Sonhos são como brisa

A vida, essa jornada muito louca, pode ser tudo, menos previsível. Passamos um tempo considerável dessa viagem, pensando em “como seria se…” Seguimos criando nuvens com realidades paralelas que, usualmente, chamamos de sonhos. Nuvens que funcionam como estoques ilimitados, capazes de armazenar tudo aquilo que ainda não é compatível com o tempo presente. Sonhos são como brisa leve que alivia, acolhe e reascende esperanças de que, um dia, todo sonho pode se transformar em realidade.

Muitos acreditam que sonhos não passam de uma abstração, outros juram que são projeções de um futuro desejado e, ainda há aqueles que juram que sonhar pode conecta-los ao passado. Sonhar pode ser tudo isso, mas é acima de tudo, uma necessidade. Os sonhos são aqueles momentos únicos onde somos capazes de enxergar novas vidas dentro das nossas próprias. Olhamos para quem somos com um olhar estrangeiro, que busca novas referências e experiências. Sonhar é, antes de tudo, uma possibilidade real de fazer novas escolhas.

Quando nos remetemos a época em que vestíamos nossas capas infantis, não há como negar a vocação pueril pela imaginação, pela fantasia, pelo sonho. Crianças criam realidades que são inversamente proporcionais ao seu corpinho em formação. Crianças voam, conquistam o espaço sideral, nadam com baleias em oceanos bravios e dormem na lua, admirando as estrelas. Olhando do alto de nossos corpos adultos, esses sonhos não passam de delírios infantis, impossíveis de realizar. Gente grande esquece das lições que aprendeu quando era gente pequena. Uma pena… Crianças ensinam que sonhar grande é o que nos faz chegar mais longe.

À medida que crescemos e começamos a descobrir o que é controle, passamos a sonhar em amplitudes menores. O que antes tinha o tamanho do universo, agora é visto através de lentes um tanto míopes, incapazes de captar detalhes pequenos e sem brilho, que poderiam ser transformados em sonhos fantásticos. Isso não é uma regra mas, de fato, está cada vez mais difícil, sobrepor nossos doces delírios à realidade nua e crua que nos arrebata diariamente. Mas, sonhos são perenes e quando menos esperamos, florescem novamente e nos lembram que, independente do peso que carregamos, resistir é preciso.

Sonhar também pode ser apenas um verbo dito, sem medidas, por aí afora, quando nascemos com plenas possibilidades de realiza-los. Para muitos, sonhos são como caprichos que serão alcançados sempre que quiserem. Para muitos, muitos outros, sonhos também são caprichos, só que inalcançáveis. Não ter direito ao que parece ser tão simples e tão óbvio é a realidade de uma maioria que aprendeu desde muito cedo que, sonhar é um privilégio exclusivo de poucos.

A capacidade de sonhar é uma das maravilhas de ser humano. Privar-se desse presente, ou ser excluído dele, é igualmente perverso e injusto. As crianças que fomos e que ainda brincam dentro de nós, precisam de espaço para que continuem fazendo aquilo que fazem de melhor: sonhar grande. Tudo bem que, viver na casca adulta e cheia de responsabilidades, não facilita muito a nossa vida, mas não se deve abrir mão da dádiva que é sonhar, mesmo quando a realidade nos negar esse direito.

Se enxergar sob outras perspectivas, sejam elas grandes demais ou não, permite que sejamos quantos quisermos e, acima de tudo, nos ajuda a escolher quem realmente queremos ser e onde, de fato, queremos chegar. Sonhar é bom demais, mas transforma-los em realidade é, infinitamente melhor. Mas, para isso acontecer, não é preciso muito. Basta acreditar.

O que viemos fazer aqui…

Há momentos em que nada parece ter muito sentido e que as pessoas com quem convivemos, não passam de figurantes sem fala em uma trama sem pé nem cabeça. Um espetáculo que reproduz cenas desconexas, onde só existe um personagem principal, que não sabe ao certo o que dizer. Todos nós já fomos os protagonistas destes momentos confusos onde sentimos tudo, menos a segurança de saber o que viemos fazer aqui.

