O sentimento mais cobiçado do mercado

            Amores vêm e vão. Todos sabemos que o ato de amar pode significar tudo, menos a privação da liberdade. Mas, se isso não é nenhum segredo, por que razão cometemos o mesmo erro repetidas vezes? Por que tentamos, a qualquer custo, sustentar relacionamentos em ruínas? Vai saber, mas tenho cá minhas dúvidas se, o que nos mantem presos a essas relações, é o amor ao outro ou o simples desejo de manter guardado no peito, o sentimento mais cobiçado do mercado.

            O amor é inebriante, fato. E isso faz com que o simples contato com ele, provoque tantas reações inesperadas e incomuns, que levam a nocaute praticamente todas as criaturas que cruzam o seu caminho. O que, olhando de forma isenta, parece um tanto assustador imaginar que um único sentimento é capaz de alterações tão profundas. Mas, como ficar isento diante de algo que mais parece um tsunami? Quando acreditamos estar longe de seu alcance, ele chega, sem qualquer aviso prévio, e nos arrebata sem dar chance de defesa.

            O amor, em si, é único. Amamos e ponto. Mas, é claro que há muitas nuances na maneira como expressamos esse sentimento. Intensos, suaves, insanos, divertidos, descontrolados… Ou tudo isso ao mesmo tempo, variando de acordo com o gosto e temperamento do freguês. Os objetos do amor mudam ao longo da vida. Mais para alguns, menos para outros, mas, em geral, o amor sempre se apresenta. E adoramos quando isso acontece, mesmo sem saber para onde isso irá nos levar.

           Esse sentimento que os poetas pintaram com as tintas de romantismo, não passa de reações químicas fortíssimas que dominam o nosso sistema nervoso, segundo a ciência. O que, trocando em miúdos, uma vez apaixonado, nosso cérebro altera tudo ao seu alcance. O que nos deixa emocionalmente alterados, também provoca mudanças fisiológicas. Esse sentimento é químico, é biológico e pode provocar dependência. O amor é profundamente cerebral, mas não revelem isso ao coração, ele pode não aguentar.

         É desafiador tentar racionalizar algo que é, essencialmente, sentimento. Mas, não há como não se perguntar, diante desse cenário, se o que nos faz falta é amar alguém ou se, o que queremos, de fato, é ter a oportunidade de sermos atropelados por essa força da natureza que resolvemos chamar de amor? Pode parecer um tanto confuso, e é. Amar não é simples, o que não significa que precise ser complexo. Muitas vezes não sabemos lidar com ele, o que causa um certo pânico. E, possivelmente, essa seja a razão de cometermos sempre o mesmo equívoco – tentar ter controle sobre um sentimento que suporta amarras.

              O que faz com que nos percamos no meio desse caminho cheio de atalhos e curvas, é a dificuldade em enxergar que o amor é uma imagem espelhada, uma estrada que corre junto a um rio, dois corpos de mãos dadas. O amor precisa estar latente, precisa ser sentido, mesmo quando não há alguém para fazer o papel da pessoa amada. O amor é uma ponte permanente, sempre pronta a realizar novas conexões e, mesmo que isso não ocorra, essa ponte estará ali para nos mostrar que, independente de sua mágica, o amor é sentimento que se constrói livremente de dentro para fora. Nunca ao contrário.

Um universo de possibilidades

            Como será que criamos as nossas preferências, nossos gostos e prazeres? E, por que, achamos melhor o verde e não o amarelo? É claro que, muito do que somos deve-se a quantidade de informações sensoriais que tivemos vida afora. Quanto mais experimentamos, maiores as nossas chances de escolha, o que nos torna mais abertos às oportunidades que o mundo pode nos oferecer, certo? Nem sempre… Nem sempre. Muitas pessoas preferem fazer escolhas precoces que, infelizmente, deixam de fora um universo de possibilidades que a vida tem para nos mostrar.

            Quem de nós nunca afirmou, categoricamente, não gostar de tal estilo musical, uma determinada festa ou local onde, supostamente, não se sentiria à vontade? É claro que todas essas reações podem ser genuínas e, de fato, o contato com determinadas situações possa causar desconforto. Mas, sem medo de exagerar, percebo que na maioria das vezes, nos negamos a oportunidade de experimentar o novo, por uma única e simples razão – a novidade nem sempre é confortável.

