Extremos insanos

Pensando sobre todos os acontecimentos recentes, em que somos estapeados a cada segundo por situações que beiram a barbárie, me dei conta que, a simples expressão de uma opinião, pode deflagrar confrontos de consequências imprevisíveis. Diante disso, é inevitável tentar buscar respostas que justifiquem o porquê de tamanho descontrole. Esse questionamento dispara um gatilho de dúvidas que nos fazem desconfiar da nossa própria percepção da realidade. Vivemos em extremos insanos onde é preciso escolher lados e bandeiras, caso contrário, é melhor não atrapalhar a massacrante opinião alheia.

Será que todos sempre foram assim, intolerantes? Será que os limites se romperam, criando polos, distantes o suficiente, para nublar os filtros que formam o nosso bom senso? O que é perceptível neste momento é a divisão que se instaurou nas relações. Se você ama vermelho, jamais poderá usar azul. Se prefere o frio, nunca poderá aproveitar dias de sol na praia. Essa distorção na forma de ver a vida, cria um ringue onde amigos viram adversários e opositores transformam-se em inimigos de morte. Esse absurdo promove rachaduras desnecessárias no que antes era íntegro, equilibrado e precioso.

Que vivemos uma dicotomia desproporcional, não resta dúvidas, mas, o que fazer para revertê-la? Percebo que a cada dia, as distâncias entre pontos de vista aumentam e jogam para escanteio toda e qualquer possibilidade de diálogo. Isso não é razoável. Desde quando nos tornamos impermeáveis a opiniões que não têm a menor pretensão de guerrear e, sim, propor diálogos? Desde quando fomos tomados pelo cinismo que nos faz achar que está tudo bem, enquanto desfazemos, em poucos instantes, laços que demoraram anos para serem atados?

Talvez sejamos parte importante desse movimento indiscriminadamente excludente. No instante em que nos sentimos contrariados por essa polarização e nos calamos, nos tornamos responsáveis por sua manutenção. De nada adianta apontar dedos para todos os lados, distribuindo culpas e rugindo reclamações, se escolhemos nos manter alheios. A omissão dos insatisfeitos é o combustível perfeito para os extremistas cheios de razões.

Mas acreditem, há algo de bom nessa onda de ódio gratuito e intolerância desmedida. Se por um lado perdemos o filtro social que sustenta a maioria das relações, ganhamos em transparência. Agora é possível enxergar perfis para além dos filtros virtuais e dissimulações reais. Como lidar com isso ainda é um desafio, o que não justifica a nossa permanência em um dos extremos rígidos que limitam a nossa percepção de mundo. Nadar contra essa corrente que nos foi imposta é a melhor resposta que pode ser dada a triste falta de compaixão que se espalha por todos os cantos.

Estabelecemos os nossos extremos à medida que avançamos e acumulamos experiências. O que significa dizer que esses limites mudam de acordo com a nossa disponibilidade em conhecer as margens opostas. Ficar estacionado em uma das extremidades nos impede de enxergar e, principalmente, compreender como seria o mundo visto por outra perspectiva. É chegada a hora de procurar o caminho do meio, onde os extremos se reconhecem e andam lado a lado.