Recortes de felicidade

Vivemos um momento muito curioso, onde a realidade parece ter se partido em muitos fragmentos e, cada um deles, reflete uma imagem da mesma história. Algumas mais agradáveis, outras nem tanto. Mas o que chama atenção, é a quantidade de momentos incríveis que fazemos questão de divulgar à exaustão como se, de alguma forma, isso fosse capaz de neutralizar as partes ordinárias do nosso dia a dia.

Todo mundo já percebeu isso em algum momento e já abordei isso em outros textos, mas impressiona o volume de realidades alternativas que encontramos a todo instante. Parece que estamos caminhando a passos largos para uma espécie de “matrix” onde projetamos vidas perfeitas, que serão admiradas e invejadas. À medida que o tempo passa e vamos nos acostumando a esse comportamento, passamos a esconder o que é real e comum a todos nós: nossa humanidade.

É ela que nos dá a exata medida do que somos. Criaturas que reagem ao meio onde vivem das mais diferentes formas e intensidades. Criando um comportamento tão complexo que não pode ser, de maneira alguma, resumido a postagens solares, sorridentes e editadas. Somos muito mais que isso. Há beleza na lágrima, há importância no medo e aprendizado na dor. Não se pode ignorar ou reprimir facetas tão essenciais, que ajudam a entender que a vida é feita a partir de um todo e, jamais, de recortes de felicidade.

A cada dia, a socialização virtual cria um novo movimento que atua como uma força da natureza, completamente fora de controle. O que nos leva a perseguir modelos inatingíveis, felicidades escancaradas e fórmulas prontas que só existem no mundo virtual. Estamos, pouco a pouco, abrindo mão dos detalhes que nos tornam únicos, para abraçar formatos padronizados onde todos são tão estranhamente semelhantes, que é quase impossível identificar quem é quem.

São muitos os pontos que levam a esse erro de avaliação e que nos dizem o tempo todo, que devemos ser iguais, apesar das diferenças. Mas o que salta aos olhos de forma quase agressiva, é a obrigação de expressar uma felicidade desmedida. De uma hora para outra, todos resolveram publicar fotos que traduzem momentos únicos, repletos de uma alegria especial, reservada a todos aqueles que acreditam no ideal da vida perfeita. Mesmo que isso não passe de faz de conta.

Estar feliz demais em situações onde a grande maioria não vê felicidade alguma, além de forçar uma barra, pode causar impressões absolutamente impossíveis de reproduzir. Que fique claro que esta não é uma crítica ao bem viver, ao contrário. Mas, a superexposição de uma vida absolutamente feliz é preocupante sim, uma vez que pode sufocar sentimentos e anular desejos. Quem nunca exagerou no sorriso para uma selfie perfeita na praia para, no instante seguinte, desmanchar a alegria e constatar que gostaria de estar em qualquer lugar longe dali? Esta é a grande questão. Até que ponto devemos suprimir o que, de fato, sentimos, para expor uma perfeição irreal e perversa?

Entender de que formas essa nova forma de viver irá nos afetar, só o tempo dirá, mas é possível não sucumbir completamente as maravilhas da felicidade obrigatória. Como? Valorizando todas as outras experiências. A vida real está longe de ser feita apenas por momentos felizes. Altos e baixos farão parte da jornada o tempo todo. Por isso fique atento aos sinais e não se sinta menos feliz só porque outros demonstram explosões de felicidade. Essas expressões podem conter altas doses de infelicidade.

Livre, leve e solto

Estar livre, leve e solto, é algo muito desejado, mas que, infelizmente, nem sempre é possível. Em outras palavras, queremos uma sensação de liberdade onde nada mais importa, além da nossa própria vontade. Mas se, em tese, não vivemos escravizados, por que, então, buscamos algo que já temos? É neste ponto em que somos obrigados a encarar uma das verdades que regem, especialmente, a vida adulta: não somos senhores absolutos de nós mesmos. Por mais que se acredite no contrário…

A vida segue um ritmo próprio e nós somos tragados por esse fluxo. E, para não nos perdermos no meio da caminhada, lançamos linhas imaginárias que nos ajudam a construir referências e criar vínculos. Dessa forma, ao mesmo tempo em que as linhas ajudam a criar identidade, também nos envolvem e, ora servem como guias, ora servem como âncoras.

