Livre, leve e solto

Estar livre, leve e solto, é algo muito desejado, mas que, infelizmente, nem sempre é possível. Em outras palavras, queremos uma sensação de liberdade onde nada mais importa, além da nossa própria vontade. Mas se, em tese, não vivemos escravizados, por que, então, buscamos algo que já temos? É neste ponto em que somos obrigados a encarar uma das verdades que regem, especialmente, a vida adulta: não somos senhores absolutos de nós mesmos. Por mais que se acredite no contrário…

A vida segue um ritmo próprio e nós somos tragados por esse fluxo. E, para não nos perdermos no meio da caminhada, lançamos linhas imaginárias que nos ajudam a construir referências e criar vínculos. Dessa forma, ao mesmo tempo em que as linhas ajudam a criar identidade, também nos envolvem e, ora servem como guias, ora servem como âncoras.

É evidente que não conseguimos perceber esse emaranhado imaginário, mas fatalmente sentiremos seus efeitos em algum momento. Especialmente quando pretendemos tomar decisões ou mudar perspectivas, mas sentimos que algo nos prende ou impede que sigamos novos desafios. Essa dificuldade em se movimentar para onde se deseja, é o que nos dá a medida do quanto podemos estar presos aos nossos próprios laços. E como estabelecemos limites que nos impedem de ir aonde bem entendermos, mesmo estando aparentemente livres.

A conquista de um emprego, relacionamentos, filhos, amigos e todas essas conquistas pessoais e que são comuns a imensa maioria de nós, criam os tais vínculos que tanto buscamos e, na mesma medida, diminuem a amplitude dos nossos movimentos quando pensamos em nos jogar em novas aventuras solo. Reparem que atar-se ao que quer que seja, não é ruim. É apenas um dos sinais de que, ao longo da vida, nos comprometemos com nossas escolhas. Isso, sim, nos acompanhará sempre e para sempre.

Então, seria correto dizer que a tal liberdade só está disponível para aqueles que não se comprometem? Não. Mas estes, certamente, levam uma certa vantagem. A grande questão não está relacionada ao número de vínculos que formamos e, sim, a ideia de que somos livres para fazermos o que quisermos, quando bem entendermos. Você pode até acreditar nisso, mas, em algum momento, verá que romper seus laços não será simples como dizem por aí.

Reparem que não estamos falando de um problema, mas sim, da percepção dos nossos limites e da noção que carregamos sobre o que é liberdade. Ser livre é, antes de tudo, uma atitude interna, que não depende de nada além da nossa vontade. E isso é transformador, uma vez que esse sentimento é capaz de promover mudanças tão profundas, que podem alterar rumos aparentemente inalteráveis, independente do novelo de linhas que nos envolve.

A liberdade que buscamos não está no outro e não está no descompromisso. A leveza do ser livre ultrapassa convenções. A leveza do ser livre independe das linhas que carregamos, dos vínculos que fazemos ou deixamos de fazer. Ser livre, leve e solto é perceber que a liberdade mora no que é simples, no que é fácil e naquilo que nos permite enxergar além dos frágeis nós que nos atam.