          E, talvez, a sua maior importância seja a sua imprevisibilidade, pois não nos permite adivinhar os próximos passos, criar raízes ou acomodar-se diante daquilo que acreditamos ser nosso por direito. Sabemos que é difícil estar, o tempo todo, em busca do novo, mas, não podemos esquecer que é para lá de saudável, sentir aquele frio na barriga, quando nos deparamos com algo que, ainda, não conhecemos. É f ato que cada um de nós lida com a novidade de forma muito particular, o que justifica, em parte, a nossa resistência.

          Mas, o que provoca um certo espanto, é perceber que, cada vez mais, renunciamos a novas experiências, não por serem difíceis, mas, sim, por medo ou preguiça. A tão falada zona de conforto pode ser, neste caso específico, a grande responsável pela paralisia que nos impede de viver e aproveitar novas pessoas, lugares, trilhas sonoras, livros, comidas e profissões. Estar seguro sobre os próprios interesses, não nos impede de vivenciar o que é desconhecido. Agora, acreditar que nada pode superar o prazer de uma experiência repetida incontáveis vezes, é, sem dúvida, fechar portas e janelas para um admirável mundo novo.

         Portanto, quando estiver diante do desconhecido, tenha medo, mas não se deixe paralisar. Escolher o caminho imediato do “não gosto” ou “não quero, é a parte fácil. Aceitar o desafio de seguir em frente, mesmo sobre pernas trêmulas, pode nos conduzir a momentos memoráveis e insubstituíveis. Pense nisso.

Vida de criança

            A vida adulta requer muitas responsabilidades, correria, dificuldades e um bom número de frustrações. Até aí nenhuma novidade. Somos testados em níveis inimagináveis praticamente todos os dias, o que nos leva a criar cascas protetoras que, à medida que o tempo passa, enrijecem e aumentam proporcionalmente ao número de pauladas que a vida nos reserva. Mas isso não é privilégio dos adultos. Os pequenos também estão a mercê dos humores do mundo, apesar das nossas tentativas de suavizar a estrada. Mas, o que a realidade nos mostra é que vida de criança não é nada fácil.

            O tempo vai passando e a ideia de infância muda junto com o nosso corpo. Seios crescem, pelo aparecem, hormônios enlouquecem. Sinais que são usados para gritar ao mundo que não há mais lugar para a criança que fomos. Há uma pressa quase inexplicável em mudar de pele, em deixar para trás o sorriso estridente e o carinho explícito e sem moderações que só as crianças sabem expressar. Abrimos mão, tão precocemente, da nossa primeira fase exploratória, que mal temos tempo de perceber todas as estrelas que deixamos de alcançar.

            Para além da velocidade imutável do tempo, não se sabe por qual razão, resolvemos pular etapas nesse processo e desejar, cada vez mais cedo, que a tenra infância seja cada vez mais breve. Uma estranheza que só faz sentido na fase mais tensa e transitória de nossas vidas – a adolescência. Mas, como essa fase da vida é pródiga em equívocos, levaremos muito tempo nos lamentando por ter desejado, um dia, deixar de ser criança.

            Porém, a infância não é conceito uniforme e compartilhado por todos. Ser criança nem sempre é uma dádiva. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, crianças não tinham direito a sua infância. Famílias eram numerosas não porque isso significava um símbolo de amor e união. Pais precisavam de mão de obra e, seus filhos, eram esse braço forte. Nesses casos, a infância jamais foi páreo para a necessidade de sobrevivência. O amor que costura as relações familiares é um acontecimento recente, o que, talvez explique, a diferença no olhar que cada um de nós tem sobre o que é ser criança.

        Fome. Miséria. Guerra. Dinheiro. Violência. Sentinelas das desigualdades humanas, responsáveis por confiscar o direito mais fundamental de todos nós – a infância. Nossas crianças caem como fantoches diante de muitas injustiças para as quais não têm a menor chance de resistência. Como garantir às crianças, o direito a própria infância? É preciso se apropriar do amor. Entendendo que, apesar das dificuldades óbvias que irão nos acompanhar vida afora, garantir as delícias da infância, vai permitir que os adultos de hoje, de ontem e de sempre, tenham consigo o direito de sonhar e que jamais possam se envergonhar de demonstrar verdade, carinho e amor livres de preconceitos, como só as crianças sabem fazer.

