A beleza da gratidão

     Diga obrigado. Seja gentil. Cumprimente as pessoas. Seja grato… Certamente a maioria de nós já ouviu estas recomendações vindas daqueles que nos precederam. Somos lembrados o tempo todo de que é preciso ser gentil, mesmo sem saber bem o porquê. Mas, a cada momento, fica mais e mais claro que não há como viver coletivamente, sem praticar a gentileza. E, principalmente, não há como viver coletivamente, se não soubermos retribuir a gentileza que recebemos. Esse é, sem dúvida, o ponto de partida para entender a beleza da gratidão.

Os anúncios em lugares públicos, também são grandes fontes de treinamento de cordialidade, onde, não raro, encontramos avisos soltos de “Ceda lugar aos que necessitam”, “assento preferencial para idosos”, “pedestres primeiro”… O que significa que não basta aprender a ser gentil, é preciso manter-se vigilante. A gentileza, apesar de transformadora, pode ser muito frágil quando não é considerada como uma expressão inegociável do bem viver. Mas, essa percepção, não é compartilhada por todos. Infelizmente.

É este o ponto onde estamos agora. Um momento onde uma efervescência de emoções nos toma de assalto, provocando rompantes emocionais incontroláveis, muitas vezes. Ora amamos demais. Ora detestamos sem limites. Mas, independente de qual é a emoção que nos controla, reagimos a tudo a partir de uma perspectiva individual e intransferível. O sentimento é meu e que se dane o resto… Repararam como pode ser fácil ignorar a gentileza e substitui-la por qualquer outro sentimento, desde que nos traga uma satisfação imediata?

Esta pode ser a principal razão pela qual não podemos, jamais, baixar a guarda. Se a evolução não nos fez uma espécie cordial na sua origem, que a convivência e os bons exemplos sejam responsáveis por esse feito. Criamos muitos mecanismos que nos aproximaram uns dos outros, até formarmos esses agrupamentos colossais, onde a ação de um, impacta na vida de milhares de outros. Não há como administrar isso sem criar um código que torne mais suave, a dificílima arte da convivência.

Gentileza não pode ser um ato isolado. Ser cordial, desperta gatilhos emperrados que nos levam a agir de forma semelhante criando, assim, uma coletividade onde o bem mais precioso não é ter e, sim, ser. Ser mais leve, mais disponível e, acima de tudo, ser mais grato por tudo o que as pequenas atitudes gentis podem proporcionar, seja individual ou coletivamente.

E, o melhor de tudo, não está apenas na constatação do poder da gentileza, mas, sim, naquilo que de mais potente que ela é capaz de gerar: a gratidão. Ser grato é o reflexo imediato de um ato despretensioso. Por isso, mantenha-se atento o máximo que puder. Não confunda a suavidade da gentileza, com fraqueza. Não confunda a alegria da gratidão, com bajulação. Se custa muito pouco ser gentil, ser grato custa menos ainda.

Aquilo que chamamos de família

Um dia, quando a gente se dá conta, as crianças cresceram. Um dia, quando a gente percebe, o amor que sentíamos, expandiu-se para fronteiras nunca antes imaginada. Um dia, o que era um, virou dois, depois quatro, oito… e seguiu em frente sem conhecer limites. Essa matemática torta que, aparentemente divide inteiros, está, na verdade, multiplicando sentimentos que aproximam diferentes, selam parcerias e distribuem amor sem moderação. Talvez esta seja a melhor forma de encarar os grupos que se formam aleatoriamente e criam aquilo que chamamos de família.

Família. Grupos heterogêneos que se ligam por laços invisíveis e, por vezes, inexplicáveis, mas que possuem uma força tão absoluta que, independentemente das distâncias, impedem que as amarras se rompam, que os laços se desfaçam e que o amor se dissipe. A intensidade dessas relações conecta opostos, desnuda semelhanças, minimiza diferenças e, acima de tudo, cria uma unidade tão complexa, que não permite interferências e não aceita desaforos.

Famílias quebram convenções, quebram barreiras, quebram o pau. Envolvem-se em confusões insolúveis, em um primeiro olhar, fragmentam-se em pedaços bem pequenos para, em um futuro muito próximo, reestruturarem a unidade inicial, como se nada tivesse acontecido. “Só eu posso falar da minha família, mais ninguém!” Quem nunca fez uso desta clássica máxima familiar, usada por dez entre dez membros de algum clã? Isso, talvez, traduza um pouco do inexplicável que é conviver com as diferenças e, ainda assim, protegê-las como um tesouro que é só seu.

