Aos que vieram antes

Antes, havia um amor, um trabalho, uma casa. Antes, havia escola, amigos e muitos sonhos. Antes, havia uma imensa vontade de saber como seria o depois… Passamos grande parte da nossa existência imaginando o futuro, querendo saber como será a vida em tempos que ainda não existem. Perdemos incontáveis horas do nosso escasso tempo, tentando moldar possibilidades e acabamos esquecendo que, para caminhar em frente, é preciso saber quem somos e, sobretudo, quem fomos. Criar uma super versão futura de nós mesmos, só é possível quando damos valor aos que vieram antes.

O presente sempre será o elo entre o que nos precedeu e aquilo que gostaríamos de ser. Isso nos dá a chance de entender a forma como construímos nossas trajetórias a partir das experiências prévias, boas ou não, que acumulamos vida afora. Porém, damos muito pouco crédito as pessoas que já fomos e concentramos muita energia para formatar a pessoa que queremos ser. Talvez o nosso grande equívoco seja desconectar um evento do outro, uma vez que jamais seremos futuro se não respeitarmos nossas versões passadas.

A grande questão aqui não é criticar nossa queda por projeções futuras. Isso é para lá de saudável e nos ajuda, imensamente, no desenvolvimento das nossas metas, além de ser um ótimo exercício que ensina a enxergar versões mais legais, mais ricas e mais felizes do que a atual. Tornar-se melhor não passa apenas pelo desejo instantâneo de querer ser o que não se é. Esperamos que o futuro surja como um passe de mágica, trazendo um pacote de felicidades que transformará a todos em criaturas incríveis de uma hora para outra. Isto até pode funcionar em nossos mais puros devaneios, mas está longe de ser algo possível na realidade.

Todos temos o nosso antes. Deixamos marcas no mundo à medida que o tempo passa por nós. Marcas estas, que criam uma longa sequência de degraus aleatórios que nos conduzem ao exato ponto onde estamos. Construímos nosso presente, caminhando às cegas e abrindo portas que só revelam seu conteúdo depois de abertas. Dessa forma, seguimos montando um quebra-cabeças diverso que, além de definir quem somos, abre espaço para incluir novas peças que podem nos levar até cenários inesperados.

Porém, não podemos esquecer que, como em um quebra-cabeças, imagens só se formam a partir de encaixes perfeitos. Por esta razão, fica difícil continuar acreditando em futuros, onde, magicamente, rompemos com tudo que vivemos até então, e nos transformamos em personagens sem qualquer compromisso com o próprio passado. Talvez este seja um dos motivos pelos quais a maioria das nossas previsões não se concretize no mundo real. Não é possível renovar-se quando escolhemos ignorar aqueles que fomos um dia.

Mas, é bom esclarecer que este texto não se trata de apego ao passado ou as amarras que ele nos traz. Ao contrário. Esta é, sim, uma exaltação as nossas versões anteriores, mas sem saudosismos vazios. É um carinho com as nossas cópias retrô, repletas de uma sabedoria própria, que só melhora com o passar do tempo.

O nosso antes, é como a fonte onde podemos mergulhar sempre que precisarmos encontrar chaves que irão que nos ajudar a abrir novas portas. Fonte que devemos contemplar, vez ou outra, para relembrar grandes acertos, sucessos acomodados e os erros responsáveis por mudar as nossas vidas. Sim, os erros. Aqueles que no tempo presente significam derrotas dolorosas, assumem ares de redentores quando são vistos com distância. Já os acertos, tornam-se guias para possíveis rotas onde surfaremos em boas ondas ou voaremos em céu de brigadeiro. Mas, não importa para onde a balança irá pesar mais. Só nos tornamos capazes de perceber as nuances que nos formam, quando entendemos que, só conseguiremos transformar nossas sonhadoras projeções de futuro em um presente possível, quando não abandonamos o que nos precedeu, quando não viramos as costas para aqueles que fomos antes.