Aos que vieram antes

Antes, havia um amor, um trabalho, uma casa. Antes, havia escola, amigos e muitos sonhos. Antes, havia uma imensa vontade de saber como seria o depois… Passamos grande parte da nossa existência imaginando o futuro, querendo saber como será a vida em tempos que ainda não existem. Perdemos incontáveis horas do nosso escasso tempo, tentando moldar possibilidades e acabamos esquecendo que, para caminhar em frente, é preciso saber quem somos e, sobretudo, quem fomos. Criar uma super versão futura de nós mesmos, só é possível quando damos valor aos que vieram antes.

O presente sempre será o elo entre o que nos precedeu e aquilo que gostaríamos de ser. Isso nos dá a chance de entender a forma como construímos nossas trajetórias a partir das experiências prévias, boas ou não, que acumulamos vida afora. Porém, damos muito pouco crédito as pessoas que já fomos e concentramos muita energia para formatar a pessoa que queremos ser. Talvez o nosso grande equívoco seja desconectar um evento do outro, uma vez que jamais seremos futuro se não respeitarmos nossas versões passadas.

A grande questão aqui não é criticar nossa queda por projeções futuras. Isso é para lá de saudável e nos ajuda, imensamente, no desenvolvimento das nossas metas, além de ser um ótimo exercício que ensina a enxergar versões mais legais, mais ricas e mais felizes do que a atual. Tornar-se melhor não passa apenas pelo desejo instantâneo de querer ser o que não se é. Esperamos que o futuro surja como um passe de mágica, trazendo um pacote de felicidades que transformará a todos em criaturas incríveis de uma hora para outra. Isto até pode funcionar em nossos mais puros devaneios, mas está longe de ser algo possível na realidade.

Todos temos o nosso antes. Deixamos marcas no mundo à medida que o tempo passa por nós. Marcas estas, que criam uma longa sequência de degraus aleatórios que nos conduzem ao exato ponto onde estamos. Construímos nosso presente, caminhando às cegas e abrindo portas que só revelam seu conteúdo depois de abertas. Dessa forma, seguimos montando um quebra-cabeças diverso que, além de definir quem somos, abre espaço para incluir novas peças que podem nos levar até cenários inesperados.

Porém, não podemos esquecer que, como em um quebra-cabeças, imagens só se formam a partir de encaixes perfeitos. Por esta razão, fica difícil continuar acreditando em futuros, onde, magicamente, rompemos com tudo que vivemos até então, e nos transformamos em personagens sem qualquer compromisso com o próprio passado. Talvez este seja um dos motivos pelos quais a maioria das nossas previsões não se concretize no mundo real. Não é possível renovar-se quando escolhemos ignorar aqueles que fomos um dia.

Mas, é bom esclarecer que este texto não se trata de apego ao passado ou as amarras que ele nos traz. Ao contrário. Esta é, sim, uma exaltação as nossas versões anteriores, mas sem saudosismos vazios. É um carinho com as nossas cópias retrô, repletas de uma sabedoria própria, que só melhora com o passar do tempo.

O nosso antes, é como a fonte onde podemos mergulhar sempre que precisarmos encontrar chaves que irão que nos ajudar a abrir novas portas. Fonte que devemos contemplar, vez ou outra, para relembrar grandes acertos, sucessos acomodados e os erros responsáveis por mudar as nossas vidas. Sim, os erros. Aqueles que no tempo presente significam derrotas dolorosas, assumem ares de redentores quando são vistos com distância. Já os acertos, tornam-se guias para possíveis rotas onde surfaremos em boas ondas ou voaremos em céu de brigadeiro. Mas, não importa para onde a balança irá pesar mais. Só nos tornamos capazes de perceber as nuances que nos formam, quando entendemos que, só conseguiremos transformar nossas sonhadoras projeções de futuro em um presente possível, quando não abandonamos o que nos precedeu, quando não viramos as costas para aqueles que fomos antes.

Novas conquistas

Novidades acontecem o tempo todo para nos mostrar que, independente de nossas convicções, a vida se renova e segue seu fluxo contínuo e irrefreável. Do momento em que nascemos até os dias de hoje, concentramos forças para tentar compreender esse mecanismo complexo que nos diz que é preciso reinventar-se sempre e que, ao mesmo tempo, não devemos esquecer a essência que nos faz ser quem somos. Parece contraditório, e é. Mas, ao mesmo tempo, explica parte da inquietude que nos impulsiona em busca de novos saberes e novas conquistas.

