Olhares ácidos

Outro dia ouvi uma mãe se queixando, pois havia percebido que seu filho, ao chegar em um encontro familiar, tornou-se, de forma negativa, o centro das atenções. Isso a incomodou. Pode ter sido apenas uma impressão ruim daquela mãe… ou não. Mas isso me fez pensar em quantas vezes já fomos alvo dos olhares ácidos de tantas pessoas? Difícil dizer mas, sinceramente, quem se importa?

Muitos se importam, infelizmente. Ainda somos afetados pela simples ideia de que seremos, em algum momento, observados com um tom de reprovação. O que, para muitos, é um grande problema, uma vez que ao sermos notados, nos transformamos em uma vitrine, observada sob óticas muito particulares e sobre as quais não temos o menor controle.

Mas, por que o olhar do outro sobre quem somos de fato ou sobre aquilo que mostramos para o mundo, nos desafia tanto? Essa pergunta terá muitas respostas que irão variar de acordo com o momento em que vivemos. O que significa que, dependendo da circunstância e, obviamente, da nossa maturidade, gastaremos mais ou menos energia para lidar com isso. E será uma escolha dar crédito ou não, aos que nos olham, comentam e julgam sem qualquer critério.

Esse caminho é longo e árduo pois, desde sempre, ouvimos críticas que se baseiam apenas na opinião alheia. Quem nunca ouviu a pergunta maledicente: O que os outros vão pensar de você? Isso, de fato, não deveria ser um problema, afinal, estamos no mundo para sentir e provocar reações naqueles que cruzam o nosso caminho.

A grande questão é o impacto que essa pergunta cinicamente cuidadosa, pode causar em quem a escuta. Alguns utilizam esse juri ilegítimo para marcar posições e ditar o seu próprio comportamento, independente do alcance e da quantidade de olhares punitivos. Enquanto para outros, basta apenas um olhar de censura para que sonhos, desejos e projetos desmoronem como um castelo de cartas.

Com o passar do tempo, adquirimos uma casca que nos torna mais resistentes a maledicência do outro. De formas diferentes, é claro, uma vez que somos diversos em nossa capacidade de tolerar e acatar vereditos de observadores que, sabem pouco ou quase nada, sobre quem somos ou sobre o que queremos.

Isso não é sinônimo de indiferença a opinião alheia, mas é preciso estar atento e separar o que é importante, daquilo que não faz a menor diferença. Cedemos, mais vezes do que gostaríamos, a pressão incômoda de um olhar pleno de críticas vazias. O que é irritante, mas não deve ser levado tão a sério.

Não há fórmula mágica que nos torne imunes a isso. Sentiremos na pele a dor, a irritação e a frustração de julgamentos efêmeros que duram frações de segundos. Sim, recortes de tempo tão insignificantes, que não devem ser superestimados ou valorizados além da sua pouca importância.

É claro que não iremos, a partir de agora, ignorar os olhares ácidos que pousarão sobre nós, até porque , em muitos momentos, eles partem dos nossos próprios olhos. E, por esta razão, sabemos que um olhar pode vir acompanhado de um julgamento, mas isso jamais será capaz de sentenciar ou interferir  na forma como o outro deve pensar ou agir.

Ser quem se é, fatalmente atrairá a atenção alheia, para o bem ou para o mal.  Cabe a nós escolher, dentre tantos, quais são os olhares que realmente importam.

As armadilhas do sim

Todo fim de ano é sempre igual. Muitas coisas a fazer e quase nenhum tempo para transformá-las em realidade. O que traz uma aflição, uma vez que não tiramos da cabeça, a ideia de que precisamos resolver todas as pendências do ano, em menos de trinta dias. Nesta louca lista de afazeres, incluímos atitudes que não tomamos, vontades não realizadas, remorsos, desentendimentos e reconciliações que, certamente, poderiam ter sido resolvidas muita antes.

Por ser um padrão quase unânime, fica difícil enxergar o que nos leva a repetir o mesmo comportamento, mesmo que seja tão incômodo. É difícil bater o martelo, mas precisamos assumir a responsabilidade por, pelo menos, uma questão: Não queremos dizer não para nada.

Mas insisto em dizer que, o que mais nos incomoda, não é o fato de não podermos cumprir todo o nosso planejamento. O que nos aflige é a demanda criada por nós mesmos e que, de antemão, sabemos que não será cumprida. Há uma explicação razoável para isso. Não é apenas uma dificuldade em dizer não mas,  queremos dizê-lo de fato?

