Rótulos e Catálogos

Em um mundo onde parecer se torna cada vez mais importante do que ser, nos acostumamos a classificar praticamente tudo, criando um enorme catálogo onde coisas e pessoas que são identificadas e etiquetadas de acordo com o período do dia, variações de humor ou por estarem no lugar errado na hora errada.

Se é desta forma que iremos jogar esse jogo, começo a me perguntar: quantas etiquetas de identificação somos capazes de suportar e quantos rótulos conseguiremos colar em quem está ao nosso redor? Perguntas claramente sem respostas…

Hoje, as fronteiras se ampliaram de tal forma que, a nossa capacidade de ter uma opinião formada sobre tudo, desconhece limites. O que antes era restrito a pequenos comentários entre vizinhos de porta, transformou-se em teses, nada elaboradas, sobre os mais diversos assuntos e pessoas. O que significa dizer que, a boa e velha fofoca doméstica rompeu barreiras, mas continua firme e forte, só que agora, em escala global.

De todo modo, o desejo por saber segredos alheios continua a nos mover de forma quase irracional, seja em conversas de salão ou em redes sociais multiconectadas. O que provoca um estranho movimento na busca por informações não divulgadas, que utiliza como artifícios, desde sussurros ao pé do ouvido, até horas em frente ao computador dedicando-se a fuçar perfis, de forma amistosa ou nem tanto.

A grande questão não reside em querer saber algo sobre alguém, mas sim, o que fazemos quando não temos a nossa curiosidade satisfeita. Neste ponto, o jogo torna-se um tanto perigoso. Não saber notícias verídicas sobre o que quer que seja, jamais foi impedimento para que coisas não fossem ditas e repetidas por aí afora.

Uma vez que todo mundo fala de todo mundo, o tempo todo, é compreensível que essa montanha russa de informações necessite de algum tipo de organização. É aí que entram os rótulos. O que se fala sobre o outro parece ter uma importância cada vez menor, uma vez que classificar as pessoas tornou-se muito mais interessante.

Aquele colega de trabalho que conspirador, a vizinha insinuante, a criança mal educada, o pai relapso, políticos corruptos, adultos mimados… a lista de rótulos parece não ter fim. Todos nós já estivemos dos dois lados, etiqueta e etiquetador, réu e juiz. Baseamos nosso julgamento nas provas mais desqualificadas possíveis. Olhares e comentários alheios parecem ser suficientes para que criemos caixas sob medida onde, sem muito critério, incluiremos tudo aquilo que a vista alcança.

Aprendemos ao logo da vida que ser organizado é uma qualidade, logo, classificar pessoas seria um resultado positivo deste aprendizado, correto? Possivelmente não, uma vez que, na imensa maioria das situações, sequer conhecemos aqueles que serão colocados em nossas caixas pré-moldadas. Dessa forma, muitos erros de avaliação são feitos e, com frequência, colocamos etiquetas erradas em pessoas certas. Não permitimos segundos olhares. Miramos quase tudo utilizando apenas os nossos pré-conceitos que, quase sempre, estão envolvidos por um filtro que nos impede de enxergar as situações com mais nitidez. O que, infelizmente, conduz a uma série de erros em nossos julgamentos. Erros que já cometemos e que continuaremos a cometer.

Por mais que exista a noção de que não se deve julgar um livro pela capa, é o que fazemos o tempo inteiro. Nossos olhares superficialmente inquisidores, teimam em focar apenas em detalhes e não no todo. Ver o mundo de forma parcial é uma pena. Lugares e pessoas são formados por uma infinidade de camadas, prontas para serem descobertas, porém, isso só será possível a partir do momento que deixarmos de dar tanto crédito a rótulos e começarmos a valorizar conteúdos.

1 pensamento em “Rótulos e Catálogos”

  1. Poxa, eu escrevi um comentário enorme e perdi. Enfim… são coisas da natureza humana, mas é sempre bom estar vigilante para não ferirmos ninguém.

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