Nascemos, crescemos, amizades são feitas e desfeitas. Criamos novas conexões que movimentam novos costumes e diferentes formas de pensar e interagir. Isso faz com que o mundo se movimente em direções diversas e, muitas vezes, contrárias as nossas visões tão engessadas e cheias de certezas. Visto dessa forma, parece fácil perceber a chegada das mudanças. Mas estamos longe disso. A novidade nem sempre é visível a olho nú e pode passar absolutamente despercebida, até para os mais atentos.

O que devemos fazer para não perder nenhum capítulo dessa história que muda em tempo real? É ingênuo imaginar que podemos dar conta de cada fato novo, mas não podemos abrir mão de algumas coisas. Disponibilidade para quem nos cerca, atenção com o que é essencial e flexibilidade para não enrijecer além do necessário. Receitas simples, mas que podem suavizar, em vários aspectos, a pesada rotina que aprisiona sonhos e encurta horizontes. Para acompanhar as mudanças é preciso tornar-se parte do processo e, não apenas, contentar-se em ser um mero observador, pronto para se queixar de tudo aquilo que fugir as suas expectativas vazias.

Mudar é difícil? Quanto a isso não há dúvidas, mas nada é mais desafiador que perceber-se inerte diante da mudança. Como se estivéssemos imóveis em meio a um vendaval que movimenta todas as peças ao nosso redor mas que, por alguma razão, nos mantém presos ao mesmo lugar, impossibilitados de usufruir dos novos ventos. Essa imobilidade é, por vezes, uma opção para qual não cabe julgamentos. O caminho que nos leva a liberdade de escolhas, também pode nos envolver com pesadas correntes que trazem a ilusão de que, quanto mais pesada for a caminhada, mais forte será a nossa postura diante das novidades do mundo. Nada além de um grande engano…

Ser parte de algo novo, não pode ser apenas um sonho para observar de longe. Tornar-se um agente transformador da própria realidade, traz uma infinidade de novas possibilidades aos que escolheram ou foram levados a acreditar que, mudanças, só ocorrem de fora para dentro. Isso é, além de perverso, a perpetuação de um comportamento que aprendemos desde muito cedo e que diz que devemos nos contentar com situações onde, a normalidade aparente, é responsável por felicidades burocráticas.

Ceder ao novo provoca, quase sempre, reações distintas, em intensidades diferentes e com tempo de duração indeterminado. Alguns aceitam boas novas tranquilamente, enquanto outros, passam anos avaliando se vale a pena mudar uma peça de lugar. Perdemos mais tempo que o necessário, avaliando se o agora é melhor que o depois ou se o antes é mais confiável do que aquilo que está por vir…

O tempo nos ajuda a entender que, contemplar o novo possibilita, não apenas o aprendizado, mas também, baixa nossa guarda diante das muitas barreiras que enfrentaremos diariamente. Mas isso não é suficiente. É necessário aceitar que a novidade, quando nos alcança, propõe desafios que vão além da superficialidade. Aceitar o novo só é possível quando mudanças internas ocorrem e nos permitem acreditar que, novos desafios só serão possíveis quando, finalmente, dermos voz aos anseios de novidade que mantivemos, por muito tempo, escondidos no silêncio.

Por isso eu corro demais

Acorde cedo. Trabalhe muito. Divirta-se como se fosse a última vez. Seja bom amigo. Embriague-se com frequência. Persiga a felicidade. Pratique esportes. Seja saudável e lindo. Durma um pouco, se for possível… Reparem que esta é uma lista de como devemos nos comportar em tempos moderníssimos. Só em ler essa sequência, já é possível sentir uma ansiedade sufocante. Nesta proposta, não há espaço para nada que fuja a esse insano padrão qualidade. Ficar triste ou cansado não é legal. É comum, é sem graça. Por isso eu corro demais. Para tentar ser o melhor, nem que seja, apenas, aos olhos dos outros. Será que este é o caminho?

Nunca fomos tão pressionados como agora. Mas também, nunca precisamos cumprir tantos pré-requisitos para sermos aceitos, apesar de caminharmos para um mundo onde a inclusão é uma pauta definitiva. Para entender melhor, basta olhar a sua volta. Sempre haverá um expoente em alguma tribo. Aquele que desperta, não apenas a nossa admiração, mas também, a de uma legião disposta a segui-lo e a copiar gestos, roupas, falas e posturas. À medida em que isso ocorre, cria-se uma padronização de comportamento. E, para todo padrão criado, nasce, ao mesmo tempo, uma massa de excluídos.

Sempre que miramos em algo ou em alguém que nos interessa, imediatamente pensamos em como seria se estivéssemos naquela posição. Em alguns casos, essa vontade de ser como o outro, desperta ansiedades difíceis de conter. Quando isso ocorre, entramos em uma frequência que diz que, para ocupar aquele lugar, é preciso abrir mão de algumas particularidades para tornar-se um rascunho de alguém que jamais seremos. E, assim, caminhamos em direção ao arriscado caminho daqueles que escolhem um padrão para chamar de seu.