Dedos apontados

            Já perceberam a quantidade de dedos apontados para todos nós o tempo todo? É como se vivêssemos em um mundo onde todos são juízes e, nós, os únicos culpados. Porém, o mais curioso disso é que, como quase tudo na vida, migramos de um lado para o outro dessa moeda com uma tranquilidade que vem sempre acompanhada de uma certa cara de pau. Apesar dessa ambiguidade, temos a nossa posição preferida nesse jogo e, certamente, não é aquela de onde enxergamos os dedos apontados para nós.

            Adoramos meter o dedo onde não somos chamados, adoramos. Por mais que muitos digam o contrário, somos enxeridos por natureza. E isso nem sempre é legal. O papel do acusador é o nosso preferido e isso não é à toa, afinal, dizer o que o outro deve fazer, sentir, pensar ou agir é muito confortável e nos dá uma deliciosa sensação de poder. Mesmo que isso não passe de uma tola ilusão. Ser curioso não é algo que nos torna malignos, ao contrário. O que seria de nós sem a curiosidade que nos presenteou com tantas maravilhas ao longo dos tempos?

            Não se trata de ser ou não curioso e, sim, o que fazemos da nossa curiosidade. Muitos preferem deixar de lado a delícia de uma descoberta boa, pela imaginação contaminada de suposições rasas. Chega um momento em que escolhemos, mesmo sem perceber, se queremos o caminho mais fácil ou o mais complexo, se queremos descobertas árduas ou se preferimos invenções convenientes. É bom ficar atento, pois, essa escolha, tem mais a ver conosco do que com o outro.

            Mas há um bom termômetro para perceber quando começamos a apurar demais o nosso julgamento raso – ter opinião formada sobre tudo e todos. É nesse instante que assumimos, permanentemente, o papel de julgadores sem culpa. Quem se leva a sério demais, não aceita a ideia do erro, logo, jamais poderá ser julgado. Muitas pessoas, seja por ingenuidade, circunstância ou desvio de caráter, aprendem que a melhor forma de não expor seus erros, é escancarar o erro do outro. Simples assim. Será?

            Não sei se há uma receita mágica que nos faça perceber que não é possível ser só pedra ou só vidraça. Seremos apontados, acusados e julgados muitas e muitas vezes. Algumas poucas com uma certa justiça, mas, na maioria das vezes, estaremos expostos a altíssimos níveis de maledicência e perversidade. Tudo certo, isso não é o fim do mundo, apesar de ser lamentável. Leva tempo para criar uma casca grossa que nos proteja destes dedos em riste voltados para nós.

           Mas, suportar tudo isso pode ser mais simples do que se imagina. Basta praticar um exercício relativamente simples: trocar os papéis. Se a posição do acusado injustiçado lhe incomodar, pense duas vezes se vale a pena se manter na pele do acusador leviano, afinal, nesta vida não podemos duvidar que a empatia pode nos salvar e que, assim como, jamais devemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. Sempre.

O amor é f*oda

            O que pode ser maior que a política, mais empolgante que o futebol e mais urgente que o aquecimento global? O que nos conecta de forma tão forte quanto inesperada e que faz parte, em alguma medida, da vida de todos nós? O que mais poderia ser, senão o amor? Esse entorpecente disfarçado de sentimento, capaz de nocautear até o mais resistente dos incrédulos e provocar palpitações naqueles que juram que esse sentimento não passa de uma grande bobagem. O amor é foda. Não há como negar.

            O amor faz o que quer, independente do que achamos ou deixamos de achar. Mas, por que damos carta branca para um sentimento nos virar de ponta a cabeça sem nenhuma cerimônia? A resposta até que é simples. Categorizamos os sentimentos de acordo com o momento da vida. Esperança para superar problemas, felicidade para aplacar as dores, raiva para extravasar frustrações e por aí vai. Para a maioria dos sentimentos, doses únicas e eficazes. Mas, quando se trata do amor, deixamos esse protocolo de lado e caímos de boca na superdosagem. Queremos a embriaguez, o exagero, a taquicardia e a descompostura.

           Se o amor fosse uma pessoa, ele certamente diria: Não pediu tanto para que eu viesse? Agora aguenta! A causa mais provável para essa falta de filtro tão peculiar, é a certeza de que, apesar de sermos tão diferentes, compartilhamos a crença de que a vida só é boa quando se ama ou se é amado. Essa cilada que o amor romântico impregnou em todos nós, tem bagunçado um pouco a percepção do que é, de fato, esse sentimento. O amor virou um objeto de valor para ser ostentado de forma quase infantil, tipo “eu tenho, você não tem!”

