O sentimento mais cobiçado do mercado

            Amores vêm e vão. Todos sabemos que o ato de amar pode significar tudo, menos a privação da liberdade. Mas, se isso não é nenhum segredo, por que razão cometemos o mesmo erro repetidas vezes? Por que tentamos, a qualquer custo, sustentar relacionamentos em ruínas? Vai saber, mas tenho cá minhas dúvidas se, o que nos mantem presos a essas relações, é o amor ao outro ou o simples desejo de manter guardado no peito, o sentimento mais cobiçado do mercado.

            O amor é inebriante, fato. E isso faz com que o simples contato com ele, provoque tantas reações inesperadas e incomuns, que levam a nocaute praticamente todas as criaturas que cruzam o seu caminho. O que, olhando de forma isenta, parece um tanto assustador imaginar que um único sentimento é capaz de alterações tão profundas. Mas, como ficar isento diante de algo que mais parece um tsunami? Quando acreditamos estar longe de seu alcance, ele chega, sem qualquer aviso prévio, e nos arrebata sem dar chance de defesa.

            O amor, em si, é único. Amamos e ponto. Mas, é claro que há muitas nuances na maneira como expressamos esse sentimento. Intensos, suaves, insanos, divertidos, descontrolados… Ou tudo isso ao mesmo tempo, variando de acordo com o gosto e temperamento do freguês. Os objetos do amor mudam ao longo da vida. Mais para alguns, menos para outros, mas, em geral, o amor sempre se apresenta. E adoramos quando isso acontece, mesmo sem saber para onde isso irá nos levar.

           Esse sentimento que os poetas pintaram com as tintas de romantismo, não passa de reações químicas fortíssimas que dominam o nosso sistema nervoso, segundo a ciência. O que, trocando em miúdos, uma vez apaixonado, nosso cérebro altera tudo ao seu alcance. O que nos deixa emocionalmente alterados, também provoca mudanças fisiológicas. Esse sentimento é químico, é biológico e pode provocar dependência. O amor é profundamente cerebral, mas não revelem isso ao coração, ele pode não aguentar.

         É desafiador tentar racionalizar algo que é, essencialmente, sentimento. Mas, não há como não se perguntar, diante desse cenário, se o que nos faz falta é amar alguém ou se, o que queremos, de fato, é ter a oportunidade de sermos atropelados por essa força da natureza que resolvemos chamar de amor? Pode parecer um tanto confuso, e é. Amar não é simples, o que não significa que precise ser complexo. Muitas vezes não sabemos lidar com ele, o que causa um certo pânico. E, possivelmente, essa seja a razão de cometermos sempre o mesmo equívoco – tentar ter controle sobre um sentimento que suporta amarras.

              O que faz com que nos percamos no meio desse caminho cheio de atalhos e curvas, é a dificuldade em enxergar que o amor é uma imagem espelhada, uma estrada que corre junto a um rio, dois corpos de mãos dadas. O amor precisa estar latente, precisa ser sentido, mesmo quando não há alguém para fazer o papel da pessoa amada. O amor é uma ponte permanente, sempre pronta a realizar novas conexões e, mesmo que isso não ocorra, essa ponte estará ali para nos mostrar que, independente de sua mágica, o amor é sentimento que se constrói livremente de dentro para fora. Nunca ao contrário.

O amor é f*oda

            O que pode ser maior que a política, mais empolgante que o futebol e mais urgente que o aquecimento global? O que nos conecta de forma tão forte quanto inesperada e que faz parte, em alguma medida, da vida de todos nós? O que mais poderia ser, senão o amor? Esse entorpecente disfarçado de sentimento, capaz de nocautear até o mais resistente dos incrédulos e provocar palpitações naqueles que juram que esse sentimento não passa de uma grande bobagem. O amor é foda. Não há como negar.

