O que eu quero ser quando crescer?

Desde sempre somos bombardeados por influências de todos os lados. Isso significa que somos, de alguma maneira, obrigados a nos encaixar em formatos pré-estabelecidos desde muito cedo. Porém, quando crianças, somos capazes de alcançar os lugares mais inusitados apenas usando a nossa fértil imaginação e, para isso, basta usar a mágica pergunta “o que eu quero ser quando crescer?”

Com o passar dos anos, os anseios de se transformar em bombeiros heróis, astronautas na lua, médicos de formigas e pilotos de foguete, dão lugar a sonhos mais pragmáticos e que, normalmente, apresentam a vida como ela é. Prática e sem rodeios.

Ainda muito jovens, começamos a olhar o mundo a nossa volta e estabelecer padrões que podem ser seguidos, às vezes por vontade própria, às vezes… No geral, seguimos os caminhos previamente traçados por quem veio antes de nós. Pais, professores, tios ou amigos próximos. Talvez façamos isso porque vemos nessas pessoas, modelos bem sucedidos de como ganhar o pão nosso de cada dia.

Com isso, as crianças piratas do espaço, caçadoras de tesouros perdidos e bailarinas das nuvens, cedem lugar a jovens trabalhadores que, muitas vezes, constroem suas estradas na direção oposta dos seus sonhos. Não pensem que isto é uma crítica, é apenas uma constatação.

Há muitas gerações, as pessoas escolhem ou são levadas a escolhas que podem se tornar certezas para o resto de suas vidas. Este é um ciclo muito natural para a grande maioria até os dias de hoje, afinal, é muito difícil escapar do impiedoso rolo compressor que é a vida adulta, sempre cheia de urgências e sem tempo a perder. Mergulhados no olho desse furacão, não nos damos conta que, dentre todas as situações que nos são impostas, somos obrigados a deixar sonhos marotos adormecidos e bem escondidos em nossos compartimentos mais íntimos.

Para alguns, isso pode causar alguma angústia ou frustração, mas a vida nos mostra que decepções só são percebidas quando temos consciência das escolhas que abraçamos. Outros tantos, acreditam que suas escolhas não provocaram perdas, são frutos apenas frutos de planejamento e determinação. O que é incrível!

De todo modo, o olhar para dentro e o auto questionamento são para lá de saudáveis. Cada período de nossas vidas imprime um “EU” diferente em todo nós que, de tempos em tempos, resolvem coexistir, o que pode ser ótimo, pois nos possibilita resgatar bons hábitos e ainda desenvolver novos pontos de vista.

Isso me faz acreditar, cada vez mais, que somos os principais agentes responsáveis por nossas transformações que, muitas vezes são tão sutis que sequer percebemos quando de fato acontecem.

Tudo isso serve para ilustrar que, apesar das nossas escolhas prematuras, continuamos a ser muitos e quanto mais o tempo passa, mais diversos e interessantes podemos ser e, sem medo de errar, podemos e devemos criar túneis e atalhos, e até algumas paradas, em uma estrada que foi construída para seguir em linha reta.

Então, quando se perguntar o que quer ser quando crescer, tenha em mente que crescer nunca é um ponto final e que nossos anseios infantis adormecidos podem acordar a qualquer momento e reclamar seu lugar de direito, decidindo que crescer não tem a ver com idade ou conquistas, e sim, com a vontade de viver.

Crises particulares

Muito se fala sobre crises, de todos os tipos e proporções. Sejam elas em relações de trabalho, amor ou políticas, mas independente da situação em si, o que chama a atenção é a sua origem e não o seu efeito. Qual é a origem de uma crise? É uma pergunta desafiadora, uma vez que nos impõe uma análise sobre os reflexos de decisões tomadas no passado e isto é bem difícil. Mas, dentre tantas opções, é melhor escolher apenas um motivo que seja responsável por alterar a maioria das pessoas, a crise provocada pelo avanço do tempo… Um clássico!

Para cada fase da vida, uma crise. Talvez a grande questão desse tema esteja relacionada com a forma de absorver o que se passa a nossa volta. Já repararam que, quase todo mundo costuma classificar a própria juventude como a melhor época de suas vidas? Ou ainda, que as crianças de hoje jamais saberão como a vida era boa em outros tempos… Será verdade ou puro romantismo? Uma coisa é certa, esse ponto de vista será repetido por muitas e muitas gerações.

Se atribuirmos velocidades às diferentes fases da vida, talvez seja mais fácil  entender algumas certezas. Na infância e adolescência pegamos carona em um jato supersônico, uma vez que a quantidade de coisas para ver, sentir, descobrir e aprender é tão descomunal que não há como registrar tudo. Isso explica, em parte, nossas memórias um tanto borradas e confusas desse período. Tínhamos muito a fazer em pouquíssimo tempo, o que nos forçou a filtrar, de alguma forma, as experiências que deram certo e que no presente, são usadas para justificar o quão fomos únicos e especiais no passado.