Pertencimento e família são parceiros inseparáveis, mesmo quando os laços se estremecem. O excesso de amor que nos une às nossas famílias, vez ou outra, provoca uma confusão que nos impede de separar a divergência da aceitação, e entender que pontos de vista podem ser, sim, discordantes. Fatores que, normalmente, quebram vínculos de confiança por aí afora, mas não em família. Mesmo que leve tempo, o amor ancestral que nos une, impede que diferenças se tornem irreconciliáveis. Leve o tempo que levar, os invisíveis laços familiares, atam-se novamente.

Pode parecer estranho vir ao mundo cercado por uma rede de acolhimento não programada, não escolhida, mas, ao mesmo tempo, indispensável na construção de quem somos individualmente. Avós, mães, filhos, sobrinhas, netos, irmãos… todos aqueles que vieram antes e todos aqueles que se seguirão a nós. Não importa o quão intimo e próximos somos, basta estar envolvido por esse laço apertado, que faz com que reconheçamos a nossa unidade e o nosso pertencimento. A energia inexplicável que nos aproxima, seja pela genética compartilhada, seja pela identificação construída vida afora, será sempre um dos nossos maiores desafios. Ser capaz de amar, agregar e entender o outro, apesar de nossas óbvias diferenças, é o que nos faz continuar querendo ser… família.

Infinitas conexões

Para onde quer que se olhe, lá estão elas. Nos conectamos o tempo inteiro com o universo que nos rodeia, mesmo quando não percebemos. Tudo o que o nosso olhar é capaz de alcançar, nos permite uma interação. É claro que ninguém se dá conta, conscientemente, do número de possibilidades que se apresentam para nós, do momento em que acordamos, ao instante em que fechamos os olhos. Estamos todos, de alguma forma, intimamente conectados em uma rede de infinitas conexões. E isso não é um exagero…

É claro que não somos capazes de interagir com absolutamente tudo o que nos cerca, mas estabelecer conexões vai muito além de uma interação consciente. Não, não estamos falando de relações. Estas, são fruto de conexões pensadas e ponderadas onde nós somos capazes de escolher, diante de incontáveis opções, quem gostaríamos de ter por perto. O que nos leva a repensar no papel do acaso em nossas existências.

Vislumbrar um céu nublado, mergulhar no mar, caminhar de mãos dadas, tomar um banho de sol ou de chuva, observar… Todas as nossas ações vão, pouco a pouco, construindo uma rede tão complexa de conexões, que sequer percebemos a sua formação e, quando menos se espera, já temos um paladar formado, um gosto musical e um jeito de se expressar muito particulares. A forma como nos conectamos com o mundo, diz muito sobre quem fomos, sobre quem somos e, mais ainda, sobre quem seremos um dia.

O que significa dizer que estamos num eterno liga-desliga com todo os estímulos que surgem diante de nós. A programação da TV, as músicas que ouvimos ou as conversas de bar, os pés na bunda de dêmos e levamos, o certo e o errado. Bebemos em todas essas fontes que ajudam, para muito além da nossa percepção, a criar o que chamamos de jeito, vontade ou… personalidade.

O que nos difere, no geral, é a forma como lidamos com esses estímulos. Alguns de nós estão sempre prontos para novas experiências, enquanto outros, preferem seguir as velhas novidades. E não há problema algum nisso, mas é importante ficar atento. Ignorar demais aos estímulos, nos colocam no trilho da insensibilidade. Não basta perceber as possibilidades, é preciso querer se conectar a elas.

Se a vida é feita a partir das conexões que estabelecemos com as pessoas e com o mundo, somos, em grande parte, responsáveis pela realidade em que vivemos, sim. Somos nós quem decidimos a maioria das nossas ações diárias. Criamos a nossa rotina. Mas é tão bom ir além disso. Permitir-se contemplar outras paisagens, trocar o caminho para o trabalho, observar mais e se deixar observar. Somos capazes de infinitas conexões, todos nós. Ligações que nos ensinam, nos movem e, sobretudo, nos dão a chance de sermos melhores a cada dia.