            O amor faz o que quer, independente do que achamos ou deixamos de achar. Mas, por que damos carta branca para um sentimento nos virar de ponta a cabeça sem nenhuma cerimônia? A resposta até que é simples. Categorizamos os sentimentos de acordo com o momento da vida. Esperança para superar problemas, felicidade para aplacar as dores, raiva para extravasar frustrações e por aí vai. Para a maioria dos sentimentos, doses únicas e eficazes. Mas, quando se trata do amor, deixamos esse protocolo de lado e caímos de boca na superdosagem. Queremos a embriaguez, o exagero, a taquicardia e a descompostura.

           Se o amor fosse uma pessoa, ele certamente diria: Não pediu tanto para que eu viesse? Agora aguenta! A causa mais provável para essa falta de filtro tão peculiar, é a certeza de que, apesar de sermos tão diferentes, compartilhamos a crença de que a vida só é boa quando se ama ou se é amado. Essa cilada que o amor romântico impregnou em todos nós, tem bagunçado um pouco a percepção do que é, de fato, esse sentimento. O amor virou um objeto de valor para ser ostentado de forma quase infantil, tipo “eu tenho, você não tem!”

          O problema é que, quando tratamos de valores, pensamos logo em capitalizar o produto. Não é preciso dizer que o mercado entendeu isso há tempos e fez do amor, um grande balcão de negócios e nós, embarcamos nessa. Assim, iniciamos uma corrida maluca, atrás de um produto que acreditamos ser o amor. Se não for igual ao que está na vitrine, corremos atrás de similares de qualidade duvidosa. Quando não conseguimos adquirir o tão almejado produto, os frustramos por acreditar que, definitivamente, o amor não cabe em nosso orçamento sentimental. Absurdos da vida moderna.

              E, em meio a euforia da busca pelo sentimento perfeito, confundimos tudo. Chamamos paixão de amor, amor de tesão, tesão de culpa, culpa de carência, carência de solidão e solidão de fracasso. Apenas por sermos levados a crer que o amor é algo que chega de fora para dentro, como um produto que se compra ou como uma gentileza feita por um outro qualquer. Nos colocamos em um leilão às cegas, a espera de um lance final.

            Nesse corre-corre atrás do que pensamos ser uma dádiva para poucos, deixamos de enxergar dos olhos para dentro, de ouvir nossos sons internos e de falar aquilo que só vale para nós. Esse é o caminho mais curto para encontrar o que passamos anos e anos perseguindo, sem muito sucesso. Resgatar isso, é um grande passo para confirmar que não é o amor alheio que nos escolhe. Só amamos para fora de nossas barreiras, verdadeiramente, quando transbordamos o amor que está muito bem cuidado dentro de nós. É neste instante que descobrimos que o amor é, absolutamente, foda.

Uma boa dose de amor

             E, em meio a tantos episódios cotidianos de horror, que só nos mostram o que há de pior em nós, me pergunto se ainda há motivos para continuar em frente, sendo positivo, sem parecer tolo. Afinal, quais as garantias que o acaso nos oferta, para que acreditemos que, um dia, toda essa névoa densa e obscura irá se dissipar, levando consigo, esse mal-estar perverso e insistente? Nenhuma garantia. Mas, como todo otimista crônico, sigo acreditando que não há mal que não se cure com uma boa dose de amor.

            Sinto falta do amor em estado bruto, daquele que arrebata, que não precisa de permissão para se estabelecer e que não cabe em propagandas sentimentais. Aliás, o que foi feito do amor? Preso a uma ideia de romantismo onde amantes sorriem felizes e trocam promessas apaixonadas que garantem felicidade, fidelidade e frustração… até que a morte os separe. O que cria legiões de ingênuos que abrem mão do amor real, pelo ilusório e pasteurizado, amor romântico.

           O amor dos tempos atuais perdeu em solidez e ganhou em volatilidade. Afinal de contas, o amor, só é amor, se puder ser divulgado virtualmente e seguido por infinitas exclamações e emojis criativos. É possível que a fonte desse atoleiro de desesperança, no qual estamos afundados até o pescoço, tenha uma relação direta com o significado que resolvemos dar ao amor. Amar não pode ser resumir a interjeições exageradas, que pretendem ser mais importantes do que realmente são. Amar, não é só isso. Simplesmente não é.