À medida que envelhecemos, conseguimos desacelerar um pouco. O que nos permite interagir com o mundo de forma mais organizada, mas ainda assim, temos muita coisa a fazer. Muito para amar, chorar, beber, sorrir e conquistar… Só que o tempo continua em seu ritmo acelerado, nos obrigando a fazer escolhas difíceis que, muitas vezes, provocam consequências por décadas.

Porém, chega a um ponto da nossa trajetória em que fazemos as pazes com o tempo e, enfim, conseguimos ver as coisas como elas realmente são. Enxergamos nossas vidas em alta definição, com imagens que expõem detalhes até então invisíveis. E é neste ponto que percebemos como nossas decisões pregressas, conscientes ou não, foram fundamentais na nossa construção pessoal.

Talvez isso aconteça aos 30, 40, 50 anos… tanto faz. O que realmente importa é perceber o momento em que nos tornamos capazes de contemplar a vida em suas cores reais, sem distorções. Isso, certamente, traz algum desconforto. Obrigando que um novo movimento seja feito na busca por novas escolhas, provavelmente mais serenas, que irão ditar as próximas etapas da nossa jornada.

Esta é a hora em que colocamos em xeque tudo aquilo que fizemos. Se o preço pago foi justo, se queremos continuar trilhando a mesma estrada ou não… Perceberam como estas questões são incômodas? Acho que isso nos ajuda a entender o que chamamos de crise, seja ela existencial, de meia idade ou outra qualquer. Crise ensina que lugar comum ou zona de conforto não são eternos. Crise nos permite revirar nossos baús até encontrar peças de reposição que acumulamos ao longo do tempo, sem perceber.

Explorar a nossa capacidade de renovação nos possibilita encontrar saídas onde antes existiam muros de pedra e resgatar velhos sonhos abandonados pela estrada. Por esse motivo, a necessidade de renascimento talvez seja a melhor resposta quando nos perguntarmos qual é a origem de nossas crises. Dessa forma teremos sempre a certeza que, em algum momento, seremos sempre capazes de seguir em frente, mesmo sem saber aonde ir.

Colcha de retalhos

Das muitas perguntas que me faço o tempo todo, nenhuma consegue ser tão recorrente e incômoda quanto “Quem sou eu?” Pode parecer um tanto doido mas, tentar saber quem somos, ajuda a viver melhor não só com os outros mas com nós mesmos.

Mas por que essa pergunta é importante se temos tanto a fazer diariamente e não sobra tempo nem para lembrar qual foi a última refeição? É aí que está o “xis” da questão. Tudo passa tão rápido a nossa volta que percebemos muito pouco do que está diante dos nossos olhos. Estamos sempre seguindo em frente com tanta convicção de que o melhor ainda está por vir, que deixamos de sentir as marcas que o cotidiano nos imprime.

Saber o que melhor nos define é um desafio. Normalmente, temos um monte de respostas prontas sobre tudo e todos, mas quando se trata de apontar o dedo para a própria cara, a conversa muda de figura… Para buscar respostas que expliquem melhor quem somos é preciso se despir das várias camadas de pele que acumulamos ao longo da caminhada. E um bom começo para isso é mergulhar em uma viagem ao seu universo particular.

Nascemos em meio a um conflito familiar. Nossos pais, na árdua missão de nos educar, projetam suas expectativas sobre nós dando início, mesmo que sem querer, as muitas pessoas que seremos ao longo da vida.

À medida que crescemos, começa o bombardeio de influências. Do popstar do momento, àquela querida professora de português. Sem contar que, dependendo do amor da vez, podemos ser maratonistas, amantes de cinema iraniano, mochileiros sem destino ou obcecados por dietas sem glúten. Tudo bem! Novas experiências são sempre bem vindas.

É óbvio que uma resposta rasa não contempla a diversidade que nos forja, mas ajuda a elaborar mais e melhor uma opinião sobre quem fomos e sobre quem queremos ser. De cara, isso permite constatar que somos muitos em um só. E isso é ótimo!

A combinação entre nosso eu verdadeiro e quem gostaríamos de ser funciona, ao mesmo tempo, como partida e chegada. A nossa realidade, por vezes rígida e engessada, é sempre por onde começamos. É a partir dela que projetamos quem poderíamos ser, onde gostaríamos de estar…

E isso só é possível porque aprendemos desde muito cedo, que para sobreviver precisamos ser muitos. Alguns reais, outros nem tanto… Quem nunca, em um momento de dureza, se imaginou como o mais novo milionário da loteria e se pegou fazendo mil planos? Ou ainda, quem de nós, durante os encontros de família, ouvindo estórias da nossa velha infância nunca sentiu o coração pular de felicidade ao relembrar da criança que fomos? Maravilhosos momentos de encontro com quem fomos e com quem poderíamos ser.

