E daí?

            Os dias avançam de um jeito incomum, como se tivessem rompido o contrato do com tempo. Ora, avançam numa velocidade espantosa, ora arrastam-se perturbadoramente lentos. E, no meio desse limbo temporal, estamos todos nós, alternando momentos de euforia com tristeza, otimismo com desesperança e ingenuidade com dureza. É um período tão denso que nos impede, até, de perceber a passagem do tempo. Nossa, que forma triste de começar um texto. E daí que muitos morrem? E daí que há um vírus? E daí que o mundo mudou? E daí?… – Triste realidade onde há coragem para essas perguntas.

            Fomos capturados por um redemoinho de emoções, onde passamos os nossos dias entre a superfície e as profundezas, calejando os nossos corações diante de uma realidade insana que se abateu sobre todos nós. Fomos atingidos por um meteoro desconstruído, que abandonou o formato colossal e assumiu uma forma microscópica invisível, mas, com a mesma capacidade de deixar um rastro de destruição por onde passa. Mas, e daí? Pandemias que provocam mortes não chegam a ser uma novidade. – Outros tantos podem se perguntar, mas, eu me pergunto, quantas dessas catástrofes, você já viveu?

            É curioso ver muitas pessoas, quando confrontadas com dados frios e contundentes, negarem os fatos. Entendo que, para algumas, essa é uma forma de autoproteção, afinal, não é fácil absorver tantas desgraças em tão pouco tempo. Mas, para muitos outros, negar fatos incontestáveis, nada tem a ver com a dificuldade de assimilar a dor. Se, negam, minimizam ou desqualificam os dados, o fazem por puro cinismo e desrespeito com aqueles que, infelizmente, foram atingidos em cheio por essa catástrofe. Mas, esses números não param de crescer, muitos vão morrer. E daí, fazer o que? – …

        Esse tipo de depoimento nos insulta da forma mais odiosa possível. Essas expressões de desumanidade, pensadas friamente para nos adoecer a alma, devem ser combatidas com indignação, sim, mas, sobretudo, devem ser alvo do nosso desprezo e horror. Alguns portadores da indiferença e do ódio, destilam o seu rancor pelo próximo, pedindo que deixemos de ser essa minoria barulhenta que adora reclamar de tudo, que paremos de carregar mortos nas costas, que voltemos a sorrir e, a despeito de todo o sofrimento que nos devora, que sejamos leves… Até quando falaremos – e daí? – para todo esse horror?

            Os nossos tempos, certamente serão objeto de estudo nos anos que estão por vir. É difícil saber qual será o olhar que as futuras gerações terão sobre o que vivemos neste tempo presente. É complicado imaginar seus pensamentos sobre como fomos capazes de lidar com toda essa dor. Mas, mesmo que seja apenas um exercício de futurologia, sem nenhuma efetividade, há comportamentos que ficarão registrados para sempre. A história se encarregará de marcar os cínicos e perversos com uma legenda que expressará toda a sua desimportância. Assim, quando nossos descendentes se perguntarem quem foram, a resposta será simples – E daí? Esses insignificantes não merecem atenção.”

Isolamento e empatia

Há momentos na vida em que estamos diante de uma série de situações com as quais não sabemos lidar. Situações difíceis onde somos obrigados a tomar decisões que, normalmente, não são nada fáceis. Quase sempre erramos? Sim, mas, são essas horas complicadas que nos ensinam a enxergar a vida por diversos prismas. E, quando isso acontece, poucas atitudes são tão sensatas quanto parar, pensar e tentar entender que, diante de algo grandioso demais, é preciso recuar e aceitar que isolamento e empatia podem ser grandes parceiros.

Vivemos tempos muitos estranhos, não é de hoje. Os últimos anos provocaram uma verdadeira avalanche de acontecimentos difíceis de digerir, mas, talvez, nada tenha sido tão emblemático quanto o que vivemos agora. Tateamos no escuro em busca de uma fresta que nos guie até a luz de um entendimento possível, mas, ao invés disso, nos aprofundamos ainda mais numa espécie de escuridão sorrateira e difícil de vencer. Em um ano que começou com ameaças de guerra, nos deparamos agora, com uma batalha as avessas.

Lutamos contra um inimigo de baixa letalidade, porém, capaz de estragos imensos. O mundo está de ponta a cabeça, seja por necessidade ou por alarde. Não sabemos exatamente como agir, mas, de uma coisa ninguém duvida: É preciso fazer alguma coisa. E logo. Corremos riscos de adoecer, apesar de sabermos que é possível evitar um cenário de sofrimento, que ameaça se formar bem diante de nossos olhos. Como evitar o pior? Simples, colocando-se em reclusão voluntária é uma boa pedida. Coisa que, infelizmente, não é tão simples quanto parece ser.

Uma decisão que, para muitos, é bastante fácil, para outros, pode exigir enormes sacrifícios. A razão para isso, inevitavelmente, nos leva a perceber que a questão vai muito além da tentativa de se manter saudável. Recuar para uma saída estratégica afeta brios, orgulhos, ética e, sobretudo, o conceito que cada um de nós tem sobre coletividade. Até que ponto estamos dispostos a renunciar às nossas liberdades individuais, para assegurar o bem estar coletivo?

Reclusão não trata, apenas, da retirada de pessoas de seus espaços habituais. Sair de cena pode se tornar uma decisão dificílima quando conseguimos enxergar, somente, o nosso próprio umbigo. Nosso inimigo é desconhecido, mas, nem tão perigoso assim, se entendermos o que é preciso ser feito para que esta crise não se transforme em catástrofe. O que inclui o controle do pânico. Não há nada pior que desinformação e medo caminhando de mãos dadas. O efeito dessa união é o motor que nos leva a desabastecer mercados, buscar terapias alternativas e ineficazes e ignorar a importância de quem está do nosso lado, mesmo que sejam desconhecidos.

Nada pode ser mais nocivo, especialmente em períodos difíceis, do que a incapacidade de perceber a necessidade do outro. Em momentos sombrios e confusos como estes, a terapia mais eficaz, ainda é, o exercício da empatia. Seu poder é tão grande, que não há pandemia capaz de suportar o poder de cura por trás do cuidado com o próximo. Mesmo que esse cuidado inclua sair de cena. Quando o todo percebe a sua força coletiva, não há moléstia que perdure para sempre.