Ar rarefeito

            Seria maravilhoso começar um texto falando sobre amenidades, amores e conquistas. Seria incrível poder compartilhar vitórias, felicidades e sucesso. Seria, se não fosse o peso de viver em tempos tão sombrios, onde dormimos e acordamos com a impressão de que não teremos energia para enfrentar os desafios mais simples. Vivemos em tempos de ar rarefeito, onde nos falta oxigênio para inflar nossos pulmões de vida e esperança para continuar seguindo em frente. Seguimos sem fôlego para correr, sem forças para lutar e sem voz para expressar as nossas dores.

            Nos privam do básico. Estamos doentes e ignorantes e, por isto, apáticos. Somos açoitados diariamente e levados a acreditar que devemos ser gratos pelas migalhas espalhadas ao vento. Essa dor é parte tão permanente de nosso cotidiano, que tornou-se indetectável. Incorporamos as desigualdades e transformamos o mal em algo banal. A maldade e os maldosos, cresceram pouco a pouco, sem chamar muita atenção, fizeram morada em áreas premeditadamente esquecidas, até que, enfim, tornaram-se parte da paisagem de forma indelével.

            O que é absolutamente conveniente, uma vez que poucas coisas são tão eficazes para controlar a massa, quanto o principal efeito colateral da maldade: o medo. Estamos todos amedrontados por motivos diversos. Tire das pessoas o seu ganha-pão, a sua saúde, a sua chance de ser instruída e substitua isso por uma incerteza esperançosa. Nada é tão eficaz quanto a dar a esperança por dias melhores, para aqueles que não possuem horizonte algum para vislumbrar. A fórmula é bem simples. Nos impedem de realizar nossos sonhos e, ao mesmo tempo, nos levam a crer que somos incompetentes demais para concretiza-los.

            Vivemos em ciclos. A humanidade segue o compasso do tempo, que sempre caminha para frente, em direção ao futuro e ao desconhecido. Mas, parece que, de tempos em tempos, resolvemos revisitar um passado, onde cometemos erros que, apesar de imperdoáveis, teimamos em esquecer. Mas há um lado bom nisso tudo. Constatar os ciclos é, também, ter a certeza de que voltaremos aos trilhos que nos levarão adiante, deixando para trás tantas dores, medos e, principalmente, os canalhas que nos provocam tanto sofrer.

       Crianças são barbaramente interrompidas. Jovens são monstruosamente violados. Famílias são injustamente destruídas. Florestas são perversamente queimadas. Tudo em nome de uma ordem que serve apenas para nos enganar, que serve apenas para nos manter sob controle. Mas, a história nos mostra que não há mal que dure para sempre, isso é um fato. Logo, é preciso acreditar que dias melhores estão a caminho. É hora de encher nossos peitos de ar e gritar a plenos pulmões que os implacáveis ventos da mudança não tardarão a chegar. O que significa dizer que, a maldade e seus maldosos covardes, apesar de não acreditarem, estão com seus dias contados.

Padrões…

            Já faz um tempo que os padrões, há muito estabelecidos, estão ameaçados. A publicidade já entendeu isso. A dramaturgia segue entendendo e a internet, apesar de tudo, também contribui para essa mudança. Mas, em que momento percebemos que o que estava posto, começou a ceder lugar ao novo? Muitas respostas possíveis, mas, acho que todas elas têm um ponto em comum: a exaltação da diferença. O que, por muito tempo, foi mantido debaixo de camadas de contenção, abriu fendas estreitas que permitiram que todos enxergássemos, enfim, que a diversidade merece a luz.

            Mas, apesar de alguns esforços, ainda tímidos, por parte dos veículos de comunicação, o que se vê é um levante dos grupos marginalizados, que jamais tiveram espaço para um protagonismo positivo em nenhuma escala. Vivemos uma época que pulsa diferente. Uma época em que não dá mais para ouvir calado a todas as formas perversas de julgamento. E, para além disso, não se pode mais tolerar comportamentos que nos forcem a acreditar que o perfil de fulano é melhor do que o de quem quer que seja.