E como estaremos daqui a 15 anos? Você pode perguntar em uma roda de amigos, mas para essa pergunta não há resposta, só possibilidades. Sabemos que há uma década tínhamos sonhos, um grupo de amigos, um gato ou um cachorro, freqüentávamos uma boate, ouvíamos o mesmo estilo musical e sempre batíamos ponto no mesmo boteco… E hoje? Onde estão nossos grandes amigos? O bar de sempre fechou 5 anos atrás. A boate virou um shopping e aquelas músicas que amávamos se tornaram os hits mais bregas da história. Parece triste? Mas não é! O tempo passou e nos transformou, só isso.

A única certeza é que daqui a 5, 10 ou 15 anos, seremos outros. Mais diversos e com novas estórias pra contar. Cheios de novas capas e camadas que vão vestir a nova pessoa que seremos, e ajudarão a trilhar novos caminhos, repletos de diferentes perfumes, sabores, sorrisos, cores e amores, adicionando mais detalhes a nossa linda e surpreendente colcha de retalhos.

Tempo, pra que te quero?

É fato que a vida no mundo virtual se transformou na extensão da nossa existência na vida dita real e, muitas vezes, a mescla entre essas realidades é tão forte que fica difícil dizer o que é real e o que parece ser. Quanto mais vivemos a cyber realidade, maior é o nosso distanciamento das coisas que antes eram preciosas. Saudosismos à parte, é apenas a constatação do óbvio.

À medida que a vida segue em mega velocidade, fica mais difícil apreender tudo o que vivenciamos. Outro dia começamos a usar o telefone celular para criar uma conexão móvel por voz com outras pessoas, mas hoje, este aparelho nos leva pra tantos lugares e nos apresenta a pessoas de formas tão diferentes que a última coisa que lembramos é de usá-lo para ligar e dizer um simples… oi.

De uma forma muito frequente, percebo que a noção de tempo está absolutamente alterada e, acho possível afirmar que já dominamos de alguma forma, a magia do teletransporte. Parece maluquice, mas é verdade. Não me refiro a transferência dos nossos átomos no espaço com o uso de máquinas mirabolantes, como na ficção científica. Nossa forma de deslocamento necessita de um outro tipo de equipamento, mais simples, conectado à rede, com mil aplicativos, redes sociais e que, claro, caiba na palma da sua mão. Pronto. Com essas ferramentas você será capaz de atravessar distâncias continentais e terá a nítida impressão que tudo se passou num piscar de olhos.

Passamos muito tempo falando que não temos tempo. Que o tempo não dá pra nada. Que precisamos de mais tempo. Como o tempo passou rápido demais… Talvez estejamos inaugurando um novo tempo. Uma era onde somos escravos e não senhores daquilo que comanda a vida de todos nós de forma implacável…

Há poucas décadas, as pessoas viviam em universos bastante reduzidos se compararmos com os dias de hoje. Mães e pais se relacionavam com vizinhos. Filhos tinham seus amigos de escola e os parceiros de aventuras da rua onde moravam. Os familiares moravam mais perto uns dos outros. Essas características transformavam um bairro em seu lugar no mundo. A conectividade entre as pessoas se dava sem intermediários, com interatividade em tempo real e à curta distância, sem a tecnologia como mediadora dessas relações. Éramos monitorados sem exageros. Utilizávamos o tempo como aliado e não como carrasco. Ir à escola, almoçar em casa, estudar, trabalhar, ir ao cinema, brincar na rua, jantar em família. Para tudo isso acontecer era necessário apenas uma coisa… tempo.

De alguma forma, nos deslumbramos pelo irresistível poder de sedução da tecnologia, a ponto de embaralharmos dois pilares da física, o espaço e tempo. Passamos muitos momentos nos perguntando em que dia estamos, quando e como fizemos tal coisa, de que forma conhecemos alguém, surpresos com o mês que já está no fim… Em que ponto nos tornamos tão displicentes e incapazes de perceber as mudanças à nossa volta? Para essa pergunta, cada um de nós tem a própria resposta, ou não.

Com o passar dos anos, ganhamos mais atribuições, mais tarefas, mais responsabilidades, o que provoca uma subtração imediata sobre o tempo nosso de todo dia. Aliado a isso, podemos incluir toda sorte de distrações oferecidas pela internet segundo a segundo. Basta uma olhadinha em seu smartphone para checar um email, que seu tempo começa a acelerar e, aquela olhada rápida, se transforma em papos como os grupos em mil aplicativos, consulta à previsão do clima, uma olhada nas curtidas daquela foto e, se você  lembrar, também vai checar o email que deu início a essa roleta russa virtual.