          O problema é que, quando tratamos de valores, pensamos logo em capitalizar o produto. Não é preciso dizer que o mercado entendeu isso há tempos e fez do amor, um grande balcão de negócios e nós, embarcamos nessa. Assim, iniciamos uma corrida maluca, atrás de um produto que acreditamos ser o amor. Se não for igual ao que está na vitrine, corremos atrás de similares de qualidade duvidosa. Quando não conseguimos adquirir o tão almejado produto, os frustramos por acreditar que, definitivamente, o amor não cabe em nosso orçamento sentimental. Absurdos da vida moderna.

              E, em meio a euforia da busca pelo sentimento perfeito, confundimos tudo. Chamamos paixão de amor, amor de tesão, tesão de culpa, culpa de carência, carência de solidão e solidão de fracasso. Apenas por sermos levados a crer que o amor é algo que chega de fora para dentro, como um produto que se compra ou como uma gentileza feita por um outro qualquer. Nos colocamos em um leilão às cegas, a espera de um lance final.

            Nesse corre-corre atrás do que pensamos ser uma dádiva para poucos, deixamos de enxergar dos olhos para dentro, de ouvir nossos sons internos e de falar aquilo que só vale para nós. Esse é o caminho mais curto para encontrar o que passamos anos e anos perseguindo, sem muito sucesso. Resgatar isso, é um grande passo para confirmar que não é o amor alheio que nos escolhe. Só amamos para fora de nossas barreiras, verdadeiramente, quando transbordamos o amor que está muito bem cuidado dentro de nós. É neste instante que descobrimos que o amor é, absolutamente, foda.

Ar rarefeito

            Seria maravilhoso começar um texto falando sobre amenidades, amores e conquistas. Seria incrível poder compartilhar vitórias, felicidades e sucesso. Seria, se não fosse o peso de viver em tempos tão sombrios, onde dormimos e acordamos com a impressão de que não teremos energia para enfrentar os desafios mais simples. Vivemos em tempos de ar rarefeito, onde nos falta oxigênio para inflar nossos pulmões de vida e esperança para continuar seguindo em frente. Seguimos sem fôlego para correr, sem forças para lutar e sem voz para expressar as nossas dores.

            Nos privam do básico. Estamos doentes e ignorantes e, por isto, apáticos. Somos açoitados diariamente e levados a acreditar que devemos ser gratos pelas migalhas espalhadas ao vento. Essa dor é parte tão permanente de nosso cotidiano, que tornou-se indetectável. Incorporamos as desigualdades e transformamos o mal em algo banal. A maldade e os maldosos, cresceram pouco a pouco, sem chamar muita atenção, fizeram morada em áreas premeditadamente esquecidas, até que, enfim, tornaram-se parte da paisagem de forma indelével.

            O que é absolutamente conveniente, uma vez que poucas coisas são tão eficazes para controlar a massa, quanto o principal efeito colateral da maldade: o medo. Estamos todos amedrontados por motivos diversos. Tire das pessoas o seu ganha-pão, a sua saúde, a sua chance de ser instruída e substitua isso por uma incerteza esperançosa. Nada é tão eficaz quanto a dar a esperança por dias melhores, para aqueles que não possuem horizonte algum para vislumbrar. A fórmula é bem simples. Nos impedem de realizar nossos sonhos e, ao mesmo tempo, nos levam a crer que somos incompetentes demais para concretiza-los.

            Vivemos em ciclos. A humanidade segue o compasso do tempo, que sempre caminha para frente, em direção ao futuro e ao desconhecido. Mas, parece que, de tempos em tempos, resolvemos revisitar um passado, onde cometemos erros que, apesar de imperdoáveis, teimamos em esquecer. Mas há um lado bom nisso tudo. Constatar os ciclos é, também, ter a certeza de que voltaremos aos trilhos que nos levarão adiante, deixando para trás tantas dores, medos e, principalmente, os canalhas que nos provocam tanto sofrer.