            Isso, definitivamente, é algo a ser comemorado, porém, não é possível esquecer o volume de sofrimento carregado por muitos. A dor da exclusão sempre foi denunciada, sem muito sucesso, por muitas gerações antes de nós, mas não era conveniente aos padrões, transformar o clamor em voz. E vozes são capazes de transformar sussurros em berros que não podem ser abafados. E, tanto barulho, não pode passar despercebido. Fazer o chão tremer é uma boa forma de se fazer notar.

            As pessoas sempre foram incluídas em caixas padronizadas, prontas para guardar e selecionar perfis, independente seu tamanho original ou da sua vontade de ser classificada. Mulheres e seus adjetivos em uma caixa. Negros na outra. Baixinhos, nas caixinhas pequenas. Gordos, nas caixas mais espaçosas e reforçadas. Gays, nas caixas apertadas no fundo do armário. Velhos e crianças meio misturados porque ninguém sabe ao certo o que fazer com eles. Homens dominantes vivendo com a falsa sensação de liberdade, afinal, são os próprios que constroem suas caixas, mais amplas que as outras, sim, mas sempre serão caixas.

      Tudo perfeitamente encaixotado. Exceto a língua alheia, que sempre arruma uma brecha para circular livremente, fazendo vítimas por onde passa. Mas, parece que isso mudou, não é mesmo? Preconceitos disfarçados, ódios declarados e dissimulações convenientes, agora encontram barreiras onde antes nadavam de braçada. Mas, em algum momento, até mesmo os desmandos encontram limites. A razão para essa mudança necessária se baseia em questionamentos muito simples: Quem criou esses padrões? Quem foi que disse que o seu padrão é o certo? Quem disse que todos precisam ser padronizados?

         Ainda há muito o que fazer. Não é simples destruir os pilares que sufocaram, e ainda sufocam, a liberdade por gerações. Mas já é possível ver as suas lascas pelo chão. Novos caminhos estão sendo abertos e novas vozes engrossam o coro dos excluídos. Essas vozes berram, para quem quiser ouvir que, o único padrão possível é aquele que permite que todos sejam quem quiserem ser.

Era uma vez…

            Era uma vez… um grupo com os super-heróis mais poderosos do planeta que, mesmo em meio a tantas batalhas, cheias de dor e sangue, sempre guardaram espaço para o amor. Afinal, os grandes heróis sempre amaram as pessoas comuns. Porém, sem que os seres mais importantes da Terra percebessem, a pior das maldades crescia bem debaixo de seus olhos.

            Os nossos heróis tentavam seguir vidas comuns quando estavam fora dos holofotes. Misturavam-se com os humanos normais e tentavam imitar suas virtudes e defeitos, pois achavam que isto aumentaria a sua vontade de lutar e cuidar das pessoas. E, assim, mantinham-se protegidos sob disfarces e identidades secretas que, além do anonimato, lhes conferiam o prazer de ser comum. Mas eles não faziam ideia que estavam prestes a enfrentar o pior de todos os males. E não estamos falando de supervilões.

            À medida que o tempo foi passando, os heróis sentiram que o mundo havia mudado e eles, também. Os vilões não apareciam como antes. As pessoas estavam cada vez mais diversas e em maior número, lutando para expressar suas próprias vontades em um universo de pequenas batalhas. Foi então que nossos defensores, sempre amados por todos e bajulados pelos governantes, resolveram que era o momento de viver como os comuns.

            Foi aí, que dois jovens e poderosos heróis, que já haviam arriscado suas vidas inúmeras vezes para salvar a todos nós, decidiram que era hora de dividir o seu amor com todos aqueles que sempre os admiraram. Um deles era tão forte que poderia arrastar a lua com suas próprias mão. O outro, era um mago tão poderoso que poderia mudar qualquer realidade. Eram admirados por todos, até o dia em que resolveram expressar o maior de seus poderes em público: a capacidade de amar. Foi, a partir daí, que os verdadeiros vilões arrancaram suas máscaras.

            As pessoas comuns eram lideradas por criaturas estranhas, que prometiam protegê-las, assim como os super-heróis, mas estavam longe disso. Seu grande poder era a capacidade de ludibriar e mentir. Um belo dia, esses governantes cínicos, que tanto bajulavam os heróis, perceberam que estes estavam muito próximos dos comuns e resolveram tomar o seu lugar como salvadores. E, quando ninguém esperava, voltaram-se contra os superpoderosos, na tentativa de tornarem-se os grandes heróis do povo.

