Sobre influências e escolhas

Existem poucos momentos em nossa jornada onde conseguimos olhar ao redor e perceber onde estamos, o que estamos fazendo, como fazemos e quem são as pessoas que escolhemos para dividir experiências. Geralmente engatamos a primeira marcha e iniciamos uma subida sem saber muito bem onde chegaremos.

A nossa personalidade e as escolhas que fazemos sempre determinam a forma e o ritmo de vida que teremos. Algumas vezes seremos os responsáveis por isso, mas na grande maioria, o meio em que vivemos dá o tom da música que vamos dançar.

Eu sempre fiz tudo aquilo que quis, sem me deixar influenciar por ninguém… Você até pode pensar assim, mas fique certo de uma coisa: você está equivocado.

Influência. Talvez seja a ação mais difundida e sentida por todos nós. Às vezes de forma clara e impositiva, mas é em sua face velada e disfarçada que ela se expressa sem limites. Ainda não acredita? Então imagine aquele diálogo com seus pais onde, dentre outras coisas, ouve-se que não podemos comer de boca aberta e falar palavrão. Que meninas usam rosa e meninos, azul. Que o filho da vizinha ganhou um brinquedo novo porque é mais obediente e comportado que você…

Se identificou? Não? Tudo bem. Vamos relembrar a adolescência, a grande época das influências. É nesse período onde somos postos à prova de mil formas, o que significa que somos bombardeados por informações das mais variadas, que irão, sem dúvidas, ditar o nosso comportamento.

Quantas vezes ouvimos que fulano não é boa influência ou que aquela é a pessoa certa para você? As escolhas são, muitas vezes, produtos coletivos pensados por outros, mas executados por nós. O que provoca a falsa sensação de que a palavra final sobre as decisões coube exclusivamente a nós. Doce engano.

Quando adultos, percebemos que a nossa subida torna-se mais íngreme e difícil. Somos levados a escolher precocemente os nossos caminhos profissionais sem saber ao certo o porquê. Possivelmente, aquele conselho nada ingênuo, o professor incrível, o escritório da família, o teste vocacional ou a simples vontade de confrontar os anseios alheios, serão os responsáveis por indicar trajetórias a seguir.

Porém, à medida que o tempo passa, nos damos conta do papel que desempenhamos e, enfim, percebemos o peso das influências que tivemos com o passar dos anos. Nesse jogo aleatório, às vezes tiramos a sorte grande e transformamos nossas escolhas em grandes realizações. O que está longe de ser uma regra.

Quase sempre, ser mal influenciado e, por conta disso, fazer escolhas ruins é um bom aprendizado e nos força a traçar novas rotas sempre que nos deparamos com um beco sem saída. Entender e aceitar que não somos senhores absolutos de nossas escolhas não é tarefa fácil.

Ser influenciado é um fato. Todos nós somos. O tempo todo. Mas é preciso avaliar e discutir seus impactos. Influência sem crítica e contestação é, acima de tudo, manipulação.

Quando, finalmente, alcançamos o topo de nossa montanha particular, o horizonte se torna mais claro. Tomamos consciência sobre quem fomos e, sobretudo, sobre quem queremos ser daquele ponto em diante. É neste momento que constatamos que outros também foram e serão influenciados por nossos passos e assim, damos sequência a um dos ciclos mais permanentes da vida.

Influências direcionam escolhas e escolhas têm seu preço. Sabemos disso, mesmo que de forma inconsciente. Por esta razão, é preciso ter atenção aos conselhos e ideias alheias, às críticas rasas, ao que se lê nos jornais e ao que se vê na tevê. Todos nos influenciam, mas não podemos, de forma alguma, deixar que escolham por nós.

4 pensamentos em “Sobre influências e escolhas”

  1. Tem um filme que gosto muito, “Albergue Espanhol”, em que um francês vai passar um ano da sua graduação estudando em Barcelona. Ele chega, todo francês, e vai morar numa casa com gente das mais diversas nacionalidades. Na faculdade, ele tb interage com pessoas das mais diversas culturas. Todo dia ele é bombardeado de coisas novas. E isso não tem como passar despercebido. Obviamente, após um ano, ele é uma pessoa completamente diferente. E ele resume a mudança dele dizendo que ele se sente uma bagunça (no bom sentido) como a Europa é. Ele não é mais aquele francês que chegou um ano atrás. Ele é francês ainda, mas também alemão, dinamarquês, inglês, espanhol, etc etc. Ele é isso tudo é uma pessoa nova, renovada. Eu acho isso tão lindo! Eu me sinto exatamente assim. Tenho certeza de que tanto influências negativas quanto as positivas me transformaram e vão continuar transformando numa pessoa bem melhor!

  2. Muito bom. Isso tem relação com os mitos: da masculinidade, da feminilidade e das “normatividades”, entre outras coisas que impõem regras, normas de conduta e comportamento. Não podemos viver reféns de nenhum deles. Ótimo texto.

  3. Excelente texto como de costume. Esse usarei como base para compor a prova que montarei para meus alunos que abordará a influência que a mídia possui na padronização do belo.

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