Era uma vez…

            Era uma vez… um grupo com os super-heróis mais poderosos do planeta que, mesmo em meio a tantas batalhas, cheias de dor e sangue, sempre guardaram espaço para o amor. Afinal, os grandes heróis sempre amaram as pessoas comuns. Porém, sem que os seres mais importantes da Terra percebessem, a pior das maldades crescia bem debaixo de seus olhos.

            Os nossos heróis tentavam seguir vidas comuns quando estavam fora dos holofotes. Misturavam-se com os humanos normais e tentavam imitar suas virtudes e defeitos, pois achavam que isto aumentaria a sua vontade de lutar e cuidar das pessoas. E, assim, mantinham-se protegidos sob disfarces e identidades secretas que, além do anonimato, lhes conferiam o prazer de ser comum. Mas eles não faziam ideia que estavam prestes a enfrentar o pior de todos os males. E não estamos falando de supervilões.

            À medida que o tempo foi passando, os heróis sentiram que o mundo havia mudado e eles, também. Os vilões não apareciam como antes. As pessoas estavam cada vez mais diversas e em maior número, lutando para expressar suas próprias vontades em um universo de pequenas batalhas. Foi então que nossos defensores, sempre amados por todos e bajulados pelos governantes, resolveram que era o momento de viver como os comuns.

            Foi aí, que dois jovens e poderosos heróis, que já haviam arriscado suas vidas inúmeras vezes para salvar a todos nós, decidiram que era hora de dividir o seu amor com todos aqueles que sempre os admiraram. Um deles era tão forte que poderia arrastar a lua com suas próprias mão. O outro, era um mago tão poderoso que poderia mudar qualquer realidade. Eram admirados por todos, até o dia em que resolveram expressar o maior de seus poderes em público: a capacidade de amar. Foi, a partir daí, que os verdadeiros vilões arrancaram suas máscaras.

            As pessoas comuns eram lideradas por criaturas estranhas, que prometiam protegê-las, assim como os super-heróis, mas estavam longe disso. Seu grande poder era a capacidade de ludibriar e mentir. Um belo dia, esses governantes cínicos, que tanto bajulavam os heróis, perceberam que estes estavam muito próximos dos comuns e resolveram tomar o seu lugar como salvadores. E, quando ninguém esperava, voltaram-se contra os superpoderosos, na tentativa de tornarem-se os grandes heróis do povo.

            E como conseguiram isso? Tentando criminalizar o que jamais deveria ser passível de culpa. Os sórdidos governantes, diante do amor de nossos jovens heróis, decidiram transforma-los em uma grande ameaça, especialmente para as crianças. Usaram o seu amor como arma para incitar o ódio. Usaram o amor para propagar a intolerância. Usaram o amor para destruir sonhos. Pobres homens… Pensaram que trariam vergonha para os nossos heróis, mas o seu tiro não teve o efeito esperado. Não perceberam que não se pode brincar com a mais poderosa das armas: o amor.

            Os governantes medíocres sofreram a maior de suas derrotas. Seu golpe de nada serviu e mostrou a todos os comuns que eles não passam de vilões de meia tigela. E os nossos heróis? Estes seguiram juntos, apoiados por um exército de amor formado por seres comuns que não voavam e nem lançavam raios, mas que portavam o mais incrível dos superpoderes: a infinita capacidade de amar.

Fim.

Primeira pessoa

            O texto de hoje começa com uma ideia que acaba de me ocorrer. Abandonar o texto que já está pronto e abraçar outra reflexão/provocação aos quarenta e oito do segundo tempo. Por alguma razão, resolvi olhar para dentro e tentar entender de onde vem a inquietude que tornou-se minha companheira fiel nas últimas semanas. Tantas coisas têm acontecido, que achei por bem falar sobre isso e, ao escrever, percebo que me expressar na primeira pessoa será o maior desafio nesta manhã de domingo.

            Para entender o hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Há exatos três anos, quando decidi compartilhar minhas ideias, não tinha certeza de coisa alguma. Se alguém teria interesse em ler meus textos, onde eu poderia publica-los, como dar asas aos pensamentos que só existiam dentro da minha cabeça. O medo me fez pensar e repensar, até que, em um dia de outubro de 2016, me libertei das amarras da insegurança e realizei o parto do que conhecemos hoje como o aqui pensando.

            Mas, como filho feio não tem paternidade assegurada, enviei alguns textos para amigos próximos para, sorrateiramente, colher algumas impressões. E foi aí que as coisas começaram a acontecer. Momentos que precedem a exposição de nossa intimidade, sempre são tensos, mas o que me chamou a atenção, foi uma certa estranheza compartilhada pelos meus. “Por que escrever essas coisas nada a ver com a sua trajetória profissional? Como assim você vai falar sobre reflexões? Ah, gostei, mas não entendi o porquê de começar a escrever isso”… Diante de tantas dúvidas, achei que essas reações eram a gota necessária para sufocar qualquer medo ou insegurança.