Ninguém recebe um manual de instruções dizendo qual é o passo-a-passo que levará aos caminhos que todos julgam ser os melhores. Na verdade, seria muito chato ter um protocolo que diz aonde ir, quem conhecer, quando dizer sim e qual é o momento certo de dizer um sonoro não. A vida é, com toda certeza, um modelo experimental onde a única coisa que sabemos é que não sabemos de absolutamente nada. Apesar de passarmos muito tempo, por vezes a vida toda, acreditando que temos tudo sob controle.

Mas, apesar da aparente loucura, esse experimento nos permite criar conexões diversas com um sem número de atores vida afora. Vínculos que podem durar instantes ou se perpetuarem enquanto durar o nosso “para sempre”. Não importa. Sentir-se parte de algo ou alguém vai, aos poucos, criando bordas seguras onde podemos parar e descansar sempre que quisermos. E que, depois de passar um tempo nesses refúgios, seguiremos em busca de outros pontos para, mais uma vez, repousar e criar novos vínculos.

Esse movimento não é excludente. Quanto maior for esse rio, maiores serão as possibilidades de escolher pontos até então desconhecidos. Isso permitirá que criemos laços de vários tamanhos, capazes de nos unir a pessoas diferentes de nós, se tivermos sorte. Não é fácil estabelecer vínculos com aqueles que fogem ao nosso restrito padrão de comportamento. Essa grande bobagem que nos ensinam quando ainda não temos o vigor suficiente para ignora-la, infelizmente, nos impede de perceber a grande rede de conexões, laços, relações e afetos, que temos bem diante de nós.

Vivemos uma busca por novidades e, talvez por isso, nos esqueçamos dos vínculos que fizemos ao longo do tempo. Uma praia onde fomos felizes na adolescência, um amor que ainda persiste, mesmo depois do seu fim ou o repouso restaurador no colo de uma mãe. Situações que podem ser apagadas, sem razão, por conta da nossa estranha mania de trocar antigos laços, por possibilidades incertas. Buscar o novo não é um erro, deixar para trás as boas conexões, sim.

Na vida, nada é mais importante do que os laços que criamos. Trabalho, amores, amigos, família… Tudo isso nos dá muitas chances de contarmos uma história, a nossa história. Que pode ter finais alterados, cenas reescritas e inúmeros personagens. Perceber esse poder de renovação, traz novos significados para a vida que pretendemos levar. Seremos quem quisermos porque já fomos muitos. Teremos um futuro de laços mais firmes, quando não deixarmos para trás, os laços que nos trouxeram até aqui.

Os cacos que deixamos pelo caminho

Imagine acordar, olhar em volta e não conseguir enxergar nada além de uma terra arrasada, sem graça ou significado, onde nada parece ter importância. Nesse cenário amarelado, onde a felicidade é um artigo escasso, a desesperança caminha a passos largos por trilhas que só oferecem o gosto amargo da derrota. Narrativa triste, não é? Mas, muitas são as situações capazes de desencadear essa dolorosa visão de mundo, de onde é possível ver, apenas, os cacos que deixamos pelo caminho. Mas, felizmente, isso não é definitivo.

A visão que temos da realidade é, em grande parte, o reflexo daquilo que somos e sentimos. Dessa forma, o mesmo dia ensolarado pode ser visto, tanto como, o mais belo dos dias, quanto, como o dia mais desagradável do ano. É o nosso olhar diverso que permite a mudança de foco sobre qualquer coisa, a qualquer momento, salvando a todos de tristezas desnecessárias ou de alegrias superestimadas. Nossa aparente inconstância, nos ajuda a perceber as várias nuances de uma mesma cena, mesmo quando a vida insiste em reduzir o nosso campo de visão.

Vivenciar momentos em que, por alguma razão, perdemos nossa unidade e nos transformamos em fragmentos de nós mesmos, não pode, de forma alguma, ser motivo de medo ou vergonha. É praticamente impossível manter-se incólume diante das peças que a vida nos prega o tempo todo. Somos uma grande escultura que parece perfeita vista de longe, mas que, de perto, expõe as rachaduras e emendas conquistadas ao longo do tempo.

Vez ou outra, faltam alguns pedaços que, ao se espatifarem com a queda, formam pequenos cacos difíceis de encontrar e colar novamente. O que nos obriga a tomar decisões difíceis, porém definitivas. Continuamos a procurar os pedacinhos que nos faltam, ou seguimos em frente, exibindo as rachaduras provocadas pelas experiências vividas? A escolha não é óbvia, tanto que mudamos de atitude com frequência. Ora estamos de quatro procurando fragmentos de nós mesmos, ora, ignoramos solenemente, todo e qualquer pedaço inútil que tenha ficado pelo caminho.