Negar um convite para uma festa ou mesmo que seja para um cafezinho, pode criar um dilema que, quase sempre, existirá apenas em nossa imaginação. Como se criássemos uma realidade onde aquele convite, uma vez negado, pode não acontecer novamente, o que nos colocaria em uma situação de abandono e esquecimento. Parece loucura, mas é bastante comum…

O que nos faz reagir dessa forma? Dizer sim para tudo gera uma ansiedade enorme, por sabermos que jamais conseguiremos estar em todas as ocasiões para as quais dissemos sim. O sim evita conflitos, encerra divergências e sempre nos deixa bem em qualquer foto.

Talvez seja por esta razão que estamos sempre a espera de respostas positivas para tudo. O sim acelera processos e, como vivemos em um mundo onde perder tempo é quase um crime, nos habituamos a dizer exatamente aquilo que o outro espera ouvir, mesmo sabendo que, por trás daquele sim, não há nenhum compromisso com a verdade.

Ainda assim, nos mantemos firmes nessa postura pois, pelo menos de imediato, conseguimos driblar problemas e situações desconfortáveis, todas as vezes em que escolhemos dizer sim. Isso explica, em parte, a dificuldade que muitos de nós têm para dizer não. Levamos uma vida para entender o poder libertador dessa palavra tão simples e direta, que é capaz de nos salvar de tantas ciladas vida afora.

Passamos o ano inteiro aceitando o que não queríamos e fazendo coisas chatas por conveniência, pelo simples fato de dizer sim de forma quase automática. Mas é no fim do ano que fazemos uso da nossa capacidade máxima, como se o sim nos redimisse de ausências, omissões ou coisas do tipo. Optamos pelo nosso desconforto para agradar aos outros, apenas para que continuemos a fazer parte da vida daquelas pessoas, nem que seja uma vez por ano.

Visto dessa forma, parece que o sim é um lobo em pele de cordeiro. Não é. O sim é uma poderosa arma que nos ajuda a chegar, de alguma forma, onde queremos. Porém, quando banalizamos o seu uso, apenas para não assumir que não damos conta de tudo, perdemos preciosas chances de usá-lo em momentos realmente relevantes. A razão para isso pode ser bem simples: o que acontece, muitas vezes, não é culpa da nossa disponibilidade para dizer sim, mas sim, da nossa falta de coragem para dizer não.

O que está acontecendo comigo?

Ontem, eu ouvi uma crítica e mudei de atitude. Hoje, me disseram para eu não fazer o que faço. Amanhã, me dirão para mudar um pouco mais. E eu mudo… Depois de um tempo, todas essas interferências começam a afetar quem somos e uma pergunta torna-se inevitável: O que está acontecendo comigo?

Esta é uma resposta difícil, que nem sempre estamos dispostos a responder. Não é nada fácil reviver escolhas ruins, relembrar pessoas abusivas e, acima de tudo, assumir que poderíamos ter sido menos tolerantes com coisas e pessoas que, claramente, não mereciam.

Tolerância. É estranho ver um comportamento que, em teoria, deveria ser o fiel da balança em situações tensas e difíceis, transformar-se, erroneamente, em sinal de fraqueza. Ser tolerante nos permite ser agregadores e compreensivos, o que pode causar uma certa confusão. Tolerar não é sinônimo de permitir sem restrições.

Talvez esse erro conceitual, com o qual aprendemos a conviver desde muito cedo, seja a causa de uma cascata de acontecimentos que podem trazer felicidade ou não, fechar portas ou não, libertar ou aprisionar em relações e hábitos que fazem mal, mas que, em muitos momentos, nós simplesmente não somos capazes de encontrar uma saída.

É evidente que ninguém escolhe o pior para si mas, por causas diversas, criamos uma casca de tolerância ao comportamento do outro que obriga, muitas vezes, abrir mão de desejos próprios para sustentar o querer alheio. Até aí, tudo bem. Intercalar conquistas com quem escolhemos, é ganhar duas vezes. Mas, nem sempre é assim.

Pessoas flexíveis relacionam-se com pessoas menos maleáveis. Isso, obviamente, não é uma regra, apesar de bastante comum. O que me leva a arriscar que, nesses casos, a tolerância de um alimenta a intolerância do outro. Pode parecer radical, mas tentar responder a nossa pergunta inicial pode ser um bom exercício. Mas uma coisa é possível afirmar, a pessoa que somos hoje, é fruto de escolhas prévias que, certamente, irão nos dizer se fomos ou somos tolerantes demais ou de menos.

