por alguma razão, não resultaram naquilo que esperamos. Isso não nos transforma em fracassados ou perdedores, como muitos nos fazem acreditar. Equívocos, fracassos, enganos… chame como quiser, mas nunca permita que eles alcancem dimensões que não possuem. Erros são atitudes que, na imensa maioria das vezes precisam, apenas, de uma pequena mudança de rota para que se tornem grandes acertos.

O amor não cabe em caixas pequenas

Já pararam para pensar em quantas coisas se alteram ao nosso redor, todas as vezes em que o amor resolve entrar em nossas vidas, com a sutileza de um elefante em uma loja de cristais? Amar é um exercício de organização. Uma vez que ele se estabelece, é praticamente impossível contê-lo. É aí que o problema começa: o amor não cabe em caixas pequenas.

Se fosse uma pessoa, o amor seria daquelas bem atrapalhadas que tentam passar despercebidas mas que, ao menor sinal de silêncio, derrubam algo barulhento e denunciam a sua presença. O amor também pode ser um adolescente que cresceu demais e ainda não sabe lidar com o seu novo eixo de gravidade. O amor é, também, um senhor de bengala que tem dificuldade ao subir escadas mas que, diante da tarefa árdua, ajusta seu passo e segue seu caminho, sem pressa, porque sabe que não é a velocidade e, sim, a resistência, que o fará chegar onde quer.

Resistência. Esta é, sem dúvida, a maior característica das pessoas que amam. E por que? Imaginem que o amor é, ou pelo menos espera-se que seja, uma via de mão dupla onde, aquilo que é sentido por um, encontra abrigo no peito do outro. Mas, como eu disse, isso é o que se espera. Não há garantia de sucesso. A reciprocidade que esperamos encontrar, nem sempre, estará pronta para caminhar junto com a lista de exigências imposta àqueles que buscam o mais cobiçado dos sentimentos. Sim, o amor também pode ser exigente como um astro pop…

É impressionante como esse sentimento tão batido, continua a render assuntos sem fim. A capacidade de mudar de forma, tão própria do amor, é responsável por gerar experiências muito particulares, apesar de ser o mesmo sentimento. Mães amam seus filhos de formas diferentes, apesar de negarem preferências. Sentimos amor por muitas pessoas mas, independente do número, vivemos experiências únicas com cada uma delas. Caímos de amores por muitas coisas, mas, para cada uma delas, um amor próprio, pessoal e intransferível.

Reparem na contradição: se o amor é único, como é possível senti-lo de tantas formas? Talvez este seja o grande segredo de seu sucesso: disfarçar-se com uma simplicidade que, de fato, só existe aos olhos distraídos daqueles que estão prestes a se apaixonar. O amor é uma estrada cheia de curvas que não deixam muito claro para onde vamos ou quando vamos chegar. O que nos resta é seguir o fluxo e aproveitar as experiências pelo caminho.

As muitas faces do amor encontram reflexo nas mudanças que sofremos vida afora. Seria difícil imaginar-se ao lado de seu amor da adolescência trinta anos depois? Possivelmente. Os anos seguem e nós mudamos de pele e as formas de amar acompanham essas mudanças. O que antes nos envolvia com facilidade, hoje não cabe mais. Nós e o amor… esse é um modelo de chave e fechadura que, raramente, consegue ser compatível a primeira vista, apesar de muitos jurarem que já conseguiram essa façanha. Mas, me parece, que o grande desafio por trás de tudo isso, não é apenas achar o par correto ou seu encaixe perfeito. Conhecer seus próprios limites também faz parte dos encantamentos do amor.

Amar pode parecer um jogo, uma disputa ou uma batalha. O amor muda, nós mudamos e, por esta razão, nem sempre é fácil agendar um momento onde nossas mudanças serão parcialmente complementares.  O amor nos desafia, não porque é um sentimento difícil de sentir, ao contrário. O amor tem formas simples que mudam de molde o tempo todo por uma única razão: para nos mostrar que, quando se trata de amar, não adianta esperar por encaixes perfeitos.

O dia perfeito

Sabe aqueles dias em que, por algum motivo que ultrapassa a nossa compreensão, o universo se alinha e conspira a nosso favor, transformando aquelas vontades esquecidas em realidade? Pois é. Investimos um bocado de tempo na busca por esses momentos, mas eles são caprichosos. Não basta apenas querer, até porque, o dia perfeito não respeita a nossa vontade, ele se constrói a partir de coisas simples e inesperadas. Mas, nem sempre estamos com o foco ajustado para reconhecer bons momentos disfarçados em meio a simplicidade.

