A curiosa era dos 140 caracteres

Vivemos em uma época onde praticamente tudo deve ser pensado, explicado, discutido e concluído em poucas linhas, poucos parágrafos, textos curtos e, para citar o famoso passarinho azul, melhor ainda que tudo se encaixe em 140 caracteres.

Os textos modernos são como pílulas. Informações em dose única que tem a dificílima tarefa de prender a nobre atenção de criaturas capazes de executar pelo menos cinco tarefas diferentes e simultâneas. Esse furor não permite fixar o olhar em nenhuma matéria ou artigo por mais de dois segundos, ainda mais se for considerado um textão… mesmo que tenha apenas uma página.

Por que falar sobre isso, se todo mundo está cada vez mais feliz e adaptado a esse modelo de expressão onde o menos é mais? Para que perder tempo lendo ou escrevendo “longos” textos se a idéia principal pode ser transmitida em palavras abreviadas, que praticamente estabelecem um novo idioma próprio do mundo virtual? Talvez seja melhor se acostumar…

O que se vê é um mundo de personalidades virtuais cheias de teorias e opiniões sempre carregadas de verdades absolutas. Mas que gente sábia é essa, capaz de saber tanto sobre tantas coisas? Onde nascem tantas informações? E as fontes? Será que alguém verifica de onde veio a bola antes de repassá-la? As perguntas são muitas, mas nem sempre vêm acompanhadas de respostas… Independente do que é dito, ter algo a dizer sobre tudo oferece uma certa visibilidade ao interlocutor, mesmo que, na maioria das vezes, suas ideias originais não sejam nada autênticas.

Falar. Ser lido. Visualizado. Comentado. Curtido. Parece que é isso o que importa. Dizer qualquer coisa, seja legal ou não, ofensiva ou não, é fácil, muito fácil quando se está protegido pelo confortável anonimato do mundo virtual. Para que discutir um assunto quando é possível se tornar o senhor da razão e da verdade, decretando àqueles que discordarem ou rebaterem a sua opinião, o bloqueio sumário, sem direito a apelação. Tempos democráticos… #sqn!

Viva o direito de expressão! Afinal, um número assustador de pessoas pode ser visto/ouvido/lido através de diferentes tipos de mídia, em qualquer lugar do planeta como nunca foi possível antes. E, por conta dessa explosão dos portões da comunicação digital, onde todos podem dizer o que pensam, um fato chama muita atenção. Nos tornamos juízes implacáveis da vida alheia, capazes de  apontar os erros de quem quer que seja, mesmo que esses erros sejam, quase sempre, compartilhados por nós em modo privado…

Quantas pessoas no mundo real são pacatas, gente boa, amigas dos amigos que, ao se transportarem para o universo virtual, transformam-se em seus alter egos bizarros e invertidos? Expressando um comportamento que seria impensável na organização social formal, sujeita a julgamentos e punições. Antes, dizia-se que para conhecer alguém bastava dormir com ela ou conduzi-la ao poder. Acho que podemos atualizar essa afirmativa. Para conhecer alguém, basta dormir com ela, lhe dar poder e permitir acesso irrestrito as redes sociais.

Estamos em um momento curioso onde a vontade de falar sem pensar, parece mais importante e inclusiva que elaborar, explicar e concluir um ideia própria e relevante. Ler o imenso número de manchetes de jornais e revistas e ouvir as chamadas de telejornais tornou mais fácil deglutir a informação. Isso provocou um efeito adverso estranho onde, ler longos textos sem figuras a partir da página dois, tornou-se uma grande perda de tempo para alguns. Para alguns…

É a informação líquida, difícil de reter por maior que seja a sua quantidade. É como verter líquido sobre uma esponja. Não importa se é um copo ou uma caixa d’água. No fim, o volume retido é pequeno, disperso e sem conexão.

O fato é que nunca tivemos tanto acesso a informação como nos tempos atuais. É possível também que essa onipresença virtual nos transforme nos sábios com o maior poder de síntese da história. É esperar para ver…

E, para os que curtem aquele ditado super pop, repetido por celebridades de todos os escalões, que diz que “menos é mais”, é bom ter cuidado. Muitas vezes o menos, não é nada demais.