A maioria de nós flutua de um lado para o outro com muita frequência, mas há aqueles que escolhem a intolerância como bandeira. Esses precisam de uma revisão de seus conceitos o quanto antes. Se tolerar em demasia pode ser um problema, ser intolerante é, de fato, uma fonte inesgotável de desequilíbrio. Ser inflexível estabelece uma rigidez na forma de ser, pensar e agir que afasta qualquer possibilidade de usufruir e conhecer aquilo que é, naturalmente, diferente de nós. E isso pode ser o gatilho para atitudes, no mínimo, questionáveis.

A intolerância tem um potencial enorme para nos transformar em estúpidos e impacientes, uma vez que não há argumentos razoáveis para aqueles que só conseguem ver o mundo através do próprio umbigo. Pontos de vista estreitos provocam uma alteração da paisagem que se vê. Como se a vida fosse observada a partir de uma lente de aumento, por onde só é possível enxergar o que quer, quando quer e do jeito que for mais fácil. Intolerantes são limitados, isso é um fato.

Se de uma hora para outra, percebermos que nossos movimentos estão mais contidos, que a nossa gargalhada transformou-se em um sorriso pálido e que passamos a ver as coisas através de ângulos cada vez menores, é melhor ficar atento. Esses são sinais claros de que estamos cedendo aos limites e a falta de tolerância alheia.

Mas isso não é um problema. Basta parar e perceber que também é preciso ser tolerante consigo. Devemos dar segundas chances a nós mesmos. Isso nos permitirá enxergar, perceber, errar e aproveitar tudo aquilo que a vida nos oferece. Ser ou não ser intolerante proporcionou e continuará a proporcionar experiências que nos permitirão responder com segurança quem, de fato, nos tornamos.

O que eu faço agora?

O que devemos fazer quando não temos a menor ideia do que fazer? Paralisar-se diante de uma situação pode ser uma possibilidade. Agir com violência também. Ainda há aqueles que choram e aqueles que sorriem diante de uma circunstância absolutamente inesperada. A única coisa em comum a todos é a pergunta: O que eu faço agora?

Para essas surpresas, não existe um padrão de comportamento à venda capaz de nos salvar das inúmeras saias justas que teremos que vestir vida afora. Algumas delas, mais de uma vez.

Se pararmos para pensar, é raro sentir-se realmente pleno sobre algo ou alguém. Mas isto não nos torna inseguros crônicos, tampouco, donos absolutos da verdade. Na maior parte das vezes, reagimos àquilo que o cotidiano apresenta, como se, a cada dia, fossemos desafiados a atuar em um filme, do qual temos apenas uma vaga ideia sobre o roteiro, elenco, texto e direção.

Então não somos os responsáveis por nossas próprias estórias e experiências? Sim, somos. Mas é preciso aceitar que temos pouco ou nenhum controle sobre os rumos que, de fato, vamos seguir.

Visto desta forma, até parece simples, mas é dificílimo perceber isso de forma racional. Vivemos um dia após o outro, sempre cercados pela ideia, presunçosamente ingênua, de que temos, sob o nosso controle, as rédeas de nossas vidas.

Para alguns, isto pode ser desafiador, mas para outros, significa um verdadeiro pesadelo. Afinal, lidar com o desconhecido o tempo todo, determina que não saberemos como agir com mais frequência do que se pode suportar. O que nos faz pensar e entender um pouco sobre nós mesmos e a forma como reagimos as peças que a vida nos prega.

É curioso pensar que parte do que somos está relacionada aos nossos momentos mais vulneráveis, onde, em situações de puro constrangimento, demonstramos uma pureza quase infantil na forma de pensar e agir. Talvez isso justifique reações impulsivas e imprevisíveis, comum a todos nós, quando não sabemos o que fazer. Claros resquícios da criança que fomos um dia.

Passamos tanto tempo aprendendo, a duras penas, como devemos ser decididos e confiantes que rejeitamos, completamente, a possibilidade de parecermos frágeis diante de qualquer situação. O que é uma grande bobagem, uma vez que jamais saberemos lidar com todas as situações, embora seja difícil de admitir, não temos resposta para tudo e, sim, ficaremos com caras de bobo muito mais vezes do que gostaríamos.