Como agir, sempre que virmos nossos cacos espalhados por aí? Não faço a menor ideia, mas, sem dúvida, escolheremos uma forma de ação que estará relacionada a maneira como enxergaremos o mundo, no exato momento em que as rachaduras aparecerem. O fato inconteste é que a vida nos dá pancadas que variam de intensidade e podem deixar marcas, profundas ou não. Nunca saberemos quando isso irá acontecer e nem como, mas, certamente, perderemos muitos cacos como resultado dessa luta. Para alguns deles, emendas. Para outros tantos, indiferença. Para poucos, porém especiais, a falta.

Não passamos pela vida à toa. Aprendemos a valorizar o que, de fato, tem importância. Mas, até chegarmos a esse entendimento, perdemos um tempo precioso investindo em desejos que não trarão nada, além de marcas. Mas isso está longe de ser ruim, apesar do sofrimento que provoca. As rachaduras que exibimos são o resultado das experiências que tivemos, sejam elas boas ou não. Não é isso que importa.

As partes que nos faltam e os pedaços que colecionamos, criam uma espécie de mosaico absolutamente particular, capaz de contar exatamente qual é a dor e a delícia de ser quem somos. Não querer colecionar seus cacos é uma triste opção por não viver e, infelizmente, abrir mão da maravilha que é, poder contar a própria história.

Batalha íntima

Hoje é um daqueles dias que entrará para os livros de história. E não estou falando apenas da eleição. Vinte e oito de outubro de dois mil e dezoito, o dia em que foi travada a batalha íntima que desnudou o que desde sempre era velado e escancarou a maldade como nunca visto antes. Discursos de ódio, atos de covardia, ameaças reais e virtuais, desprezo e indiferença por aqueles que têm menos.

Essa é uma afirmativa, claramente perigosa, uma vez que faz uma generalização irresponsável sobre tantas pessoas. Mas, de todo modo, o que se percebe é que, a despeito da bondade que mora em cada um, muitas máscaras de contenção foram arrancadas de pessoas que, felizmente, passaram a vida controlando o que havia de pior em seus corações. O que encaro como qualidade, já que, todos nós temos lados sombrios que devem ser, sim, mantidos sob controle.

A confusão mental que vivemos agora, vem da dificuldade de reconhecer as pessoas que sempre estiveram ao nosso lado. Será que esse cara foi sempre assim? Como não percebi antes? Essas são, possivelmente, as perguntas mais recorrentes que todos temos feito. Percebemos que a realidade nos impôs uma tarefa muito árdua onde, além de decidir qual é o melhor caminho a seguir coletivamente, somos obrigados a lidar com os inimigos íntimos que sempre estiveram ao nosso lado, mas que jamais notamos a sua presença.

Porém, uma dúvida se destaca nesse mar de incertezas. Qual foi o momento exato onde o ódio arrebentou as correntes e a intolerância se fez presente? Essa pergunta leva a uma triste constatação – não houve um momento exato, nós é que preferimos não enxergar. E não é porque somos levianos e, sim, porque fomos habituados a ver com naturalidade, gestos de exclusão disfarçados de piada. Atitudes odiosas que se protegiam atrás de sorrisos despretensiosos. O grande erro foi não acreditar que, em algum momento, o ódio não precisaria mais disfarçar a sua presença.

Se não é possível determinar, com exatidão, a partir de quando a intolerância passou a dominar as relações, é fácil perceber quando muitos resolveram revelar sua face oculta: No instante em que ganharam voz, no instante em que ganharam representatividade. Essa é uma receita simples. Basta que alguém propague ideias absurdas e abjetas com naturalidade e isenção, para começar a ganhar seguidores que sempre compartilharam dessas opiniões, mas não tinham coragem para expressar o seu ideal de exclusão particular. Agora encontraram.

O diálogo é, em sua origem, muito simples de entender e muito fácil de executar. Mas é, também, uma pedra no sapato de quem não tem o que dizer, por não ter argumentos. Dialogar virou sinônimo de fraqueza em tempos de certezas absolutas. Chamar para uma conversa provoca medo e desconfiança. Sentimentos que causam um desconforto que se transforma, facilmente, em contra-ataque carregado de irracionalidade.