Cada um de nós possui um ideal do que pode ser, ou não, perfeito. Há o senso comum que diz que a perfeição é formada por notas fora do alcance da grande maioria. Existe um quê de masoquismo por trás desse padrão, que é compartilhado por nove entre dez criaturas nesse planeta. Mas tudo bem, sabemos o quanto é difícil encarar e vencer costumes há muito estabelecidos. Buscamos o perfeito lá longe de nós, porque entendemos, desde muito cedo que, o vizinho sempre terá a grama mais verde que a nossa. Talvez seja a hora de regar os nossos próprios gramados…

Quando escolhemos seguir por essa trilha que liga o perfeito ao inatingível, miramos apenas nas perfeições em grande escala e, com isso, deixamos de perceber as surpresas sutis, os encontros rápidos, os olhares alegres e os sorrisos sem máscaras que recebemos com uma frequência muito maior do que somos capazes de lembrar. Certamente, grande parte da nossa queixa sobre a escassez de dias perfeitos, vêm da nossa miopia que nos leva a enxergar grandiosidades, mas que nos impede de ver pequenas felicidades.

Um dia ensolarado, de brisa amena e o mar cristalino como horizonte… Este é, sem dúvidas, o cenário de um dia perfeito. Claro que não. Há uma legião de pessoas que não nutre nenhuma simpatia por areia, calor e água gelada. Podemos, então, pensar ainda em um dia chuvoso, uma casa no campo, um vinho e uma lareira para dar o tom do dia perfeito. Já consigo lembrar dos nomes de pessoas que detestam frio, dias nublados e falta de agitação… É difícil enquadrar e agradar as nossas ideias de perfeição. Mas quem disse que os melhores dias assim precisam de uma moldura?

No exato instante em que entendemos que a perfeição vai muito além do senso comum, que diz que o perfeito é algo para poucos, passamos a aproveitar mais os detalhes felizes que compõem o nosso cotidiano. Definitivamente, não dá pra passar um vida acreditando que dias perfeitos precisam de um planejamento prévio, de um investimento de tempo para que tudo seja como esperamos. Quantas vezes não ouvimos estórias de momentos programados e pensados para serem perfeitos mas que, no fim, não passaram de um grande rascunho de felicidade?

Nossa busca por dias plenos que nos colocam em estado de graça, também é responsável por nossa falta de perspectiva em relação ao que pode ou não tornar-se memorável. E isso não traz nada de positivo, ao contrário, nos engessa e endurece. A perfeição está presente em dias leves e despretensiosos. Dias perfeitos cabem, com folga, dentro de abraços, da preguiça em dias nublados, do sorriso de uma criança, da mensagem de uma amiga contando que esta grávida de seu primeiro filho… Dias perfeitos são todos aqueles em que jogamos os padrões para o alto e nos permitimos saborear a felicidade que se esconde nos detalhes.

O poço e o fundo

Ficar sem chão… Possivelmente, já perdemos a conta de quantas vezes repetimos ou ouvimos essa expressão e por motivos absolutamente distintos. Sentir-se em meio a um turbilhão de sensações com as quais não conseguimos lidar ou, simplesmente, não podemos lidar, transforma a nossa percepção da realidade. Faz com que acreditemos que não há saída, não há escape, não há fim e que somos apenas nós, o poço e o fundo. Mas, se estamos aqui para falar sobre isso, é porque já faz tempo que descobrimos atalhos que nos levam de volta à superfície.

É engraçado pensar que passamos uma existência focados em pólos absolutamente opostos. Se, por um lado, queremos a felicidade extrema o tempo todo, rechaçamos fortemente a possibilidade de fracassar e entristecer e os motivos são óbvios: ninguém quer sofrer. Porém, esquecemos de regras básicas de sobrevivência que nos mostram o tempo todo que, viver, é um jogo imprevisível onde se ganha e se perde em proporções aleatórias e independentes do nosso querer.

Esse perde e ganha diário, pode assumir contornos maiores ou menores de acordo com a expectativa que criamos. Me arrisco a dizer que ganhar, muitas vezes, parece mais um bônus inesperado do que uma possibilidade real. Talvez seja por isso que perseguimos com tanto afinco, toda a qualquer possibilidade que, no fim, possa nos trazer algum tipo de vitória. Ganhar vai além da conquista. Ganhar nos coloca no hall de vencedores onde é possível ser visto e admirado. Ganhar é aquilo para o qual fomos criados, treinados e direcionados a fazer. A grande questão é: o que fazer quando a vitória não chega?