A conectividade é incrível e nos inclui em universos inalcançáveis até pouco tempo atrás. Mas, de uma forma muito sutil, porém muito frequente, ela também dilui as relações reais. Compensamos a famosa falta de tempo por presença virtual, o que muitas vezes faz com que relações longas, sejam mantidas de forma muito próxima e íntima, mas sem beijos e abraços de carne e osso.

Vivemos um período onde tudo é novidade e, como tudo que é novo, demoramos um pouco para achar o equilíbrio entre excessos. Não há como ignorar que o tempo ultrapassou seus limites de velocidade, mas também não podemos culpá-lo por tudo. Podemos e devemos encontrar o caminho do meio onde a vida virtual e a real sejam cúmplices e não adversárias. Onde as ausências sejam melhor administradas. Onde não seremos nem senhores nem escravos, mas sim, parceiros do nosso próprio tempo.

Só sei que nada sei…

Qual a melhor postura devemos ter diante das situações que a vida nos apresenta? Normalmente as pessoas gostariam de ser firmes, fortes e decididas. Esses são perfis festejados e desejados pela grande maioria. Quem quer ser indeciso e vacilante aos olhos do mundo? Conheço poucos…

Estar certo sobre tudo. Saber sempre onde se quer chegar. Decretar certezas sobre a vida alheia. Isso pode parecer incrível a primeira vista, mas algumas páginas depois, esse comportamento se torna monótono e definitivo, afinal, o benefício da dúvida nos leva a reflexão e, o pragmatismo das certezas, nos engessa.

Quem nunca expressou, com firmeza, uma opinião sobre algum assunto do qual não sabe nada? Ou simplesmente disse ter certeza absoluta em relação a algo que nunca viu ou ouviu falar na vida? Pois é! São gestos que nem percebemos, talvez porque seja importante mostrar as pessoas a nossa volta o quão assertivo e seguro podemos ser. Uma doce ilusão que pode ser desmontada tão rapidamente quanto o impulso em afirmar “eu sei” sobre qualquer assunto.

Ser o “senhor sabe tudo” transmite uma sensação de fortaleza e atrai a admiração de quem está a sua volta. Mas é óbvio que não se sabe tudo e se engana aquele que acredita nisso. Portanto, não há nada de mau em ter dúvidas. Uma, duas, dez ou tantas quantas forem necessárias. Ter a certeza de não saber tudo é, antes de tudo, um lampejo de lucidez.

A literatura já nos mostrou há tempos que o “ser ou não ser” é de fato uma ótima questão. O conflito é pedagógico. Quanto maior o número de opções, mais refinada fica nossa capacidade de escolha. Não tem nada de errado em errar. É escolhendo a pior opção que sabemos que existem coisas melhores. É por isso que estar ou sentir-se certo sobre tudo impede a possibilidade de escolha. Decidir seguir por uma via de mão única antes mesmo da viagem começar, certamente nos privará da surpresa provocada por atalhos inesperados e, muitas vezes, surpreendentes.

A diversidade que nos envolve é tão impressionante que se atualiza segundo a segundo. Seria, e é, um extremo desperdício tomar sempre o mesmo caminho, pegar sempre o mesmo ônibus, ir sempre ao mesmo bar, não se permitir novas amizades e amores. Talvez muitos escolham a dureza da certeza por dificuldade de aceitar o novo e seguem, por anos, executando o mesmo padrão de comportamento.

Ser indeciso a ponto de se paralisar diante da vida, obviamente não é nada bom, assim como ser o super certo sobre tudo é pra lá de chato… Trata-se aqui é de equilíbrio. O caminho do meio, sem muros, que permita desvios, curvas acentuadas, se perder de vez em quando. Um caminho onde seja possível duvidar, errar, acertar e tomar decisões de acordo com as opções que a vida nos oferecer. Ser flexível torna nossa existência mais rica de experiências. Estar sempre certo reduz a possibilidade de diálogo e pode nos privar de muitos momentos especiais.

Imagine não ouvir as estórias daquele amigo querido e bom de papo, simplesmente porque não concordamos em alguns pontos de vista? Não ouvir é perder tempo e achar que sabemos tudo é perder mais tempo ainda. Viver se torna mais fácil quando acreditamos que uma dúvida sincera vale mais que uma certeza irresponsável.

Batalha de gigantes

Nós sabemos que na maioria das vezes, nos ligamos emocionalmente a pessoas diferentes de nós. Identificamos no outro algo que nos falta e transformamos a ausência em um grande ponto de encontro.

Não se pode afirmar o que exatamente conecta lindos aos feios, abstratos com exatos, sonhadores com pragmáticos… Os diferentes se unem a partir de uma variável imprevisível e sem programação prévia. Todas essas parcerias poderiam ser consideradas mas, existe uma combinação explosiva que chama atenção por estar presente em muitas relações por aí. A união de Generosos & Egoístas.

