Não existem inocentes no absurdo

            Em que momento o intolerável começou a ocupar o lugar comum em nossas vidas? Dormimos repudiando barbaridades e acordamos acreditando que roubar infâncias é algo normal. Será que o mundo se pôs de ponta a cabeça com tamanha velocidade que nos impediu de perceber que, o que era bom, perdeu valor no mercado e, o que era deplorável, passou a ser suportável com muita tranquilidade? Será que a maldade invisível deu uma rasteira na nossa boa-fé? Muitas perguntas e uma única certeza. Não existem inocentes no absurdo em que vivemos.

            Presenciamos nos últimos tempos, situações que beiram o insano, o imoral e o impensável. E podem acreditar, esta não é uma fala revestida de pudor. É uma constatação indignada, impotente e assustada diante de uma realidade que, nem nos nossos piores pesadelos, imaginaríamos viver. É como se estivéssemos em uma dimensão onde o nosso umbigo é o centro do universo. Uma dimensão cinzenta onde tudo é desimportante, superficial e perigosamente indiferente.

            Vivemos um mundo pelo avesso. Degradamos a casa onde fomos criados. Alteramos tudo que vemos pela frente, mesmo que isso signifique o desaparecimento de tantas outras vidas mundo afora. Praticamos uma violência que adjetivos não conseguem mais classificar. Transformamos a barbárie em algo corriqueiro e banal. Criamos uma prisão claustrofóbica, revestida com papéis de parede que refletem um belo céu azul com nuvens calmas. Uma bela forma de autoengano que dá suporte a um estilo de vida perfeitamente irreal.

            Criamos células fantasiosas que escondem aquilo que não queremos ver. Transformamos o feio em bonito, o que era errado virou certo e o mal passou a não ser tão mal assim. E por quê? Talvez para esconder a nossa enorme covardia. O absurdo não tomou conta de tudo repentinamente, como escolhemos acreditar. Permitimos que ele tomasse corpo, demos suporte para que ele se espalhasse e, quando ele assumiu o controle, lavamos nossas mãos e nos maquiamos com o bom e velho cinismo, próprio dos covardes e dos mal-intencionados.

         Estamos diante de um paradoxo. Evoluímos tanto sob diversos aspectos, mas, ao mesmo tempo, jamais deixamos de flertar com a irracionalidade. E não é difícil constatar isso, basta olhar para os absurdos escolhidos, deliberadamente, pelas maiorias orgulhosas espalhadas por aí. Podemos consumir mais venenos? Renunciar à educação ampla e justa e aniquilar patrimônios naturais? Subjugar mulheres, abusar de crianças, rechaçar afetos? Acumular mais do que precisamos e desprezar a pobreza e aqueles que nela são forçados a viver? Sim, podemos. Sim, queremos.

            E por quê? Isso eu não sei dizer, mas o que fica muito claro, diante do que temos vivido, é que estamos afundados até o pescoço neste absurdo convenientemente perverso. O que o mundo quer de nós agora? Que façamos escolhas. Precisamos decidir se continuamos presos à essa lama ou se lutamos para que o absurdo, enfim, dê lugar à razão.

O insano ritmo que inventaram para nós

    É engraçado como nos acostumamos a observar, falar e viver a vida em modo avançado. Corremos de um lado para o outro, sem saber muito bem aonde estamos indo. Sabemos, apenas, que precisamos chegar lá, seja lá onde for. E, essa correria, não abre muito espaço para momentos de calmaria espontânea, desaceleração programada ou aquela simples vontade de não fazer absolutamente nada. Até que, por descuido da tal vida moderna, algo inesperado nos obriga a reduzir o insano ritmo que inventaram para nós.

          Essa parada não programada é um desejo que, apesar de compartilhado por muitos, quase não ousamos expressa-lo em alto e bom som. Como se fosse algo feio, desejar que, por alguns momentos, a vida sentisse preguiça e nos concedesse um tempo para respirar, rever amigos, consertar a torneira ou ver os filhos crescerem de verdade. Parece que, no momento em que nos rendemos a esse modelo de vida que sussurra o tempo todo em nossos ouvidos “Não pare! Siga em frente! Não olhe para trás!”, passamos a ver tudo em imagens borradas e sem definição.