Padrões estão por toda parte, dizendo o que devemos fazer, quando fazer e com quem fazer. Alguns conseguem ignorar essas correntes com tranquilidade, mas, para a grande maioria, é impossível resistir ao desejo de se aproximar de uma fórmula de sucesso, perseguida por muitos e privilégio de poucos. Fórmulas que não passam de armadilhas muito bem pensadas para atrair o maior número de admiradores que, tentarão a todo custo, apagar traços próprios e adequar suas medidas para que possam caber em fôrmas alheias e desconfortáveis.

Mas, se sabemos previamente que padrões existem e que, invariavelmente, seremos tragados por eles, por que não relaxar e aproveitar? Afinal, o que há de tão ruim em acordar todos os dias e travar batalhas com poucas chances de vitórias? Por que não seguir acreditando que sem dor não há ganho? O que há de errado em querer ser melhor, mais inteligente e mais bonito? Qual é o problema em querer mostrar que, além de sexy, somos saudáveis e bons de cama? E por que não fazer isso tudo ao mesmo tempo? Não há nada de errado com absolutamente nada disso, a não ser que isso cause, por menor que seja, algum tipo de dor ou sofrimento aos que tentam, incessantemente, alcançar marcas inalcançáveis.

A vida é feita de muitos ritmos e nem sempre conseguimos seguir o seu compasso. Especialmente quando tudo parece acelerar demais e distorcer as imagens a nossa volta. Corremos o mais rápido que conseguimos, na busca por padrões que funcionem como atalhos que nos levem a lugares que nem sabemos direito se queremos ir. E. no caminho, encontramos verdades nada fáceis de engolir.

Não aceitamos o fato de vivermos tão pouco e, talvez por isso, tenhamos tanta dificuldade em aceitar quem realmente somos e quais são os nossos limites. Sucumbimos a padrões tolos porque, supostamente, facilitam a nossa convivência. Corremos demais. Mas, ao contrário do que pensa, isso não faz ninguém experimentar a vida ao máximo. A pressa, por si só, exclui a calma necessária para aproveitar detalhes, trazendo consigo uma única certeza: quanto maior for a nossa velocidade, mais próximos estaremos do fim.

Futuros possíveis

Muitos são os pontos de encontro que nos unem nesse mundo. Mas nada é tão impressionantemente comum, quanto a nossa capacidade de projetar o aqui e agora, em direção a futuros possíveis, onde, independente da situação que vivemos no presente, temos a certeza que, o que virá, trará alívio para todos os males. Dessa forma, conseguimos ganhar fôlego para suportar tristezas, digerir decepções e reorganizar ideias. Especialmente naqueles momentos em que nada disso parece ter solução.

Saber como será o amanhã é algo que não está ao nosso alcance. Talvez este seja o motivo que nos leve a criação de realidades fantásticas, onde a felicidade é um direito total e irrestrito a todos aqueles que a desejarem. A esperança nos faz acreditar que o amanhã será sempre melhor que o hoje, que não há dor que dure para sempre e que há solução para todos os problemas. Essa capacidade tão própria da nossa natureza, possivelmente é um item que vem de fábrica mas que só o tempo nos ajuda a entender como funciona.

Alguns trazem essa esperança estampada no peito como um grande estandarte, enquanto outros escondem, timidamente, essa habilidade de acreditar na existência de dias melhores. O que não é uma regra, uma vez que todo mundo, em algum momento, já vivenciou tanto explosões de otimismo, quanto o abandono provocado pela desesperança. Experimentar esses extremos é essencial e permite a compreensão sobre quase tudo aquilo que nos cerca e ajuda a demonstrar, inclusive, que a esperança no futuro só é possível a partir do instante em que se entende que, mudanças, nascem a partir de incômodos.

Se puxarmos pela memória, certamente encontraremos momentos onde a única coisa que nos manteve de pé, foi a crença em uma realidade alternativa que nos receberia sem restrições, independente de quem somos ou do que fizemos. Quem nunca se viu soterrado por problemas insolúveis à primeira vista, mas que foram mudando à medida em que acreditamos num futuro próximo, onde tudo aquilo não passaria de lembranças incapazes de nos fazer mal? Sei que não é nada fácil pensar assim, quando estamos no olho do furacão, mas não custa tentar…

Usar a imaginação como arma de sobrevivência em momentos hostis, pode nos ajudar a resolver os vários fracassos que iremos colecionar por aí afora. Corações partidos, por exemplo, são capazes de provocar dores inimagináveis. Mas até isso pode ser amenizado quando acionamos o nosso botão de emergência que, imediatamente, projeta um futuro feliz onde conseguimos, apesar da dor, imaginar como a vida será melhor quando um novo amor chegar. Para toda e qualquer situação ruim, teremos sempre uma maravilhosa chance de nos transportar para onde os problemas são proibidos de entrar. Assim, usando nossa imaginação de forma quase infantil, é possível aliviar o peso de alguns fardos, conseguindo uma carga extra de energia que será capaz de aplacar dores e fortalecer convicções.