É evidente que não conseguimos perceber esse emaranhado imaginário, mas fatalmente sentiremos seus efeitos em algum momento. Especialmente quando pretendemos tomar decisões ou mudar perspectivas, mas sentimos que algo nos prende ou impede que sigamos novos desafios. Essa dificuldade em se movimentar para onde se deseja, é o que nos dá a medida do quanto podemos estar presos aos nossos próprios laços. E como estabelecemos limites que nos impedem de ir aonde bem entendermos, mesmo estando aparentemente livres.

A conquista de um emprego, relacionamentos, filhos, amigos e todas essas conquistas pessoais e que são comuns a imensa maioria de nós, criam os tais vínculos que tanto buscamos e, na mesma medida, diminuem a amplitude dos nossos movimentos quando pensamos em nos jogar em novas aventuras solo. Reparem que atar-se ao que quer que seja, não é ruim. É apenas um dos sinais de que, ao longo da vida, nos comprometemos com nossas escolhas. Isso, sim, nos acompanhará sempre e para sempre.

Então, seria correto dizer que a tal liberdade só está disponível para aqueles que não se comprometem? Não. Mas estes, certamente, levam uma certa vantagem. A grande questão não está relacionada ao número de vínculos que formamos e, sim, a ideia de que somos livres para fazermos o que quisermos, quando bem entendermos. Você pode até acreditar nisso, mas, em algum momento, verá que romper seus laços não será simples como dizem por aí.

Reparem que não estamos falando de um problema, mas sim, da percepção dos nossos limites e da noção que carregamos sobre o que é liberdade. Ser livre é, antes de tudo, uma atitude interna, que não depende de nada além da nossa vontade. E isso é transformador, uma vez que esse sentimento é capaz de promover mudanças tão profundas, que podem alterar rumos aparentemente inalteráveis, independente do novelo de linhas que nos envolve.

A liberdade que buscamos não está no outro e não está no descompromisso. A leveza do ser livre ultrapassa convenções. A leveza do ser livre independe das linhas que carregamos, dos vínculos que fazemos ou deixamos de fazer. Ser livre, leve e solto é perceber que a liberdade mora no que é simples, no que é fácil e naquilo que nos permite enxergar além dos frágeis nós que nos atam.

É preciso falar de amor

Muito já foi dito e muito mais ainda está por vir quando o assunto é amor. E é fácil entender o porquê de tanto alarde sobre esse sentimento. Ele agrega formas de sentir tão distintas, que fica impensável viver e não falar dele. É impossível se relacionar sem que se perceba que, em algum momento, será preciso falar de amor.

Quando pensamos em amar, o amor romântico ganha destaque. Mas é injusto que este seja sempre o mais falado, o mais desejado e o mais obsessivamente procurado por nove entre dez mortais. Há muitas formas de amor que, consequentemente, criam diversas possibilidades de amar. O amor religioso, por exemplo, diz que o próximo é o objeto onde devemos aplicar a nossa capacidade de amar. Já o amor fraternal, indica que todos são capazes de amar uns aos outros como irmãos. Os egoístas diriam que não há nada melhor do que amar a si próprio e os abnegados preferem amar a todos, desde que eles fiquem de fora da lista…

Reparem que, independente do tipo, para que o amor exista, serão necessários os seguintes atores: a fonte, o alvo e o retorno. É preciso que haja alguém disponível para amar, uma outra ponta para receber esse amor e transferi-lo de volta para sua origem. Essa é a receita clássica para que as relações baseadas nesse sentimento deem certo. Mas, em se tratando de amor, nada é tão simples. Esse fluxo de energia que parece muito óbvio, pode, e vai, encontrar muitas alterações em sua forma e conteúdo, até que chegue ao seu destino final. É confuso? Muito. Mas amar sempre foi e, continuará sendo, um desafio.

Começando do início. Aprendemos, desde cedo, que o amor é algo bom, que devemos sentir sempre ou, pelo menos, tentar tê-lo por perto. Mas com o passar do tempo, nos tornamos fontes capazes de gerar amor em intensidades muito diferentes, pois, à medida que crescemos, somos obrigados a dividir esse sentimento com muitas pessoas e de formas muito particulares. Amamos nossa família, amigos, cachorros, parceiros, profissão e tudo mais, de formas muito diferentes. A origem do sentimento é a mesma, porém os alvos mudam o tempo todo. O que torna imprevisível saber qual é o tipo de retorno que teremos a partir do amor que ofertamos.