          E, nos raros momentos em que conseguimos uma pausa para respirar, percebemos que não vimos as crianças crescerem, os cabelos brancos chegarem e as amizades se transformarem em lembranças. Raros momentos em que chegamos à conclusão que passamos a vida no mesmo lugar, sem perceber que lugar era esse. E, a partir desse ponto, passamos a acreditar que é preciso fazer escolhas, a começar pelo ritmo que imprimimos à vida. Ninguém deseja sair do maravilhoso transe que é viver usufruindo do maior bem que podemos desejar nos dias de hoje: o tempo.

         Talvez, o ato de escolher, tenha se transformado no maior dos nossos privilégios. Se decidirmos correr, o mundo, talvez, nos presenteie com algumas possibilidades. Se a escolha for por uma vida onde o tempo não é um tirando e sim um parceiro, é melhor ficar preparado para os muitos olhares inquisidores que lembrarão, a todo instante, que não é possível ser bem-sucedido sem se deixar sacrificar pela pressa da vida. Como eu disse, uma escolha nada simples.

         Apesar de todos compartilharmos o desejo por uma vida mais calma, o real significado disso é absolutamente particular. Se somos todos diferentes, também são diversos os nossos desejos. Mas, de todo modo, precisamos estar atentos ao que fazemos do nosso próprio tempo e, o quanto de culpa atribuímos a ele pelas escolhas que fazemos. Não se trata de fazer a escolha de Sofia, mas, sim, de entender que não é preciso esperar que o destino coloque paradas obrigatórias em nosso caminho.

       Em tempos de correria obrigatória, as paradas nem sempre nos trazem saúde para usufruí-las. O tempo sempre seguirá o seu inabalável e contínuo fluxo. Sejamos seus cúmplices e caminhemos lado a lado do único que pode nos mostrar como viver bom, se aprendermos a degustar tudo no seu devido tempo.

A suspeita aprovação alheia

            Se tem uma coisa que aproxima a todos nós, é a necessidade de conquistar a suspeita aprovação alheia. E não adianta negar. Quem nunca se pegou olhando ao redor, buscando um olhar, sorriso ou um tapinha nas costas que trouxesse um alento positivo que diga “é, você acertou”. É claro que cada um de nós sente o peso dessa aprovação de formas diferentes. Quanto mais jovens nós somos, mais devastadores são os efeitos do olhar do outro. Ainda bem, que o passar dos anos alivia esse fardo. Ou pelo menos deveria.

            É difícil saber com exatidão em que momento, as opiniões externas assumem o status de ditadoras do comportamento alheio. Talvez seja um avanço progressivo, onde, pequenas doses de interferências, supostamente inocentes, ganham volume e passam a criar pequenos obstáculos que, com o passar do tempo, transformam-se em barreiras difíceis de transpor. Mas, o mais inquietante neste enredo é perceber como, todos nós, de alguma forma, pautamos nosso comportamento a partir do que os outros apontam como certo ou errado, feio ou bonito, bom ou ruim.

            A opinião do outro sobre qualquer uma das nossas características não chega a ser um problema, uma vez que, a maioria de nós, também passa, com facilidade, de réu a acusador de acordo com a ocasião. E, neste jogo de gato e rato onde ora somos o dedo que aponta, ora somos a face que é exposta, apenas um resultado é possível: idealizar o outro de acordo com as nossas expectativas. Esperamos que o mundo aja de acordo com os nossos pontos de vista, logo, qualquer comportamento que não esteja enquadrado em nossos formatos, passa a ser alvo de julgamentos rasos e instantâneos.

           Então, não é exatamente a opinião do outro que nos afeta, mas, sim, o receio em desapontar as opiniões que o mundo tem a nosso respeito. Nossos questionamentos sobre o que os outros acham de nós, não passam de projeções dos nossos próprios julgamentos. Os perigos em medir as pessoas e seu comportamento a partir da nossa régua, permite, apenas, que criemos uma visão restrita e distorcida da realidade.