É claro que, por vezes, sequer lembraremos de usar essa válvula de escape. Mergulharemos tão intensamente em nossas questões que teremos certeza de que a luz no fim do túnel não passa de uma metáfora vazia. Mas, para nossa sorte, na maioria das vezes, seguiremos em frente, acreditando em um caminho que, sempre que possível, nos levará até onde podemos ser maiores e melhores. Este não é um incentivo a viver na irrealidade e, sim, uma forma de demonstrar que somos, de fato, capazes de vencer dificuldades a partir do instante em que não as levarmos tão a sério.

Problemas são barreiras que se colocam diante de nós para testar nossa capacidade de superá-las. Coisa que fazemos com frequência. Caímos, levantamos e aprendemos muito nesse processo. Mas o que talvez seja a melhor parte disso, apesar das dores e frustrações, é perceber que poderemos contar sempre com a nossa habilidade de criar futuros capazes de salvar o presente.

Amores baratos

Nos últimos tempos, estar apaixonado ou envolvido por alguém parece ser o objeto de desejo de nove entre dez aspirantes ao amor. Essa ânsia por amar a qualquer preço vem assumindo proporções incontroláveis e acaba criando uma busca frenética por um bem querer. Isso, além de baixar os níveis de exigência, nos conduz a prateleiras desarrumadas onde é possível encontrar produtos nada exclusivos e com prazo de validade duvidoso, como: paixões instantâneas, afetos eventuais e amores baratos.

Esse cenário de terra quase arrasada onde é preferível garantir qualquer coisa a ficar de mãos abanando, tem lá suas consequências. Até onde estamos dispostos a ir para ter alguém? Qual é o preço que estamos prontos a pagar para dividir a vida com um par? Até quando será necessário estar com alguém para ser feliz? Perguntas necessárias, porém, difíceis de responder em tempos onde a cobrança por uma felicidade pasteurizada e padronizada, pesa sobre os nossos ombros, ditando regras e costumes.

Os amores, que antes eram sólidos, tornaram-se líquidos difíceis de reter por muito tempo. O que causa uma série de dissabores àqueles que apostaram suas fichas no amor idealizado, romântico e inalcançável. E, à medida que o tempo passa e a pressa pela conquista aumenta, o amor tende a mudar uma vez mais e transformar-se em vapor, tornando a vida das pessoas ainda mais complicada. Isso faz com que aumentemos a velocidade na busca por algo que torna-se cada vez mais difícil de encontrar e, principalmente, de reconhecer.

Em meio a essa maratona atrapalhada, tropeçamos em pedras de todos os tipos e tamanhos. A maioria não passa de pedaços de rocha sem muito brilho, mas que ajudam a treinar o nosso olhar para reconhecer o momento em que, enfim, as pedras preciosas começarem a surgir. Só que esse é um trabalho de paciência e tentar acelerar o processo pode nos forçar a ver preciosidade e brilho em cascalhos que, além de pesados, não valem grande coisa…

É claro que conhecer pessoas é algo maravilhoso em todas as etapas da vida, desde que seja no nosso tempo e sem ultrapassar os nossos limites. Porém, como escolhas e perdas caminham juntas, não há como ganhar aqui sem perder logo ali. Essa é uma percepção que  demora a ser construída e, acima de tudo, compreendida. Ao longo desse aprendizado, nos acostumamos a ouvir juras de amor vazias, promessas de eternidade que duram instantes e  frases de apaixonadas que dizem exatamente aquilo que o outro quer ouvir. Amar é, certamente, muito mais que isso.

Estar só, depois de algum tempo, acaba atraindo mais olhares do que gostaríamos, como se estivéssemos marcados pela incapacidade de amar. Nada disso. Procurar as pedras certas, tropeçando nas erradas também tem o seu valor e oferecem uma grande lição. Um dia, todos acabam descobrindo que o amor idealizado só existe em comerciais de margarina. Na vida real há o amor imperfeito, cheio de contradições e dificuldades, mas que, apesar disso, é capaz de imprimir sorrisos simples, sinceros e irresistíveis em lábios apaixonados.