Pensar sobre isso ajuda a enxergar a quantidade de camadas que acumulamos com o passar dos anos e, como nos preparamos para usá-las em ocasiões diferentes, criando a falsa sensação de que estaremos sempre prontos para qualquer parada.

Na verdade, essas capas tornam-se pesadas demais e impedem que demonstremos incertezas e inseguranças, inerentes a cada um de nós. Sobre tudo isso, uma coisa é certa: A vida seria muito mais leve, se admitíssemos  que não há problemas em não ter respostas para tudo e, que não deveríamos nos esforçar tanto para esconder a espontaneidade da dúvida.

A dedicação é o que nos salva…

Sempre que pensamos em sucesso, felicidade ou amor, tentamos visualizar como estaremos tempos depois do início de uma nova etapa de vida. Mas o que deve-se fazer para conquistar o que se quer? Dedicação é, certamente, aquilo que nos salva. Será?

Não se enganem, pois este não será um daqueles textos que dizem que devemos ser absolutamente dedicados, não importa a hora ou o local. Não há dúvidas sobre a importância de estar comprometido e inteiro quando queremos algo, de fato. Mas há um erro de avaliação neste senso comum que nos leva a, quase sempre, insistir em projetos mal concebidos, sonhos sem planejamento ou amores imaginários. Acreditamos cegamente que, se as coisas não deram certo como era esperado, foi porque nos faltou dedicação e paciência.

Concordo que, em muitas vezes, é preciso perseverar para chegar onde se quer, porém, em alguns momentos, manter uma posição inalterada sobre algo que só  traz retornos negativos, não é uma prova de dedicação inabalável, mas sim, de uma teimosia envergonhada que nos impede de abrir mão de escolhas equivocadas.

Por conta disso, muitos investem tempo demais naquilo que, no fim das contas, tem importância de menos. Parece fácil falar sobre algo que só descobre-se vivendo, mas, se deixássemos de lado a boa e velha culpa que nos acompanha de perto e que aparece todas as vezes em que duvidamos de nossa capacidade de continuar seguindo em frente, talvez fosse mais fácil perceber a diferença entre dedicação de verdade e aquela burrice ocasional, capaz de nos cegar muito além do que gostaríamos.

Mas, até onde devemos ir para que seja possível convencer os outros e a nós mesmos, de que estamos dedicados e dispostos a a continuar no caminho que traçamos previamente? O limite para isso é impossível de precisar, mas é possível dizer que o caminho será longo, uma vez que a ideia de desistir do que quer que seja nos afeta profundamente, como se, mudar as regras do jogo, nos transformasse em fracassados confessos.

Reside, nesta questão, uma perversidade cínica que diz que só a dedicação nos fará alcançar metas e que, ao mesmo tempo, devemos suportar todas as dificuldades em nome daquilo que escolhemos… Isso talvez faça sentido naqueles momentos onde as escolhas e chances são escassas. Porém, à medida em que somos apresentados a novas possibilidades, mudar de rumos não significa falta de dedicação e, sim, uma simples e necessária mudança de ponto de vista.

Essa rigidez na forma de pensar e agir, escancara uma dificuldade coletiva que demonstra como, permitir-se mudar, é bastante complexo. Não nos tornaremos criaturas mais indolentes só porque nos permitimos mudar de opinião. Ao contrário. A mudança é essencial para que seja possível dedicar-se as experiências que valem a pena viver.

Somos apresentados a diversas situações, igualmente interessantes, diariamente.  E, neste leque de opções, podemos escolher a qual delas iremos nos dedicar e por quanto tempo, mesmo sabendo, de antemão que, em nenhum momento, teremos a certeza se estamos dedicando energia suficiente para algo ou alguém. Até porque esta percepção sempre terá dois, ou mais, lados distintos que, nem sempre são compatíveis.

Mas, independente disso, é essencial estar em paz com as próprias escolhas e com a forma como nos dedicamos a elas. Dedicação deve ser o reflexo da nossa vontade de transformar sonhos em realidade, sem perder de vista que esse processo pode até ser turbulento, mas que não pode, de forma alguma, cobrar um preço alto demais a ser pago.

