O inesperado trazendo surpresas

         Se pararmos para observar a forma como vivemos a vida, chegaremos a conclusão de que fomos programados para programar praticamente tudo o que nos cerca. Mas, apesar do esforço feito para seguirmos um roteiro prévio e, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os nossos rumos. Não importa o momento que vivemos, se o novo for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será muito bem-vindo. Vivemos negando, mas nada é mais esperado por nós, do que o inesperado trazendo surpresas.

         Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante. Surpresas criam um inusitado jogo de cena onde, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este jogo duplo o que torna tão fascinante o ato de se surpreender.

       Surpresas não escolhem dia, hora e nem local. E é, justamente nessa falta de limites, onde ela sorrateiramente nos alcança e surpreende. Surpresas não têm compromisso com planejamento, talvez por isso, sejam capazes de ligar pontos, restabelecer vínculos antigos ou, simplesmente, criar novas conexões de onde menos esperamos. O que deixa a maioria de nós com aquela cara de bobo, própria de quem não sabe como agir quando perde as rédeas da situação. Ainda bem que o acaso existe e se disfarça de surpresa para nos mostrar o quão ilusório é, acreditar que somos senhores de nossos destinos.

          Poucas coisas substituem a euforia provocada por uma boa notícia fora de hora, por uma sensação que nunca se imaginou sentir ou por um sonho realizado sem tenha sido maturando durante longos anos. Surpresas nem sempre são prazerosas ou excitantes, mas são, sempre, transformadoras. Relacionamentos que acabam sem razão. Paixões que nascem de olhares despretensiosos. Transformar o sonho da escrita em sessões de autógrafos mundo afora… Tudo é transformador, tudo é reflexo de deliciosas surpresas que a vida nos dá.

      Acaso, destino, ou seja lá o nome que se queira dar, todos têm em comum, aquilo que os transforma em mistério – a capacidade de ser surpreendente. A felicidade de um sim, a ansiedade por quem demora a chegar ou a dor em descobrir algo que lhe fará sofrer… tudo isso perderia a importância se, algum dia, ignorássemos a ação do inesperado, impedindo que ele surpreendesse a nossa monótona programação diária. Ainda bem que é inútil lutar contra o que está por vir. Mas, o melhor de tudo, é ter a certeza de que, independentemente das nossas escolhas, é na surpresa que a vida se revela.

Aqui pensando, o livro

Ao acordar e ler esse texto neste domingo eu, certamente, estarei entorpecido por uma sensação que levará tempo para digerir. A noite que antecedeu essa manhã, abrigou momentos indescritíveis que personificaram anseios e transformaram sonhos na mais bela expressão de realidade. Ideias, pensamentos e memórias inquietas que um dia provocavam desconforto, rolaram da cabeça à ponta dos dedos, até alcançarem folhas em branco, onde marcaram com tintas fortes, tudo aquilo que desejavam dizer. E, assim, depois de muito observar a vida e seus ciclos, nasce o aqui pensando, o livro.

Isso pode parecer um ensaio de futurologia, mas é, na verdade, a antecipação de um momento há tempos aguardado e que ficou perdido pelas caixas de passado que acumulamos com o passar do tempo. As surpresas que a vida proporciona, por vezes transformam ações inesperadas em sonhos possíveis, que nos levam a lugares completamente diferentes da nossa programação cotidiana. O que ajuda a compreender que o mundo nunca é o mesmo como muitos preferem acreditar.

Realizar sonhos parece algo pueril e que já é assunto batido em filmes e desenhos onde, de forma romântica e afetada, os personagens buscam a felicidade envoltos por uma trilha sonora encantadora. Na vida real, sonhos fazem parte de uma construção a partir do olhar que nos mostra que o surpreendente mora nos detalhes, e que é, a partir deles, que chegaremos exatamente onde quisermos. Porém, essa vida de gente grande que não conhece limites e prima pela impaciência, impedindo que enxerguemos muito além de nossas medidas.

Mas, posso ser sincero? Grande parte das frustrações que colecionamos não são causadas por sonhos não realizados. Nossas dores falam muito mais sobre influências e escolhas que tivemos ao longo do processo. Realizar é um verbo onde tudo cabe, sobretudo o medo. Quem de nós nunca se sentiu paralisado diante da possibilidade de um acontecimento e se perguntou “qual foi o dia que me tornei medroso?”. Uma indagação praticamente cotidiana, mas que, infelizmente, é responsável pela ruína de sonhos sequer sonhados. Esta dúvida nos direciona para o que talvez seja o nosso grande desafio na vida: a difícil arte da escolha.

Algo muito comum em dias, onde a felicidade tornou-se uma unidade de medida virtual e as selfie vão muito além do autorretrato de quem somos de fato, viver a realização do outro transformou-se, de forma perversa, numa nova forma de sonhar. Enxergar a própria vida e seus anseios com um olhar estrangeiro, provoca uma incompatibilidade entre o que queremos, o que podemos e onde pretendemos chegar. Talvez a volatilidade das relações atuais tenha sua grande parcela de culpa, nos fazendo acreditar em um mundo irrealmente belo, mas, basta um olha mais apurado para perceber que nem tudo que reluz é ouro.

Mesmo que ainda não se saiba onde se quer chegar, é inegável que não se parte de lugar algum, sem o estímulo de um sonho. Alcançar nossos objetos de desejo é um processo complexo com começo, meio e fim. Tentar subverter essa ordem é, além de arriscado, a fonte de grande parte das nossas crises particulares. A forma como planejamos as nossas realizações mudam constantemente, mas o que precisa ser mantido, de forma inegociável, é a certeza de que, para transformar sonhos em realidade, é preciso preservar a admiração que vive em nós.

Feliz novo ano!