Os amores baratos estão por toda parte, oferecendo sonhos de felicidade plena que, quase sempre, transformam-se em desamores parcelados a perder de vista. A receita para não cair nessa cilada é simples. Se for começar a amar, é melhor não prometer além do que se pode cumprir. Se for continuar amando, nunca deixe de resgatar o brilho precioso de suas pedras. No mais, é só seguir em frente e deixar o amor mostrar o seu verdadeiro valor.

 

Vozes de alerta

Pensamentos recorrentes costumam nos visitar quando menos esperamos. E, sempre que vão embora, deixam um rastro de sensações que, dependendo do nosso estado de espírito, podem bagunçar nossas certezas, reacender chamas há muito apagada ou valorizar alguns erros que jamais deveriam voltar à tona. Isso acontece com tanta frequência que sequer nos damos conta da existência desses pensamentos. Que são, na realidade, vozes de alerta, inaudíveis aos outros, mas que são capazes de gritar em nossas cabeças, projetando medos, ansiedades ou euforias para fora das caixas onde insistimos em guarda-las.

No início não damos muito crédito aos anseios que começam a tomar forma e causar incômodos, mas, pouco a pouco, os sons aumentam seu volume e torna-se impossível ignorá-los e, principalmente, não prestar atenção aos seus reflexos. No fim, pouco importa como vamos lidar com isso, uma vez que nossas vozes internas só se calam quando, finalmente, aceitamos ouvir tudo aquilo que elas tem a dizer. Tentar ignorar esses sinais, certamente, não é a melhor saída.

Situações onde ouvimos o que não queríamos ou não merecíamos ouvir, apresentam desdobramentos internos que, via de regra, trazem um sem número de questões que vão desde os clássicos “por que eu não respondi à altura?” ou “da próxima vez isso não vai ficar assim…”, até aquelas sensações desconfortáveis que não sabemos direito qual é a sua origem e o que, de fato, querem dizer. Não é nada fácil entender a expressão discreta dos nossos códigos, mas esta é, possivelmente, a melhor arma que temos para fortalecer fraquezas e estabelecer limites que nos ajudam a enxergar até onde vale a pena seguir.

Mas há o outro lado da moeda. Não é sempre que nos permitimos escutar as expressões que vem de dentro. Muitas e muitas vezes, abafamos todo e qualquer ruído que possa, minimamente, alterar a rota que traçamos, mesmo que isso nos leve para uma grande cilada. Querer demais, seja lá o que for, forma uma barreira a todo e qualquer alerta. Criar certezas, mesmo que estejam sobre pilares frágeis, nos impede de enxergar alguns enganos, mesmo que estejam bem diante de nós. Ignorar nossos avisos particulares, talvez seja o principal motivo que nos leve a enfrentar frustrações desnecessárias e relações arrastadas onde as perdas são sempre maiores que os ganhos.

Na prática, só aprendemos a valorizar nossas placas de perigo após um longa sequência de tombos, pés na bunda e decepções que servem, dentre outras coisas, para mostrar que vale a pena parar, olhar para dentro e consultar nossos verdadeiros anseios, antes de qualquer tomada de decisão. Mas é preciso ter a clareza que, pedras serão uma constante na vida de todo mundo e não é isso que nos fará desistir daquilo que queremos. Insucessos, apesar de seu gosto amargo, são absolutamente importantes, uma vez que forçam um retorno ao ponto de partida, de onde é possível traçar novas rotas e reavaliar o que não deu certo.

Toda essa conversa serve para dizer que, apesar de todas as influências que sofremos desde sempre, no fim, seremos nós os únicos responsáveis por cada passo, por cada escolha e por cada perda. De toda forma, nossos erros e acertos são o reflexo de como percebemos o mundo e as lições que ele nos dá. Nossas vozes de alerta dão a medida entre a diversidade do que está fora e a complexidade do que somos por dentro. Por vezes, enxergamos essas dicas mas não damos muito crédito, em outros momentos, supervalorizamos a sua importância. Isso faz parte do jogo.

O mais fascinante nisso tudo, é perceber que, mesmo que de forma inconsciente, temos um mecanismo de autoproteção que nos ajuda nas vitórias, nos avisa sobre os erros e nos dá a mão quando precisamos superar uma queda. Aprender a usar essa ferramenta poderosa leva tempo, às vezes uma vida inteira. Mas não importa o quanto demoramos para compreendê-la. O essencial aqui é perceber que para seguir em frente, realizado com suas escolhas, sejam elas boas ou não, é preciso dar ouvidos ao conselheiro que vive dentro de cada um de nós.