Ideias, pensamentos e memórias

Todas as vezes em que iniciamos um novo projeto, somos arrebatados por uma enxurrada de ideias que, aos poucos, vão se acalmando e se organizando. Às vezes de forma cordial, às vezes travando batalhas violentas, na tentativa de fazerem parte da história que vai nascer. Porém, neste processo, uma questão se faz presente: Qual é a origem da diversidade de pensamentos e ideias que povoam as nossas cabeças e que ajudam a formar as nossas memórias? Uma pergunta nada fácil de responder, uma vez que exige respostas autênticas e muito particulares.

Estar onde estamos é, obviamente, fruto de uma caminhada nada fácil. Nos perdemos, mudamos de ideia com frequência, sofremos mais do que gostaríamos mas, sobretudo, somos agraciados por experiências transformadoras que são responsáveis por nos trazer até aqui. Muitas delas caem no esquecimento, muitas são lembradas eventualmente e, algumas, são companheiras fiéis por anos e anos. Esse acumulado de horas vividas reflete, não apenas a nossa biografia, mas aquilo que queremos ser no futuro e por quais estradas queremos seguir.

Vendo as coisas por esse ângulo, é possível acreditar, então, que cada momento vivido conta… e muito. Apesar disso, passamos anos acreditando piamente que, pensamos e agimos de acordo com a nossa natureza, personalidade ou que é o destino, o responsável por nossas ações. Dependendo do que acreditamos, isso pode até ser verdade, mas não completamente.

Cada um de nós, pode ter um temperamento que sinaliza para onde seguir, mas é o resultado de experiências prévias que servem de suporte para novas decisões. O que pode ser a salvação para novas ciladas e possíveis constrangimentos desnecessários. Pena que isso, nem sempre, é uma realidade.

Quantas e quantas vezes, repetimos um padrão de comportamento, apesar de sabermos de antemão, qual será o fim da estória? Muda o elenco, mas o roteiro é sempre o mesmo, assim como o seu desfecho. Todos nós já protagonizamos esse mesmo filme, mas é possível mudar esse final, uma vez que, muito do que vivemos não depende apenas do outro. A nossa conivência sempre dará a palavra final, independente da situação.

A grande questão está em saber como usar a memória a nosso favor. Sei que é, praticamente impossível, manter a nossa reserva de experiências atualizada o tempo todo mas, ficar uma pouco mais atento ao que se vive pode, alem de poupar sofrimento, aumentar o crédito de felicidade de todas as formas, cores e tamanhos.

À medida que vencemos as décadas de vida, vamos ressignificando tudo aquilo que nos rodeia e que é, de fato, importante. Brigas em família perdem o sentido, dizer sim para tudo não é mais uma necessidade e, dizer não, torna-se um hábito libertador. Talvez este seja um dos grandes sentidos do envelhecer.

A falta de experiências, próprias da juventude, nos apresenta ao exagero e descontrole. A maturidade, chega de mansinho, provando que, com calma, é possível desfrutar mais e por muito mais tempo, as situações que vivemos todos os dias.

Dessa forma, concluímos que não há formula única que explique a diversidade de ideias que vive em nós. Ainda bem… Somos parte rocha e parte nuvens, que mudam de forma e cor, que desaparecem para em seguida surgirem pesadas e barulhentas. Mas sempre deixando registros que nos marcam e forjam os pilares daquilo que somos verdadeiramente. Por esta razão, quanto maior for o número de experiências vividas, mais fortes seremos e, se cada momento conta, por mais insignificante que possa parecer, é melhor fazer cada um deles valer a pena. É melhor fazer cada um deles se tornar… memorável.

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Saio de casa apressado, vejo uma vaga reservada para deficientes e estaciono. Tudo bem, é rapidinho. Um lugar preferencial fica vago no transporte público, me sento. Na estação seguinte, entra uma senhora com necessidades especiais e subitamente sou acometido por um sono profundo. Tudo bem, trabalhei o dia inteiro, estou exausto e mereço o lugar. Furo o engarrafamento pelo acostamento, dou troco errado, não pago a conta quando saio com amigos, fumo em lugares proibidos… Para todas essas atitudes sempre há uma explicação possível, logo, qual é o problema em quebrar as regras de vez em quando, sem maiores consequências? Para muitos, nenhum problema e vida que segue.

