É preciso falar de amor

Muito já foi dito e muito mais ainda está por vir quando o assunto é amor. E é fácil entender o porquê de tanto alarde sobre esse sentimento. Ele agrega formas de sentir tão distintas, que fica impensável viver e não falar dele. É impossível se relacionar sem que se perceba que, em algum momento, será preciso falar de amor.

Quando pensamos em amar, o amor romântico ganha destaque. Mas é injusto que este seja sempre o mais falado, o mais desejado e o mais obsessivamente procurado por nove entre dez mortais. Há muitas formas de amor que, consequentemente, criam diversas possibilidades de amar. O amor religioso, por exemplo, diz que o próximo é o objeto onde devemos aplicar a nossa capacidade de amar. Já o amor fraternal, indica que todos são capazes de amar uns aos outros como irmãos. Os egoístas diriam que não há nada melhor do que amar a si próprio e os abnegados preferem amar a todos, desde que eles fiquem de fora da lista…

Reparem que, independente do tipo, para que o amor exista, serão necessários os seguintes atores: a fonte, o alvo e o retorno. É preciso que haja alguém disponível para amar, uma outra ponta para receber esse amor e transferi-lo de volta para sua origem. Essa é a receita clássica para que as relações baseadas nesse sentimento deem certo. Mas, em se tratando de amor, nada é tão simples. Esse fluxo de energia que parece muito óbvio, pode, e vai, encontrar muitas alterações em sua forma e conteúdo, até que chegue ao seu destino final. É confuso? Muito. Mas amar sempre foi e, continuará sendo, um desafio.

Começando do início. Aprendemos, desde cedo, que o amor é algo bom, que devemos sentir sempre ou, pelo menos, tentar tê-lo por perto. Mas com o passar do tempo, nos tornamos fontes capazes de gerar amor em intensidades muito diferentes, pois, à medida que crescemos, somos obrigados a dividir esse sentimento com muitas pessoas e de formas muito particulares. Amamos nossa família, amigos, cachorros, parceiros, profissão e tudo mais, de formas muito diferentes. A origem do sentimento é a mesma, porém os alvos mudam o tempo todo. O que torna imprevisível saber qual é o tipo de retorno que teremos a partir do amor que ofertamos.

Talvez seja neste ponto onde as coisas começam a ficar interessantes, para dizer o mínimo. Poucos duvidam de sua capacidade de amar, o que nos diferencia é a forma de expressar esse sentimento. Até aí tudo bem pois,  neste quesito, somos nós quem mandamos. Cada um de nós sabe do seu potencial para amar e para onde ou para quem, iremos transferir este nobre sentimento. A coisa sai dos trilhos quando deixa de depender da nossa vontade. Ao focarmos um alvo, transferimos a bola para outra pessoa e, é ela, quem vai decidir se nos devolve o passe, se esquiva, ou passa para outro…

Isso pode dar início a uma partida sem fim, onde não sossegaremos até que o passe caia redondo nos pés de alguém e esse alguém faça um gol de placa, retribuindo, assim, todo o amor que tanto queríamos. É claro que, muitas vezes, isso não acontece e partimos para novas possibilidades, novos jogos e novos passes. As vezes conseguimos isso com facilidade, mas, normalmente, demoramos a entender que a bola que tratamos com tanto carinho, jamais voltará para os nossos pés.

Pensar dessa forma, nos ajuda a entender que amor, antes de tudo, precisa ser uma atitude individual. É primordial que, antes de amar ao que quer que seja, tenhamos em mente que nós somos a fonte que pode gerar amor. Não apenas aquele que transborda para alvos externos, mas sim, aquele que nos alimenta, nos fortalece e permite que enxerguemos o mundo sob vários pontos de vista. E, em tempos difíceis como agora, nunca foi tão importante falar, praticar, aceitar e retribuir amor.