Talvez seja neste ponto onde as coisas começam a ficar interessantes, para dizer o mínimo. Poucos duvidam de sua capacidade de amar, o que nos diferencia é a forma de expressar esse sentimento. Até aí tudo bem pois,  neste quesito, somos nós quem mandamos. Cada um de nós sabe do seu potencial para amar e para onde ou para quem, iremos transferir este nobre sentimento. A coisa sai dos trilhos quando deixa de depender da nossa vontade. Ao focarmos um alvo, transferimos a bola para outra pessoa e, é ela, quem vai decidir se nos devolve o passe, se esquiva, ou passa para outro…

Isso pode dar início a uma partida sem fim, onde não sossegaremos até que o passe caia redondo nos pés de alguém e esse alguém faça um gol de placa, retribuindo, assim, todo o amor que tanto queríamos. É claro que, muitas vezes, isso não acontece e partimos para novas possibilidades, novos jogos e novos passes. As vezes conseguimos isso com facilidade, mas, normalmente, demoramos a entender que a bola que tratamos com tanto carinho, jamais voltará para os nossos pés.

Pensar dessa forma, nos ajuda a entender que amor, antes de tudo, precisa ser uma atitude individual. É primordial que, antes de amar ao que quer que seja, tenhamos em mente que nós somos a fonte que pode gerar amor. Não apenas aquele que transborda para alvos externos, mas sim, aquele que nos alimenta, nos fortalece e permite que enxerguemos o mundo sob vários pontos de vista. E, em tempos difíceis como agora, nunca foi tão importante falar, praticar, aceitar e retribuir amor.

 

O conforto e suas zonas

Conforto… a simples menção dessa palavra, vem acompanhada de um calor que nos faz desejar estar em qualquer lugar que possa nos acolher. Um colo de mãe, a palavra certa no momento necessário ou um café quente em um dia frio, trazem sentimentos e memórias que ajudam a respirar nas horas difíceis.

Já, a ausência de conforto, expõe nossas inseguranças e medos e isso, obviamente, ninguém quer. Apesar de indesejável, a sensação de estar inadequado possibilita que enxerguemos algumas rotas de fuga capazes de, não apenas, nos salvar de embaraços, mas também, de iluminar caminhos até então, desconhecidos.

À medida que construímos planos de vida, via de regra, pensamos em conquistas que irão nos proporcionar qualidade em nosso viver. O que para uns pode ser uma volta ao mundo, para outros, basta um bom papo com um vinho e um pôr do sol, para que a felicidade se expresse. Em ambas as situações, há uma atmosfera agradavelmente envolvida por um desejo de que aquilo se torne realidade. Mas, o que nos leva a desejar que nossos sonhos  transformem-se em experiências? A certeza de que, nos sonhos, estaremos  repletos de conforto.

Partindo da premissa que estar confortável é tudo o que se quer, por que, então, criamos um padrão de comportamento que nos obriga a falar mal dos momentos em que estamos ocupando o lugar, que nos habituamos a chamar de zona de conforto? Parece contraditório, e é.

Todas as vezes que nos damos conta de que algum setor das nossas vidas, não apresenta mais a mesma intensidade exibida tempos atrás, achamos por  bem fazer uso do termo que caiu no senso comum e, passamos a maldizer aquilo que levamos uma vida querendo alcançar: o conforto.

Mas, será que é tão ruim assim alcançar esta zona? Para responder a essa pergunta, é preciso compreender o que significa conforto, de fato, e qual é a sua importância na vida de cada um de nós. Basta olharmos para as pessoas que nos cercam. Alguns almejaram alcançar posições e, ao chegarem lá, sentem-se plenos, realizados e desprovidos de qualquer culpa. Já, outros, cobram-se duramente, pois acreditam que sempre há um novo degrau a subir e que, estar confortável, é estar acomodado.

Nesta questão não há certos e errados. O grande engano é pensar que todos devemos seguir padrões que, supostamente, nos tornam mais competitivos, mais espertos e imunes a derrotas e decepções. Isso é ruim, uma vez que estabelece que todos, sem exceção, precisam sentir-se inadequados de alguma forma, para que possam seguir em frente na busca por seus sonhos. Talvez seja necessário compreender que o céu até pode ser o limite, mas que esse limite irá variar de acordo com o tamanho do sonho de cada um.