          Depender da aprovação alheia ou ser o inquisidor do comportamento do outro, são atitudes igualmente perversas, pois, ambas são responsáveis por anular expressões, aumentar medos e reprimir espontaneidades. O que, trocando em miúdos, significa fazer mal ao outro sem qualquer razão. Estamos impregnados de julgamentos que nos tornam senhores do comportamento externo e, ao mesmo tempo, dependentes crônicos da suspeita aprovação alheia. Mas, apesar desse cenário triste onde deixamos de ser originais, é possível enxergar uma luz de esperança.

         Vivemos em tempos onde o desejo pela aprovação do outro massacra e exclui, mas, se olharmos bem, o julgamento alheio não é tão poderoso assim. Para derrota-lo, basta abrir mão do próprio desejo de categorizar o outro. No momento em que percebermos que a diferença que enxergamos no outro, pouco importa na aceitação daquilo que temos de genuíno, estaremos livres para sermos quem somos e tranquilos para convivermos com todas as diferenças que o mundo nos apresentar.

O inesperado trazendo surpresas

         Se pararmos para observar a forma como vivemos a vida, chegaremos a conclusão de que fomos programados para programar praticamente tudo o que nos cerca. Mas, apesar do esforço feito para seguirmos um roteiro prévio e, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os nossos rumos. Não importa o momento que vivemos, se o novo for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será muito bem-vindo. Vivemos negando, mas nada é mais esperado por nós, do que o inesperado trazendo surpresas.

         Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante. Surpresas criam um inusitado jogo de cena onde, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este jogo duplo o que torna tão fascinante o ato de se surpreender.

       Surpresas não escolhem dia, hora e nem local. E é, justamente nessa falta de limites, onde ela sorrateiramente nos alcança e surpreende. Surpresas não têm compromisso com planejamento, talvez por isso, sejam capazes de ligar pontos, restabelecer vínculos antigos ou, simplesmente, criar novas conexões de onde menos esperamos. O que deixa a maioria de nós com aquela cara de bobo, própria de quem não sabe como agir quando perde as rédeas da situação. Ainda bem que o acaso existe e se disfarça de surpresa para nos mostrar o quão ilusório é, acreditar que somos senhores de nossos destinos.

          Poucas coisas substituem a euforia provocada por uma boa notícia fora de hora, por uma sensação que nunca se imaginou sentir ou por um sonho realizado sem tenha sido maturando durante longos anos. Surpresas nem sempre são prazerosas ou excitantes, mas são, sempre, transformadoras. Relacionamentos que acabam sem razão. Paixões que nascem de olhares despretensiosos. Transformar o sonho da escrita em sessões de autógrafos mundo afora… Tudo é transformador, tudo é reflexo de deliciosas surpresas que a vida nos dá.

      Acaso, destino, ou seja lá o nome que se queira dar, todos têm em comum, aquilo que os transforma em mistério – a capacidade de ser surpreendente. A felicidade de um sim, a ansiedade por quem demora a chegar ou a dor em descobrir algo que lhe fará sofrer… tudo isso perderia a importância se, algum dia, ignorássemos a ação do inesperado, impedindo que ele surpreendesse a nossa monótona programação diária. Ainda bem que é inútil lutar contra o que está por vir. Mas, o melhor de tudo, é ter a certeza de que, independentemente das nossas escolhas, é na surpresa que a vida se revela.

Conversas com os meus

            Na última semana, ao arrumar caixas antigas, me deparei com muitas referências de pessoas com quem compartilhei sonhos, dores, amores e esperança. Percebi que, à medida em que as fotos amareladas surgiam, novos fragmentos de memória pulavam, exibidos, diante de meus olhos, querendo mostrar que aquele momento era mais importante que todos os outros anteriores. E, sem me dar conta, passei horas em transe, em um interminável ciclo de conversas com os meus velhos eus.

            Sim, velhos. Apesar das imagens mostrarem uma juventude recheada de colágeno e de figurinos de gosto duvidoso, aquele garoto, adolescente magrelo, jovem rebelde e adulto esperançoso são, todos, velhas versões de mim. Versões que teimamos em deixar presas dentro de caixas, longe dos olhos alheios, longe das nossas lembranças. Estamos pré-programados para viver o hoje como se o amanhã não fosse chegar, deixando de lado, os registros daqueles que já habitaram nossas peles, mas, que, sabe-se lá o porquê, foram relegados ao um esquecimento consentido.

