Geração mi, mi, mi

Carregamos conosco, em algum grau, os resquícios de um comportamento que se arrasta desde tempos coloniais, onde fomos levados a crer que, jamais seríamos capazes de assumir qualquer protagonismo. Fomos, e continuamos sendo, servos subjugados, convenientemente forçados a alienação, por aqueles que ditam as regras e não toleram contrariedades. Por esta razão que, toda e qualquer forma de resistência sempre foi desacreditada, mas, ultimamente, o ato de resistir foi categorizado de forma rasa e, todos os envolvidos neste movimento foram, ridiculamente, batizados de geração mi, mi, mi.

           Uma onomatopeia péssima que coloca na vala comum, entre o deboche e o descaso, toda e qualquer forma de resistência. Especialmente, quando a resistência vem de um povo que nunca conheceu privilégios, mas que foi talhado para acreditar que, algum dia, suas vidas seriam um bom lugar para se viver. Por séculos, as elites brazucas foram criadas aos moldes da realeza, onde seus membros interagiam exclusivamente entre seus pares, igualmente privilegiados. Ignorando tudo que os remetesse a pobreza, falta de educação ou a “falta de modos”.

        Os velhos códigos de comportamento daqueles que sempre tiveram tudo, escancaram hoje, aquilo que sempre esteve entrincheirado durante muito tempo. O horror de que, um dia, a base da pirâmide percebesse que o seu suor e a sua dor, sustentaram luxos, desmandos e opressão. Durante muito, muito tempo, foi assim que tudo se manteve. Os abastados privilegiados de um lado e a massa pobre e sem acesso a direitos básicos de outro. Essa distorção perversa se manteve imune a qualquer tipo de mudança… até agora.

      Essa pirâmide de partes desiguais, apresenta uma perigosa porção mediana. Formada por aqueles que sempre estiveram mais próximos da base do que do topo, e que encontram dificuldades para perceber seu verdadeiro papel nesta novela. E, por isso, são facilmente manobrados por quem manda de fato. Iludidos por sonhos de grandeza, os ingênuos mal-intencionados são capazes de tudo para não desmanchar seu ideal de sucesso que, na verdade, não passa de um frágil castelo de cartas prestes a desabar. Para muitos que formam essa classe mediana, pequenos sacrifícios são necessários para chegar ao tão cobiçado topo. Como negar as próprias origens e aceitar desmandos. Mas, se isso os levar onde querem, vale o risco.

         Porém, diante de tamanho desalento onde os que tem menos, a cada dia, são privados ainda mais do pouco que os resta, uma onda oxigenada ganha corpo e grita a plenos pulmões: BASTA! Negros, gays, mulheres, pobres, favelados, portadores de deficiências, trabalhadores escravizados e todos aqueles que foram, de alguma maneira, excluídos pelo modo de vida que nos foi imposto, ganharam voz. E essa voz grita contra as ofensas disfarçadas de piadas, contra a violência banalizada, contra a exclusão como forma de poder e, por fim, contra tudo o que possa impedi-los de serem quem são. Então, se a luta por igualdade e equidade nos transforma em geração mi, mi, mi… Benditos sejam estes novos tempos.