Farinha pouca, meu pirão primeiro

Saio de casa apressado, vejo uma vaga reservada para deficientes e estaciono. Tudo bem, é rapidinho. Um lugar preferencial fica vago no transporte público, me sento. Na estação seguinte, entra uma senhora com necessidades especiais e subitamente sou acometido por um sono profundo. Tudo bem, trabalhei o dia inteiro, estou exausto e mereço o lugar. Furo o engarrafamento pelo acostamento, dou troco errado, não pago a conta quando saio com amigos, fumo em lugares proibidos… Para todas essas atitudes sempre há uma explicação possível, logo, qual é o problema em quebrar as regras de vez em quando, sem maiores consequências? Para muitos, nenhum problema e vida que segue.

Quem nunca cedeu aos encantos da quebra de regras, que atire suas pedras imaginárias. Agir como se ninguém estivesse olhando, para pegar atalhos que nos favoreçam de alguma forma, é uma constante na vida humana. Assim, quando compreendemos que o mundo se divide entre o privado e o coletivo, achamos por bem, muitas vezes, encurtar distâncias no território ocupado por muitos, para garantir, de forma sonsa, que não estamos fazendo nada demais…

É neste ponto onde o “jeitinho” se estabelece. Quando sabe-se o caminho certo para chegar onde quer que seja, porém, é possível usar de subterfúgios para tornar esse trajeto mais rápido, fácil e adequado aos próprios planos. Assim, muitos seguem suas vidas, preocupados cada vez mais com o “seu” e completamente desinteressados pelo “nosso”. Mas é, de fato, um problema pensar dessa forma? Sim, é.

Todas as vezes em que assumimos que a nossa persona deve ocupar o lugar mais importante e que, o restante das pessoas não faz diferença, outros tantos irão replicar a mesma forma de pensar e, nesse caso, possivelmente, será você o excluído da melhor parte do bolo. O que significa dizer que, se todos usarem o dito popular “farinha pouco, o meu pirão primeiro”, como lema de vida, em algum momento irá faltar pirão para dividir entre todos.

Essa forma unilateral de ver o mundo, valoriza o individualismo, além de segregar as pessoas de suas relações. E, em maior grau, provoca distorções de comportamento, capazes de criar realidades paralelas onde nada, além de você, é importante o suficiente para merecer atenção.

E para onde essa estrada nos levará? Difícil dizer qual será o destino, mas não há dúvidas de que o caminho até lá será repleto de pequenas, médias e grandes corrupções, puxadas de tapete e, claro, algum sofrimento… Alheio. Seguir a cartilha do “primeiro, eu”, diz muito sobre quem somos em detalhes e, expõe de forma muito clara, o papel que desempenhamos em nossas relações. O excesso de querer, normalmente, cria montantes que serão usufruídos individualmente, deixando de lado, um grupo de excluídos que sonha em chegar àquele lugar, assim que tiverem chance. Estabelecendo, dessa forma, um ciclo egoísta onde, quem está dentro, não sai e, quem está fora, aguarda ansiosamente, uma chance para entrar.

Essa triste perpetuação do individual sobre o coletivo, gera abismos de todas as naturezas, diferenças irreconciliáveis e barreiras que impedem a conexão entre as pessoas. Todos querem e merecem realizar seus desejos. Isso não pode, jamais, ser um problema. A grande questão está relacionada a forma escolhida para chegar lá. Querer mais e realizar grandes feitos, sempre será um mérito coletivo. Acreditar no contrário é leviano e ilusório. Afinal, seguir em frente, usufruindo a vida, é muito melhor quando estamos, sinceramente, bem acompanhados.