Essa pergunta pode causar arrepios em muitos de nós e isso tem uma razão simples. Não fomos educados para perder. Ao contrário. Perder é algo destinado aos outros e não deve fazer parte do nosso planejamento. Mas é aí que me surge uma dúvida: Por que renegamos tanto, algo que nos acontece o tempo todo? Se fizermos uma retrospectiva das nossas vidas ou se perguntarmos aos amigos mais chegados teremos, certamente, um vasto acervo de derrotas para todos os gostos.

Algumas divertidas, outras nem tanto. Algumas traumatizantes, outras quase insignificantes. Algumas que carregamos vida afora, outras que esquecemos em instantes. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que, em todas essas experiências onde não alcançamos aquilo que queríamos, ainda assim, é possível sair ganhando. Talvez o prêmio seja ainda melhor que aquele que idealizamos. E de que forma isso pode ser considerado como algo bom? Difícil saber no calor do momento, mas, à medida que o tempo passa, percebemos que poucas coisas são tão poderosas quanto a nossa capacidade de recomeçar.

É neste momento em que precisamos enxergar que não há fundo de poço que não possa ser vencido. Esse lugar é, na verdade, uma alegoria que nos ajuda a lidar com a dificuldade em compreender, aceitar e aprender com as nossas derrotas. É óbvio que não vamos, a partir de agora, endeusar os muitos tombos que ainda vamos levar, mas que devemos respeitá-los, devemos. Até porque, eles serão responsáveis, também, por outros tantos relatos de coisas boas que foram conquistadas a partir de um tomo, um pé na bunda, uma puxada de tapete ou seja lá o nome que quiser chamar. É a boa e velha frase “aquela derrota foi a melhor coisa que me aconteceu…”

Ninguém gosta de perder, não fomos orientados para isso. O mundo segrega os perdedores. Não importa quantos êxitos foram conquistados, basta perder uma única vez para ser incluído no clube daqueles que não chegaram lá. Não jogamos para competir, jogamos para ganhar. Mas, também conhecemos a máxima que diz que não se pode ganhar sempre. Então, o que nos resta? Entender que vitórias e derrotas não estão ligadas por uma linha reta e que, os poços, podem ser mais bem mais rasos do que imaginamos. Para isso, basta que estejamos dispostos a aceitar algo muito simples: perder nem sempre significa ser derrotado.

Queda livre

Quanto mais tempo vivemos e experimentamos diferentes situações, maior é a sensação de que vivemos em um campo minado pronto para explodir sob os nossos pés. Não importa se calculamos quando, como ou onde será o nosso próximo passo, seremos sempre surpreendidos por explosões que irão colocar nossas vidas de pernas para o ar. O que significa dizer que, viver é como estar em uma queda livre, onde não se sabe o destino, nem a sua velocidade, logo, a única coisa a fazer é aproveitar o vento no rosto e tentar se divertir ao longo da jornada.

Não, este não é um texto sobre como jogar tudo para o alto, bater a porta e sair sem olhar para trás. Mas, não deixa de ser uma pequena provocação ao nosso tão organizado modo de ver o mundo. O convívio social estabelece tantas regras, onde não podemos fazer isso ou aquilo, não devemos usar tal roupa, não falar com estranhos, não ser tão expansivos e, principalmente, não precisamos falar tudo que se passa em nossas cabeças. É claro que estes são filtros importantes e devem ser usados em muitos momentos. Até porque, podem nos manter a salvo de uma série de ciladas.

Mas, como tudo nessa vida, esses filtros devem ser usados com sabedoria e moderação. Restrições demais apresentam efeitos colaterais que podem, com frequência, nos paralisar diante de oportunidades e desafios. Somos criados em uma lógica onde dizer não é a melhor escolha. Se por um lado, isso irá nos privar de novas experiências, por outro, não sofreremos por apostar em algo tão fora dos nossos padrões. Pelo menos, foi isso que nos disseram desde sempre. E nós, acreditamos…

O tempo vai passando e vamos, cada vez mais, nos distanciando da nossa espontaneidade e abrindo espaço para desconfianças e ressalvas. Até que alcançamos o ponto onde dizer não para tudo, será o padrão e, dizer sim, uma inesperada exceção. Isso, talvez, seja fruto da nossa necessidade de sobrevivência que diz que devemos colocar as coisas em seu devido lugar e que, devemos manter nossas a salvo pois não sabemos se será possível conquistá-la novamente. Resquícios da nossa evolução ou, para ser mais realista, é o famoso “quem guarda, têm”.