Gentileza ainda gera gentileza

Tentando observar o mundo até onde a minha vista alcança, percebi que, em vários momentos, me faltou foco para enxergar os detalhes, mesmo aqueles que estavam a poucos palmos do meu nariz. É como se todas as situações estivessem disfarçadas por filtros capazes de alterar totalmente a vida real, transformando coisas que julgava conhecer tão bem, em registros com cores e sombras fora do lugar. Criando, assim, um cenário onde a pressa virou hábito e cuidado virou desdém. Será possível acreditar que gentileza ainda gera gentileza?

As pessoas cruzam a nossa frente o tempo todo, ocupadas com seus celulares, organizando suas vidas, preocupadas com seus horários e com as cobranças diárias que parecem não ter fim. Situações corriqueiras que nos impedem, cada vez mais, de contemplar os encantos do simples. Distanciando, propositalmente, o nosso olhar daquilo que realmente importa, daquilo que de fato, faz diferença.

Caminhamos a passos largos em busca de uma atmosfera autocentrada, onde nada mais importa, a não ser aquilo que queremos. Crianças estabelecem desde muito cedo, suas listas de exigências e são atendidas por seus pais. Adolescentes ditam seus códigos de conduta tiranos e são atendidos. Jovens adultos pegam carona nestas facilidades e tentam criar um ambiente onde todas as suas vontades podem ser realizadas. Ou pelo menos tentam. Mas, chega a hora em que a vida toma as rédeas da situação e se encarrega de mostrar a todos quem manda e quem obedece…

É aí que os conflitos internos se expandem, ganham corpo e rompem barreiras. E, sem saber como controlar essas frustrações, passamos a compartilhar toda a sorte de intolerâncias e preconceitos irrelevantes em sua origem, mas que assumem status de indispensáveis de acordo com a ótica mesquinha da qual fazemos uso com frequência. E assim, criamos uma soma de desvios que deságuam nesse caos em que vivemos, onde ganhar sempre é o que interessa e perder está absolutamente fora de questão.

O que causa espanto nesse panorama, é perceber que estamos, sistematicamente, deixando de lado o interesse, o cuidado e o afeto pelo outro. Esse comportamento quase padronizado, é capaz de promover encontros ou causar afastamentos na mesma medida. Estabelecendo, assim, relações difusas onde nos habituamos a cobrar presença e disponibilidade do outro, mas, em contrapartida, nos limitamos a oferecer, apenas, a melhor das nossas ausências. Essa escassez de cuidados abre espaço para o desaparecimento de um dos nossos hábitos mais adoráveis: a gentileza.

Ser gentil vai muito além das óbvias boas maneiras. Ser gentil é estar disponível para si, para os outros e para todas as situações que a vida oferecer. Mas, parece que a nossa necessidade de atenção sem limites, não deixa muito espaço para que outros, também possam ser agradados. Esse erro de avaliação tem, seguramente, nos tomado experiências preciosas.

Então, o que é preciso ser feito para recuperar as formas daquilo que sempre reconhecemos como nosso? Como fazer para eliminar os filtros que alteram a nossa percepção para que acreditemos que ser egocentrado é melhor que ser coletivo? O que fazer para recuperar pequenos hábitos que mostram que ser gentil nos torna mais fortes e não o contrário? As perguntas são muitas, mas, neste caso, não há uma cartilha a seguir. Basta um sorriso, um olho no olho e um pouco de calma para observar os detalhes que só podem ser vistos a partir do olhar disponível da gentileza.

A pluralidade do silêncio

Tantas coisas a dizer. Tantas coisas para ouvir. Mesmo sabendo disso, por que escolhemos o silêncio nos momentos em que apenas um grito poderia falar por nós? Difícil dizer… A pluralidade do silêncio serve para uma infinidade de situações. Em algumas, silenciar-se pode ter o efeito de uma cortina de fumaça que nos coloca em um anonimato confortável, porém, há momentos em nossas vidas em que discursos, términos e revoluções arrebatadoras se fazem sem que nenhuma palavra seja dita.

É curioso pensar sobre algo que nos acompanha do início ao fim possa causar tanto desconforto. Todos nós já protagonizamos cenas onde palavras deram lugar a longas pausas sem voz, olhares perdidos e pensamentos acelerados em busca de algo a dizer. Típico daqueles momentos em que encontramos alguém que há muito não víamos, de quem sabemos muito pouco e para quem não temos quase nada a falar, além das perguntas básicas que aprendemos na cartilha do  comportamento social superficial.

Mas, quem dera não ter o que dizer, fosse algo circunstancial e desimportante. As palavras travadas na garganta podem estar aprisionadas por diversas razões, que só conseguiremos compreender se olharmos para dentro, em busca da origem do nosso silêncio. Calar-se é, em última análise, uma forma de expressar sentimentos difíceis de explicar, o que leva, quase sempre, a interpretações tortas, mal-entendidos e respostas repletas de frases vazias.