            E como conseguiram isso? Tentando criminalizar o que jamais deveria ser passível de culpa. Os sórdidos governantes, diante do amor de nossos jovens heróis, decidiram transforma-los em uma grande ameaça, especialmente para as crianças. Usaram o seu amor como arma para incitar o ódio. Usaram o amor para propagar a intolerância. Usaram o amor para destruir sonhos. Pobres homens… Pensaram que trariam vergonha para os nossos heróis, mas o seu tiro não teve o efeito esperado. Não perceberam que não se pode brincar com a mais poderosa das armas: o amor.

            Os governantes medíocres sofreram a maior de suas derrotas. Seu golpe de nada serviu e mostrou a todos os comuns que eles não passam de vilões de meia tigela. E os nossos heróis? Estes seguiram juntos, apoiados por um exército de amor formado por seres comuns que não voavam e nem lançavam raios, mas que portavam o mais incrível dos superpoderes: a infinita capacidade de amar.

Fim.

Primeira pessoa

            O texto de hoje começa com uma ideia que acaba de me ocorrer. Abandonar o texto que já está pronto e abraçar outra reflexão/provocação aos quarenta e oito do segundo tempo. Por alguma razão, resolvi olhar para dentro e tentar entender de onde vem a inquietude que tornou-se minha companheira fiel nas últimas semanas. Tantas coisas têm acontecido, que achei por bem falar sobre isso e, ao escrever, percebo que me expressar na primeira pessoa será o maior desafio nesta manhã de domingo.

            Para entender o hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Há exatos três anos, quando decidi compartilhar minhas ideias, não tinha certeza de coisa alguma. Se alguém teria interesse em ler meus textos, onde eu poderia publica-los, como dar asas aos pensamentos que só existiam dentro da minha cabeça. O medo me fez pensar e repensar, até que, em um dia de outubro de 2016, me libertei das amarras da insegurança e realizei o parto do que conhecemos hoje como o aqui pensando.

            Mas, como filho feio não tem paternidade assegurada, enviei alguns textos para amigos próximos para, sorrateiramente, colher algumas impressões. E foi aí que as coisas começaram a acontecer. Momentos que precedem a exposição de nossa intimidade, sempre são tensos, mas o que me chamou a atenção, foi uma certa estranheza compartilhada pelos meus. “Por que escrever essas coisas nada a ver com a sua trajetória profissional? Como assim você vai falar sobre reflexões? Ah, gostei, mas não entendi o porquê de começar a escrever isso”… Diante de tantas dúvidas, achei que essas reações eram a gota necessária para sufocar qualquer medo ou insegurança.

            Do primeiro texto até hoje, eu percebi que a escrita é como atividade física. Quanto mais eu exercito, mas forte ela se torna… e me fortalece. Hoje, depois de muito relutar, me aceito como escritor. E isso não tem relação com as milhares de palavras que foram escritas até aqui. A aceitação do meu eu escritor só foi sedimentada a partir do instante em que percebi que não se tratava, apenas, de publicar textos semanais que alcançavam um número indefinido de leitores. O escritor nasceu quando percebi que, para além da escrita, eu havia criado conexões. E foram elas que me levaram do virtual para os livros.

            E foram essas conexões que me fizeram alçar muitos voos para longe dos meus domínios. Conexões que trouxeram o frescor do desafio e o frio na barriga provocado pela incerteza. Conexões que permitiram que um cara disperso e com dificuldades de realizar uma tarefa de cada vez, conseguisse, de forma quase religiosa, escrever uma coluna semanal a quase três anos. O sonho, a incerteza, a cara de pau, a coragem, a sorte, um pouco de talento, alguma angústia, alegrias indescritíveis e muito trabalho duro me trouxeram até aqui. E onde é esse lugar? Não sei. A única coisa que consigo dizer é que esse relato em primeira pessoa me permitiu um reencontro com aquele sonhador que não fazia ideia de onde estava se metendo, mas sabia que deveria seguir em frente.

            E, diante de um dia tão especial, onde faço a minha estreia como autor na Bienal Internacional do Livro, seria impossível não agradecer aos que leem e se conectam comigo há 150 semanas. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado por tanto.