O desamor é tóxico

A vida tem se tornado, em linhas gerais, um desafio que vai muito além da simplicidade dos sonhos, dos desejos materiais ou da conquista de um espaço para chamar de seu. Parece que viver não é mais um ato natural que nos leva a acordar todas as manhãs, tocar a vida e fechar os olhos a noite para que tudo recomece. Parece que nos esquecemos como é viver de forma leve. É como se estivéssemos infectados por uma indiferença que nos impede, inclusive, de perceber como o desamor é tóxico.

Muitas são as mazelas que somos obrigados a enfrentar, o que nos leva a pôr em xeque, valores que sempre foram inquestionáveis, como a nossa capacidade de amar, por exemplo. Poucas coisas são tão devastadoras quanto duvidar do amor e sua força transformadora. É claro que isso gera efeitos colaterais que se desdobram como ondas gigantes, com tamanhos e intensidades diferentes, mas que, inevitavelmente, alcançam a todos.

Entender qual é a gênese desse movimento que prega o descaso e não o cuidado, a descrença no lugar da empatia e o ódio ao invés do amor, é o maior desafio em tempos tão difíceis. O mundo inteiro assiste, sem reações, ao levante de um mal que busca usurpar um protagonismo a qualquer custo. Achar que vivemos uma fase, é a chancela que a maldade precisa para espalhar-se como metástases de um câncer intratável. É hora de extirpar esse mal.

Não é mais possível permitir que o mal e todos os seus disfarces, continuem nos soterrando, humilhando, afogando, desabrigando e adoecendo. Não é possível que continuemos a ser alvejados por balas que saem de armas de inimigos infiltrados em nosso cotidiano, sem levantar suspeitas. O ritmo de perdas e danos provocados pelo desamor que se estabelece como nova ordem, é tão avassalador, que impõe a todos um choro constante, onde o nosso maior castigo é, justamente, não poder decidir o momento em que devemos parar de chorar.

Apesar de sentir e perceber que nos tornamos reféns do ódio escolhido por muitos, há inúmeras formas de minar sua força. Desamor é amargura. Ninguém se sustenta por muito tempo provando, exclusivamente, o amargo sabor do ódio, da inveja, do racismo e, muito menos, consegue manter-se respirando numa atmosfera contaminada pela indiferença.

É necessário e urgente que todos percebam a fonte do mal que os torna, inconscientemente, algozes uns dos outros. Precisamos de doçura, luz, ar puro e paz para tocar a vida. É a luz, não a escuridão, a responsável pelo retorno do equilíbrio, tão ignorado nos últimos tempos. É na luz que os olhos brilham. É na luz que a sinceridade se expressa. É na luz onde o amor se encontra.

O berro das minorias

É praticamente impossível nos dias de hoje, não perceber o quanto nos tornamos mais diversos e, com isso, menos tolerantes a vozes de comando que gritam alto demais, mas que não tem nada a dizer. Pouco a pouco, os cabrestos que sempre se encarregaram de apertar quando menos esperamos, começam a perceber que há algo diferente, como se os nós habituais não fossem mais capazes de conter uma voz crescente, que se cansou do silêncio. É o berro das minorias que descobriu-se potente e sem medo de transformar.

Os noticiários se encarregam, diariamente, de jogar em nossas caras toda sorte de horrores onde, para variar, as vidas afetadas são aquelas a quem nos acostumamos chamar de minorias. O que é muito estranho, para dizer o mínimo. Somos um país onde as mulheres representam mais da metade da população. Somos um país de maioria negra. Somos uma nação que bate recordes de público em paradas LGBT. Como é possível continuar chamando tudo isso de minoria?

Sabemos que há muitas respostas possíveis, mas nenhuma delas explica o fato dessa parcela mais que expressiva continuar sendo vista desta forma. Arrisco a dizer que, por traz dessa percepção de mundo compartilhada por todos nós, existe um grupo em desvantagem numérica que está desesperado. Desesperado com a ideia de perder os privilégios que estruturou ao longo dos séculos, para aqueles que, segundo a sua visão perversa e excludente, não merecem sonhar com dias melhores.

E, assim, criaram uma grande ilusão que nos fez acreditar que pequenos grupos são maioria e que grandes massas não passam de grupos insignificantes. Passamos anos acreditando que somos, de fato, muito poucos. Não se enxergar exercendo algumas profissões, não ter seus traços representados em brinquedos, não se ver refletido na arte. Não ocupar todos os espaços. Não. Não. Não… Se não pode ser visto, logo, não existe. Essa foi, e ainda é, a grande estratégia quem mantém a real minoria do controle de tudo.

