Conversas com os meus

            Na última semana, ao arrumar caixas antigas, me deparei com muitas referências de pessoas com quem compartilhei sonhos, dores, amores e esperança. Percebi que, à medida em que as fotos amareladas surgiam, novos fragmentos de memória pulavam, exibidos, diante de meus olhos, querendo mostrar que aquele momento era mais importante que todos os outros anteriores. E, sem me dar conta, passei horas em transe, em um interminável ciclo de conversas com os meus velhos eus.

            Sim, velhos. Apesar das imagens mostrarem uma juventude recheada de colágeno e de figurinos de gosto duvidoso, aquele garoto, adolescente magrelo, jovem rebelde e adulto esperançoso são, todos, velhas versões de mim. Versões que teimamos em deixar presas dentro de caixas, longe dos olhos alheios, longe das nossas lembranças. Estamos pré-programados para viver o hoje como se o amanhã não fosse chegar, deixando de lado, os registros daqueles que já habitaram nossas peles, mas, que, sabe-se lá o porquê, foram relegados ao um esquecimento consentido.

            Fotos antigas trazem informações para muito além das imagens. Olhar para aquele rosto de outros tempos, revela alguns dos pontos que marcaram as nossas trajetórias. O que dizer para aquele jovem emocionado no dia da sua formatura? O que será que pensava aquela criança sentada no chão da sala, comendo um pacote de biscoitos? Quais eram as expectativas dela ao rever as fotos do seu casamento? Difícil saber ao certo, mas as imagens de outrora são bem mais que simples recordações. Rever as imagens de nossos eus é, antes de tudo, reviver os antigos passos que nos trouxeram até aqui.

            Fazer uma imersão em nosso museu particular, traz uma gama de emoções que se alternam entre amor e ódio, esperança e frustração, euforia e tristeza. Visitar registros do passado, nos permite criar uma nova perspectiva sobre nós mesmos. Uma perspectiva que desafia nossas escolhas presentes e nos faz pensar em como as decisões tomadas por aquelas pessoas eternizadas em fotos amareladas, foram responsáveis por tudo aquilo que nos tornamos, para o bem ou não.

            Visitar nossas versões anteriores, ajuda a entender como a vida é dinâmica e como somos capazes de nos adaptar a situações que nunca imaginamos viver, até sermos postos à prova. Somos testados, resistimos e nos transformamos. Unimos o que já conhecíamos a novos detalhes e, assim, conhecemos um novo eu para chamar de nosso. Dessa forma, vamos tecendo uma grande colcha de retalhos que nos protege, desafia e impulsiona a seguir em frente, criando novas e melhores, versões de nós mesmos.