Marco Rocha.

Amor em tempos de ignorância

          Muitas são as lições que recebemos ao longo do tempo. Mas, dentre as principais estão: só o amor é capaz de nos transformar, só o amor pode nos salvar, só o amor pode nos tornar, verdadeiramente, felizes. Independente de tudo o que aprendemos sobre este nobre sentimento, todos nós concordamos em, pelo menos, um ponto: Amor é entrega. É algo que sentimos, não para manter guardado, mas, para distribuir e contaminar tudo ao nosso redor. Porém, como fazer isso em tempos onde a intolerância nos envenena? Como compartilhar o amor em tempos de ignorância?

        O amor é, essencialmente, um sentimento que depende dos sentidos. Precisamos enxergar, tocar, cheirar, sentir o gosto e ouvir todas as coisas e pessoas que nos farão cair de amores ao longo da vida. Abraços apertados aproximam para além dos limites físicos. Cheiros nos fazem viajar no tempo. Sabores ficam gravados em nossa memória para sempre, assim como as canções que embalaram as estórias que permitiram ser quem somos. O amor se alimenta dessas experiências. Sempre foi assim. Até agora.

          Já faz algum tempo que o amor, por si só, não transforma tudo aquilo que toca. Passamos grande parte da vida idealizando esse sentimento. Tanto que ficamos reféns de algo que desejamos muito, mas que, também, temos muita dificuldade de entender. O amor se transformou numa caça ao tesouro, só esqueceram de contar qual é o seu verdadeiro brilho. E, diante da ausência de uma face óbvia, começamos a duvidar um pouco de sua existência e, sobretudo, da força transformadora desse sentimento tão necessário.

           Esse ceticismo que pôs o amor em cheque, fortaleceu traços que jamais deveriam ficar fora de controle, como a inveja, a intolerância e a desconfiança. Combustíveis prontos para acender a chama da ignorância que, nos dias de hoje, parece não conhecer limites. E, em paralelo, a vida moderna nos oferece, cada vez mais, uma forma de viver onde a troca de experiências é opcional. Comemos sozinhos, não saímos de casa para comprar pão, não ouvimos mais a voz do outro e não observamos o sol se pôr, sentindo a brisa nos tocar carinhosamente

       Fazemos isso pela tela de um equipamento eletrônico que pretende encurtar distâncias, mas que está, cada dia mais, criando barreiras praticamente intransponíveis. Barreiras que nos impedem de ver, sentir, tocar e ouvir o que o outro tem a nos dizer. Abrindo caminho para que a única fonte de interação com o mundo, seja a nossa própria voz e a nossa forma de pensar. Criando distâncias desnecessárias que, quando somadas, formam um grande e perigoso labirinto de ignorâncias.

       E o amor, que precisa de pontes para se estabelecer, se perde nesse emaranhado de estradas desconexas, onde todo mundo fala, mas ninguém se escuta. É chegada a hora de quebrar esses muros e criar pontes onde o amor possa circular e celas, onde a ignorância possa repousar sem nos fazer mal. Será que isso é pedir muito?

Essa culpa eu não carrego

          Estamos diante de uma sequência de eventos que, de tão estranhos, beiram a insanidade. Eventos que acontecem em uma velocidade tão impressionante, que nos impede de acompanha-los com alguma clareza. Vivemos um momento de tanta estranheza, em que, até o nosso cotidiano perde, pouco a pouco, o próprio sentido. Isso nos leva ao perigoso caminho da isenção. E, uma vez que não temos mais a responsabilidade por nossas ações, sejam elas diretas ou não, passamos a usar com muita frequência, o jargão mais infame dos últimos tempos: Essa culpa eu não carrego!

         Esta é a grande muleta que utilizamos sempre que precisamos pular fora de uma questão. Não quero. Não sei. Não vi. Não fui… Assim, se nada tenho com o que quer que seja, me isento de tudo. Mas, até que ponto, podemos ficar à margem de decisões, sejam elas pessoais ou coletivas? É possível passar a vida sem se envolver? Sim e sim. Essa é a resposta de muitos e cada vez mais.