Dividir para conquistar. Manobra de guerra eficaz quando se pretende minar a força de gigantes, para que eles jamais percebam o tamanho de seu poder de transformação. Mantendo-os eternamente adormecidos e afastados de tal forma que, como o passar do tempo, não são mais capazes de reconhecer suas próprias faces refletidas. Resultado de uma exclusão muito bem pensada.

Assumimos a convenção que estabelece que grupos desorganizados, mesmo que tenham claras características que os colocam em vantagem, serão chamados de minorias. Mulheres, negros, gays, crianças, pobres, imigrantes… Minorias. Brancos, abastados, religiosos, educados, políticos, banqueiros… O falso ideal da maioria inatingível. Desproporções que sustentam os pilares da desigualdade desde sempre e para sempre. Os anos não foram gentis com essa maioria fragmentada e incapaz de enxergar a sua própria potência. Até agora.

As barreiras que impediam que semelhantes se enxergassem como tal, caem a cada dia. O que leva essa massa a perceber que seu lugar no mundo não é aquele onde privações são a única realidade possível. À medida que pequenos grupos se reconhecem como único, espaços são reivindicados, direitos são conquistados e, a partir disso, passos para trás não serão mais tolerados. A mudança chegou. É hora de acolher, aprender a ser melhor e compreender que as diferenças, que sempre foram impostas, jamais foram reais.

Dia após dia as “minorias” encontram seus pares e voltam, após um interminável exílio, ao reconhecimento de sua própria face. Que é diversa, divertida, inteligente e muito potente. E isso, gostem ou não, é um caminho sem volta. Ainda bem.

Amarras por todos os lados

Acho que você deveria emagrecer. Por que não corta esse cabelo? Não vai casar? Nossa, como você é incrível! Não quer filhos?… O bombardeio de perguntas sobre todo e qualquer assunto, não chega a ser uma novidade, mas, o que fica cada vez mais nítido, não é apenas a curiosidade alheia ou o desejo por uma fofoca casual. O interesse em palpitar sobre a vida dos outros está cada vez mais intenso, como se estivéssemos cercados com amarras por todos os lados.

Se pararmos para pensar em todas as experiências que acumulamos até chegarmos aqui, certamente encontraremos uma série de eventos transformadores, provocados pela interferência alheia. Eventos esses, responsáveis por mudanças, para o bem ou para o mal, em diferentes níveis na vida de cada um nós. E o mais curioso é que essas cordas invisíveis envolvem desde os mais inseguros até os, supostamente, decididos e bem resolvidos.

É tanta gente nos dizendo o que, quando e como fazer, que fica difícil estabelecer o que é, de fato, a nossa própria opinião ou se estamos apenas refletindo a vontade do outro. Essa simbiose social em que estamos atolados até o pescoço é, possivelmente, a grande rede que nos mantém realmente conectados uns aos outros. Não é exagero dizer que não é o amor, a paixão ou a amizade que nos une. O que nos aproxima do outro é vontade incontrolável em saber, qualquer coisa, da vida alheia. Gesto pouco nobre, mas, genuinamente humano.

Por mais que alguns imaginem que são absolutamente imunes ao julgo alheio, sempre existirão aqueles gatilhos discretos, capazes de desorientar até mesmo os mais libertários. Muitas vezes, passamos anos sob o controle de tantos interesses externos e sequer percebemos que, grande parte das decisões que tomamos, estão muito pouco relacionadas a quem somos na essência. Reagimos muito mais diante daquilo que acham ou esperam de nós, que deixamos de lado atitudes que nos fariam verdadeiramente felizes.

Afrouxar essas amarras é uma ação complexa, que demanda tempo e energia. Além de uma vontade imensa de traçar novos rumos, mesmo sabendo que a vida, até então tranquila, se tornará um campo minado prestes a explodir a cada vez em que a escolha for o não ao invés do sim. Para construir-se forte, é necessário cortar as cordas que atam, paralisam e ferem. Mas, é preciso estar atento. Esse mundo louco não terá a menor cerimônia com aqueles que ousarem ser como são.

Vivemos, felizmente, em uma época onde muitos e muitas buscam, incessantemente, o seu direito a voz e a expressão de seus desejos e vontades. O que incomoda aqueles que sempre estiveram confortáveis em seus lugares privilegiados, apontando dedos para tudo que soasse diferente. Mas, mais importante do que perceber as amarras que nos prendem, é mostrar para aqueles que sempre seguraram as cordas, que seus nós, nunca mais serão capazes de conter o nosso desenfreado desejo de liberdade.