A partir disso, é bem provável que consigamos olhar para o conforto como aquele velho amigo que desejamos encontrar e ter por perto sempre que possível. Sem pressão, sem cobranças. Não há nada pior que sentir-se parte de algo mas que, por conta de um movimento alheio ao nosso desejo, temos que abandonar a nossa zona de conforto, porque alguém disse que aquilo não era suficiente.

Felizmente, a percepção sobre o que nos faz sentir confortáveis, muda com o passar do tempo. Sendo assim, não se perca em modelos que determinam até  onde você deve ir. Vá para onde quiser, fique o tempo que desejar e lembre-se: zona de conforto é aquela onde se quer estar.

O novo ano

Olhar para trás ou para frente? O último dia do ano tem o poder de criar um transe coletivo, que provoca uma explosão que reúne sentimentos e lembranças das coisas que já vivemos, com as esperanças e incertezas sobre o novo ano que está por vir.

Mas, independente de como tenha sido o ano que passou, a transformação no calendário cria uma atmosfera quase mágica que nos permite, dentre outras coisas, deixar os problemas de lado e celebrar tudo aquilo que foi importante e desejar que dias mais tranquilos estejam reservados para nós.

O tão celebrado ano novo é muito curioso. Já perceberam que, com a sua chegada, nos aproximamos da criança que fomos um dia? Somos tomados por uma esperança quase ingênua que nos leva a listar infinitos desejos até quase perder o fôlego, com um brilho no olhar que que não se nota todos os dias e com uma pureza que, infelizmente, não conseguimos demonstrar com facilidade.

Nesses momentos, nos aproximamos daqueles que são preciosos para nós. Não apenas porque são familiares e amigos, mas porque é junto a eles que conseguimos dividir as nossas experiências e fortalecer vínculos que se afrouxaram, mesmo contra a nossa vontade. À medida que a vida vai passando, entendemos que as datas emblemáticas como o ano novo, são, na verdade, refúgios que nos obrigam a desacelerar, respirar fundo e olhar para quem está ao nosso redor.

Mas, até aí, tudo bem. Já conhecemos e repetimos esse comportamento ano após ano. Lembramos que é preciso ter por perto quem importa mas, por que, então, não fazemos isso com mais frequência? Culpamos a vida corrida e, com isso, tentamos convencer aos outros e a nós mesmos que somos mais ocupados do realmente somos. Criando, assim, uma mentirinha sincera para atenuar a nossa ausência.

Entendo que não há como negar que somos tragados pela rotina que individualiza e afasta da coletividade. Mas, por mais inevitável que isso possa parecer, é preciso um criar um movimento contrário que nos force a encarar o lado oposto e incluir nas agendas tão superestimadas, aqueles de quem só lembramos ao fim de cada ano.

Quem de nós não está com uma lista repleta de desejos novos e antigos para o ano novo que se inicia? Quantos seguirão adiante e quantos serão abandonados pelo caminho? As incertezas da virada serão sempre equivalentes ao número de pedidos que projetamos. Há os simples, os desafiadores e os quase impossíveis. Desejos que nos transportam para realidades fantásticas onde podemos compartilhar o que queremos, com quem faz a diferença.

Mas, por que  deixar que isso fique restrito a nossa imaginação? Não faz muito sentido passarmos tanto tempo pensando em “como teria sido”, se não for para transferir energia para fazer as coisas acontecerem de fato. São tantas distrações irrelevantes, que impor limites a elas é quase um ato de resistência. E é isso que nos transformará em pessoas mais disponíveis para pôr em prática todos os planos que imaginamos para o ano que acaba de começar.

Por estas e outras razões, que é necessário olhar para trás e conferir o que foi feito, o que foi deixado de lado e o que valeu a pena. Assim como olhar para frente e adaptar seus sonhos ao novo ano. Inclua todos os que puder e não se esqueça de traçar caminhos largos para que muitos desejos, pessoas e experiências possas pedir passagem. E, se for possível seguir um conselho para o ano que acaba de nascer, esteja sempre disponível para aquilo que a vida te oferecer.

Feliz 2018.