          O mundo está recheado de pequenas questões e de grandes polêmicas que caem em nossos colos muitas vezes ao dia, o que quase torna possível uma justificativa para a isenção nossa de cada dia. Quase. Sabemos que não é possível estar a par de tudo e, muito menos, interferir em todas as questões que nos cercam, mas, não há como fugir de todas o tempo todo. Afinal, o que nos constrói como sociedade é, definitivamente, a capacidade de fazer conexões e agir de acordo com o comportamento do outro.

         O que se vê agora é o oposto disso. Como se, de uma hora para outra, passássemos a negar todos os estímulos e provocações inerentes a qualquer relação, em prol de uma neutralidade repleta de um cinismo quase covarde. Sabemos que é possível ver a miséria e não se importar, assim como ver as vítimas da violência aumentarem progressivamente e, ainda assim, fazer de conta que nada disso é capaz de conquistar a nossa atenção.

     Não há, por trás destas palavras, a pretensão em ditar regras de comportamento sobre como cada um deve conduzir suas relações com a vida que os cerca. Mas servem de alerta para esse movimento coletivo onde tudo acontece, mas nada é da nossa conta. Relativizar a importância das coisas é uma bola de neve que começa com pequenas insensibilidades, que começam com um bom dia não respondido e um sono fingido no assento preferencial, e vão até a não aceitação da responsabilidade pela escolha de demônios como representantes do povo. Afinal, essa culpa, eu não carrego, não é mesmo?

         Meus amigos, não há como ser isento em um mundo feito de escolhas. Não há como ser isento em uma vida que implora por posicionamentos. Não há como ser isento nesta realidade sem ser cínico. Não há como ser isento quando se vive coletivamente. Não há como ser isento. Não há.

Forças da natureza

       É impressionante como algumas palavras bem curtas, apresentam significados que difíceis de explicar. Já perceberam que algumas das pessoas mais importantes de nossas vidas são denominadas por, no máximo, três letras? Tia, tio, avó, avô, mãe e pai. Criaturas que têm seus nomes substituídos por toda uma vida, e se enchem de orgulho disso. Quando nascemos somos imediatamente apresentamos a indivíduos sem nomes próprios, mas que pouco se importam com isso. Pessoas que deixaram de ser indivíduos para tornarem-se forças da natureza. E uma dessas forças é celebrada hoje.

          Pai. Quantas definições cabem aí? Sei lá. Criar significados serve para muitas coisas, mas não para forças da natureza. Essas simplesmente se criam, se mantém e se sustentam por si só. Se fecharmos os olhos, encontraremos na memória alguma figura que antes parecia um gigante, de fala grossa e com mãos pesadamente protetoras e carinhosas. Figura essa que extrapola vínculos genéticos, basta que esteja repleta de uma capacidade inesgotável de amar.

            Pais são, injustamente, lembrados como rochas inabaláveis que estão ali para sustentar os seus de todas as formas possíveis. O que acaba por criar uma ideia de que devemos oscilar entre amor, respeito, medo e admiração por estes que têm, obrigatoriamente, a função de pilares de suas famílias. Porém, o tempo passa e leva consigo esse estereótipo repleto de força bruta e vazio de sensibilidade. Pais podem, e devem, ser muito mais que isso. Sensibilidade, cuidado e afeto são traços humanos que não podem ser aprisionados em gêneros. Afinal, amor sem demonstração, não passa de intenção vazia.

            Pai. Palavra cunhada sobre a figura masculina e que, por muito tempo, relegou os homens ao papel de provedor isento de sentimentos por sua prole. O curioso nisso tudo é que, apesar de muitos tentarem masculinizar, de forma tóxica, a figura paterna, o ser pai nos conduz a um substantivo feminino, acolhedor e forte, porém cheio de ternura: a paternidade. Tão desejada por uns, tolerada por outros e, infelizmente, rechaçada por muitos. Negar o acolhimento que a paternidade oferece ao homem, é, sim, provocar abortos cinicamente aceitáveis.

