A admiração que vive em nós

Diariamente, uma massa de pessoas acorda e se lança ao mundo em busca do seu pão de cada dia. Se pensarmos nas razões que nos levam a nadar, o tempo todo, contra uma maré imprevisível, teremos milhares de respostas possíveis e que irão variar de acordo com o exato momento que vivemos. Mas, apesar das muitas possibilidades, me arrisco a dizer que, o que nos move para o que é, de fato, importante, é o sentimento de admiração que vive em nós.

Desejar um emprego, seguir uma profissão ou encontrar alguém que julgamos interessante, são ações claramente impulsionadas pelo olhar que transferimos para tudo o que está a nossa volta. Admiramos atitudes e projetos e, consequentemente, passamos a gostar das pessoas por trás disso. Quem nunca admirou uma autora célebre, um grande pintor, um professor notável ou qualquer outra pessoa que, certamente, marcou um momento importante de sua vida, através de suas obras e textos criando, de alguma forma, uma conexão repleta de admiração?

O ato de admirar vai muito além do contemplativo, ele nos traz um alento reconfortante, como um ar oxigenado em momentos bastante tóxicos, onde é difícil enxergar muitas opções e de onde não é possível perceber novos caminhos. Um olhar admirado promove a criação de referências, de maior ou menor importância. O que nos faz mirar em pessoas que podem, em tese, nos transferir de um lugar comum para uma posição que ainda não ocupamos. Dessa forma, criamos ídolos para chamar de nossos, que nos emocionam gratuitamente e, por isso, os admiramos sem cobrar uma contrapartida, mas que, para além da influência óbvia, também atuam como alvos que almejamos alcançar ou pódios onde desejamos subir. Ou pelo menos tentar chegar lá.

Admirar o mundo faz parte da nossa essência, a grande diferença é o que fazemos dessa admiração. É possível seguir padrões e tendências, com base em modelos de comportamento que fazem nossos olhos brilharem. Isso pode, em princípio, parecer que a admiração ira nós conduzir, apenas, para os melhores exemplos, aqueles cheios de virtudes e que encheriam nossos pais de orgulho. Infelizmente, não há nenhuma garantia de que isso será uma realidade. Basta olhar para todos os maus exemplos, muito bem-sucedidos, que nos rodeiam.

As fontes de inspiração são infinitas e mudam de acordo com a passagem do tempo. Quando crianças, nosso olhar de admiração é capaz de captar apenas aqueles que estão distantes o suficiente para caber em um abraço. Mas, à medida que os anos passam, ficamos mais abertos e suscetíveis a toda sorte de influências e modismos. O que pode ser maravilhoso, uma vez que é na experimentação desses modelos, que escolhemos o que de fato nos toca mais profundamente. Ao mesmo tempo, essa mesma diversidade de influências pode, e vai, indicar modelos perigosos que irão, com muita frequência, criar ídolos bem produzidos, cheios de frases de efeito e discursos prontos, porém, repletos de vazio.

Mas há um momento em que percebemos que os lados opostos serão uma constante ao longo da vida, logo, não seria diferente com os nossos objetos de admiração. De todo modo, só é possível admirar aquilo que nos permitimos ver com mais calma. Detalhes pequenos tornam-se essenciais à medida em que se permite ver, sentir e entender o mundo e as pessoas à nossa volta. A admiração é algo tão poderoso que é capaz de nos fazer respeitar e amar desconhecidos, copiar modelos, sonhar com o melhor e, acima de tudo, perceber que só existirá um universo tão vasto de possibilidades, quando entendermos que, a maior e melhor fonte de admiração, não está em lugares inalcançáveis e sim, morando dentro de nós.