Encontros de dezembro

Na vida, poucas coisas são tão certas quanto as transformações provocadas pela chegada dos encontros de dezembro. Mas isso não está necessariamente relacionado ao natal. É como se, depois de um ano onde todos aqueles que seguiram caminhos diversos, mirassem o mesmo horizonte e começassem a traçar rotas paralelas que os levarão a lugares comuns.

Vários são os pontos de convergência nessa época: crianças de férias, verão, praia, viagens… De maneira geral, é em dezembro que, apesar da correria, as pessoas tornam-se mais receptivas e dispostas a dividir seu tempo e atenção com aqueles que, de alguma forma, participaram de suas vidas nos últimos meses.

Dezembro traz consigo, uma atmosfera de confraternização. Nenhum outro mês é capaz de agregar tantas reuniões de amigos, familiares e parceiros de trabalho. Reuniões que lotam as nossas agendas mas que, também, ajudam a nos lembra que é preciso estar e se fazer presente, mesmo que seja uma vez por ano.

Essa intensidade de encontros que, algumas vezes, pode parecer protocolar e quase forçada, nos possibilita muitas coisas, especialmente, que olhemos com mais cuidado para as pessoas que, mesmo dividindo horas conosco, não passem de ilustres desconhecidos. É também, nesse momento, que rememoramos experiências coletivas, porém,  sob pontos de vistas deliciosamente diferentes dos nossos.

Os encontros de dezembro permitem reuniões há muito programadas, mas que nunca acontecem apesar da nossa vontade, trazem novas pessoas que ainda não conhecemos e, acima de tudo, nos brindam com inúmeras histórias de vida que, infelizmente, passamos o ano inteiro negligenciando.

É curioso o nosso comportamento às vésperas de um ciclo prestes a terminar. Diminuímos, gradativamente, as nossas barreiras de autoproteção, baixamos a guarda e permitimos a aproximação do outro, seja dos mais afins, seja dos mais distantes. Abrimos nossos canais de escuta e compreensão de um jeito que só fazemos ao longo dos últimos dias do ano. Como se precisássemos fechar contas em aberto, atar nós frouxos ou, simplesmente, assumir erros que levamos muito tempo para aceitar.

Talvez, o nosso grande ponto de encontro, seja o desejo de estarmos mais próximos de todos que nos são caros de alguma forma. E, para nossa sorte, dezembro chega e nos liberta de todas as desculpas que inventamos durante o ano, permitindo que, enfim, seja possível dar atenção ao que é importante, de fato.

Muitos chamam isso de espírito do natal. Não duvido. Mas independente de nossas crenças, o mês doze cumpre a sua função com maestria. Nos unimos em torno de mesas onde é possível enxergar as pessoas sem filtros. Dali surgem parcerias, estórias, amores e revelações que fazem tão bem ao coração e a alma, que fica difícil entender porque nos privamos desses encontros com tanta frequência.

É, também nesta época, onde o consumo nos domina e transforma, que entendemos e sentimos que é a presença do outro o que nos faz falta. O presente é sempre ótimo, uma vez que vem acompanhado de uma lembrança mas, o abraço apertado, a gargalhada frouxa e o brilho nos olhos sempre serão os maiores e melhores presentes que teremos a felicidade de receber. E isso só é possível quando trocamos presentes por presença.

Feliz Natal!

Olhares ácidos

Outro dia ouvi uma mãe se queixando, pois havia percebido que seu filho, ao chegar em um encontro familiar, tornou-se, de forma negativa, o centro das atenções. Isso a incomodou. Pode ter sido apenas uma impressão ruim daquela mãe… ou não. Mas isso me fez pensar em quantas vezes já fomos alvo dos olhares ácidos de tantas pessoas? Difícil dizer mas, sinceramente, quem se importa?

Muitos se importam, infelizmente. Ainda somos afetados pela simples ideia de que seremos, em algum momento, observados com um tom de reprovação. O que, para muitos, é um grande problema, uma vez que ao sermos notados, nos transformamos em uma vitrine, observada sob óticas muito particulares e sobre as quais não temos o menor controle.