           Ser pai não é doar genes. Ser pai é estar lá por seus filhos não importa quem sejam, o que tenham feito ou de onde tenham vindo. Ser pai nasce do desejo de perpetuar-se incondicionalmente. Ser pai é assustar para, em seguida, derramar-se de amor. Ser pai é aprendizado, entrega e insegurança. É brigar e se emocionar, dizer bobagens e cair na gargalhada. Ser pai é pavimentar caminhos limpos, porém repletos de pegadas largas, firmes e profundas, capazes de nos guiar, fortalecer e amparar sempre… e para sempre.

Feliz dia para todos aqueles que decidiram ser pais.

Aniversários são datas curiosas

       Aniversários são datas curiosas. É uma celebração que começa muito antes de entendermos o porquê desse ritual comemorativo. O que significa que já somos festejados, mesmo antes de saber o que isso quer dizer. Mas, o mais curioso em fazer aniversário, é a possibilidade que temos, ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, de poder ser o centro de um fluxo de energia tão particular e especial.

        E, mesmo que tenhamos 8, 25, 44 ou 89, há uma energia especial que nos visita e faz companhia durante as vinte e quatro horas do dia que foi reservado especialmente para nós. Que energia é essa? Não sei dizer, mas, de todas as emoções que nos arrebatam no dia em que estreamos nessa vida, nada é tão significativo quanto a gratidão. Fazer aniversário é relembrar, todos os anos, que há uma vida para ser vivida lá fora. É ter a certeza de que, sim, somos o motivo da alegria e da gratidão daqueles que nos trouxeram até aqui.

       Fazer aniversário é ter o privilégio de ser a razão de um sorriso, de um abraço apertado, de um beijo molhado, de uma ligação de longe ou de uma mensagem na rede social. Fazer aniversário é receber amor gratuito, alegria genuína e um carinho restaurador que nos dá forças para seguir mais um ciclo que se inicia. A data que acreditamos ser nossa, é, na verdade, o nosso momento mais coletivo e que nos proporciona a melhor, a maior e a mais especial troca de afeto que podemos receber. E, em tempos tão duros, nada é tão potente quanto doar e receber amor.

       Aniversários são datas realmente curiosas não pela festa em si, mas, porque nos dão, nem que seja uma vez ao ano, a chance única de agradecer por tudo aquilo que realmente importa e, principalmente, por nos lembrar o que a felicidade plena pode caber em carinhos simples e abraços verdadeiros. Ser grato por isso é, sem dúvidas, o nosso maior presente.

 

Muito obrigado por tudo,

Marco Rocha.

Não existem inocentes no absurdo

            Em que momento o intolerável começou a ocupar o lugar comum em nossas vidas? Dormimos repudiando barbaridades e acordamos acreditando que roubar infâncias é algo normal. Será que o mundo se pôs de ponta a cabeça com tamanha velocidade que nos impediu de perceber que, o que era bom, perdeu valor no mercado e, o que era deplorável, passou a ser suportável com muita tranquilidade? Será que a maldade invisível deu uma rasteira na nossa boa-fé? Muitas perguntas e uma única certeza. Não existem inocentes no absurdo em que vivemos.

            Presenciamos nos últimos tempos, situações que beiram o insano, o imoral e o impensável. E podem acreditar, esta não é uma fala revestida de pudor. É uma constatação indignada, impotente e assustada diante de uma realidade que, nem nos nossos piores pesadelos, imaginaríamos viver. É como se estivéssemos em uma dimensão onde o nosso umbigo é o centro do universo. Uma dimensão cinzenta onde tudo é desimportante, superficial e perigosamente indiferente.

            Vivemos um mundo pelo avesso. Degradamos a casa onde fomos criados. Alteramos tudo que vemos pela frente, mesmo que isso signifique o desaparecimento de tantas outras vidas mundo afora. Praticamos uma violência que adjetivos não conseguem mais classificar. Transformamos a barbárie em algo corriqueiro e banal. Criamos uma prisão claustrofóbica, revestida com papéis de parede que refletem um belo céu azul com nuvens calmas. Uma bela forma de autoengano que dá suporte a um estilo de vida perfeitamente irreal.

            Criamos células fantasiosas que escondem aquilo que não queremos ver. Transformamos o feio em bonito, o que era errado virou certo e o mal passou a não ser tão mal assim. E por quê? Talvez para esconder a nossa enorme covardia. O absurdo não tomou conta de tudo repentinamente, como escolhemos acreditar. Permitimos que ele tomasse corpo, demos suporte para que ele se espalhasse e, quando ele assumiu o controle, lavamos nossas mãos e nos maquiamos com o bom e velho cinismo, próprio dos covardes e dos mal-intencionados.