Quem nunca cedeu aos encantos da quebra de regras, que atire suas pedras imaginárias. Agir como se ninguém estivesse olhando, para pegar atalhos que nos favoreçam de alguma forma, é uma constante na vida humana. Assim, quando compreendemos que o mundo se divide entre o privado e o coletivo, achamos por bem, muitas vezes, encurtar distâncias no território ocupado por muitos, para garantir, de forma sonsa, que não estamos fazendo nada demais…

É neste ponto onde o “jeitinho” se estabelece. Quando sabe-se o caminho certo para chegar onde quer que seja, porém, é possível usar de subterfúgios para tornar esse trajeto mais rápido, fácil e adequado aos próprios planos. Assim, muitos seguem suas vidas, preocupados cada vez mais com o “seu” e completamente desinteressados pelo “nosso”. Mas é, de fato, um problema pensar dessa forma? Sim, é.

Todas as vezes em que assumimos que a nossa persona deve ocupar o lugar mais importante e que, o restante das pessoas não faz diferença, outros tantos irão replicar a mesma forma de pensar e, nesse caso, possivelmente, será você o excluído da melhor parte do bolo. O que significa dizer que, se todos usarem o dito popular “farinha pouco, o meu pirão primeiro”, como lema de vida, em algum momento irá faltar pirão para dividir entre todos.

Essa forma unilateral de ver o mundo, valoriza o individualismo, além de segregar as pessoas de suas relações. E, em maior grau, provoca distorções de comportamento, capazes de criar realidades paralelas onde nada, além de você, é importante o suficiente para merecer atenção.

E para onde essa estrada nos levará? Difícil dizer qual será o destino, mas não há dúvidas de que o caminho até lá será repleto de pequenas, médias e grandes corrupções, puxadas de tapete e, claro, algum sofrimento… Alheio. Seguir a cartilha do “primeiro, eu”, diz muito sobre quem somos em detalhes e, expõe de forma muito clara, o papel que desempenhamos em nossas relações. O excesso de querer, normalmente, cria montantes que serão usufruídos individualmente, deixando de lado, um grupo de excluídos que sonha em chegar àquele lugar, assim que tiverem chance. Estabelecendo, dessa forma, um ciclo egoísta onde, quem está dentro, não sai e, quem está fora, aguarda ansiosamente, uma chance para entrar.

Essa triste perpetuação do individual sobre o coletivo, gera abismos de todas as naturezas, diferenças irreconciliáveis e barreiras que impedem a conexão entre as pessoas. Todos querem e merecem realizar seus desejos. Isso não pode, jamais, ser um problema. A grande questão está relacionada a forma escolhida para chegar lá. Querer mais e realizar grandes feitos, sempre será um mérito coletivo. Acreditar no contrário é leviano e ilusório. Afinal, seguir em frente, usufruindo a vida, é muito melhor quando estamos, sinceramente, bem acompanhados.

Olhar estrangeiro

Experimentar a sensação de estar deslocado em algum lugar ou grupo, não é exatamente uma coisa incomum e não tem relação com espaço ou tempo. Sentir-se um peixe fora d’água é algo que acompanha a maioria das pessoas, em algum momento de suas vidas. Isso permite observar o que nos cerca sob diversas perspectivas, que por vezes são boas e, por outras, nem tanto.

Estar deslocado cria, em certa medida, uma capacidade única de adaptação, onde é preciso ter a velocidade para perceber ambientes, idiomas e comportamentos diferentes dos seus e, de alguma forma, estabelecer uma conexão com eles.

Porém, não se pode afirmar que a sensação de não pertencer a algum lugar, será sempre positiva. Para muitos, pode ser dificílimo superar as barreiras impostas por situações que vão além daquelas com as quais lidamos com segurança. De toda forma, sentir-se um estranho no ninho, abre inúmeros caminhos, desde manter-se em situações onde não é fácil interagir de forma confortável, até perceber um ambiente como algo diferente do seu habitat, adaptar-se a ele ou buscar outros ninhos que sejam mais receptivos e compatíveis com seus desejos.

Esse panorama expressa uma certeza: seja qual for o caminho a ser seguido, a presença do desconhecido nos força a encarar limites pessoais. E é isso que nos impulsiona a seguir a caminhada ou, pelo menos, escolher entre desistir de algumas coisas ou confrontar tantas outras.

Dessa maneira, o que antes causava desconforto, hoje pode ser trivial e o contrário também é verdadeiro. O que prova que quanto maior for a disponibilidade para o novo, maior será a quantidade de experiências apreendidas ao longo do caminho.

Jogar-se no escuro está longe de ser uma situação tranquila mas é, sem dúvidas, capaz de expor detalhes particulares até então desconhecidos. Isso dá a oportunidade de, não apenas nos reconhecermos, mas de irmos além. Um vôo cego possibilita que sejamos apresentados a novas versões de nós mesmos, quantas vezes a nossa coragem permitir.