            O amor é uma força da natureza e não pode ser contido em uma caixa de presente enrolada por um belo laço de fita. Talvez o nosso grande erro seja criar barreiras para conte-lo. Limitar as fronteiras do amor, para que ele faça sentido sob um ponto de vista, é deixar de senti-lo em toda sua plenitude. Amor não foi feito para formar pares. Amor foi feito para aproximar multidões. Amor foi feito para transgredir conceitos, aproximar diferentes, criar novos olhares para o mundo e, principalmente, mostrar a quem queira ver, que cabe tudo dentro do amor, menos a exclusão.

            Abandonar a figura do amor romantizado e seletivo é uma questão de sobrevivência. Aceitar o amor raiz é, também, compreender que somos iguais, independente de cor, credo, orientação sexual ou time de futebol. O que nos falta é baixar a guarda e tirar as camadas que, durante muito tempo, mascararam o real significado do que é amar.

       O amor puro nunca anda só. Está sempre lado a lado da esperança, felicidade e empatia, para a nossa sorte. Por isso cante, dance, sorria para estranhos, cumprimente-os, escute mais, se reconheça e compartilhe suas experiências. Espalhe o seu melhor, que o melhor dos outros chegará até você. É hora de atualizarmos a nossa definição de amor. Só assim, será possível dar fim a essa dor, que parece não ter fim.

O desamor é tóxico

A vida tem se tornado, em linhas gerais, um desafio que vai muito além da simplicidade dos sonhos, dos desejos materiais ou da conquista de um espaço para chamar de seu. Parece que viver não é mais um ato natural que nos leva a acordar todas as manhãs, tocar a vida e fechar os olhos a noite para que tudo recomece. Parece que nos esquecemos como é viver de forma leve. É como se estivéssemos infectados por uma indiferença que nos impede, inclusive, de perceber como o desamor é tóxico.

Muitas são as mazelas que somos obrigados a enfrentar, o que nos leva a pôr em xeque, valores que sempre foram inquestionáveis, como a nossa capacidade de amar, por exemplo. Poucas coisas são tão devastadoras quanto duvidar do amor e sua força transformadora. É claro que isso gera efeitos colaterais que se desdobram como ondas gigantes, com tamanhos e intensidades diferentes, mas que, inevitavelmente, alcançam a todos.

Entender qual é a gênese desse movimento que prega o descaso e não o cuidado, a descrença no lugar da empatia e o ódio ao invés do amor, é o maior desafio em tempos tão difíceis. O mundo inteiro assiste, sem reações, ao levante de um mal que busca usurpar um protagonismo a qualquer custo. Achar que vivemos uma fase, é a chancela que a maldade precisa para espalhar-se como metástases de um câncer intratável. É hora de extirpar esse mal.

Não é mais possível permitir que o mal e todos os seus disfarces, continuem nos soterrando, humilhando, afogando, desabrigando e adoecendo. Não é possível que continuemos a ser alvejados por balas que saem de armas de inimigos infiltrados em nosso cotidiano, sem levantar suspeitas. O ritmo de perdas e danos provocados pelo desamor que se estabelece como nova ordem, é tão avassalador, que impõe a todos um choro constante, onde o nosso maior castigo é, justamente, não poder decidir o momento em que devemos parar de chorar.

Apesar de sentir e perceber que nos tornamos reféns do ódio escolhido por muitos, há inúmeras formas de minar sua força. Desamor é amargura. Ninguém se sustenta por muito tempo provando, exclusivamente, o amargo sabor do ódio, da inveja, do racismo e, muito menos, consegue manter-se respirando numa atmosfera contaminada pela indiferença.

É necessário e urgente que todos percebam a fonte do mal que os torna, inconscientemente, algozes uns dos outros. Precisamos de doçura, luz, ar puro e paz para tocar a vida. É a luz, não a escuridão, a responsável pelo retorno do equilíbrio, tão ignorado nos últimos tempos. É na luz que os olhos brilham. É na luz que a sinceridade se expressa. É na luz onde o amor se encontra.