            Fotos antigas trazem informações para muito além das imagens. Olhar para aquele rosto de outros tempos, revela alguns dos pontos que marcaram as nossas trajetórias. O que dizer para aquele jovem emocionado no dia da sua formatura? O que será que pensava aquela criança sentada no chão da sala, comendo um pacote de biscoitos? Quais eram as expectativas dela ao rever as fotos do seu casamento? Difícil saber ao certo, mas as imagens de outrora são bem mais que simples recordações. Rever as imagens de nossos eus é, antes de tudo, reviver os antigos passos que nos trouxeram até aqui.

            Fazer uma imersão em nosso museu particular, traz uma gama de emoções que se alternam entre amor e ódio, esperança e frustração, euforia e tristeza. Visitar registros do passado, nos permite criar uma nova perspectiva sobre nós mesmos. Uma perspectiva que desafia nossas escolhas presentes e nos faz pensar em como as decisões tomadas por aquelas pessoas eternizadas em fotos amareladas, foram responsáveis por tudo aquilo que nos tornamos, para o bem ou não.

            Visitar nossas versões anteriores, ajuda a entender como a vida é dinâmica e como somos capazes de nos adaptar a situações que nunca imaginamos viver, até sermos postos à prova. Somos testados, resistimos e nos transformamos. Unimos o que já conhecíamos a novos detalhes e, assim, conhecemos um novo eu para chamar de nosso. Dessa forma, vamos tecendo uma grande colcha de retalhos que nos protege, desafia e impulsiona a seguir em frente, criando novas e melhores, versões de nós mesmos.

Viver é inevitável…

            Os dias vêm e vão. Transformam-se em semanas, meses, anos e décadas. Esse avanço irrefreável do tempo, impõe a todos, incontáveis barreiras que imprimem novos caminhos, escolhas e consequências, a uma velocidade difícil de alcançar. Por vezes, diante da impossibilidade de vencer o tempo, criamos moldes imprecisos que nos permitem algum encaixe, mesmo que isso provoque algum desconforto. Mas, apesar desses subterfúgios, é difícil burlar a vida por muito tempo e, em algum momento, ela irá nos mostrar que viver é inevitável.

                  Esse caminhar acelerado do tempo, estabelece diferentes formas de interação com o mundo. Alguns preferem viver sem colete de proteção, como se o amanhã não fosse chegar, enquanto outros pisam do freio e apertam seus cintos, na esperança de conseguir controlar o que não tem controle. E, há aqueles que tentam o caminho do meio entre o exagero ansioso e a austeridade segura. Mas, no fundo, pouco importa a forma escolhida, uma vez que a vida não faz consultas prévias. Se estamos acima deste solo e debaixo deste céu, é preciso aceitar que viver é mandatório.

                Tem gente que nasce, cresce, gera descendentes, envelhece e morre, sem, jamais, se dar conta se, isso era, ou não, viver. Completar o ciclo da vida com sucesso, não traz nenhuma garantia de uma vida, de fato, bem vivida. Em muitos momentos, ligamos o piloto automático que a tudo controla. Ele nos acorda, leva ao trabalho, paga as nossas contas, permite alguns momentos burocráticos de lazer, nos põe para dormir e traz a certeza de que, no dia seguinte, tudo será, exatamente, como no dia anterior. Isso é viver?

            A forma como decidimos levar a vida está, em grande medida, baseada nos hábitos que criamos. Hábitos que ora indicam os extremos, ora sinalizam o caminho do meio. Mas, independente disso, é preciso ir além dos meus ou dos seus hábitos. Eles são apenas reflexos da forma como enxergamos a vida e, cada um de nós a vê sob uma perspectiva. Afinal, a vida não é uma pintura onde todos conseguem enxergar a mesma paisagem. Nascemos com horizontes pré-programados diante de nós. Amplia-los é uma questão de escolha, de luta e de oportunidades.

           Perceber que viver é inevitável, já é um bom ponto de partida para uma mudança. É o que nos faz enxergar para além dos hábitos, das convenções e da opinião alheia. Ter noção da importância da vida, não pode ser algo que se tem, apenas quando nos deparamos com a maior de todas as nossas certezas. Tentar dar valorizar a vida diante de seu obrigatório fim, é, de longe, o nosso maior engano.