Mas, por que o olhar do outro sobre quem somos de fato ou sobre aquilo que mostramos para o mundo, nos desafia tanto? Essa pergunta terá muitas respostas que irão variar de acordo com o momento em que vivemos. O que significa que, dependendo da circunstância e, obviamente, da nossa maturidade, gastaremos mais ou menos energia para lidar com isso. E será uma escolha dar crédito ou não, aos que nos olham, comentam e julgam sem qualquer critério.

Esse caminho é longo e árduo pois, desde sempre, ouvimos críticas que se baseiam apenas na opinião alheia. Quem nunca ouviu a pergunta maledicente: O que os outros vão pensar de você? Isso, de fato, não deveria ser um problema, afinal, estamos no mundo para sentir e provocar reações naqueles que cruzam o nosso caminho.

A grande questão é o impacto que essa pergunta cinicamente cuidadosa, pode causar em quem a escuta. Alguns utilizam esse juri ilegítimo para marcar posições e ditar o seu próprio comportamento, independente do alcance e da quantidade de olhares punitivos. Enquanto para outros, basta apenas um olhar de censura para que sonhos, desejos e projetos desmoronem como um castelo de cartas.

Com o passar do tempo, adquirimos uma casca que nos torna mais resistentes a maledicência do outro. De formas diferentes, é claro, uma vez que somos diversos em nossa capacidade de tolerar e acatar vereditos de observadores que, sabem pouco ou quase nada, sobre quem somos ou sobre o que queremos.

Isso não é sinônimo de indiferença a opinião alheia, mas é preciso estar atento e separar o que é importante, daquilo que não faz a menor diferença. Cedemos, mais vezes do que gostaríamos, a pressão incômoda de um olhar pleno de críticas vazias. O que é irritante, mas não deve ser levado tão a sério.

Não há fórmula mágica que nos torne imunes a isso. Sentiremos na pele a dor, a irritação e a frustração de julgamentos efêmeros que duram frações de segundos. Sim, recortes de tempo tão insignificantes, que não devem ser superestimados ou valorizados além da sua pouca importância.

É claro que não iremos, a partir de agora, ignorar os olhares ácidos que pousarão sobre nós, até porque , em muitos momentos, eles partem dos nossos próprios olhos. E, por esta razão, sabemos que um olhar pode vir acompanhado de um julgamento, mas isso jamais será capaz de sentenciar ou interferir  na forma como o outro deve pensar ou agir.

Ser quem se é, fatalmente atrairá a atenção alheia, para o bem ou para o mal.  Cabe a nós escolher, dentre tantos, quais são os olhares que realmente importam.

As armadilhas do sim

Todo fim de ano é sempre igual. Muitas coisas a fazer e quase nenhum tempo para transformá-las em realidade. O que traz uma aflição, uma vez que não tiramos da cabeça, a ideia de que precisamos resolver todas as pendências do ano, em menos de trinta dias. Nesta louca lista de afazeres, incluímos atitudes que não tomamos, vontades não realizadas, remorsos, desentendimentos e reconciliações que, certamente, poderiam ter sido resolvidas muita antes.

Por ser um padrão quase unânime, fica difícil enxergar o que nos leva a repetir o mesmo comportamento, mesmo que seja tão incômodo. É difícil bater o martelo, mas precisamos assumir a responsabilidade por, pelo menos, uma questão: Não queremos dizer não para nada.

Mas insisto em dizer que, o que mais nos incomoda, não é o fato de não podermos cumprir todo o nosso planejamento. O que nos aflige é a demanda criada por nós mesmos e que, de antemão, sabemos que não será cumprida. Há uma explicação razoável para isso. Não é apenas uma dificuldade em dizer não mas,  queremos dizê-lo de fato?

Negar um convite para uma festa ou mesmo que seja para um cafezinho, pode criar um dilema que, quase sempre, existirá apenas em nossa imaginação. Como se criássemos uma realidade onde aquele convite, uma vez negado, pode não acontecer novamente, o que nos colocaria em uma situação de abandono e esquecimento. Parece loucura, mas é bastante comum…

O que nos faz reagir dessa forma? Dizer sim para tudo gera uma ansiedade enorme, por sabermos que jamais conseguiremos estar em todas as ocasiões para as quais dissemos sim. O sim evita conflitos, encerra divergências e sempre nos deixa bem em qualquer foto.