       Crianças são barbaramente interrompidas. Jovens são monstruosamente violados. Famílias são injustamente destruídas. Florestas são perversamente queimadas. Tudo em nome de uma ordem que serve apenas para nos enganar, que serve apenas para nos manter sob controle. Mas, a história nos mostra que não há mal que dure para sempre, isso é um fato. Logo, é preciso acreditar que dias melhores estão a caminho. É hora de encher nossos peitos de ar e gritar a plenos pulmões que os implacáveis ventos da mudança não tardarão a chegar. O que significa dizer que, a maldade e seus maldosos covardes, apesar de não acreditarem, estão com seus dias contados.

Padrões…

            Já faz um tempo que os padrões, há muito estabelecidos, estão ameaçados. A publicidade já entendeu isso. A dramaturgia segue entendendo e a internet, apesar de tudo, também contribui para essa mudança. Mas, em que momento percebemos que o que estava posto, começou a ceder lugar ao novo? Muitas respostas possíveis, mas, acho que todas elas têm um ponto em comum: a exaltação da diferença. O que, por muito tempo, foi mantido debaixo de camadas de contenção, abriu fendas estreitas que permitiram que todos enxergássemos, enfim, que a diversidade merece a luz.

            Mas, apesar de alguns esforços, ainda tímidos, por parte dos veículos de comunicação, o que se vê é um levante dos grupos marginalizados, que jamais tiveram espaço para um protagonismo positivo em nenhuma escala. Vivemos uma época que pulsa diferente. Uma época em que não dá mais para ouvir calado a todas as formas perversas de julgamento. E, para além disso, não se pode mais tolerar comportamentos que nos forcem a acreditar que o perfil de fulano é melhor do que o de quem quer que seja.

            Isso, definitivamente, é algo a ser comemorado, porém, não é possível esquecer o volume de sofrimento carregado por muitos. A dor da exclusão sempre foi denunciada, sem muito sucesso, por muitas gerações antes de nós, mas não era conveniente aos padrões, transformar o clamor em voz. E vozes são capazes de transformar sussurros em berros que não podem ser abafados. E, tanto barulho, não pode passar despercebido. Fazer o chão tremer é uma boa forma de se fazer notar.

            As pessoas sempre foram incluídas em caixas padronizadas, prontas para guardar e selecionar perfis, independente seu tamanho original ou da sua vontade de ser classificada. Mulheres e seus adjetivos em uma caixa. Negros na outra. Baixinhos, nas caixinhas pequenas. Gordos, nas caixas mais espaçosas e reforçadas. Gays, nas caixas apertadas no fundo do armário. Velhos e crianças meio misturados porque ninguém sabe ao certo o que fazer com eles. Homens dominantes vivendo com a falsa sensação de liberdade, afinal, são os próprios que constroem suas caixas, mais amplas que as outras, sim, mas sempre serão caixas.

      Tudo perfeitamente encaixotado. Exceto a língua alheia, que sempre arruma uma brecha para circular livremente, fazendo vítimas por onde passa. Mas, parece que isso mudou, não é mesmo? Preconceitos disfarçados, ódios declarados e dissimulações convenientes, agora encontram barreiras onde antes nadavam de braçada. Mas, em algum momento, até mesmo os desmandos encontram limites. A razão para essa mudança necessária se baseia em questionamentos muito simples: Quem criou esses padrões? Quem foi que disse que o seu padrão é o certo? Quem disse que todos precisam ser padronizados?

         Ainda há muito o que fazer. Não é simples destruir os pilares que sufocaram, e ainda sufocam, a liberdade por gerações. Mas já é possível ver as suas lascas pelo chão. Novos caminhos estão sendo abertos e novas vozes engrossam o coro dos excluídos. Essas vozes berram, para quem quiser ouvir que, o único padrão possível é aquele que permite que todos sejam quem quiserem ser.

Era uma vez…

            Era uma vez… um grupo com os super-heróis mais poderosos do planeta que, mesmo em meio a tantas batalhas, cheias de dor e sangue, sempre guardaram espaço para o amor. Afinal, os grandes heróis sempre amaram as pessoas comuns. Porém, sem que os seres mais importantes da Terra percebessem, a pior das maldades crescia bem debaixo de seus olhos.

            Os nossos heróis tentavam seguir vidas comuns quando estavam fora dos holofotes. Misturavam-se com os humanos normais e tentavam imitar suas virtudes e defeitos, pois achavam que isto aumentaria a sua vontade de lutar e cuidar das pessoas. E, assim, mantinham-se protegidos sob disfarces e identidades secretas que, além do anonimato, lhes conferiam o prazer de ser comum. Mas eles não faziam ideia que estavam prestes a enfrentar o pior de todos os males. E não estamos falando de supervilões.