Cuidado para não achar que estou falando do bonzinho contra o nem tão bom assim, até porque esses dois atores costumam mudar de personagem de acordo com seu parceiro de cena. Ouso dizer que este embate está presente em todos os tipos de relacionamento. Somos capazes, muitas vezes de dividir nossas vidas com um deles sem nunca perceber, tamanho o poder que ambos exercem sobre seus parceiros.

Generosidade agrega, aquece e nos torna bons aos olhos do mundo. O egoísmo isola, separa, individualiza e traz desconfiança. Encarando desta forma, como é possível que antagonistas tão óbvios possam se relacionar? Não só podem como costumam formar parcerias longas e agitadas…

Quantas vezes observamos diferenças absurdas entre casais que, apesar dos pesares, seguem juntos durante anos? Como observadores é fácil perceber, porém, quando nos colocamos na mesma situação, somos incapazes de notar quando e como fomos tragados por um ou por outro…

A máxima já é conhecida, todo generoso precisa de um egoísta para se expressar e vice-versa. Isso estabelece vínculos tão fortes que são capazes de superar até o amor. Muitas pessoas permanecem juntas mesmo após o seu fim, por que simplesmente não sabem como seriam suas vidas se, o jogo mudasse as regras ou, se a disputa entre a doação de um contra a demanda do outro chegasse ao final.

Mas o objetivo aqui não é demonizar egoístas e canonizar generosos. Ambos se retroalimentam tão intensamente, que deixam de perceber que se perderam de si mesmos no meio da estrada.

Isso me lembra de um casal que conheci onde um, além de generoso, era cheio de qualidades, pleno e orgulhoso em ser como era. Adorava partilhar a vida com alguém que não era um adversário real, mas que estava ali para segurar, com amarras invisíveis, a onda do altruísta egocentrado. Do outro lado, havia um egoísta divertido e com um magnetismo avassalador, que atraía a tudo e a todos que estivessem em seu raio de ação.

Observando essa relação à superfície, era muito difícil compreender como conseguiram compartilhar a vida por anos e anos. Criaturas que se amaram profundamente, mas que terminaram como prisioneiros de um relacionamento difuso, onde era possível enxergar com alguma clareza que seu ponto de encontro, definitivamente, não era mais o amor. E o mais impressionante, eram felizes assim, sendo apenas complementares.

Porém, mesmo essa curiosa dupla de diferentes, pode apresentar pólos iguais que, ao se encontrarem provocam uma repulsão instantânea, capaz de afastá-los a uma distância que os permite enxergar como realmente são. Diferentes e, de certa forma, incompatíveis. Essa talvez seja a única forma de romper esse laço, quando generosos e egoístas finalmente se veem refletidos um no outro.

O tempo que se leva para que isso aconteça é tão imprevisível quanto àquela variável que une todos os tipos de diferentes em relações inesperadas. Generosos e Egoístas ao se separarem deixam marcas profundas entre si, que ficam fortemente gravadas, como em um pacto inconsciente. Como se conhecem muito bem sabem, como poucos, trocar de lado quando os convêm. Sendo assim, é só esperar o próximo relacionamento para ver qual personagem lhe cai melhor ou qual das armaduras será mais forte, uma vez que, o encontro dessa dupla explosiva, pode se tornar uma verdadeira batalha de gigantes.

Selfie – Muito além do autorretrato

Tirou? Deixa eu ver! Ahhh, não ficou bom! Vamos fazer uma selfie?!

Quantas vezes vocês ouviram o texto acima em festas, praias, viagens, restaurantes, banheiros, academia, dentista, acidentes de trânsito, velórios, manifestações populares… ufa!! Independente da situação ou ocasião, a vontade de registrar nossa presença naquele exato momento é quase irresistível.

Não seria melhor dizer que tiramos um autorretrato? Até poderíamos, mas parece que o termo gringo confere muito mais poder e glamour à ação. A selfie hoje, possui status de substantivo mais que próprio, totalmente independente do seu criador e com um objetivo muito claro: Ser vista!

Observe suas fotos nas redes sociais. O que vê? Olhe com mais cuidado. A pose. O olhar. O cenário. Sua expressão… Agora tente se lembrar de uma coisa fundamental. Aquelas fotos foram espontâneas ou são o produto final depois de inúmeras tentativas fracassadas em busca do clique perfeito?

Se voltarmos no tempo, lembraremos que as fotos eram geradas por máquinas analógicas em filmes de 12 a 36 poses. Eram quase caixinhas de surpresa. Luz estourada, foto escura, desfocada… Quantas comemorações ficaram gravadas apenas na memória por conta de um filme que simplesmente queimava? Tempos onde a selfie não teria vida longa e custaria uma fortuna.