A dor em ver o outro partir

A vida passa rápido demais. Sempre ouvimos isso, especialmente daqueles com mais tempo de estrada. Porém, o que temos percebido é que, a velocidade deixou de ser, há tempos, a responsável por encurtar vidas e impedir a realização de sonhos. Parece que o mundo adotou um giro tão alucinado, que pôs tudo de ponta a cabeça. Tirando do lugar, coisas que jamais poderiam ser movidas, como a dor em ver o outro partir.

Esse estado confuso, nos impõe uma realidade tão absurda quanto desumana, que nos empurra para a beira de um abismo de onde só é possível enxergar indiferença e dor. Não sei se é possível dizer o ponto exato onde adotamos a insensibilidade como bandeira. Só sei que nada, nada, se compara ao poder destruidor da falta de comprometimento com as necessidades do outro, sejam elas quais forem. A partir do momento em que nos tornamos imunes as dores alheias, nos transformamos, também, em vítimas da nossa própria indiferença. O que significa dizer que estamos todos à deriva, buscando por alguém que nos resgate desse mar de intolerância.

É difícil perceber os efeitos desse mal que aflige a todos, uma vez que ele não tem uma rotina definida. Pode ter muitos nomes, muitas formas e diferentes intensidades. O que se sabe, concretamente, é que, a falta de cuidado com o outro só precisa de uma única chance para tornar-se um hábito. Que começa discreto e faz com que deixemos de lado uma coisa aqui, outra ali, até que em um dado momento, passamos a ignorar praticamente tudo aquilo que, aparentemente, não é importante. É nesse ponto, em que nos tornamos peças de um jogo onde, sem exceção, todos os participantes saem perdendo.

Tornar-se indiferente a tudo que, aparentemente, não lhe afeta, abre portas para uma série de efeitos colaterais deletérios, como a intolerância, o medo, o ódio e o desprezo por seu semelhante. E, para aumentar ainda mais esse caldeirão, o cotidiano nos brinda, a cada instante, com cenas injustas e desumanas, que beiram a primitividade a barbárie. Cenas que nos agridem com tanta frequência que, impressionantemente, acabam relegadas a banalidade. Compartilhar a dor e ser afetado por ela, só é possível quando ainda somos capazes de senti-la.

Crianças se perdem. Jovens são dizimados. Enterram-se desejos. Famílias são destroçadas. Sociedades entram em colapso. Perdemos nossa humanidade. Renegamos a empatia. Negamos direitos. Usurpamos poderes. Matamos sonhos que ainda não nasceram. Morremos um pouco a cada dia.

Até quando ficaremos indiferentes a isso?… Até quando?

É tão bom ter alguém

Não é bom estar sozinho. A vida é tão melhor quando temos alguém para dividir felicidades e tristezas. Busque alguém para passar os seus dias. Ficar só é sintoma de que algo vai mal. Tenha filhos para não se sentir solitário na velhice… Essas são algumas das máximas que são disparadas de forma indiscriminada, por uma patrulha de criaturas sempre prontas para apontar caminhos a seguir. Sem pensar nos efeitos colaterais de suas, ditas, boas intenções ou, ainda, se o outro está interessado em ouvi-las. O que achamos sobre isso? Pouco importa, afinal, é tão bom ter alguém.

Essas afirmativas que soam, ora como conselhos, ora como maldições, fazem com quem aprendamos a acreditar que estar só é uma espécie de castigo e, por isso, iniciamos uma busca incessante por parcerias que nos salvem deste triste destino. Como se o ideal de felicidade estivesse, visceralmente, ligado ao fato de estar conectado a alguém. E não é apenas isso. É necessário que essa ligação faça parte do ideal das parcerias românticas, onde só o amor é capaz de nos transformar em seres plenamente felizes.

Não se pode negar que partilhar nossos momentos é sempre algo prazeroso, reconfortante e necessário. Porém, estabelecer que isso só é possível, a partir do instante em que formos atingidos por flechas de cupidos desorientados, é de um romantismo que não corresponde a realidade. Dessa forma, cria-se, desde muito cedo, uma responsabilidade injusta, que estabelece que, se não for a dois e por amor, suas chances de alcançar a felicidade se aproximarão do zero. Deixando de lado, uma das coisas mais importantes para a vida de todos nós, que é, sem dúvidas, a capacidade de auto amar-se.