Mas é preciso acreditar que, apesar das nossas conquistas seguras, há um universo de opções inexploradas e, o melhor de tudo, bem ao alcance das nossas mãos. Basta que ampliemos o nosso campo de visão para incluir em nosso radar, todas as coisas para as quais dissemos não, sem sequer ponderar se seriam ou não boas escolhas, bons caminhos ou boas surpresas. Nadar contra a maré não foi e nunca será uma tarefa fácil, mas é preciso tentar. Qualquer braçada no sentido contrário ao que esperam de nós, pode ser a porta de entrada para uma realidade cheia de novas possibilidades.

Muitos acreditam que essa seria a saída de suas zonas de conforto. Acho que vai muito além. Quedas livres, voos cegos ou seja lá como gostariam de chamar, podem ser a salvação para a vida de pessoas que foram levadas a acreditar que a ousadia não está disponível para todos. O que é um grande engano. Jogar-se no desconhecido e sentir aquele misto de medo, ansiedade e desafio, ajuda a romper amarras, trazendo uma sensação de que não pertencemos a lugar algum e que, ao mesmo tempo, esse pode ser o melhor lugar onde poderíamos estar.

Me engana que eu gosto

Quantas vezes encontramos com algum conhecido por acaso e, quase imediatamente, tratamos de marcar um outro encontro tipo, “passa lá em casa”, mesmo tendo a certeza de que isso jamais vai acontecer? Confirmamos presença e não comparecemos. Concordamos com argumentos indigestos, apenas para acabar com conversas chatíssimas. Declaramos amor a quem mal conhecemos, só para agradar aos ouvidos alheios. Estamos apressados demais para verdades verdadeiras e cada vez mais abertos a mentiras sinceras. Se não for tomar muito tempo e nem dar  muito trabalho, tudo bem, siga em frente e… me engana que eu gosto.

Desde quando ser enganado ou enganar alguém faz parte do nosso cotidiano? Diria que essa é uma premissa que se estabelece a partir do momento em que nos aventuramos nas formas mais básicas de relacionamento. Podemos até negar isso com todas as forças mas, até que ponto, essa convicção não seria, também, um autoengano? Difícil precisar, mas não pense que isso é, de forma ampla, um desvio de caráter ou coisa parecida. São regras de um jogo que já estava rolando muito antes de chegarmos aqui e que irá se perpetuar durante muito, muito tempo.

Por mais incômodo que seja enxergar as coisas sem filtro, não há muito o que fazer, além de aceitar, aprender as regras e começar a brincadeira. Ainda não se convenceu disso? Sem problemas mas, se você, à medida em que avançou no texto, foi buscando momentos onde levou alguém ou se deixou levar por conversas fiadas, promessas convenientes ou compromissos vazios, sinto informar, você faz parte do grupo que ganha a aposta, mas não leva o prêmio pra casa.

Políticos inventam fábulas para conseguir o que querem. Guerras são deflagradas a partir de fantasias. Amores se acabam, amizades se desfazem, votos de confiança se quebram… Sabemos que muitas dessas situações se sustentam sobre pilares de areia que, a qualquer momento, podem ruir. Mas, mesmo assim, concordamos em entrar nesse ciclo sem fim, mesmo sabendo que cobraremos preços altos por nossa permissividade, assim como nos veremos obrigados a arcar com os custos da nossa dissimulação pré-programada.

Não é exagero dizer que a maioria de nós flerta com a hipocrisia mais vezes do que gostaria. Alguns fazem uso dessa prática sem moderação, provocando estragos por onde passam, infelizmente. Mas, me parece que, dia após dia, os níveis de exigência aumentam sua elasticidade aos enganos que sofrem e passam a relativizar mentiras e a acostumar-se a meias verdades. Como se esse fosse, o caminho mais fácil para se chegar onde quer ou para se manter confortável em situações que não resistiriam, ao menor contato que fosse, com uma verdade sem máscaras.