Pensando no passado e presente, a grande diferença que salta aos olhos é o significado dos cliques e flashes nos 2 períodos. Antes, serviam para eternizar um momento e serem exibidos em álbuns bem cuidados e porta-retratos distribuídos nos melhores pontos da casa. Agora, as fotos descansam nas galerias dos celulares, nuvens virtuais e, como nunca antes, podem ser vistas por milhares de pessoas em apenas 1 dia. O que deixaria morto de inveja até o mais belo dos álbuns da sua mãe.

Se continuarmos revirando nosso acervo digital, adivinhem quem será mais popular em meio aos nossos milhares de cliques?? As selfies nascem do desejo quase incontrolável por visibilidade fácil. O que antes era privilégio de astros e estrelas, hoje está ao alcance dos dedos de todos e de forma totalmente ilimitada.

Mas, mesmo com a tecnologia, o que seria das selfies sem as poses? Sensualidade, autoconfiança e ternura. Juntar esses três ingredientes em uma única foto ajuda a arrebanhar muitos seguidores e bombar de likes. Não podemos esquecer das legendas, que são responsáveis por convencer os observadores que aqueles registros foram únicos, incríveis e que, ninguém além de você, poderia usufruir tão bem daquele momento. Exclusividade faz toda a diferença.

É aí que retomo a idéia da selfie como uma entidade independente. Um produto quase comercial que, ao ser compartilhada, adquire vida própria, atraindo olhares curiosos e comentários que vão desde a admiração exagerada à total esculhambação pública. É o clássico, falem mal, mas falem…

Seriam as selfies tiranas, daquelas que permitem acesso livre à área VIP digital, desde que todos estejam devidamente produzidos e dispostos a manter seu imbatível padrão de qualidade? Onde, a beleza, alegria, superioridade, carisma e vaidade são requisitos obrigatórios e indispensáveis? Talvez…

Fico pensando no pobre Narciso. Talvez esse mito seja o primeiro registro de selfie da humanidade. Se existisse uma câmera e os filtros mágicos em sua época, o rapaz jamais morreria afogado ao buscar aquela imagem avassaladoramente bela. Nos tempos atuais, ele certamente seria um ícone pop, teria inúmeros seguidores e muitas curtidas. A busca pela autoimagem perfeita parece ser atemporal e pode, muitas vezes, aprisionar e levar à situações nada glamourosas.

Muito se fala que a maioria das pessoas hoje em dia, prefere TER ao invés de SER… Ter acesso a situações incríveis como shows, viagens extraordinárias, bares e restaurantes da moda… ter, ter e ter! Como se consegue tudo isso? Simples. Check-in, posts, likes, compartilhamentos, hashtags e, claro, selfies… A partir delas, o TER se confunde com o SER.

Ser e estar lindo, feliz, confiante e bem-sucedido o tempo todo, nem sempre é possível na dureza do cotidiano, mas a realidade virtual se encarregou de preencher com cores fortes o, muitas vezes monocromático, mundo de carne e osso.

Isso permitiu que nos transformássemos em nossas próprias fadas madrinhas, capazes de transformar os borralheiros que vivem em nós, em cinderelas e príncipes encantados. Sempre congelados numa imagem perfeita, formada por uma piscadela, uma cabecinha de lado, um bico sexy e dois dedinhos.

Estamos diante de um fenômeno coletivo, onde todos precisam ser vistos e amados, como uma espécie de confirmação da própria existência. A explosão da vontade coletiva de se expor e divulgar o que antes era particular, define momento atual, onde todos somos especiais e exclusivos. Onde todos somos… SELFIE.

O fim do amar

Coração acelerado. Boca seca. Ausência das palavras… Esses são sinais claros de paixão. Sintomas físicos que avisam que o amor está chegando. Quem nunca sentiu isso ou ouviu inúmeras canções que te colocam em sintonia com o amor em duas ou três notas?

Ah, o amor! Cantado em prosa e verso, inspiração de poetas, marca registrada de incontáveis filmes, séries, peças, romances… Vendo por esse ponto, o amor é imbatível. todos o querem por perto e, principalmente, querem falar dele, não importa como.

Mas a proposta aqui é falar sobre o fim do amor. Você deve pensar que lá vem mais um textão melancólico sobre as derrotas e tragédias do desamor… Não, não é isso!

Amar tem data de fabricação, mas a validade do produto mais cobiçado do mercado não é determinada no momento em que nasce. Pode durar o tempo da leitura deste texto ou uma vida inteira e como já dizia o poeta “que seja infinito enquanto dure…”

O que fazer quando o amor acaba? Sempre associamos o fim do amor ao término de relações, ao rompimento de contratos de amor eterno que, quase sempre, provocam alguma ou muita dor e sofrimento. Mas muitos relacionamentos duram anos, mesmo sem amor recíproco, sem o amar e ser amado. E é aí que me pergunto… Se é tão óbvio o início do amor, por que é tão difícil perceber quando ele se vai? A origem do amor é marcante e sempre nos lembraremos de sua chegada, mas nunca teremos a clareza sobre sua partida.