           Todos nós conheceremos o fim disso que chamamos de vida, e isso não se discute. Mas, até que esse derradeiro dia chegue, teremos milhares de novas chances de contar a nossa própria história. Cabe a nós decidirmos se nossas vidas serão lidas como um belo romance ou como um monótono manual de instruções. Dentre todas as coisas que a vida nos impõe, nada pode ser mais importante do que aceitar o inevitável desafio de viver.

Uma boa dose de amor

             E, em meio a tantos episódios cotidianos de horror, que só nos mostram o que há de pior em nós, me pergunto se ainda há motivos para continuar em frente, sendo positivo, sem parecer tolo. Afinal, quais as garantias que o acaso nos oferta, para que acreditemos que, um dia, toda essa névoa densa e obscura irá se dissipar, levando consigo, esse mal-estar perverso e insistente? Nenhuma garantia. Mas, como todo otimista crônico, sigo acreditando que não há mal que não se cure com uma boa dose de amor.

            Sinto falta do amor em estado bruto, daquele que arrebata, que não precisa de permissão para se estabelecer e que não cabe em propagandas sentimentais. Aliás, o que foi feito do amor? Preso a uma ideia de romantismo onde amantes sorriem felizes e trocam promessas apaixonadas que garantem felicidade, fidelidade e frustração… até que a morte os separe. O que cria legiões de ingênuos que abrem mão do amor real, pelo ilusório e pasteurizado, amor romântico.

           O amor dos tempos atuais perdeu em solidez e ganhou em volatilidade. Afinal de contas, o amor, só é amor, se puder ser divulgado virtualmente e seguido por infinitas exclamações e emojis criativos. É possível que a fonte desse atoleiro de desesperança, no qual estamos afundados até o pescoço, tenha uma relação direta com o significado que resolvemos dar ao amor. Amar não pode ser resumir a interjeições exageradas, que pretendem ser mais importantes do que realmente são. Amar, não é só isso. Simplesmente não é.

            O amor é uma força da natureza e não pode ser contido em uma caixa de presente enrolada por um belo laço de fita. Talvez o nosso grande erro seja criar barreiras para conte-lo. Limitar as fronteiras do amor, para que ele faça sentido sob um ponto de vista, é deixar de senti-lo em toda sua plenitude. Amor não foi feito para formar pares. Amor foi feito para aproximar multidões. Amor foi feito para transgredir conceitos, aproximar diferentes, criar novos olhares para o mundo e, principalmente, mostrar a quem queira ver, que cabe tudo dentro do amor, menos a exclusão.

            Abandonar a figura do amor romantizado e seletivo é uma questão de sobrevivência. Aceitar o amor raiz é, também, compreender que somos iguais, independente de cor, credo, orientação sexual ou time de futebol. O que nos falta é baixar a guarda e tirar as camadas que, durante muito tempo, mascararam o real significado do que é amar.

       O amor puro nunca anda só. Está sempre lado a lado da esperança, felicidade e empatia, para a nossa sorte. Por isso cante, dance, sorria para estranhos, cumprimente-os, escute mais, se reconheça e compartilhe suas experiências. Espalhe o seu melhor, que o melhor dos outros chegará até você. É hora de atualizarmos a nossa definição de amor. Só assim, será possível dar fim a essa dor, que parece não ter fim.

Geração mi, mi, mi

Carregamos conosco, em algum grau, os resquícios de um comportamento que se arrasta desde tempos coloniais, onde fomos levados a crer que, jamais seríamos capazes de assumir qualquer protagonismo. Fomos, e continuamos sendo, servos subjugados, convenientemente forçados a alienação, por aqueles que ditam as regras e não toleram contrariedades. Por esta razão que, toda e qualquer forma de resistência sempre foi desacreditada, mas, ultimamente, o ato de resistir foi categorizado de forma rasa e, todos os envolvidos neste movimento foram, ridiculamente, batizados de geração mi, mi, mi.