Talvez seja por esta razão que estamos sempre a espera de respostas positivas para tudo. O sim acelera processos e, como vivemos em um mundo onde perder tempo é quase um crime, nos habituamos a dizer exatamente aquilo que o outro espera ouvir, mesmo sabendo que, por trás daquele sim, não há nenhum compromisso com a verdade.

Ainda assim, nos mantemos firmes nessa postura pois, pelo menos de imediato, conseguimos driblar problemas e situações desconfortáveis, todas as vezes em que escolhemos dizer sim. Isso explica, em parte, a dificuldade que muitos de nós têm para dizer não. Levamos uma vida para entender o poder libertador dessa palavra tão simples e direta, que é capaz de nos salvar de tantas ciladas vida afora.

Passamos o ano inteiro aceitando o que não queríamos e fazendo coisas chatas por conveniência, pelo simples fato de dizer sim de forma quase automática. Mas é no fim do ano que fazemos uso da nossa capacidade máxima, como se o sim nos redimisse de ausências, omissões ou coisas do tipo. Optamos pelo nosso desconforto para agradar aos outros, apenas para que continuemos a fazer parte da vida daquelas pessoas, nem que seja uma vez por ano.

Visto dessa forma, parece que o sim é um lobo em pele de cordeiro. Não é. O sim é uma poderosa arma que nos ajuda a chegar, de alguma forma, onde queremos. Porém, quando banalizamos o seu uso, apenas para não assumir que não damos conta de tudo, perdemos preciosas chances de usá-lo em momentos realmente relevantes. A razão para isso pode ser bem simples: o que acontece, muitas vezes, não é culpa da nossa disponibilidade para dizer sim, mas sim, da nossa falta de coragem para dizer não.

O que está acontecendo comigo?

Ontem, eu ouvi uma crítica e mudei de atitude. Hoje, me disseram para eu não fazer o que faço. Amanhã, me dirão para mudar um pouco mais. E eu mudo… Depois de um tempo, todas essas interferências começam a afetar quem somos e uma pergunta torna-se inevitável: O que está acontecendo comigo?

Esta é uma resposta difícil, que nem sempre estamos dispostos a responder. Não é nada fácil reviver escolhas ruins, relembrar pessoas abusivas e, acima de tudo, assumir que poderíamos ter sido menos tolerantes com coisas e pessoas que, claramente, não mereciam.

Tolerância. É estranho ver um comportamento que, em teoria, deveria ser o fiel da balança em situações tensas e difíceis, transformar-se, erroneamente, em sinal de fraqueza. Ser tolerante nos permite ser agregadores e compreensivos, o que pode causar uma certa confusão. Tolerar não é sinônimo de permitir sem restrições.

Talvez esse erro conceitual, com o qual aprendemos a conviver desde muito cedo, seja a causa de uma cascata de acontecimentos que podem trazer felicidade ou não, fechar portas ou não, libertar ou aprisionar em relações e hábitos que fazem mal, mas que, em muitos momentos, nós simplesmente não somos capazes de encontrar uma saída.

É evidente que ninguém escolhe o pior para si mas, por causas diversas, criamos uma casca de tolerância ao comportamento do outro que obriga, muitas vezes, abrir mão de desejos próprios para sustentar o querer alheio. Até aí, tudo bem. Intercalar conquistas com quem escolhemos, é ganhar duas vezes. Mas, nem sempre é assim.

Pessoas flexíveis relacionam-se com pessoas menos maleáveis. Isso, obviamente, não é uma regra, apesar de bastante comum. O que me leva a arriscar que, nesses casos, a tolerância de um alimenta a intolerância do outro. Pode parecer radical, mas tentar responder a nossa pergunta inicial pode ser um bom exercício. Mas uma coisa é possível afirmar, a pessoa que somos hoje, é fruto de escolhas prévias que, certamente, irão nos dizer se fomos ou somos tolerantes demais ou de menos.

A maioria de nós flutua de um lado para o outro com muita frequência, mas há aqueles que escolhem a intolerância como bandeira. Esses precisam de uma revisão de seus conceitos o quanto antes. Se tolerar em demasia pode ser um problema, ser intolerante é, de fato, uma fonte inesgotável de desequilíbrio. Ser inflexível estabelece uma rigidez na forma de ser, pensar e agir que afasta qualquer possibilidade de usufruir e conhecer aquilo que é, naturalmente, diferente de nós. E isso pode ser o gatilho para atitudes, no mínimo, questionáveis.