Voltar ao tempo onde acreditávamos que éramos todos amigos cordiais e inofensivos, não é mais possível, uma vez que nos enxergamos sem filtros, máscaras ou disfarces. O que fazer agora? Não sei ao certo, mas essa turbulência nos coloca diante de um momento único. A partir de agora, poderemos construir novas relações sem o peso da falsidade e da dissimulação. Cada um mostra aquilo que é, independente se seu ódio tende a ser destro ou canhoto. Mostrar uma face sem truques nos dará a chance de fazer escolhas mais assertivas. É difícil afirmar se isso será bom ou ruim. A única certeza que temos nesse momento, é que não dá mais para fingir ser quem jamais fomos. Essa é a hora, diante de tanto desalento, de transformar a desconfiança em verdade.

Aqueles que não são o que dizem ser

Lidar com as pessoas sempre foi algo intrigante. Interagimos, desde sempre, com perfis muito distintos de nós. Uns mais fáceis e outros nem tanto, mas, nesse universo de personalidades que que nos influenciam, nada supera o desafio de conviver com aqueles que não são o que dizem ser.

Mas é preciso ir além do clichê que retrata as pessoas que não se mostram, como falsas, perigosas e insanas. Caricaturas retratadas em tintas muito fortes por todo tipo de ficção. Afinal, todos somos capazes de brincar de esconde-esconde com nossos traços de personalidade, mostrando e escondendo detalhes, de acordo com a nossa conveniência. Até aí, tudo certo. Seguimos o protocolo de sociabilidade que nos permite conhecer nossos limites e, principalmente, perceber como o olhar do outro é capaz de nos influenciar.

Essa tarefa, além de inglória, é quase sempre malsucedida por razões muito simples: somos muitos em um só. Preservamos aquele que verdadeiramente somos e mostramos o que nos convém, os outros nos leem através de suas lentes e tiram suas próprias conclusões. Isso pode significar muitas coisas, mas indica que, essencialmente, jamais saberemos tudo sobre quem quer que seja, apesar de acreditarmos no contrário.

E, nesse eterno pega-pega, investimos muito tempo e energia em supor que conhecemos, não só aqueles que nos rodeiam, mas também, aqueles que mal conhecemos. Criando uma teia de suposições e achismos que, invariavelmente, irão desaguar em opiniões equivocadas, percepções tortas e todo tipo de maledicências. Olhando por esse prisma, podemos concluir que vivemos num grande espetáculo onde escolhemos personagens adequados para diversos fins.

É claro que não se pode generalizar, mas é preciso reparar aos detalhes de quem nos cerca. Ninguém irá, de uma hora para outra, olhar com desconfiança para as pessoas que lhes são importantes, mas é interessante observar as mudanças constantes que sofremos o tempo todo. Sim, o tempo passa, muda regras e inclui novos participantes todas as vezes que começamos a aprender a jogar nossos jogos particulares e a prever quais serão os passos de nossos parceiros.

Ao mesmo tempo que esse é um movimento natural, pode ser, também, um perigo iminente, uma vez que não somos capazes de prever sequer, qual será o próximo passo daqueles a quem julgamos conhecer tão bem. Resultado? Algumas puxadas de tapete, rasteiras leves, passadas para trás com requintes de deslealdade e decepções de amplo espectro. Tudo dentro do roteiro que promete nos tornar pessoas melhores ou, pelo menos, mais atentas.

Infelizmente, é bastante comum que algumas pessoas consigam, de forma brilhante, mascarar aquilo que realmente são, apenas para furar um bloqueio chegar perto. Dessa forma, somos cercados por aqueles que preferem não apresentar qualquer protagonismo e ficar, eternamente, orbitando estrelas de maior brilho, de acordo com a sua conveniência. Uma distorção de realidade que nos faz acreditar que parecemos ser muito mais especiais do que realmente somos. É aí em que o perigo se faz presente.

Quebraremos a cara com certa frequência, sim, mas e daí? Deixaremos de viver, por medo do desapontamento com aqueles que não se mostram? Bobagem, pois, além da morte, só nos resta uma certeza inquestionável: sofreremos por acreditar que conhecíamos muito bem, quem  não passava de um completo desconhecido.