Estaríamos nos tornando cínicos ocasionais? Possivelmente, mas acredito que ainda temos o poder de escolher quando preferimos verdades e quando toleramos mentiras. É aí que reside a nossa capacidade de alterar os fatos de acordo com as conveniências. Para nós, a realidade. Para os outros, bom, para os outros será aquilo que for possível… E assim seguimos realizando, descontroladamente,  quebras de contrato, escapadas, puladas de cerca e um sem número de descompromissos vida afora. Tudo dentro do grande acordo social, que inclui a todos nós.

Este cenário nos obriga a tomar posições que irão impactar a forma como vemos o mundo e como ele nos enxerga de volta. Em uma época onde o nosso maior patrimônio é o tempo, a correria da vida acaba gerando relações efêmeras. Com isso, respostas imediatas que dizem o que queremos ouvir, cumprem o papel da verdade e criam uma sensação de que isso é o certo. Esse é o ponto crucial onde nos restam apenas duas opções: O certo ou o fácil. A escolha é sua.

Quando o fim chegar

Ciclos. Somos regidos por incontáveis mecanismos com começo, meio, fim e recomeço. Sejam eles particulares ou não, nascemos com uma única certeza: todo ciclo tem seu fim. Exercemos controle temporário sobre alguns deles, mas na grande maioria das vezes, as peças movidas nesse tabuleiro pré-programado somos nós. Dessa forma, seguimos ávidos por ciclos que se iniciam, empolgados por novas jornadas, mesmo sem ter a menor noção de como será quando o fim chegar.

Nascer, crescer, reproduzir e morrer… essa é a cascata de eventos que aprendemos nas aulas de ciências e que acreditamos acontecer com todas as outras espécies do planeta, menos conosco. Agimos como se fossemos imunes aos efeitos do mais previsível de todos os ciclos. Nós, simplesmente, não aceitamos essa programação prévia, estabelecida e comum a absolutamente todos os seres que já passaram por esta terra.

Criamos delírios de eternidade para quase tudo que pensamos ou fazemos. Talvez este seja o maior reflexo da nossa incapacidade em aceitar a finitude de tudo o que nos cerca e, principalmente, da nossa inabilidade em enxergar o nosso próprio fim da linha. Traçamos planos a perder de vista, fazemos amizades sem data de validade, marcamos encontros que nunca acontecem e, quase sempre, fazemos juras de amor eternas, projetando a nossa existência para além dos limites conhecidos, apesar de sabermos, desde sempre, que o para sempre, sempre chega ao fim.

Então, como não conseguimos lidar com a certeza do fim, apostamos em nossas memórias para que, assim, seja possível prolongar indefinidamente os nossos ciclos, mesmo depois do ponto final. O que pode ser uma armadilha que nos mantém presos a momentos, pessoas e situações que há tempos não existem mais. Ciclos imaginários permitem um controle que nos dá a falsa impressão de que estamos no comando quando, na verdade, somos reféns de um mundo irreal, que restringe a nossa capacidade de reagir aos estímulos da realidade.

É difícil perceber as etapas de um ciclo. Começamos relações com laços muito sutis, que não deixam claro que, de fato, iniciamos um processo sem volta. Mas, basta perceber que estamos diante de algo importante para que, imediatamente, passemos a acreditar que aquilo será para sempre. Muitos diriam que isso nos torna otimistas. Será? Vislumbrar relações duradouras e repletas de felicidade, pode até ser um desejo, mas está longe de ser uma realidade. Ciclos reais não são suaves.

Voltando as relações. Quando percebemos que um novo amor começou, ficamos tomados por uma plenitude tão arrebatadora que, pensar no fim daquele êxtase, é a última coisa que se quer. Momento perfeito para juras de amor eterno, não é? Certamente, mas conforme o tempo passa e os ciclos avançam, tudo muda, independente do nosso desejo inicial. Paixões ardentes dão lugar ao amor constante e esse, por sua vez, requer atenção e paciência para continuar existindo. E se, por acaso, deixarmos de seguir o manual de cuidados do amor eterno, ele certamente chegará ao fim.

Mas, como fazer para aceitar o fim? Diante desse fato, temos dois caminhos. Um deles é não aceitar e tentar, de todas as formas, retardar as etapas de um ciclo, mesmo sabendo que isso não é possível. Apegar-se a memórias de um passado feliz é, normalmente, a escolha da maioria. Porém, a dificuldade em aceitar o fim não pode ser pior do que manter-se preso a relações terminais, disfarçadas com uma capa de ilusões de felicidade.