           Uma onomatopeia péssima que coloca na vala comum, entre o deboche e o descaso, toda e qualquer forma de resistência. Especialmente, quando a resistência vem de um povo que nunca conheceu privilégios, mas que foi talhado para acreditar que, algum dia, suas vidas seriam um bom lugar para se viver. Por séculos, as elites brazucas foram criadas aos moldes da realeza, onde seus membros interagiam exclusivamente entre seus pares, igualmente privilegiados. Ignorando tudo que os remetesse a pobreza, falta de educação ou a “falta de modos”.

        Os velhos códigos de comportamento daqueles que sempre tiveram tudo, escancaram hoje, aquilo que sempre esteve entrincheirado durante muito tempo. O horror de que, um dia, a base da pirâmide percebesse que o seu suor e a sua dor, sustentaram luxos, desmandos e opressão. Durante muito, muito tempo, foi assim que tudo se manteve. Os abastados privilegiados de um lado e a massa pobre e sem acesso a direitos básicos de outro. Essa distorção perversa se manteve imune a qualquer tipo de mudança… até agora.

      Essa pirâmide de partes desiguais, apresenta uma perigosa porção mediana. Formada por aqueles que sempre estiveram mais próximos da base do que do topo, e que encontram dificuldades para perceber seu verdadeiro papel nesta novela. E, por isso, são facilmente manobrados por quem manda de fato. Iludidos por sonhos de grandeza, os ingênuos mal-intencionados são capazes de tudo para não desmanchar seu ideal de sucesso que, na verdade, não passa de um frágil castelo de cartas prestes a desabar. Para muitos que formam essa classe mediana, pequenos sacrifícios são necessários para chegar ao tão cobiçado topo. Como negar as próprias origens e aceitar desmandos. Mas, se isso os levar onde querem, vale o risco.

         Porém, diante de tamanho desalento onde os que tem menos, a cada dia, são privados ainda mais do pouco que os resta, uma onda oxigenada ganha corpo e grita a plenos pulmões: BASTA! Negros, gays, mulheres, pobres, favelados, portadores de deficiências, trabalhadores escravizados e todos aqueles que foram, de alguma maneira, excluídos pelo modo de vida que nos foi imposto, ganharam voz. E essa voz grita contra as ofensas disfarçadas de piadas, contra a violência banalizada, contra a exclusão como forma de poder e, por fim, contra tudo o que possa impedi-los de serem quem são. Então, se a luta por igualdade e equidade nos transforma em geração mi, mi, mi… Benditos sejam estes novos tempos.

É preciso ser outro para ser feliz?

            Ser livre ou agradar aos outros? Ser original ou buscar formas alheias para chamar de sua? Ser feliz do jeito que se é, ou viver para agradar? Outro diz, me peguei mudando de canal e comecei a ver as mesmas pessoas apresentando programas diferentes, em emissoras diferentes. Me dei conta de que estava admirando clones. Apresentadoras brancas, quase todas loiras, falando no mesmo tom, rindo das mesmas piadas e falando para o mesmo público. Apresentadores brancos, falastrões, voz impostada e uma gaiatice disfarçada de seriedade. E, daí me veio uma questão: é preciso ser outro para ser feliz?

            E, quando ampliamos o campo de visão, percebemos que essa repetição dos mesmos tipos se repete em muitos lugares. Basta uma celebridade cortar o cabelo, para que milhares de outros o façam também, mesmo que não lhes caia muito bem. Mudamos o nosso comportamento para que seja possível se aproximar dos trejeitos de estranhos, simplesmente porque são famosos ou ocupam um lugar de admiração. Aliás, admirar o outro assumiu, nos últimos tempos, um lugar de devoção. Não basta admirar alguém, é preciso ser igual a ele.

            É bom esclarecer que não há nada de errado em transformar um perfil em objeto de admiração. Mas, daí a tentar, a todo custo, transformar-se em outra pessoa para encontrar a felicidade, nos leva a crer que muitas pessoas não estão confortáveis sob suas próprias peles. O que é absolutamente contraditório, uma vez que vivemos em uma época onde nunca foi tão comum ser quem se é. Parece que, diante de tantas possibilidades, muitos deixaram de se auto admirar para enquadrarem-se em formatos, supostamente, mais interessantes.