Talvez este flerte irresistível com o desconhecido, seja o responsável por esse desejo de conhecer ou experimentar novidades com as quais não nos encaixamos de imediato. Mudamos de escola, de bairro, fazemos novos amigos e traçamos um perfil das coisas que nos movem. Mas, apesar de sermos apresentados a pequenos desafios desde muito cedo, é difícil ter, em tempo real, a clareza sobre quando estamos as voltas com algo verdadeiramente novo.

Isso está, possivelmente, ligado ao nosso velho e conhecido instinto de sobrevivência. Aquele que é capaz, dentre tantas coisas, de alertar sobre as inúmeras roubadas que surgem a todo instante em nossas vidas. Mas nem sempre lhe damos os devidos créditos, tamanha a nossa vontade de enxergar além do que se vê.

Um mundo desfocado traz, à primeira vista, desconforto e insegurança, uma vez que não é possível saber a profundidade do que está diante de nós. Mas, à medida que o tempo segue seu fluxo, as cores e volumes tornam-se mais nítidos e ajudam a compreender melhor onde estamos e o que fazemos ali. Isso nos permite escolher entre ficar naquele universo, que toma forma diante dos nossos olhos, ou seguir em frente, na busca por novas paisagens.

Essa jamais será uma decisão única. Mudamos o tempo todo. Ora ficamos, ora seguimos em frente, querendo conhecer, compreender e ser desafiados por lugares de onde não fazemos parte, onde não pertencemos. Seguimos a vida buscando sempre por situações que nos façam ver o mundo por outro prisma e que nos torne diferentes. Dessa forma, mesmo quando nos sentirmos confortáveis, sejamos forçados a enxergar a vida com um olhar curioso, um olhar cauteloso, com um olhar estrangeiro.

 

A vida tem seus encantos

Encantamento. Este é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz perceber o quanto vale à pena seguir adiante, acreditando naquilo que aprendemos de mais fundamental: a vida tem seus encantos.

Encantar-se é baixar a guarda e enxergar o que está além do óbvio, da embalagem superficial que recobre tudo e todos. Como se refletores trouxessem uma torrente de luz extra, capaz de iluminar os detalhes ignorados por nossa displicência.

Porém, quando conseguimos captar esses detalhes, uma onda confusa de sensações nos assola, promovendo uma profusão de olhares brilhantes, sorrisos abobados, discursos empolgados e uma vontade enorme de realizar desejos e concretizar sonhos distantes do nosso cotidiano sufocante.

Todos conhecem os efeitos provocados pelo encantamento. Se pensarmos em tudo vivemos, os melhores momentos estarão, certamente, relacionados aos encantos que sentimos e que também fomos capazes de proporcionar ao longo da vida. E isso inclui todas as vezes em que sentimos nossos corações acelerados, agitando tudo a nossa volta, nos cobrindo de coragem para encarar lugares desconhecidos de peito aberto e famintos por felicidade.

Isso tudo me faz pensar: o que seria dos nossos sonhos e ideias se não houvesse encantamento por eles? Possivelmente, ficariam eternamente presos à categoria das coisas que gostaríamos de ter feito mas nos faltou coragem para ir adiante.

Talvez esse seja o diferencial do encantamento: coragem. O encanto é arrebatador e pode, de forma inexplicável, alterar o curso de histórias de vida absolutamente tranquilas e consolidadas. Causando terremotos implacáveis capazes de colocar o mundo de ponta a cabeça, mostrando que as nossas crenças e perspectivas não são imutáveis.

O encantamento assemelha-se a paixão. Daquelas que aproximam longas distâncias, tornando real o que antes era impensável. Isso pode explicar o que move as pessoas a seguir por trilhas não planejadas e desconhecidas, transformando, por exemplo, um biólogo e professor em um escritor que traduz em palavras as suas observações da vida comum. É possível…

O arrebatamento que sentimos quando nos encantamos por alguém ou por algum projeto, é algo difícil de controlar, mas é preciso saber o que fazer com ele. O que acelera o nosso coração e ilumina o nosso olhar, merece atenção e dedicação. E, se por alguma razão, qualquer um de nós duvidar disso, basta ter a certeza de que isto é apenas um efeito colateral dos sentinelas das zonas de conforto: os nossos medos. Entretanto, o medo não é páreo para a energia do encanto, que é capaz de romper amarras das relações mais sólidas, criando novas possibilidades e iluminando novos caminhos.