Essa dificuldade em perceber que não somos apenas uma casca e, sim, uma excelente companhia para nós mesmos, pode acarretar dificuldades em perceber quem somos e o que, de fato, nos agrada. Tudo isso por conta desta pressão irracional que nos diz que a nossa felicidade repousa sobre mãos desconhecidas e que, como num passe de mágica, surgirão a nossa frente, trazendo a solução para todos os problemas, uma vez que nada é capaz de superar a dádiva que é ter alguém para chamar de seu.

Com isso, deixamos de aprender como é fascinante sentir-se confortável quando vestimos a nossa própria pele e nos tornamos capazes de enxergar quem somos por inteiro. Algo tão simples de acontecer, não fosse a tirania social que impõe, seja de forma velada ou ostensiva, que é impossível ser feliz sozinho. É obvio que é maravilhoso compartilhar experiências onde há amor, mas esqueceram de nos contar que o amor assume várias formas, tem várias cores e muitas possibilidades. E por essas e outras, não seria justo eleger apenas o amor romântico como o passaporte para a felicidade.

Dizem que somos capazes de oferecer ao outro, apenas aquilo que trazemos conosco. Pode parecer clichê, mas é uma verdade. É difícil estabelecer afeto, quando depositamos no outro, a responsabilidade pela nossa felicidade. Precisamos parar diante do espelho e compreender que aquela pessoa que vemos refletida, tem o direito de se reconhecer inteira e amar-se incondicionalmente. Só assim será possível resistir a dura cobrança que nos diz as mesmas bobagens, todos os dias e de muitas formas, insistindo que para ser feliz é preciso ter alguém. Concordo, desde que sejamos nós os principais responsáveis pelo nosso próprio jeito de ser feliz.

Fragmentos irreais

Os últimos tempos tem sido pródigos em novidades. Até aí nada de novo. A grande diferença de tudo o que foi vivido antes para o que temos agora é, sem dúvida, a velocidade com que as experiências nos alcançam. A pressa é tamanha, que quase tudo nos escapa, e não queremos mais perder nenhum detalhe. Assim, abrimos mão de sermos únicos e criamos fragmentos irreais de nós mesmos, na tola tentativa de dominar a velocidade dos novos tempos.

O tempo deixou de ser o moderador de nossas existências, para assumir o posto de observador desse grande jogo no qual vivemos onde, o ganhador, será aquele que fingir melhor ser quem jamais foi, ter estado onde sequer imaginou estar ou parecer ter aquilo que nunca teve. A ansiedade em estar em todos os lugares e com todas as pessoas, faz nascer criaturas fragmentadas que não sabem ao certo de onde partir ou aonde querem chegar. A falta de percepção sobre o que é real, nos fazem acreditar nas irrelevâncias de uma vida cada vez mais editada.

O que parece estar muito claro, mesmo que não seja percebido por todos, é a batalha interna que travamos onde, o indivíduo que somos de fato, tenta conter os cacos que insistem em se espalhar por todos os lados. E, pelo que podemos ver, os nossos pedaços tão pequenos parecem vencer essa briga com folga. Afinal, quem nunca viveu o terrível dilema que nos leva a escolher, dentre milhares de opções, as partes de nós que julgamos próximas da perfeição? Queremos oferecer o melhor de nós sempre. Mesmo que seja uma fantasia.

O volume de possibilidades de interação mudou tanto, e em tão pouco tempo, que não é mais possível saber se os novos meios de comunicação nos fragmentaram ou se nos pulverizamos para poder atingir um número maior de conexões. É uma busca quase filosófica por respostas que, de fato, pouco importam. Estamos vivendo o delírio de uma vida editada por aplicativos e filtros que prometem, além da felicidade plena, a conquista de uma perfeição, concretamente, irreal.

De fato, nos habituamos a enxergar a vida por ângulos específicos. Vemos frações de paisagens. Rostos divididos, pratos de comida, corpos moldados sob a luz correta e sorrisos constrangedoramente felizes… Todos vistos por lentes especiais cuja a finalidade é criar o imaginário da perfeição. O que, obviamente, não é possível, uma vez que o ser perfeito não passa de uma peça publicitária bem elaborada, que diz que somos capazes de alcançar esse objetivo, apesar de sabe-lo inatingível… Assim sempre que chegarmos perto do que acreditamos ser perfeito, uma nova meta é criada. O que nos obriga a construir uma nova face o tempo todo, pois, só assim, conseguiremos estar, ingenuamente, a um passo de um lugar que jamais existirá.