            À medida que o tempo foi passando, os heróis sentiram que o mundo havia mudado e eles, também. Os vilões não apareciam como antes. As pessoas estavam cada vez mais diversas e em maior número, lutando para expressar suas próprias vontades em um universo de pequenas batalhas. Foi então que nossos defensores, sempre amados por todos e bajulados pelos governantes, resolveram que era o momento de viver como os comuns.

            Foi aí, que dois jovens e poderosos heróis, que já haviam arriscado suas vidas inúmeras vezes para salvar a todos nós, decidiram que era hora de dividir o seu amor com todos aqueles que sempre os admiraram. Um deles era tão forte que poderia arrastar a lua com suas próprias mão. O outro, era um mago tão poderoso que poderia mudar qualquer realidade. Eram admirados por todos, até o dia em que resolveram expressar o maior de seus poderes em público: a capacidade de amar. Foi, a partir daí, que os verdadeiros vilões arrancaram suas máscaras.

            As pessoas comuns eram lideradas por criaturas estranhas, que prometiam protegê-las, assim como os super-heróis, mas estavam longe disso. Seu grande poder era a capacidade de ludibriar e mentir. Um belo dia, esses governantes cínicos, que tanto bajulavam os heróis, perceberam que estes estavam muito próximos dos comuns e resolveram tomar o seu lugar como salvadores. E, quando ninguém esperava, voltaram-se contra os superpoderosos, na tentativa de tornarem-se os grandes heróis do povo.

            E como conseguiram isso? Tentando criminalizar o que jamais deveria ser passível de culpa. Os sórdidos governantes, diante do amor de nossos jovens heróis, decidiram transforma-los em uma grande ameaça, especialmente para as crianças. Usaram o seu amor como arma para incitar o ódio. Usaram o amor para propagar a intolerância. Usaram o amor para destruir sonhos. Pobres homens… Pensaram que trariam vergonha para os nossos heróis, mas o seu tiro não teve o efeito esperado. Não perceberam que não se pode brincar com a mais poderosa das armas: o amor.

            Os governantes medíocres sofreram a maior de suas derrotas. Seu golpe de nada serviu e mostrou a todos os comuns que eles não passam de vilões de meia tigela. E os nossos heróis? Estes seguiram juntos, apoiados por um exército de amor formado por seres comuns que não voavam e nem lançavam raios, mas que portavam o mais incrível dos superpoderes: a infinita capacidade de amar.

Fim.

Primeira pessoa

            O texto de hoje começa com uma ideia que acaba de me ocorrer. Abandonar o texto que já está pronto e abraçar outra reflexão/provocação aos quarenta e oito do segundo tempo. Por alguma razão, resolvi olhar para dentro e tentar entender de onde vem a inquietude que tornou-se minha companheira fiel nas últimas semanas. Tantas coisas têm acontecido, que achei por bem falar sobre isso e, ao escrever, percebo que me expressar na primeira pessoa será o maior desafio nesta manhã de domingo.

            Para entender o hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Há exatos três anos, quando decidi compartilhar minhas ideias, não tinha certeza de coisa alguma. Se alguém teria interesse em ler meus textos, onde eu poderia publica-los, como dar asas aos pensamentos que só existiam dentro da minha cabeça. O medo me fez pensar e repensar, até que, em um dia de outubro de 2016, me libertei das amarras da insegurança e realizei o parto do que conhecemos hoje como o aqui pensando.

            Mas, como filho feio não tem paternidade assegurada, enviei alguns textos para amigos próximos para, sorrateiramente, colher algumas impressões. E foi aí que as coisas começaram a acontecer. Momentos que precedem a exposição de nossa intimidade, sempre são tensos, mas o que me chamou a atenção, foi uma certa estranheza compartilhada pelos meus. “Por que escrever essas coisas nada a ver com a sua trajetória profissional? Como assim você vai falar sobre reflexões? Ah, gostei, mas não entendi o porquê de começar a escrever isso”… Diante de tantas dúvidas, achei que essas reações eram a gota necessária para sufocar qualquer medo ou insegurança.