Isso me faz lembrar daquelas pessoas quietas na escola que tentavam, sem muito sucesso, passar incólumes pela massa de crianças barulhentas. Como se suas capas de invisibilidade tivessem vindo com um defeito de fábrica e que, ao invés de escondê-las, as expunham ao olhar de todos, criando uma fonte inesgotável de angústias e sofrimento. À medida que o tempo passa, começamos a entender que há pessoas do barulho, mas também há pessoas do silêncio. A grande questão é a enorme quantidade de erros que cometemos com ambos, até que essa lição seja aprendida.

Que silêncios podem romper barreiras, não se discute, mas sabemos que, em muitos casos, não dizer o que se passa dentro de nós, cria abismos que aumentam com o passar do tempo. O que provoca um efeito dominó perverso onde uma peça que cai, leva a próxima e mais uma, até que a distância entre o que antes estava ao lado, transforma-se em milhares de quilômetros de uma estrada encoberta por uma neblina. Cada sentimento não dito corresponde a uma atitude descartada, a um sorriso desprezado ou a uma lágrima desnecessária.

Porém, não é sempre que podemos controlar quando, como e por quanto tempo ficaremos quietos. O silêncio pode ser imposto. Isto pode acontecer aos poucos, de forma quase imperceptível onde, a cada dia, somos levados a acreditar que nossa opinião não é tão importante. Mas, sem dúvidas, a pior forma de imposição do silêncio, é a força. Nesse caso, a privação da voz é mantida pelo medo, pela covardia e pela insegurança de quem quer calar aqueles que tem argumentos poderosos.

Nos habituamos tanto a ouvir aquilo que berra aos nossos ouvidos, que não percebemos mais a eloquência por trás do silêncio, seja ele solitário ou coletivo. Às vezes, observar o cotidiano a uma distância segura, é uma chance de apreender o que se passa a nossa volta com mais clareza. Escutar as vozes do silêncio nos permite organizar sentimentos que podem, sobretudo, expressar o que somos e o que queremos de fato. Falar o tempo todo é ruim e abrir mão da própria voz, é perigoso. A melhor forma de interagir com o mundo é estar disponível para ouvir mais, falar quando necessário e perceber que o silêncio sempre tem muito a dizer.

Onde foi que eu errei?

Se algo que planejamos, por mais simples que seja, não sair como o esperado, imediatamente uma pergunta nos vem à cabeça: Onde foi que eu errei? Mesmo sendo um pensamento tão recorrente e que, certamente, azucrinou a todos em algum momento da vida, nunca ficou muito claro para mim o porquê, dentre tantas opções, escolhemos a nós mesmos como os únicos responsáveis por expectativas não realizadas.

Por que devemos sempre ser os responsáveis por erros e insucessos vida afora? Isso, além de injusto, não faz muito sentido, uma vez que transformar anseios em realizações, depende de muitos fatores e, por esta razão, dificilmente será um trabalho solitário. A consolidação de sonhos é uma obra coletiva. Não podemos virar as costas para as parcerias que podem nos ajudar a seguir em frente ou a colocar pedras na nossa estrada.

Porém, apesar disso, já perceberam que na maioria das vezes em que vencemos, tratamos logo de dividir o sucesso entre nossos pares? Mas o contrário não é verdadeiro. Em momentos de fracasso, nos autodeclaramos culpados de forma quase instantânea, sempre que uma situação desfavorável se põe diante de nós. O que é bem estranho. Se as vitórias são coletivas, por que, então, nos habituamos a pagar as contas por supostos erros de forma tão solitária?

Perguntar-se onde está a fonte de um erro pode indicar três caminhos. Um deles leva a uma autoanálise que pode, com sorte, indicar não um, mas vários comportamentos que repetimos e que nos levam a cometer erros com uma frequência maior do que gostaríamos. O outro, nos mostra que fazemos, quase sempre, um julgamento equivocado sobre o que, de fato, significa errar. Quem disse que o erro não é, na verdade, um acerto fora de hora? Quem nunca, e por muitas vezes, se viu obrigado a amargar erros presentes mas que, no futuro, transformaram-se em acertos monumentais? O erro, em alguns casos, não passa de um acerto fora de foco.

O terceiro caminho é aquele em que o erro alheio, torna-se responsabilidade nossa. Relacionamentos que não dão certo e amizades que não correspondem as expectativas, são suficientes para disparar gatilhos de uma estranha culpa que, por um instante, coloca em dúvida a nossa capacidade de discernir entre o certo e o errado ou o entre o que é problema nosso e o que não é de jeito nenhum.

