Batalha de gigantes

Nós sabemos que na maioria das vezes, nos ligamos emocionalmente a pessoas diferentes de nós. Identificamos no outro algo que nos falta e transformamos a ausência em um grande ponto de encontro.

Não se pode afirmar o que exatamente conecta lindos aos feios, abstratos com exatos, sonhadores com pragmáticos… Os diferentes se unem a partir de uma variável imprevisível e sem programação prévia. Todas essas parcerias poderiam ser consideradas mas, existe uma combinação explosiva que chama atenção por estar presente em muitas relações por aí. A união de Generosos & Egoístas.

Cuidado para não achar que estou falando do bonzinho contra o nem tão bom assim, até porque esses dois atores costumam mudar de personagem de acordo com seu parceiro de cena. Ouso dizer que este embate está presente em todos os tipos de relacionamento. Somos capazes, muitas vezes de dividir nossas vidas com um deles sem nunca perceber, tamanho o poder que ambos exercem sobre seus parceiros.

Generosidade agrega, aquece e nos torna bons aos olhos do mundo. O egoísmo isola, separa, individualiza e traz desconfiança. Encarando desta forma, como é possível que antagonistas tão óbvios possam se relacionar? Não só podem como costumam formar parcerias longas e agitadas…

Quantas vezes observamos diferenças absurdas entre casais que, apesar dos pesares, seguem juntos durante anos? Como observadores é fácil perceber, porém, quando nos colocamos na mesma situação, somos incapazes de notar quando e como fomos tragados por um ou por outro…

A máxima já é conhecida, todo generoso precisa de um egoísta para se expressar e vice-versa. Isso estabelece vínculos tão fortes que são capazes de superar até o amor. Muitas pessoas permanecem juntas mesmo após o seu fim, por que simplesmente não sabem como seriam suas vidas se, o jogo mudasse as regras ou, se a disputa entre a doação de um contra a demanda do outro chegasse ao final.

Mas o objetivo aqui não é demonizar egoístas e canonizar generosos. Ambos se retroalimentam tão intensamente, que deixam de perceber que se perderam de si mesmos no meio da estrada.

Isso me lembra de um casal que conheci onde um, além de generoso, era cheio de qualidades, pleno e orgulhoso em ser como era. Adorava partilhar a vida com alguém que não era um adversário real, mas que estava ali para segurar, com amarras invisíveis, a onda do altruísta egocentrado. Do outro lado, havia um egoísta divertido e com um magnetismo avassalador, que atraía a tudo e a todos que estivessem em seu raio de ação.

Observando essa relação à superfície, era muito difícil compreender como conseguiram compartilhar a vida por anos e anos. Criaturas que se amaram profundamente, mas que terminaram como prisioneiros de um relacionamento difuso, onde era possível enxergar com alguma clareza que seu ponto de encontro, definitivamente, não era mais o amor. E o mais impressionante, eram felizes assim, sendo apenas complementares.

Porém, mesmo essa curiosa dupla de diferentes, pode apresentar pólos iguais que, ao se encontrarem provocam uma repulsão instantânea, capaz de afastá-los a uma distância que os permite enxergar como realmente são. Diferentes e, de certa forma, incompatíveis. Essa talvez seja a única forma de romper esse laço, quando generosos e egoístas finalmente se veem refletidos um no outro.

O tempo que se leva para que isso aconteça é tão imprevisível quanto àquela variável que une todos os tipos de diferentes em relações inesperadas. Generosos e Egoístas ao se separarem deixam marcas profundas entre si, que ficam fortemente gravadas, como em um pacto inconsciente. Como se conhecem muito bem sabem, como poucos, trocar de lado quando os convêm. Sendo assim, é só esperar o próximo relacionamento para ver qual personagem lhe cai melhor ou qual das armaduras será mais forte, uma vez que, o encontro dessa dupla explosiva, pode se tornar uma verdadeira batalha de gigantes.