O outro caminho é compreender que nada dura para sempre. Só que para alcançar esse nível de lucidez, é preciso passar por vários ciclos imaginários cheios de armadilhas criadas por nós mesmos. Independente de qual será a escolha, em algum momento seremos obrigados a encarar o fim, sem retoques e sem possibilidade de retorno. Nesse momento, o vazio se estabelece, mas isso não é ruim. É apenas o anúncio de que estamos preparados para, enfim, iniciar um novo ciclo.

O peso das nossas escolhas

O que eu faço agora? Essa pergunta é feita todas as vezes em que o chão desaparece sob nossos pés e ficamos à deriva, sem referências e sem a menor ideia do que fazer. Não paramos para pensar sobre isso, a não ser que sejamos vítimas dessa súbita falta de base que, ao contrário do que parece, não nos deixa sem opções. Sofremos exatamente por não saber escolher diante de tantas possibilidades que se abrem a nossa frente mas, principalmente, sofremos por não saber qual será o peso das nossas escolhas.

Esse questionamento, que precede uma escolha rápida e sem ensaios, cria um desconforto em vários sentidos. Ora por demonstrar nossas fragilidades, ora por expressar ansiedade ou, simplesmente, porque nos faz constatar que não estamos preparados para tudo. Mas isto está longe de ser algo ruim. Ser pego de surpresa, exige uma capacidade de reação veloz e, normalmente, sem segundas chances. Erros nas escolhas são bem mais comuns que acertos, mas, como quase tudo na vida, tomar decisões mais assertivas, também depende de experiência e aprendizado.

Há momentos onde o mundo passa por cima de nós como um rolo compressor, exigindo respostas para perguntas que sequer entendemos, sem oferecer tempo para reflexões ou buscas por novos caminhos. Diante desse beco sem saída, só nos resta procurar soluções onde elas são mais difíceis de encontrar: dentro nós. Neste cenário, somos obrigados a voltar o olhar para nosso interior, nem que seja por uma fração de segundo,  e tentar achar forças em lugares que jamais acessamos. Dessa forma, adentramos em áreas nebulosas e desconhecidas, perdidas em nossas gavetas internas.

Pensando dessa maneira, não saber como agir em determinadas situações, tem o seu lado bom. Fincar raízes muito profundas pode restringir nossos reflexos e comprometer a nossa capacidade de reagir as surpresas que a vida nos oferece. Perguntar-se o que fazer, quase nunca traz as respostas certas e, muito menos, aquelas que esperamos. Por uma simples razão: Não há certezas, erros ou acertos. Existem apenas possibilidades que serão criadas de acordo com as nossas decisões.

Ser confrontado por situações desconcertantes, reduz a nossa possibilidade de escolha, permitindo que fiquemos entre o não, que nos deixa estagnados no mesmo porto seguro, ou o sim, que pede uma dose extra de coragem para navegar por mares desconhecidos. Mas, independente da escolha, algumas perguntas são impacientes e pedem respostas instantâneas. É esta fração de segundo que nos faz seguir em frente e, pouco importa, se vamos dizer sim ou não, o importante no momento de decisão, é a forma como teremos que lidar com as nossas certezas, inseguranças, verdades, mentiras…

O imprevisível caminha ao lado desses momentos. Nunca saberemos ao certo quando ou porque será necessário pular mais alto e decidir algo de primeira. Muito menos saber o quão difícil será tomar decisões que não estavam em nossos planos e que podem, com frequência, afetar as pessoas ao nosso redor, de formas que não podemos prever. É sempre bom não perder de vista que as nossas decisões, por mais simples que sejam, jamais serão individuais.

É claro que a vida nos coloca em situações onde há muito pouco ou nada a ser feito mas, ainda assim, é possível decidir se nos conformamos ou não com essa situação. Vivemos as decisões que tomamos, sejam elas repentinas ou não. Porém, sempre que exercitamos a nossa capacidade de escolha, conhecemos um pouco mais de nós e reconhecemos limites. Por vezes colocamos esses limites à prova, o que nos ajuda a compreender que existem linhas que não devem ser ultrapassadas.

Decisões são desafiadoras e nos testam de formas que nem imaginaríamos possíveis. O ato de escolher impõe mudanças, quer você queira ou não.  É difícil dizer se escolhemos os caminhos corretos, mas podemos afirmar que somos a síntese das escolhas que fizemos. O que faremos daqui em diante? Escolhas. Qual a melhor maneira de fazê-las? Aprendendo com elas…