É fácil saber quando erramos. Difícil é perceber a sequência de eventos que nos conduzem ao erro. Podemos optar pela facilidade de responsabilizar os outros pelos nossos próprios fracassos. O que é bastante comum, apesar de leviano e nada ético. Podemos fingir que nada aconteceu e minimizar os erros como se fossem atitudes inofensivas. Outra atitude compartilhada por aqueles que primam pelo cinismo e a ausência de empatia. Há ainda a possibilidade de carregar todo o peso dos seus, dos nossos e dos vossos erros nas costas. O que é, por si só, um grande equívoco e uma grande perda de tempo.

Onde foi que eu errei? Talvez o nosso grande engano seja não perceber que os erros que cometemos nos permitem segundas chances, ou que são resultados de possibilidades que, por alguma razão, não resultaram naquilo que esperamos. Isso não nos transforma em fracassados ou perdedores, como muitos nos fazem acreditar. Equívocos, fracassos, enganos… chame como quiser, mas nunca permita que eles alcancem dimensões que não possuem. Erros são atitudes que, na imensa maioria das vezes precisam, apenas, de uma pequena mudança de rota para que se tornem grandes acertos.

O amor não cabe em caixas pequenas

Já pararam para pensar em quantas coisas se alteram ao nosso redor, todas as vezes em que o amor resolve entrar em nossas vidas, com a sutileza de um elefante em uma loja de cristais? Amar é um exercício de organização. Uma vez que ele se estabelece, é praticamente impossível contê-lo. É aí que o problema começa: o amor não cabe em caixas pequenas.

Se fosse uma pessoa, o amor seria daquelas bem atrapalhadas que tentam passar despercebidas mas que, ao menor sinal de silêncio, derrubam algo barulhento e denunciam a sua presença. O amor também pode ser um adolescente que cresceu demais e ainda não sabe lidar com o seu novo eixo de gravidade. O amor é, também, um senhor de bengala que tem dificuldade ao subir escadas mas que, diante da tarefa árdua, ajusta seu passo e segue seu caminho, sem pressa, porque sabe que não é a velocidade e, sim, a resistência, que o fará chegar onde quer.

Resistência. Esta é, sem dúvida, a maior característica das pessoas que amam. E por que? Imaginem que o amor é, ou pelo menos espera-se que seja, uma via de mão dupla onde, aquilo que é sentido por um, encontra abrigo no peito do outro. Mas, como eu disse, isso é o que se espera. Não há garantia de sucesso. A reciprocidade que esperamos encontrar, nem sempre, estará pronta para caminhar junto com a lista de exigências imposta àqueles que buscam o mais cobiçado dos sentimentos. Sim, o amor também pode ser exigente como um astro pop…

É impressionante como esse sentimento tão batido, continua a render assuntos sem fim. A capacidade de mudar de forma, tão própria do amor, é responsável por gerar experiências muito particulares, apesar de ser o mesmo sentimento. Mães amam seus filhos de formas diferentes, apesar de negarem preferências. Sentimos amor por muitas pessoas mas, independente do número, vivemos experiências únicas com cada uma delas. Caímos de amores por muitas coisas, mas, para cada uma delas, um amor próprio, pessoal e intransferível.

Reparem na contradição: se o amor é único, como é possível senti-lo de tantas formas? Talvez este seja o grande segredo de seu sucesso: disfarçar-se com uma simplicidade que, de fato, só existe aos olhos distraídos daqueles que estão prestes a se apaixonar. O amor é uma estrada cheia de curvas que não deixam muito claro para onde vamos ou quando vamos chegar. O que nos resta é seguir o fluxo e aproveitar as experiências pelo caminho.

As muitas faces do amor encontram reflexo nas mudanças que sofremos vida afora. Seria difícil imaginar-se ao lado de seu amor da adolescência trinta anos depois? Possivelmente. Os anos seguem e nós mudamos de pele e as formas de amar acompanham essas mudanças. O que antes nos envolvia com facilidade, hoje não cabe mais. Nós e o amor… esse é um modelo de chave e fechadura que, raramente, consegue ser compatível a primeira vista, apesar de muitos jurarem que já conseguiram essa façanha. Mas, me parece, que o grande desafio por trás de tudo isso, não é apenas achar o par correto ou seu encaixe perfeito. Conhecer seus próprios limites também faz parte dos encantamentos do amor.

Amar pode parecer um jogo, uma disputa ou uma batalha. O amor muda, nós mudamos e, por esta razão, nem sempre é fácil agendar um momento onde nossas mudanças serão parcialmente complementares.  O amor nos desafia, não porque é um sentimento difícil de sentir, ao contrário. O amor tem formas simples que mudam de molde o tempo todo por uma única razão: para nos mostrar que, quando se trata de amar, não adianta esperar por encaixes perfeitos.