Uma boa dose de amor

             E, em meio a tantos episódios cotidianos de horror, que só nos mostram o que há de pior em nós, me pergunto se ainda há motivos para continuar em frente, sendo positivo, sem parecer tolo. Afinal, quais as garantias que o acaso nos oferta, para que acreditemos que, um dia, toda essa névoa densa e obscura irá se dissipar, levando consigo, esse mal-estar perverso e insistente? Nenhuma garantia. Mas, como todo otimista crônico, sigo acreditando que não há mal que não se cure com uma boa dose de amor.

            Sinto falta do amor em estado bruto, daquele que arrebata, que não precisa de permissão para se estabelecer e que não cabe em propagandas sentimentais. Aliás, o que foi feito do amor? Preso a uma ideia de romantismo onde amantes sorriem felizes e trocam promessas apaixonadas que garantem felicidade, fidelidade e frustração… até que a morte os separe. O que cria legiões de ingênuos que abrem mão do amor real, pelo ilusório e pasteurizado, amor romântico.

           O amor dos tempos atuais perdeu em solidez e ganhou em volatilidade. Afinal de contas, o amor, só é amor, se puder ser divulgado virtualmente e seguido por infinitas exclamações e emojis criativos. É possível que a fonte desse atoleiro de desesperança, no qual estamos afundados até o pescoço, tenha uma relação direta com o significado que resolvemos dar ao amor. Amar não pode ser resumir a interjeições exageradas, que pretendem ser mais importantes do que realmente são. Amar, não é só isso. Simplesmente não é.

            O amor é uma força da natureza e não pode ser contido em uma caixa de presente enrolada por um belo laço de fita. Talvez o nosso grande erro seja criar barreiras para conte-lo. Limitar as fronteiras do amor, para que ele faça sentido sob um ponto de vista, é deixar de senti-lo em toda sua plenitude. Amor não foi feito para formar pares. Amor foi feito para aproximar multidões. Amor foi feito para transgredir conceitos, aproximar diferentes, criar novos olhares para o mundo e, principalmente, mostrar a quem queira ver, que cabe tudo dentro do amor, menos a exclusão.

            Abandonar a figura do amor romantizado e seletivo é uma questão de sobrevivência. Aceitar o amor raiz é, também, compreender que somos iguais, independente de cor, credo, orientação sexual ou time de futebol. O que nos falta é baixar a guarda e tirar as camadas que, durante muito tempo, mascararam o real significado do que é amar.

       O amor puro nunca anda só. Está sempre lado a lado da esperança, felicidade e empatia, para a nossa sorte. Por isso cante, dance, sorria para estranhos, cumprimente-os, escute mais, se reconheça e compartilhe suas experiências. Espalhe o seu melhor, que o melhor dos outros chegará até você. É hora de atualizarmos a nossa definição de amor. Só assim, será possível dar fim a essa dor, que parece não ter fim.

O desamor é tóxico

A vida tem se tornado, em linhas gerais, um desafio que vai muito além da simplicidade dos sonhos, dos desejos materiais ou da conquista de um espaço para chamar de seu. Parece que viver não é mais um ato natural que nos leva a acordar todas as manhãs, tocar a vida e fechar os olhos a noite para que tudo recomece. Parece que nos esquecemos como é viver de forma leve. É como se estivéssemos infectados por uma indiferença que nos impede, inclusive, de perceber como o desamor é tóxico.

Muitas são as mazelas que somos obrigados a enfrentar, o que nos leva a pôr em xeque, valores que sempre foram inquestionáveis, como a nossa capacidade de amar, por exemplo. Poucas coisas são tão devastadoras quanto duvidar do amor e sua força transformadora. É claro que isso gera efeitos colaterais que se desdobram como ondas gigantes, com tamanhos e intensidades diferentes, mas que, inevitavelmente, alcançam a todos.

Entender qual é a gênese desse movimento que prega o descaso e não o cuidado, a descrença no lugar da empatia e o ódio ao invés do amor, é o maior desafio em tempos tão difíceis. O mundo inteiro assiste, sem reações, ao levante de um mal que busca usurpar um protagonismo a qualquer custo. Achar que vivemos uma fase, é a chancela que a maldade precisa para espalhar-se como metástases de um câncer intratável. É hora de extirpar esse mal.

Não é mais possível permitir que o mal e todos os seus disfarces, continuem nos soterrando, humilhando, afogando, desabrigando e adoecendo. Não é possível que continuemos a ser alvejados por balas que saem de armas de inimigos infiltrados em nosso cotidiano, sem levantar suspeitas. O ritmo de perdas e danos provocados pelo desamor que se estabelece como nova ordem, é tão avassalador, que impõe a todos um choro constante, onde o nosso maior castigo é, justamente, não poder decidir o momento em que devemos parar de chorar.

Apesar de sentir e perceber que nos tornamos reféns do ódio escolhido por muitos, há inúmeras formas de minar sua força. Desamor é amargura. Ninguém se sustenta por muito tempo provando, exclusivamente, o amargo sabor do ódio, da inveja, do racismo e, muito menos, consegue manter-se respirando numa atmosfera contaminada pela indiferença.

É necessário e urgente que todos percebam a fonte do mal que os torna, inconscientemente, algozes uns dos outros. Precisamos de doçura, luz, ar puro e paz para tocar a vida. É a luz, não a escuridão, a responsável pelo retorno do equilíbrio, tão ignorado nos últimos tempos. É na luz que os olhos brilham. É na luz que a sinceridade se expressa. É na luz onde o amor se encontra.