A intolerância tem um potencial enorme para nos transformar em estúpidos e impacientes, uma vez que não há argumentos razoáveis para aqueles que só conseguem ver o mundo através do próprio umbigo. Pontos de vista estreitos provocam uma alteração da paisagem que se vê. Como se a vida fosse observada a partir de uma lente de aumento, por onde só é possível enxergar o que quer, quando quer e do jeito que for mais fácil. Intolerantes são limitados, isso é um fato.

Se de uma hora para outra, percebermos que nossos movimentos estão mais contidos, que a nossa gargalhada transformou-se em um sorriso pálido e que passamos a ver as coisas através de ângulos cada vez menores, é melhor ficar atento. Esses são sinais claros de que estamos cedendo aos limites e a falta de tolerância alheia.

Mas isso não é um problema. Basta parar e perceber que também é preciso ser tolerante consigo. Devemos dar segundas chances a nós mesmos. Isso nos permitirá enxergar, perceber, errar e aproveitar tudo aquilo que a vida nos oferece. Ser ou não ser intolerante proporcionou e continuará a proporcionar experiências que nos permitirão responder com segurança quem, de fato, nos tornamos.

O que eu faço agora?

O que devemos fazer quando não temos a menor ideia do que fazer? Paralisar-se diante de uma situação pode ser uma possibilidade. Agir com violência também. Ainda há aqueles que choram e aqueles que sorriem diante de uma circunstância absolutamente inesperada. A única coisa em comum a todos é a pergunta: O que eu faço agora?

Para essas surpresas, não existe um padrão de comportamento à venda capaz de nos salvar das inúmeras saias justas que teremos que vestir vida afora. Algumas delas, mais de uma vez.

Se pararmos para pensar, é raro sentir-se realmente pleno sobre algo ou alguém. Mas isto não nos torna inseguros crônicos, tampouco, donos absolutos da verdade. Na maior parte das vezes, reagimos àquilo que o cotidiano apresenta, como se, a cada dia, fossemos desafiados a atuar em um filme, do qual temos apenas uma vaga ideia sobre o roteiro, elenco, texto e direção.

Então não somos os responsáveis por nossas próprias estórias e experiências? Sim, somos. Mas é preciso aceitar que temos pouco ou nenhum controle sobre os rumos que, de fato, vamos seguir.

Visto desta forma, até parece simples, mas é dificílimo perceber isso de forma racional. Vivemos um dia após o outro, sempre cercados pela ideia, presunçosamente ingênua, de que temos, sob o nosso controle, as rédeas de nossas vidas.

Para alguns, isto pode ser desafiador, mas para outros, significa um verdadeiro pesadelo. Afinal, lidar com o desconhecido o tempo todo, determina que não saberemos como agir com mais frequência do que se pode suportar. O que nos faz pensar e entender um pouco sobre nós mesmos e a forma como reagimos as peças que a vida nos prega.

É curioso pensar que parte do que somos está relacionada aos nossos momentos mais vulneráveis, onde, em situações de puro constrangimento, demonstramos uma pureza quase infantil na forma de pensar e agir. Talvez isso justifique reações impulsivas e imprevisíveis, comum a todos nós, quando não sabemos o que fazer. Claros resquícios da criança que fomos um dia.

Passamos tanto tempo aprendendo, a duras penas, como devemos ser decididos e confiantes que rejeitamos, completamente, a possibilidade de parecermos frágeis diante de qualquer situação. O que é uma grande bobagem, uma vez que jamais saberemos lidar com todas as situações, embora seja difícil de admitir, não temos resposta para tudo e, sim, ficaremos com caras de bobo muito mais vezes do que gostaríamos.

Pensar sobre isso ajuda a enxergar a quantidade de camadas que acumulamos com o passar dos anos e, como nos preparamos para usá-las em ocasiões diferentes, criando a falsa sensação de que estaremos sempre prontos para qualquer parada.

Na verdade, essas capas tornam-se pesadas demais e impedem que demonstremos incertezas e inseguranças, inerentes a cada um de nós. Sobre tudo isso, uma coisa é certa: A vida seria muito mais leve, se admitíssemos  que não há problemas em não ter respostas para tudo e, que não deveríamos nos esforçar tanto para esconder a espontaneidade da dúvida.