Do lado de dentro

Fique em casa. Esta é a frase do momento e não é à toa. Ficar em casa em tempos de pandemia, significa muito para quem pode ficar, assim como, para quem precisa sair. Mas, para além do óbvio, ficar em casa permite, não apenas, salvar vidas, mas, também, frear o movimento com o qual estávamos habituados. Movimento que sempre indicou portas de saída, mas, esqueceu de sinalizar as áreas de descanso. Estar em casa compulsoriamente, resgatou uma nova perspectiva para a nossa existência. Estamos do lado de dentro, vislumbrando a vida passar em outra velocidade e que, pouco a pouco, nos faz apagar da memória, alguns detalhes de como éramos antes disso tudo acontecer.

Enxergar a realidade através de portais, não substitui, de forma alguma, a sensação única que é vivenciar in loco e sem amarras, as experiências que a vida tem para nos mostrar. Mas, por mais que nos desagrade, é preciso entender que este internato repentino, nos faz rever conceitos, redimensionar escolhas e conhecer as pessoas que nos tornamos, mas que, ainda, não tivemos tempo de conviver tão intensamente. Para muitos de nós, o isolamento trouxe uma grata e necessária surpresa: a possibilidade da auto convivência.

Pode parecer um tanto estranho, mas, pensem comigo, quantas vezes tivemos a chance de não precisarmos agradar a ninguém, além de nós mesmos? Quantas vezes tivemos a oportunidade de não ter que dizer sim, quando tudo o que queríamos era, na verdade, dizer não? Em quais outros momentos de sua vida adulta, foi possível parar e admirar a passagem do tempo, sem medo ou culpa? Há quanto tempo não desfrutávamos da nossa própria companhia de forma tão simples e descompromissada? Responder a estas perguntas pode ser um bom passatempo em época de quarentena…

Passamos tempo demais apostando uma corrida contra oponentes criados pelo estilo de vida que escolhemos viver. Acreditamos que, se não for preciso correr, é porque algo não está indo bem. Nos tornamos a única espécie que renuncia ao descanso de forma voluntária. E fazemos isso com tanta habilidade, que passamos a acreditar que o repouso é a recompensa dos fracos. Talvez devêssemos aprender mais com os animais que sabem muito melhor que nós que, a velocidade é uma necessidade eventual e não, uma regra. Correr demais é deixar de enxergar a beleza que mora nos detalhes.

Seria mais fácil baixar a guarda e deixar que o mundo nos abraçasse com o seu ritmo natural, porém, passamos tanto tempo correndo em disparada, que sequer lembramos, como é ser dono do nosso próprio tempo. Por isso, pare, contemple, respire e se reconheça. Retire as máscaras, abandone os personagens e aceite suas virtudes e imperfeições. É difícil dizer se teremos mais uma chance de poder mostrar ao mundo, mesmo sem sair de casa, que somos feitos de cabelos despenteados, de cara lavada, de corpos naturalmente felizes e cobertos por roupas confortáveis. Não deixe passar a oportunidade de mostrar ao mundo que a melhor matéria-prima da humanidade é, e sempre foi, a nossa simplicidade.

Quarentena

Quarentena. Distância. Isolamento. A forma como vamos nomear esse período da nossa história, de fato, pouco importa. Afinal, de que adiantará nomear um fato, se não tentarmos entender o seu significado? O que temos de concreto, até agora, é que uma realidade, totalmente inesperada, nos apartou do mundo com o qual estávamos acostumados. Alterando a ordem das coisas que faziam parte do nosso cotidiano, tão cheio de regras e programações. Lidamos com uma novidade intragável que chegou para mostrar a todos que não temos controle sobre absolutamente nada.

É bem verdade que já nascemos com planos traçados, fomos criados para buscar conquistas e assumir o controle de nossas vidas. E, por conta disso, passamos a nossa existência tratando uma ilusão, como uma verdade absoluta. Acreditamos que tudo passa pelo nosso desejo e, quando algo de errado acontece, assumimos a culpa pela nossa desatenção. Controle, controle e controle. Não fomos programados para duvidar desse suposto dom que nos permite domar os nossos destinos. Até que, quando menos esperamos, o destino encarrega-se de nos mostrar quem manda…

Estamos diante de algo que nos afeta coletivamente. Mas, como agir de forma coletiva, se passamos anos acreditando que só dependemos de nós mesmos para chegar onde queremos chegar? Diante deste cenário surreal, apenas uma opção parece ser razoável: abandonar nossos egoísmos injustificáveis. Não, não é fácil abrir mão, de uma hora para outra, de toda aquela farsa bem montada sobre como somos únicos e especiais.

Essa realidade, que engoliu a todos, nos obriga a aprender, da pior forma, que sempre estivemos errados. Vivemos um pesadelo para o qual não há saída individual possível e, negar esse fato, só nos trará angústia, desesperança e dor. Essa realidade bizarra impõe, de forma impiedosa, que mudemos o nosso olhar, as nossas crenças e hábitos e deixa claro que, dia após dia, não terá misericórdia daqueles que tripudiarem de sua força. Isso pode parecer exagero para alguns, afinal, vivemos um período onde a incerteza é a palavra de ordem, logo, se nada sabemos, não há motivo para pânico, certo? As respostas estão nos fatos.

O confinamento não está na lista de desejos de ninguém. Mas, viver bem está. O distanciamento jamais foi uma opção de felicidade, mas, a liberdade, sim. A privação de afetos nunca esteve em nossos planos, assim como qualquer coisa que nos mantivesse afastados de tudo aquilo nos é precioso. Não sabemos lidar com esse turbilhão de frustrações que se abateu nobre nós. Simplesmente, não sabemos. Nem nos sonhos mais nebulosos, seria possível conceber que, algum dia, seríamos privados dos olhares cúmplices, do toque acolhedor, do cheiro da intimidade e da gargalhada que alegra a alma.

As nossas ausências são importantes, mas, nesse momento, é fundamental perceber que fomos reconectados a partir da dor e que o nosso distanciamento é a única ponte que nos levará de volta aos nossos afetos. Levaremos tempo para entender os efeitos colaterais provocados por esse pandemônio, mas, o tempo, é justamente o que nos falta neste momento. O que fazer, então? Transformar, com coragem, as nossas fraquezas em fortalezas. Abdicando da nossa ilusória autossuficiência e abraçando a potência da coletividade. Talvez esta seja a nossa grande e única chance de chegar ao fim desse longo, doloroso processo, acreditando que, um dia, muito em breve, tudo isso há de passar.