            Do primeiro texto até hoje, eu percebi que a escrita é como atividade física. Quanto mais eu exercito, mas forte ela se torna… e me fortalece. Hoje, depois de muito relutar, me aceito como escritor. E isso não tem relação com as milhares de palavras que foram escritas até aqui. A aceitação do meu eu escritor só foi sedimentada a partir do instante em que percebi que não se tratava, apenas, de publicar textos semanais que alcançavam um número indefinido de leitores. O escritor nasceu quando percebi que, para além da escrita, eu havia criado conexões. E foram elas que me levaram do virtual para os livros.

            E foram essas conexões que me fizeram alçar muitos voos para longe dos meus domínios. Conexões que trouxeram o frescor do desafio e o frio na barriga provocado pela incerteza. Conexões que permitiram que um cara disperso e com dificuldades de realizar uma tarefa de cada vez, conseguisse, de forma quase religiosa, escrever uma coluna semanal a quase três anos. O sonho, a incerteza, a cara de pau, a coragem, a sorte, um pouco de talento, alguma angústia, alegrias indescritíveis e muito trabalho duro me trouxeram até aqui. E onde é esse lugar? Não sei. A única coisa que consigo dizer é que esse relato em primeira pessoa me permitiu um reencontro com aquele sonhador que não fazia ideia de onde estava se metendo, mas sabia que deveria seguir em frente.

            E, diante de um dia tão especial, onde faço a minha estreia como autor na Bienal Internacional do Livro, seria impossível não agradecer aos que leem e se conectam comigo há 150 semanas. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado por tanto.

Marco Rocha.

Amor em tempos de ignorância

          Muitas são as lições que recebemos ao longo do tempo. Mas, dentre as principais estão: só o amor é capaz de nos transformar, só o amor pode nos salvar, só o amor pode nos tornar, verdadeiramente, felizes. Independente de tudo o que aprendemos sobre este nobre sentimento, todos nós concordamos em, pelo menos, um ponto: Amor é entrega. É algo que sentimos, não para manter guardado, mas, para distribuir e contaminar tudo ao nosso redor. Porém, como fazer isso em tempos onde a intolerância nos envenena? Como compartilhar o amor em tempos de ignorância?

        O amor é, essencialmente, um sentimento que depende dos sentidos. Precisamos enxergar, tocar, cheirar, sentir o gosto e ouvir todas as coisas e pessoas que nos farão cair de amores ao longo da vida. Abraços apertados aproximam para além dos limites físicos. Cheiros nos fazem viajar no tempo. Sabores ficam gravados em nossa memória para sempre, assim como as canções que embalaram as estórias que permitiram ser quem somos. O amor se alimenta dessas experiências. Sempre foi assim. Até agora.

          Já faz algum tempo que o amor, por si só, não transforma tudo aquilo que toca. Passamos grande parte da vida idealizando esse sentimento. Tanto que ficamos reféns de algo que desejamos muito, mas que, também, temos muita dificuldade de entender. O amor se transformou numa caça ao tesouro, só esqueceram de contar qual é o seu verdadeiro brilho. E, diante da ausência de uma face óbvia, começamos a duvidar um pouco de sua existência e, sobretudo, da força transformadora desse sentimento tão necessário.

           Esse ceticismo que pôs o amor em cheque, fortaleceu traços que jamais deveriam ficar fora de controle, como a inveja, a intolerância e a desconfiança. Combustíveis prontos para acender a chama da ignorância que, nos dias de hoje, parece não conhecer limites. E, em paralelo, a vida moderna nos oferece, cada vez mais, uma forma de viver onde a troca de experiências é opcional. Comemos sozinhos, não saímos de casa para comprar pão, não ouvimos mais a voz do outro e não observamos o sol se pôr, sentindo a brisa nos tocar carinhosamente

       Fazemos isso pela tela de um equipamento eletrônico que pretende encurtar distâncias, mas que está, cada dia mais, criando barreiras praticamente intransponíveis. Barreiras que nos impedem de ver, sentir, tocar e ouvir o que o outro tem a nos dizer. Abrindo caminho para que a única fonte de interação com o mundo, seja a nossa própria voz e a nossa forma de pensar. Criando distâncias desnecessárias que, quando somadas, formam um grande e perigoso labirinto de ignorâncias.

       E o amor, que precisa de pontes para se estabelecer, se perde nesse emaranhado de estradas desconexas, onde todo mundo fala, mas ninguém se escuta. É chegada a hora de quebrar esses muros e criar pontes onde o amor possa circular e celas, onde a ignorância possa repousar sem nos fazer mal. Será que isso é pedir muito?