O amor é tão precioso que nos leva a fazer coisas que, muitas vezes não ousaríamos fazer se estivéssemos “sóbrios”. E por quê? Porque o consideramos raro e, se é raro, tem que ser preservado. Será?

Se manter em um relacionamento sem amor é quase obrigatório para a maioria das pessoas. É importante ter alguém pra chamar de seu, pelo menos por um tempo. Não seria mais justo abrir mão de um laço puído e fraco, liberando as pessoas desse teatro sem plateia? Racionalmente parece o melhor caminho a seguir, mas como fomos talhados para acreditar que a felicidade só existe se for a dois, estar só é praticamente um castigo.

Se pensarmos no fim do amor independente da dor, decepção, choros e afins, fica fácil entender a importância do deixar de amar e, perceber isso é, no mínimo, libertador. É leve. É restaurador.

Esse é o momento em que deveríamos olhar pra dentro o mais profundamente que pudermos e perceber quem está ali depois que o amor se vai. Encarar nosso reflexo e pensar que está diante de alguém em que vale a pena investir e, com isso, começar um novo e definitivo caso de amor. Nada é mais precioso que o autoamor. É ele que nos protege do árido mundo real que nos massacra o tempo todo, dizendo que “é impossível ser feliz sozinho!” Não, isso não é verdade, poeta.

Devemos, sobretudo, nos render ao verso que diz “fundamental é mesmo o amor”, mas sem perder de vista que fundamental é se amar, se querer bem e nunca esquecer que, em muitos momentos, se libertar daquele amor idealizado é o que te faz seguir em frente, em direção ao caminho da real felicidade. Não sabemos ao certo quando o amor vai embora, mas podemos estabelecer que ser feliz não depende do outro, depende de nós e isso só é possível quando entendemos a força e a importância do desamar. Perceber que o fim da linha do amor é, na verdade, uma incrível linha de chegada.

Posso ser sincero?

Em uma mesa de bar, num telefonema com sua mãe, na fila do banco ou em qualquer outra situação, alguém vai perguntar se pode, sem cerimônia, falar coisas que você não quer ouvir, mas que serão ditas de qualquer jeito, usando a singela pergunta “Posso ser sincero?”

Esse pedido funciona como passe livre, permitindo ao interlocutor meter o pé na porta das boas regras de convivência e despejar “verdades” para todos os lados, atingindo alvos aleatórios e desavisados. É praticamente um salvo conduto que permite fazer aquela fofoca, destilar um veneno ou dar um parecer sobre algo que não se tem ideia do que se trata.

Não pensem que esse é um daqueles textos rabugentos que pretendem ditar padrões de boa conduta. De jeito nenhum! Afinal, Quem nunca cometeu um daqueles ataques de sinceridade fora de hora ao longo da vida? Mas a ideia aqui é outra. É dar a devida importância a um dos sentimentos mais bacanas que podemos sentir. Aquele sentimento que, independente se você vai sorrir ou chorar no final, sempre será o caminho mais curto entre dois pontos. Tipo aquela mãe amorosa e brava ao mesmo tempo, que é capaz de te cobrir de amores em um momento e no segundo seguinte acabar com você com um simples olhar… assim é a sinceridade. Reta e sem meias palavras.

Ser sincero remete a uma certa pureza, em como ser honesto consigo e com os outros. Não é a toa que consideramos a franqueza infantil uma das maiores expressões de sinceridade, ainda que sem filtros. As relações sinceras são espontâneas e cheias de cumplicidade, como se déssemos ao outro uma autorização prévia para ser verdadeiro por completo, com a promessa de fazer o mesmo, sempre.

Nas reuniões de amigos, por exemplo, somos capazes de dizer os maiores absurdos, sem cortes ou censura. Isso até pode provocar uma súbita raiva aqui ou ali mas, seja qual for o assunto, tudo sempre acaba em explosões de risos e gargalhadas frouxas. A sinceridade não permite rancores. Talvez seja por isso que danos causados a relações sinceras sejam tão difíceis de reparar. Esse é um sentimento que traz uma intimidade implícita e, quando deixamos de ser sinceros com alguém, a intimidade daquela relação fica exposta e vulnerável. Às vezes de forma irreversível.

A sinceridade é simples. Talvez seja o grande tesouro que herdamos da infância. Mas, a medida que crescemos acabamos optando por mantê-lo a salvo ou vendê-lo por qualquer trocado. De todo modo, ser sincero será sempre uma escolha que pode se refletir na vida que se leva e nas pessoas que nos cercam.