Essa receita foi feita para dar errado, claro. Escolher ser muitos para agradar as demandas de um mundo tão diluído, provoca um efeito dominó onde todos dizem tudo para agradar a todos e, assim, conquistam a admiração de uma plateia sempre crescente. É aí que me vem a seguinte dúvida: será que vale perder o direito as próprias escolhas, a capacidade de dizer não ou a vontade de fazer apenas o que lhe agrada, somente para viver a ilusão de que podemos ser múltiplos na arte de fingir ser quem jamais seremos? Desconfio que, encontrar essa resposta, será o nosso grande desafio, diante desse acelerado novo tempo.

Corpos cobertos de lama

Vivemos em um grande atoleiro onde, cada tentativa de andar para frente, nos afunda cada vez mais. O que seria, por si só, uma situação repleta de agonia e indignação, transformou-se em um padrão social onde a maioria, estranhamente, acostumou-se a sobreviver com seus corpos cobertos de lama. Vemos a esperança e a felicidade brilharem ao longe. Esticamos nossos braços na tentativa de poder toca-las, mas, os nossos pés presos sob a lama não permitem que sigamos adiante.

Ao mesmo tempo em que nascemos sob o signo da dificuldade, somos levados a crer que todos teremos as mesmas oportunidades, basta querer. Mentirosos muito habilidosos compram a fidelidade de quem tem muito pouco a oferecer, além de sua simplicidade. Usando artimanhas milenares que oferecem ilusões deslumbrantemente falsas, em troca de sonhos roubados de pessoas simples e repletas de esperança. Vivemos em um lugar onde a simplicidade tornou-se vítima da ignorância.

Somos subjugados por nossos pares e, principalmente, por aqueles que se julgam acima de nós. Aqueles que aprenderam a conjugar o verbo ter e esqueceram da importância do ser, distanciando-se cada vez mais do encantamento da simplicidade, banham-se na felicidade arrogante provocada pela sede de querer ter mais e mais. Essa gente ignorante, na ausência de argumentos, se vale da força para disseminar seus hábitos e sua visão de mundo. Custe o que custar. Doa a quem doer.

Vivemos em lugar onde esconder-se virou a única opção para se manter vivo. Dizer o que pensa ou ser quem se é, agora, um risco de vida. Na verdade, sempre foi. A ignorância rasa se incomoda quando a simplicidade consegue romper a força da lama que a mantém em cárcere e passa a irradiar a beleza de ser comum. Como se perpetuar em um lugar de poder, quando todos se derem conta de que, a força dos ignorantes, é forjada a partir da dor e do sofrimento dos mais simples? Já sabemos a resposta, infelizmente.

Estamos todos parados. Presos. Soterrados. A felicidade e esperança parecem distante demais para serem alcançadas pela ponta de nossos dedos. Em seus lugares, o ódio e a indiferença parecem não ter pressa de partir, colocando a todos sob seus domínios, intoxicando cada vez mais a lama que recobre as nossas peles e que nubla a nossa visão de mundo.

O mais impressionante nesta insanidade que nos arrebata, é a incapacidade de muitos em perceber o quanto estão impassíveis diante de todo mal a que são submetidos. Essa insensibilidade os faz acreditar que nada é tão ruim quanto parece. Criaturas cobertas por uma lama sufocante, disfarçada de brisa de otimismo. Mais um ponto para os calhordas que, habilmente, espalham migalhas de pão dormido e criam a esperança de conduzir essa massa faminta, a um banquete que jamais será uma realidade em suas vidas.

A lama que nos cobre não vem, apenas, de barragens negligentes. Vem da falta de oportunidades a qual fomos acostumados a conviver e atribuir aos céus a nossa falta de sorte. Não. Jamais foi por isso. Somos, sistematicamente, privados de nosso bem mais precioso: a simplicidade. Aquela que nos faz querer apenas o que é importante e que nos leva a compartilhar com quem tem menos que nós. A simplicidade é a força capaz de anular a resistência que mantém nossos pés presos essa lama tóxica e perversa. A simplicidade nos dá a liberdade de escolher apenas aquilo que vale a pena viver. E nada é tão assustador para os ignorantes abastados, quanto a possibilidade de ver o poder do ser simples.