            Muitas pessoas decidiram pautar suas vidas, a partir da existência do seu ídolo. Renunciando a uma felicidade autêntica, apenas para seguir padrões ditados por outros, como se a escolha por si mesmo, não fosse tão legal assim. A grama do vizinho sempre será mais verde. A boca quimicamente alterada, sempre será mais bonita. Os dentes encapados e absurdamente brancos, serão sempre mais perfeitos. Os corpos talhados na academia e em procedimentos estéticos, transformam-se em obsessões difíceis de entender. Em que momento deixamos de nos enxergar, para admirar, somente, a beleza que há no outro?

            O antídoto para esse mal é muito simples, apesar de não ser fácil. Olhar-se fixamente no espelho e contemplar aqueles traços que, num primeiro olhar podem parecer estranhos, mas que, em pouco tempo, voltam a ser uma imagem intimamente familiar. Admirar personalidades ou se encantar pelo jeito de agir de alguém é maravilhosamente normal, além de nos ajudar a tecer essa complexa trama que nos forma. Mas, diante destes perfis plenos de irrealidade, talvez seja a hora de começar a admirar aquela boa e velha imagem que se reflete, todos os dias, diante de nós. Sejamos nós, também, os exemplos de quem queremos ser.

Perdemos demais

Vivemos em tempos onde acompanhar o noticiário, pode provocar reações diversas que vão da desesperança ao horror em poucos minutos. E, independente do tema, uma sensação me faz chegar a triste conclusão de que perdemos demais. A batalha, o jogo, a aposta, a graça… perdemos. Mas, acima de tudo, parece que nos foi tirada a capacidade de reação em um momento em que nunca precisamos tanto dela. Ficamos surpresos, indignados, estupefatos, mas, apesar disso, não somos capazes de reagir aos desmandos e retirada de direitos que nos são impostos diariamente.

Muitos dizem que não se pode fazer nada, que são muitos eventos simultâneos e que não dá pra reagir a tudo… Até pode ser, mas não é suficiente. Confundimos o real com o virtual e acreditamos que posts via facebook, instagram, twitter, nos redimem de uma omissão consentida. Outros tantos, acreditam que não sofrem calados, pois tem ferramentas digitais capazes de amplificar suas vozes, porém, se esquecem de que não adianta falar, se não houver ninguém para ouvir.

O peso do rolo compressor é tamanho que começamos a ver a vida de uma forma perigosíssima, onde, a defesa de pontos de vista, rompe o campo das ideias e entra em um ringue onde argumentos cedem lugar a lei do mais forte, onde tudo tem que ser olho por olho, dente por dente. De uma hora para outra, o que antes era certo, agora é errado. O que antes era importante, agora perde o seu valor. Seguimos perdendo…

A demonização da educação e seus educadores. Artistas, que, com a sua arte, nos fazem pensar e ver o mundo mais leve, agora, não passam de vagabundos. E a ciência, bom, a ciência é algo desimportante. Tristes tempos são esses onde rechaçamos o que nos ajudou a evoluir até aqui. Vivemos no limite do absurdo pessoal e profissionalmente. Buscamos forças para nos mantermos firmes na batalha contra uma ignorância cega, que se apresenta forte como nunca.

Desrespeito virou palavra de ordem. Velhos, crianças, professores, vizinhos, colegas de trabalho… Transformados em inimigos de última hora, por forças que têm, como único objetivo, desagregar e confundir. Pensar diferente, pensar coletivamente, pensar no bem do próximo, passou a ser considerado “coisa de vagabundo”. E, muitos, acreditam que o remédio para isso é manter esses vagabundos calados, por bem ou por mal. É derrota que não acaba…

Seguimos uma cartilha que diz que, se o povo souber ler um pouco e efetuar relações matemáticas simples, melhor. Se o povo não gostar de política, mais fácil será aceitar desmandos. Se o povo ignorar a Filosofia, a Sociologia e a História, jamais conseguirão questionar e analisar dados históricos que nos impedem de cometer os mesmos erros. Um povo incapaz de reagir intelectualmente ao autoritarismo, jamais será capaz de entender a sua perda de direitos. Um povo ignorante, doente, passivo e ameaçado, não é capaz de enxergar sua derrota programada. E, por esta razão, só consegue se preocupar com uma única e triste realidade: sobreviver.