Não devemos desistir do outro. Basta apenas jogar limpo e oferecer, sempre que possível, o que temos de mais verdadeiro e, exigir, o que o outro tem de melhor. Assim, seremos capazes de entender que, para sermos felizes, não precisamos de nada, além de boas doses de verdade.

 

Ao mestre, com respeito

Dia do mestre. Essa data repete-se como um ritual anual, que traz uma visibilidade instantânea para uma classe trabalhadora que sustenta os pilares de uma civilização. Não, não é exagero dizer isso. Salas de aula, são templos disponíveis para receber todos aqueles interessados no saber. E, para isso, é necessária a presença de um regente: o professor.

Escolas podem ser templos do saber, mas professores não são sacerdotes ou filantropos. Professores são profissionais. E merecem respeito. Celebrar o seu dia é importante, mas, esquecer sua existência ao longo dos outros trezentos e sessenta e quatro dias, é cruel. Não, os profissionais da educação não são pobres coitados em busca de holofotes cínicos ou de piedade falsa. Queremos e merecemos reconhecimento profissional, condições adequadas de trabalho e visibilidade.

Neste dia, é possível constatar que os professores estão fadados ao esquecimento. Estamos desaparecendo. Os alunos, os pais, a comunidade e as autoridades vão, pouco a pouco, minimizando a figura responsável pela formação daqueles que irão, independentemente da área de atuação, desenvolver o mundo onde vivem. É como se colocássemos o professor atrás de uma névoa densa, onde é possível enxergar apenas um contorno difuso, mas, sem a nitidez necessária para dar a devida importância ao seu ofício.

Somos, de fato, os pilares de qualquer sociedade que se pretende séria, organizada e justa. Salários de fome, “saunas” de aula e desrespeito por todos os lados, só podem ser combatidos de uma forma: dizendo basta! Alunos e professores, reivindiquem uma educação de qualidade, mas façam isso ocupando os espaços necessários e, principalmente, façam isso votando certo.

Professores não são vítimas, assim como, não são abnegados que trabalham por amor e vocação. Professores não precisam da reverência de imperadores e, sim, de reconhecimento real, afinal, de oportunismo leviano e eleitoreiro, já estamos fartos. Não somos santos e nem melhores que ninguém. Mas somos, sim, essenciais.

Médicos salvam nosso corpo físico, engenheiros constroem as cidades, advogados e suas leis mantém a nossa organização social, mas, nenhum destes profissionais é capaz de promover uma transformação diária na vida de tantos. Professores, apesar de responsáveis pela formação de todos os outros profissionais, não são agraciados com aquilo que é comum aos demais trabalhadores que formam: o reconhecimento.

Precisamos entender esse paradoxo que nos faz amar os professores, a ponto de celebrar um dia só seu e, ao mesmo tempo, despreza-los todas as vezes em que lutam por melhores condições de trabalho. Não há melhor reconhecimento do que ver o sucesso pessoal e profissional de um estudante. Não há glória maior que ouvir de um ex-aluno, o quanto fomos importantes em sua formação. Essa, talvez, seja uma das poucas razões que impedem que desapareçamos na névoa do descaso e do esquecimento. Para que professores não se tornem invisíveis, a sociedade deve reconhece-los e valoriza-los. Para que isso aconteça, não é preciso muito. É necessário apenas… respeito.

A fábula do valentão

Tenho certeza que muitos de vocês, são capazes de identificar aquela figura que fez parte de vários momentos importantes de suas vidas e que, quase sempre, foi responsável por memórias um tanto incômodas? Essa pessoa é tão constante, que já tem lugar cativo no inconsciente coletivo, como se fosse uma personagem de fábulas. Tá aí um bom exemplo para dar nome a esse texto: a fábula do valentão.

Nas ruas onde costumávamos brincar, dentre todas as crianças, havia sempre aquelas que se destacavam por algum talento. Mas nada chamava mais atenção do que aquela criança que despontava como liderança e que já exercia um certo fascínio sobre todas as outras. Este suposto líder se destacava, geralmente, por sua força, habilidades físicas ou por ser considerado mais bonito que os demais. Características que são superestimadas em todas as faixas etárias, mas que, na infância, se expressam em estado bruto, sem filtros e com requintes de crueldade.

