Desejo versus realidade

Depois de um tempo, muitas das nossas convicções mudam e, coisas em que acreditávamos transformam-se em rascunhos esmaecidos pelo tempo. A melhor prova disso está relacionada a um simples comportamento infantil, mas que adoramos repetir inúmeras vezes ao longo da vida: O que eu vou ser quando crescer? Essa parece ser a melhor síntese daquilo que passamos anos tentando compreender: desejo versus realidade.

Dentro dessa pergunta cabem muitos sonhos, muitas incertezas e muitos desejos. Queremos tantas coisas e pensamos nisso o tempo todo mas, o que conseguimos concretizar a partir dos nossos desejos? Não há como saber ao certo, uma vez que somos pródigos em desejar, pedir e esperar que esses desejos sejam alcançados. Mas, na realidade, pouco importa o que foi conquistado de fato. O mais interessante é perceber o quanto somos capazes de mudar e nos adaptar diante daquilo que conseguimos construir a partir disso.

Apaixonar-se é um bom exemplo para falar sobre isso. Na maioria das vezes, idealizamos tudo. Da casa que queremos a empresa onde gostaríamos de trabalhar. E com as pessoas não é diferente. Projetamos desde a embalagem até a forma de pensar e, como seremos especialmente felizes, ao lado do mais novo amor das nossas vidas. Tudo deve cumprir o nosso tão exigente controle de qualidade. Quem nunca se viu nessa situação? E vamos além. Quem de nós pode afirmar que esta projeção transformou-se, de fato, em realidade, exatamente como imaginamos? Difícil…

Mesmo sabendo que nada disso funciona como planejamos, insistimos nessa ilusória sensação que, de alguma forma, conseguiremos ter um pouco de controle sobre os nossos desejos. É nessa batalha interna entre a causa e o efeito, que experimentamos o inesperado.

Sempre que vislumbramos um ponto de chegada, precisamos ter em mente que não sabemos o que vai acontecer após o primeiro passo. A vida nos mostra que há inúmeras formas para se chegar onde se quer mas, jamais, saberemos como será ao certo. São muitas variáveis que vão muito além do nosso simples desejo e, não contar com isso, pode ser um grande engano.

Voltemos ao exemplo da paixão. Quando nos deparamos com alguém que, mesmo superficialmente, preenche os requisitos do nosso desejo, imediatamente, começamos a tentar por em prática, todo o planejamento que passamos anos organizando. Às vezes dá certo por um tempo mas, como em todo bom plano, é preciso estar pronto para os imprevistos…

É nesse ponto em que somos capazes de sentir os efeitos daquilo que não podemos controlar. E, por mais óbvio que isso possa parecer, não levamos em conta que a nossa vontade é apenas parte de uma reação que, para dar certo, precisa de uma parceria que a complemente.

Mas, infelizmente, as coisas mais claras nem sempre são as mais fáceis de enxergar e, por isso, tentamos impor o nosso plano mirabolante e nos esquecemos que, do outro lado, existe alguém pronto para fazer mesmo. Talvez esteja aí a grande mágica disso tudo. Podemos planejar os nossos desejos mas, não saber como chegaremos lá, nos permite desenvolver um certo jogo de cintura que pode facilitar a nossa caminhada.

Reclamamos muito da vida e das dificuldades que ela nos apresenta, mas a responsabilidade de parte das nossas frustrações, possivelmente, esteja relacionada a dificuldade que temos em flexibilizar a forma como tentamos transformar sonhos em realidade. Para evitar que nossas vontades não passem de projeções vazias, precisamos entender e aceitar que existem mil possibilidades entre o desejo e a sua realização.