         Estamos diante de um paradoxo. Evoluímos tanto sob diversos aspectos, mas, ao mesmo tempo, jamais deixamos de flertar com a irracionalidade. E não é difícil constatar isso, basta olhar para os absurdos escolhidos, deliberadamente, pelas maiorias orgulhosas espalhadas por aí. Podemos consumir mais venenos? Renunciar à educação ampla e justa e aniquilar patrimônios naturais? Subjugar mulheres, abusar de crianças, rechaçar afetos? Acumular mais do que precisamos e desprezar a pobreza e aqueles que nela são forçados a viver? Sim, podemos. Sim, queremos.

            E por quê? Isso eu não sei dizer, mas o que fica muito claro, diante do que temos vivido, é que estamos afundados até o pescoço neste absurdo convenientemente perverso. O que o mundo quer de nós agora? Que façamos escolhas. Precisamos decidir se continuamos presos à essa lama ou se lutamos para que o absurdo, enfim, dê lugar à razão.

O insano ritmo que inventaram para nós

    É engraçado como nos acostumamos a observar, falar e viver a vida em modo avançado. Corremos de um lado para o outro, sem saber muito bem aonde estamos indo. Sabemos, apenas, que precisamos chegar lá, seja lá onde for. E, essa correria, não abre muito espaço para momentos de calmaria espontânea, desaceleração programada ou aquela simples vontade de não fazer absolutamente nada. Até que, por descuido da tal vida moderna, algo inesperado nos obriga a reduzir o insano ritmo que inventaram para nós.

          Essa parada não programada é um desejo que, apesar de compartilhado por muitos, quase não ousamos expressa-lo em alto e bom som. Como se fosse algo feio, desejar que, por alguns momentos, a vida sentisse preguiça e nos concedesse um tempo para respirar, rever amigos, consertar a torneira ou ver os filhos crescerem de verdade. Parece que, no momento em que nos rendemos a esse modelo de vida que sussurra o tempo todo em nossos ouvidos “Não pare! Siga em frente! Não olhe para trás!”, passamos a ver tudo em imagens borradas e sem definição.

          E, nos raros momentos em que conseguimos uma pausa para respirar, percebemos que não vimos as crianças crescerem, os cabelos brancos chegarem e as amizades se transformarem em lembranças. Raros momentos em que chegamos à conclusão que passamos a vida no mesmo lugar, sem perceber que lugar era esse. E, a partir desse ponto, passamos a acreditar que é preciso fazer escolhas, a começar pelo ritmo que imprimimos à vida. Ninguém deseja sair do maravilhoso transe que é viver usufruindo do maior bem que podemos desejar nos dias de hoje: o tempo.

         Talvez, o ato de escolher, tenha se transformado no maior dos nossos privilégios. Se decidirmos correr, o mundo, talvez, nos presenteie com algumas possibilidades. Se a escolha for por uma vida onde o tempo não é um tirando e sim um parceiro, é melhor ficar preparado para os muitos olhares inquisidores que lembrarão, a todo instante, que não é possível ser bem-sucedido sem se deixar sacrificar pela pressa da vida. Como eu disse, uma escolha nada simples.

         Apesar de todos compartilharmos o desejo por uma vida mais calma, o real significado disso é absolutamente particular. Se somos todos diferentes, também são diversos os nossos desejos. Mas, de todo modo, precisamos estar atentos ao que fazemos do nosso próprio tempo e, o quanto de culpa atribuímos a ele pelas escolhas que fazemos. Não se trata de fazer a escolha de Sofia, mas, sim, de entender que não é preciso esperar que o destino coloque paradas obrigatórias em nosso caminho.

       Em tempos de correria obrigatória, as paradas nem sempre nos trazem saúde para usufruí-las. O tempo sempre seguirá o seu inabalável e contínuo fluxo. Sejamos seus cúmplices e caminhemos lado a lado do único que pode nos mostrar como viver bom, se aprendermos a degustar tudo no seu devido tempo.