Isso possibilita traçar novas rotas vida afora. Quem disse que deve-se seguir, para sempre, as escolhas feitas ainda muito jovens, não foi capaz de ceder aos encantos do mundo ou aos seus próprios. Apesar de saber que as histórias individuais são muito particulares, cercadas de dificuldades inerentes a cada um, não há como não desejar se encantar o máximo que possível.

De todo modo, não lute contra, não tente sufocar sua capacidade de perceber o mundo que o cerca e, acima de tudo, não tente calar a voz entusiasmada que lhe diz: a vida é sua, é única e é rápida. Deixe-se encantar por ela.

 

A admiração que vive em nós

Diariamente, uma massa de pessoas acorda e se lança ao mundo em busca do seu pão de cada dia. Se pensarmos nas razões que nos levam a nadar, o tempo todo, contra uma maré imprevisível, teremos milhares de respostas possíveis e que irão variar de acordo com o exato momento que vivemos. Mas, apesar das muitas possibilidades, me arrisco a dizer que, o que nos move para o que é, de fato, importante, é o sentimento de admiração que vive em nós.

Desejar um emprego, seguir uma profissão ou encontrar alguém que julgamos interessante, são ações claramente impulsionadas pelo olhar que transferimos para tudo o que está a nossa volta. Admiramos atitudes e projetos e, consequentemente, passamos a gostar das pessoas por trás disso. Quem nunca admirou uma autora célebre, um grande pintor, um professor notável ou qualquer outra pessoa que, certamente, marcou um momento importante de sua vida, através de suas obras e textos criando, de alguma forma, uma conexão repleta de admiração?

O ato de admirar vai muito além do contemplativo, ele nos traz um alento reconfortante, como um ar oxigenado em momentos bastante tóxicos, onde é difícil enxergar muitas opções e de onde não é possível perceber novos caminhos. Um olhar admirado promove a criação de referências, de maior ou menor importância. O que nos faz mirar em pessoas que podem, em tese, nos transferir de um lugar comum para uma posição que ainda não ocupamos. Dessa forma, criamos ídolos para chamar de nossos, que nos emocionam gratuitamente e, por isso, os admiramos sem cobrar uma contrapartida, mas que, para além da influência óbvia, também atuam como alvos que almejamos alcançar ou pódios onde desejamos subir. Ou pelo menos tentar chegar lá.

Admirar o mundo faz parte da nossa essência, a grande diferença é o que fazemos dessa admiração. É possível seguir padrões e tendências, com base em modelos de comportamento que fazem nossos olhos brilharem. Isso pode, em princípio, parecer que a admiração ira nós conduzir, apenas, para os melhores exemplos, aqueles cheios de virtudes e que encheriam nossos pais de orgulho. Infelizmente, não há nenhuma garantia de que isso será uma realidade. Basta olhar para todos os maus exemplos, muito bem-sucedidos, que nos rodeiam.

As fontes de inspiração são infinitas e mudam de acordo com a passagem do tempo. Quando crianças, nosso olhar de admiração é capaz de captar apenas aqueles que estão distantes o suficiente para caber em um abraço. Mas, à medida que os anos passam, ficamos mais abertos e suscetíveis a toda sorte de influências e modismos. O que pode ser maravilhoso, uma vez que é na experimentação desses modelos, que escolhemos o que de fato nos toca mais profundamente. Ao mesmo tempo, essa mesma diversidade de influências pode, e vai, indicar modelos perigosos que irão, com muita frequência, criar ídolos bem produzidos, cheios de frases de efeito e discursos prontos, porém, repletos de vazio.

Mas há um momento em que percebemos que os lados opostos serão uma constante ao longo da vida, logo, não seria diferente com os nossos objetos de admiração. De todo modo, só é possível admirar aquilo que nos permitimos ver com mais calma. Detalhes pequenos tornam-se essenciais à medida em que se permite ver, sentir e entender o mundo e as pessoas à nossa volta. A admiração é algo tão poderoso que é capaz de nos fazer respeitar e amar desconhecidos, copiar modelos, sonhar com o melhor e, acima de tudo, perceber que só existirá um universo tão vasto de possibilidades, quando entendermos que, a maior e melhor fonte de admiração, não está em lugares inalcançáveis e sim, morando dentro de nós.