Crianças que conseguiam uma legião de admiradores, que davam suporte a todas as suas decisões, inflando seu ego infantil e colocando-os no centro de seu universo. Isso nos ajuda a entender que, quando muito jovens, achamos que divergências devem ser resolvidas no braço, sem articulações ou ponderações. E, por conta disso, quantas vezes não testemunhamos o fim prematuro de uma brincadeira, simplesmente porque o dono da bola estava perdendo para outra criança mais fraca e menos popular que ele?

Esse é um clássico infantil e que, infelizmente, pode acompanhar algumas pessoas vida afora, caso não seja contido. Limites, respeito ao outro e educação são princípios importantes nesse momento. Ainda bem que a família e a escola entram nesse circuito para nos ensinar que não vivemos mais em cavernas, logo, as divergências devem ser resolvidas através do diálogo. Pelo menos, é o que esperamos…

Ao chegarem na adolescência, os valentões infantis transformam-se, quase sempre, em meninos e meninas populares, cheios de aptidões físicas e pouco apresso as questões do intelecto. Parece preconceito, mas é apenas a constatação de um fato. É nessa época onde as diferenças se acirram e permitem a criação de grupos, assustadoramente, heterogêneos. Os rapazes fortes e esportivos, as meninas mais gatas do colégio, os meninos que brincavam com meninas e vice-versa, os descolados, os nerds e por aí vai. Arranjos sociais que rompem os muros escolares e se espalham por todos os lados.

Mas, o que de fato importa aqui, é de que maneira conseguimos lidar com a figura do chefe da turma, da mais bela do grupo ou do mais popular da rua, sem sucumbir à dominação do outro, apenas por ser considerado inferior a ele? A resposta não é tão difícil como parece, basta usar algo que é inerente a todos nós – a inteligência.

Exaltar a dominação pela força e reprimir o diálogo inteligente, são reflexos sociais que resolvem aparecer de tempos em tempos. E esse fenômeno só é possível quando muitos decidem ignorar toda a forma de pensar que seja contrária à sua. Voltando a ser como aquelas crianças birrentas, que sempre acabam com a brincadeira, todas as vezes em que o resultado as desfavorecer. Um péssimo caminho a seguir quando o objetivo é resolver conflitos e não, cria-los.

À medida que crescemos, nos tornamos mais conscientes sobre as pessoas e as coisas que nos cercam, percebemos que, manter os valentões populares em seus lugares de destaque, é uma escolha nossa e não deles. Nos tornamos homens e mulheres feitos quando, enfim, constatamos que é a soma da inteligência, empatia e o respeito pelas diferenças, a grande força que carregamos conosco o tempo todo. Esse é o grande poder capaz de subverter a ordem estabelecida e transformar pessoas comuns e sem perspectiva, em criaturas fortes e, genuinamente, valentes.

Dane-se!

O mundo tem se tornado um lugar complicado, para dizer o mínimo. Quantos de nós está realmente interessado com o que se passa à nossa volta? Chegamos a um ponto onde nem as nossas próprias questões chamam a atenção como deveriam. Não estamos indiferentes as questões do outro apenas, nos tornamos negligentes conosco também. Saber mais sobre a dor e a delícia de ser quem somos, tornou-se algo trabalhoso demais. Logo, dane-se o seu problema, não dou conta de mim, imagina de você… Quem nunca ouviu ou pensou algo parecido?

Nestes momentos em que medimos tudo por uma régua muito rasa, ligamos um farol interno que aponta para todos os lados sinalizando, para quem puder enxergar, que estamos nos lixando para toda e qualquer situação que possa, minimamente, trazer algum desgaste. Estamos todos em modo avião. Mantemos os sinais vitais com energia suficiente apenas para seguir em frente e, qualquer coisa que fuja a isso, irá demandar um esforço adicional que não interessa a ninguém.

Apesar das semelhanças, não podemos confundir esse estado de desinteresse coletivo, com apatia. Não é. Estamos, deliberadamente, nos importando menos com o que interessa de fato. Seguimos criando realidades paralelas onde elegemos algo para chamar de nosso e que se dane o mundo. Essa seletividade leviana, cria bolsões recheados de desinteresse, que não exclui apenas os problemas alheios. Fazemos parte desse pacote esquisito na mesma medida.