O maior pré-requisito para ser sincero é ser verdadeiro. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, já dizia o pequeno príncipe. O que leva a acreditar que sinceridade não é um cartão de visita ou um título, ela é percebida de forma sutil, sem imposição ou alarde. Por isso, quando alguém perguntar se pode ser sincero, pense bem na resposta. Sinceridade é um estado permanente e não uma intervenção abusiva e repentina.

Deixar que alguém seja sincero de forma artificial pode, quase sempre, causar desconforto. Bom mesmo é quando nos aproximamos de alguém, olhamos bem fundo nos olhos do outro e percebemos que podemos chegar e ficar ali, sem pressa. É nesse momento que selamos uma parceria inconsciente, que nos permite ser quem somos, sem máscaras, sem poses, onde nos tornamos cúmplices sem forçar a barra. É o instante em quem somos verdadeiros. E posso ser sincero? Não há coisa melhor.

Caixas de Passado

Apego. Essa palavra por si só já nos remete a mil possibilidades. Coisas e pessoas que amamos e queremos por perto, simplesmente porque são nossas e pronto.

Aquele sapato de 20 anos atrás, o casaquinho amarelo que seu filho usou na saída da maternidade ou o carrinho de madeira da infância… Todos são partes de épocas felizes ou marcantes das nossas vidas. Às vezes expomos esses objetos em lugares de destaque, mas na maior parte do tempo, os deixamos guardados em caixas empoeiradas do fundo de um armário.

Mas, se muitos desses objetos ficam fora do nosso campo de visão, para que tê-los? Vai saber… Mas tenho um palpite.

Arrumar estantes, gavetas e armários, de vez em quando, é a certeza de encontrar bugigangas de todos os tipos e de todas as épocas. Mas também é a possibilidade de um encontro com nosso passado.

Achar um caderno dos tempos de escola, ver sua caligrafia infantil, relembrar nomes de pessoas, ler seus textos antigos e recordar o momento exato em que foram escritos e qual era a trilha sonora que serviu de inspiração… Tudo isso permite jogar cores em memórias que o tempo tratou de apagar.

Num primeiro momento talvez pareça saudosismo bobo, mas remexer em gavetas e papéis velhos pode nos proporcionar experiências únicas. Uma incrível viagem no tempo, onde o passado curioso, diz um “oi” ao presente e pergunta “E aí? Deu tudo certo?”

À medida que o tempo passa, começamos a ver o passado sob um olhar romântico. Perdemos um pouco a percepção do real. O que foi bom, ok e o que foi ruim nem foi tão ruim assim, afinal, chegamos até aqui para contar, não é? Por muitas vezes lembramos de uma cena, de um lugar, de uma pessoa… Mas tudo é estático, como em uma foto. É como se o passado ficasse emoldurado em nossa memória. Somos capazes de lembrar um dia feliz na praia com nossos pais e irmãos em imagens que se organizam em uma grande história em quadrinhos onde você é o narrador e personagem. Quanto mais o tempo passa, menos fiel essa lembrança será.

É possível que nossas tranqueiras empoeiradas estejam guardadas de propósito. Como se quiséssemos, mesmo sem perceber, criar um portal que permitisse o reencontro da nossa versão atual com fragmentos físicos do nosso passado.

Sentir o cheiro de um perfume antigo impregnado numa roupa. Reler uma carta de amor escrita aos 15 anos. Ver aquele livro de dietas milagrosas que nunca deram certo ou aquela bola de futebol furada ainda suja de lama. Tudo isso reaviva a memória e traz, principalmente, uma série de sensações que vão muito além das imagens em quadrinhos. Encontrar com as frações de nosso passado é, sem dúvidas, reviver momentos em 3D, com volume, cheiros e texturas.

Algumas pessoas conseguem essa conexão guardando coisas que cabem numa caixa de sapatos, outras, precisam de galpões.

Quem é capaz de dizer do que precisa para lembrar do que passou? Não me arrisco! Tudo o que guardamos nos remete, de fato, a momentos únicos? Certamente não. Muitas vezes, se desfazer das nossas memórias físicas não significa renegar o passado e, sim, entender que aquela parte da história não tem mais tanta importância. É o presente dizendo ao passado que nem tudo pode permanecer guardado e que apagar memórias nos permite abrir caminhos para a chegada do futuro.

De toda forma, nossos guardados ajudam a promover os raros encontros entre o nosso passado, presente e futuro. E, em uma tarde qualquer você pode decidir usar sua máquina do tempo para dar um pulinho no passado, visitar sua versão mais jovem e, finalmente responder se deu tudo certo. Talvez não haja resposta possível. Talvez seja razoável dizer apenas que não tinha como saber mas que, voltar ao passado e resgatar um pouco daquele olhar curioso e cheio de esperança, é muito melhor do que saber como seria o futuro…

E se um dia alguém disser que guardamos coisas demais, que somos apegados demais ou de menos, tudo bem. Sempre teremos o direito de encher e visitar quando quisermos, as nossas caixas com pedaços de passado.