            Do primeiro texto até hoje, eu percebi que a escrita é como atividade física. Quanto mais eu exercito, mas forte ela se torna… e me fortalece. Hoje, depois de muito relutar, me aceito como escritor. E isso não tem relação com as milhares de palavras que foram escritas até aqui. A aceitação do meu eu escritor só foi sedimentada a partir do instante em que percebi que não se tratava, apenas, de publicar textos semanais que alcançavam um número indefinido de leitores. O escritor nasceu quando percebi que, para além da escrita, eu havia criado conexões. E foram elas que me levaram do virtual para os livros.

            E foram essas conexões que me fizeram alçar muitos voos para longe dos meus domínios. Conexões que trouxeram o frescor do desafio e o frio na barriga provocado pela incerteza. Conexões que permitiram que um cara disperso e com dificuldades de realizar uma tarefa de cada vez, conseguisse, de forma quase religiosa, escrever uma coluna semanal a quase três anos. O sonho, a incerteza, a cara de pau, a coragem, a sorte, um pouco de talento, alguma angústia, alegrias indescritíveis e muito trabalho duro me trouxeram até aqui. E onde é esse lugar? Não sei. A única coisa que consigo dizer é que esse relato em primeira pessoa me permitiu um reencontro com aquele sonhador que não fazia ideia de onde estava se metendo, mas sabia que deveria seguir em frente.

            E, diante de um dia tão especial, onde faço a minha estreia como autor na Bienal Internacional do Livro, seria impossível não agradecer aos que leem e se conectam comigo há 150 semanas. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado por tanto.

Marco Rocha.

Amor em tempos de ignorância

          Muitas são as lições que recebemos ao longo do tempo. Mas, dentre as principais estão: só o amor é capaz de nos transformar, só o amor pode nos salvar, só o amor pode nos tornar, verdadeiramente, felizes. Independente de tudo o que aprendemos sobre este nobre sentimento, todos nós concordamos em, pelo menos, um ponto: Amor é entrega. É algo que sentimos, não para manter guardado, mas, para distribuir e contaminar tudo ao nosso redor. Porém, como fazer isso em tempos onde a intolerância nos envenena? Como compartilhar o amor em tempos de ignorância?

        O amor é, essencialmente, um sentimento que depende dos sentidos. Precisamos enxergar, tocar, cheirar, sentir o gosto e ouvir todas as coisas e pessoas que nos farão cair de amores ao longo da vida. Abraços apertados aproximam para além dos limites físicos. Cheiros nos fazem viajar no tempo. Sabores ficam gravados em nossa memória para sempre, assim como as canções que embalaram as estórias que permitiram ser quem somos. O amor se alimenta dessas experiências. Sempre foi assim. Até agora.

          Já faz algum tempo que o amor, por si só, não transforma tudo aquilo que toca. Passamos grande parte da vida idealizando esse sentimento. Tanto que ficamos reféns de algo que desejamos muito, mas que, também, temos muita dificuldade de entender. O amor se transformou numa caça ao tesouro, só esqueceram de contar qual é o seu verdadeiro brilho. E, diante da ausência de uma face óbvia, começamos a duvidar um pouco de sua existência e, sobretudo, da força transformadora desse sentimento tão necessário.

           Esse ceticismo que pôs o amor em cheque, fortaleceu traços que jamais deveriam ficar fora de controle, como a inveja, a intolerância e a desconfiança. Combustíveis prontos para acender a chama da ignorância que, nos dias de hoje, parece não conhecer limites. E, em paralelo, a vida moderna nos oferece, cada vez mais, uma forma de viver onde a troca de experiências é opcional. Comemos sozinhos, não saímos de casa para comprar pão, não ouvimos mais a voz do outro e não observamos o sol se pôr, sentindo a brisa nos tocar carinhosamente

       Fazemos isso pela tela de um equipamento eletrônico que pretende encurtar distâncias, mas que está, cada dia mais, criando barreiras praticamente intransponíveis. Barreiras que nos impedem de ver, sentir, tocar e ouvir o que o outro tem a nos dizer. Abrindo caminho para que a única fonte de interação com o mundo, seja a nossa própria voz e a nossa forma de pensar. Criando distâncias desnecessárias que, quando somadas, formam um grande e perigoso labirinto de ignorâncias.

       E o amor, que precisa de pontes para se estabelecer, se perde nesse emaranhado de estradas desconexas, onde todo mundo fala, mas ninguém se escuta. É chegada a hora de quebrar esses muros e criar pontes onde o amor possa circular e celas, onde a ignorância possa repousar sem nos fazer mal. Será que isso é pedir muito?