Valorizamos bobagens e deixamos de olhar com mais cuidado para o que pode nos transformar, melhorar e evoluir. Ignoramos talentos naturais, deixamos de lado novas possibilidades, criamos aversão pela novidade… Por que? A resposta não é tão difícil. Por medo ou preguiça de ter que colocar a mão nessa massa heterogênea e difícil de moldar que, não por acaso, chamamos de vida. Mudar de rota é trabalhoso, e como trabalho é algo fora de questão, é melhor dar de ombros, fazer cara de nada e pensar – dane-se – isso não daria em nada mesmo…

A primeira Lei de Newton nunca fez tanto sentido como agora. Estamos divididos entre corpos que se mantém em movimento, seguindo sabe-se lá para onde, e criaturas que se mantém em um repouso assustador, sem sinais de alteração. O que não seria um problema, uma vez que alternar movimento e repouso faz parte do nosso desenvolvimento. Mas, pelo que tudo indica, resolvemos deixar de lado essa alternância. Fazer isso é assumir que, não importa o que aconteça, movimentos aleatórios ou repousos irresponsáveis permanecerão inalterados. Em que momento perdemos a capacidade de reação?

A única escolha que me parece clara neste momento, é a decisão coletiva pela omissão. Não quero saber! Problema seu! Isso não me afeta! Foda-se! Dê seu jeito! Faça de novo! Dane-se… Não importa qual é a expressão utilizada e, sim, o que ela significa. Pensar no próprio umbigo o tempo todo, exclui a beleza da partilha e a importância da coletividade. E isso pode ser um caminho sem volta…

É bom ficar atento, pois, não se interessar pelo o que acontece a um semelhante, pode desenvolver uma insensibilidade crônica, um descompromisso leviano e um cinismo insuportável que deixam uma mensagem muito clara: toda forma de indiferença que aplicamos ao outro, será devidamente retribuída na mesma velha e conhecida moeda.

Tá olhando o quê?

Provocação. Essa parece ser a tônica do momento. Não importa quais são as opiniões, não interessa quais são os motivos e tanto faz quais são as motivações. Em tempos de cólera, o que de fato importa, não é o dom do raciocínio e, sim, a capacidade de provocar e ser provocado. É como se estivéssemos dizendo e ouvindo “tá olhando o quê?”  para qualquer um que ousar nos encarar por mais de cinco segundos.

Um ambiente provocativo está longe de ser algo ruim e ajuda a nos manter atentos ao que se passa, mas não é isso que se percebe. Trata-se de uma forma rasteira e perigosa de chamar a atenção do outro, expondo diferenças e levantando argumentos rasos, com um único e claro objetivo – incitar o ódio coletivo, irracional e gratuito. Apenas.

Essa forma de expressão não é nova, sempre esteve entre nós, mas nunca como agora. O que chama a atenção nesta postura coletiva, é o seu tom perverso e apelativo, que busca, sem cerimônias, ativar a irracionalidade alheia, trazendo à tona preconceitos que potencializam maldades que tanto lutamos para conter. Provocações que resgatam a mãe de todas as nossas mazelas – a intolerância.

Sempre fomos intolerantes em algum grau. Isto é um triste fato. Mas o que se vive agora, possui um caráter muito particular. Estamos acostumados a passividade daqueles que leem livros de história e que veem filmes de época que relatam fatos hediondos e desumanos. Fatos que doem, mas não o suficiente para nos transformar porque, segundo alguns, o passado não é capaz de nos tocar. Tudo isso mudou. Agora, somos contemporâneos do ódio sem filtros. E não temos ideia do que fazer com isso.

É intrigante constatar que, sequer, fomos capazes de perceber o peso e a sombra da intolerância se aproximando. Talvez o que incomode, não seja a dificuldade de enxergar o ódio nos contaminando e, sim, a culpa por tê-lo visto chegar e não termos feito nada para impedir. A maldade sorrateira ganha forma e força em terras comandadas pela omissão.

Passada a surpresa de, enfim, perceber que o mundo é mal, o que fazer? Há apenas três caminhos possíveis. Um deles é lutar vigorosamente contra toda e qualquer possibilidade de exclusão provocada pela intolerância. O outro é continuar fingindo que nada está acontecendo e por último, mostrar, sem pudores, o fascínio leviano por essa nova ordem onde, a indiferença pelo outro, é o principal caminho para a concretização da intolerância. O mais chocante nisso, é atestar que a última opção parece ter muito mais adeptos do que ousaríamos imaginar.

Todo esse cenário só é possível por uma única razão: a representatividade. Aquela que é capaz de dar voz a quem busca dias melhores, também é usada para engrossar o caldo ácido do ódio. Intolerantes produziram representantes que verbalizam a plenos pulmões toda a sorte de absurdos contra tudo e todos. Grupos com uma capacidade enorme de fazer barulho e criar realidades virtuais onde parecem ser maiores do que realmente são. Infelizmente, eles têm sido bem-sucedidos.

O que nos resta? Pular mais alto. Dar o troco. Mostrar quem manda. Não com ódio, mas com razão e amor. O ódio e a intolerância, crescem em terra arrasada, plena de irracionalidade e, combatê-los com essas armas, é certeza de vitória. Tentar resgatar o amor no outro é o grande desafio em tempos tão difíceis. Muitos podem rejeitar a ideia, afinal, o amor é facultativo e sua aceitação pode assumir diferentes formatos. Já o ódio, não. Esse é intolerável. Deixar que se fortaleça é, antes de tudo, falta de humanidade. Amor e razão trazem mudança, paz e esperança. Já a intolerância fomenta o ódio. E é ele que queremos sentir e propagar? Não. Ele não…

A velocidade da vida

A  maioria de nós costuma dizer que a vida é muito curta, que tudo passa muito rápido e que, quase sempre, não conseguimos dar conta de todas as coisas que precisamos fazer enquanto estivermos por aqui. Difícil encontrar alguém que discorde dessa opinião tão sedimentada e, talvez por isso, não consigamos compreender qual é a real velocidade da vida que levamos.

O senso comum sobre a brevidade da nossa existência, deixa de lado o fato de que, em muitos casos, a vida, nem sempre, corre em um circuito de alta velocidade, ao contrário. Para muitos, viver pode ser um caminho longo e arrastado onde o tempo parece não ter pressa alguma para seguir em frente. A vida assumirá ritmos variados com base em um simples, mas poderoso, fator – as nossas decisões. Os desdobramentos das nossas escolhas é que irão ditar a velocidade real das nossas vidas.

A percepção que temos da realidade, independente da idade, é absolutamente particular, o que nos leva a criar algumas distorções sobre o nosso próprio tempo. Mas, dificilmente, relacionamos nosso ritmo de vida às decisões que tomamos. Agimos como se a vida, aquela entidade indomável e descolada de nós, fosse a única responsável pela realidade. O que pode nos eximir de qualquer traço de culpa por todas as decisões tomadas, sejam elas equivocadas ou não.

Todas as vezes em que estamos diante de um novo desafio, sobra pouco ou nenhum tempo para elaborar uma forma de agir. Vamos lá, aceitamos, ou não, e pronto. O que é absolutamente normal, não fosse o fato de ocultarmos a nossa responsabilidade sobre os efeitos dessas decisões e, de que formas, isso irá afetar a percepção que temos sobre a ação do tempo em nossas vidas.

Aceitar uma proposta de emprego. iniciar um relacionamento ou mudar de cidade. Situações distintas, criadas a partir de nossas decisões e que serão capazes de dizer se devemos correr atrás, o mais rápido que pudermos, das nossas escolhas ou, se iremos sentar e esperar o lento caminhar da vida que decidimos viver. De todo modo, decidir nunca é simples, até porque não temos ideia de como o futuro será de fato. Nos resta apenas desejar que dê tudo certo com as nossas escolhas e que sejamos felizes.

É neste ponto em que percebo o quanto a vida é muito mais longa do que querem nos fazer crer. Todos sabemos que existe um número incontável de experiências, de pessoas e lugares para serem vividos, conhecidos e experimentados. Mas isso não pode ser o motor principal que nos movimenta. Pensar em viver o hoje como se não houvesse amanhã é, antes de tudo, aceitar um estado de eterna ansiedade que, certamente, nos fará acreditar que, diante de tantas possibilidades, a vida sempre será curta demais.

A vida é cheia de possibilidades. Podemos mudar sempre que quisermos e de acordo com o nosso próprio tempo. Quem disse que precisamos correr, insanamente, atrás daquilo que nem sabemos o que é? Quem disse que, sem pressa, não se pode viver uma boa vida? Quem disse que a vida é curta demais para mudar de ideia? Aquele que disse para viver o hoje, como se não houvesse amanhã, possivelmente, perdeu-se entre suas escolhas e jamais conseguiu saborear com calma e prazer, as delícias de uma longa vida bem vivida.